sexta-feira, 18 de março de 2011
Obama : reina mas não governa
Em entrevista exclusiva à Carta Maior, a economista Maria da Conceição Tavares fala sobre a visita de Obama ao Brasil, a situação dos Estados Unidos e da economia mundial. Para ela, a convalescença internacional será longa e dolorosa. A razão principal é o congelamento do impasse econômico norte-americano, cujo pós-crise continua tutelado pelos interesses prevalecentes da alta finança em intercurso funcional com o moralismo republicano. ‘É um conservadorismo de bordel’, diz. E acrescenta: "a sociedade norte-americana encontra-se congelada pelo bloco conservador, por cima e por baixo. Os republicanos mandam no Congresso; os bancos tem hegemonia econômica; a tecnocracia do Estado está acuada”.
Redação
Carta Maior - Quinta-Feira, 17 de Março de 2011
Alguns trechos da entrevista...
“Os EUA se tornaram um país politicamente complicado... o caso americano é pior que o nosso. Não adianta boas idéias. Obama até que as têm, algumas. Mas não tem o principal: não tem poder, o poder real; não tem bases sociais compatíveis com as suas idéias. A estrutura da sociedade americana hoje é muito, muito conservadora –a mais conservadora da sua história. E depois, Obama, convenhamos, não chega a ser um iluminado. Mas nem o Lula daria certo lá.”
O "poder" de Obama : "reina mas não governa"
“Obama foi eleito pela juventude e pelos negros. Na urna, cada cidadão é um voto. Mas a juventude e os negros não tem presença institucional, veja bem, institucional que digo é no desenho democrático de lá. Eles não tem assento em postos chaves onde se decide o poder americano. Na hora do vamos ver, a base de Obama não está localizada em lugar nenhum. Não está no Congresso, não tem o comando das finanças, enfim, grita, mas não decide.” ...
"Quase nada depende da vontade de Obama, ou dito melhor, a vontade de Obama quase não pesa nas questões cruciais."
Sobre a crise
“Os EUA por sua vez, ao contrário do que ocorreu na Segunda Guerra, quando eram os credores do mundo, hoje estão pendurados em papagaios com o resto do mundo –o Japão inclusive. O que eles poderiam fazer pela reconstrução se devem ao país devastado?” ....
“É um avatar de moeda sem nenhum controle. Derivam de coisa nenhuma; derivativos de coisa nenhuma representam a morte da economia; uma nuvem nuclear de dinheiro contaminado e fora de controle da sociedade provoca tragédia onde toca. Isso descarnou Obama. É um conservadorismo de bordel, que não conserva coisa nenhuma. É isso a aliança entre o moralismo republicano e a farra da finança especulativa. Os EUA se tornaram um gigante de barro podre. De pé causam desastres; se tombar faz mais estrago ainda. Então a convalescença será longa, longa e longa.”
sexta-feira, 11 de março de 2011
Os “amigos” dos EUA no Brasil
Os novos documentos do serviço diplomático dos EUA vazados pelo WikiLeaks ainda vão dar muito o que falar. Traduzidos, eles serão um prato cheio para a crítica demolidora da blogosfera progressista – já que a mídia colonizada evita repercuti-los – e servirão também de fonte para futuros estudos acadêmicos sobre as complexas relações Brasil-EUA.
Por Altamiro Borges
Entre outras questões, os documentos vazados servem para quatro reflexões iniciais:
1- Como já afirmou Julian Assange, o criador do WikiLeaks que é vítima de brutal perseguição do império, eles comprovam que o serviço diplomático dos EUA virou, na prática, um centro de espionagem. Embaixadores, cônsules e outros serviçais até parecem agentes da CIA. Eles bisbilhotam a vida das pessoas (inclusive do secretário-geral da ONU, investigado por ordens diretas de Hillary Clinton), coletam dados para favorecer a “guerra comercial” das multinacionais ianques e tentam interferir nos rumos de países “soberanos”. Em outro contexto histórico, os diplomatas dos EUA simplesmente seriam expulsos dos países espionados.
2- Apesar de decadente e em crise, o imperialismo estadunidense continua bastante ativo e agressivo – o que deveria servir de alerta para alguns que acreditavam que ele já nem mais existia. A diplomacia dos EUA, como não poderia deixar de ser, visa unicamente manter os interesses econômicos e políticos do império. Ela monitora tudo o que ocorre no mundo, em especial nos países mais estratégicos na geopolítica mundial. Neste sentido, o Brasil é alvo de permanente espionagem. Como sempre enfatiza Samuel Pinheiro Guimarães, ex-secretário-geral do Itamaraty, o nosso país desperta forte cobiça por sua dimensão continental, densidade populacional, capacidade produtiva e reservas naturais. Não se deve subestimar seu potencial – e os EUA sabem disto.
3- Os memorandos vazados pelo WikiLeaks também confirmam que os EUA mantêm intimas ligações com a direita entreguista do Brasil – o que já é fartamente conhecido na história. Apesar de o governo Lula ter mantido “relações cordiais” com o império, este nunca tolerou a sua política externa mais altiva – como na prioridade ao Mercosul ou na rejeição ao golpe militar-ianque em Honduras. Não é para menos que a diplomacia estadunidense sempre privilegia o contato com a oposição demotucana, conforme relata Natalia Vianna, representante do WikiLeaks no Brasil (leia aqui). Nas eleições de 2010, ela voltou a manifestar simpatia por José Serra, o candidato demotucano que prometeu que “como presidente iria pressionar por uma política externa mais alinhada com os EUA”, segundo um dos telegramas enviados pelo consulado de São Paulo à Casa Branca.
4- Mas os EUA não têm “amigos” apenas nos partidos de direita com complexo de vira-lata. O risível nos últimos documentos do WikiLeaks é que eles confirmam a relação promíscua de setores da mídia “privada” com o império. Num dos memorados há o relato da reunião, em 12 de janeiro último, do cônsul dos EUA com um “importante colunista da revista Veja, Diogo Mainardi”. Ele explica como, a partir de uma “conversa com José Serra”, escreveu sua coluna propondo o nome de Marina Silva como vice na chapa da oposição – para “contrabalançar a atração pessoal que Lula exerce sobre os pobres”. Outro descreve a conversa do cônsul, em 21 de janeiro, com Merval Pereira, colunista do jornal O Globo, que aposta que o ex-governador mineiro aceitará ser vice do ex-governador paulista e que “uma chapa Serra-Neves” seria imbatível. Após a leitura dos documentos fica a dúvida se estes e outros “calunistas” da mídia são cabos-eleitorais da direita, que escrevem sob o seu soldo, ou meros “amigos” dos EUA.
sábado, 5 de março de 2011
O lulismo de Dilma
publicada quarta-feira, 02/03/2011 às 13:37 e atualizada quinta-feira, 03/03/2011 às 00:37
por Rodrigo Vianna
O COPOM (órgão que define as taxas de juros no Brasil – ou seja, define a quantidade de sangue que o coração financeiro pode bombear para as artérias da economia real) decidiu, pela segunda vez no governo Dilma, elevar os juros.
Anteontem, na Bahia, Dilma aumentou o Bolsa-Família bem acima da inflação.
Os dois movimentos são aparentemente contraditórios. Essa “contradição” (fora do manual clássico dos liberais que dominaram o governo FHC, e ainda dominam os velhos jornais brasileiros) foi a base do sucesso de Lula.
Façamos uma parada rápida. E vejamos o texto curto que o site “Carta Maior” destaca em sua capa:
“Dilma corrige os valores do Bolsa Família e dá reajuste real ao benefício recebido por 12,9 milhões de famílias. O menor valor da transferencia de renda passa de R$ 22 para R$ 32; o maior, de R$ 200 para R$ 242. Famílias com filhos foram contempladas com as maiores taxas de aumento real. A reunião do Copom desta 4º feira servirá um ‘lexotan’ aos mercados. Se subir 0,5% a taxa de juro básica, a Selic, oferecerá aos rentistas um ‘tranquilizante’ da ordem de R$ 7,5 bilhões/ano; quase quatro vezes o gasto previsto com o reajuste do Bolsa Família que vai beneficiar 50 milhões de brasileiros pobres. Aguardemos a avaliação da mídia para cada um desses dispêndios fiscais.”
A avaliação da mídia já veio. “Dilma corta de um lado e gasta de outro”, dizem os jornais.
Ok, é um fato. Os jornais só não dizem que subir juros (pra conter inflação? Mas a inflação não vem em boa parte do aumento do preço de alimentos, que é mundial?) também é gasto – na medida em que faz aumentar a já trilionária dívida pública! Mas essa é uma discussão à parte…
Observemos com calma outro ponto: o governo Lula conseguiu apoio dos muitos pobres e dos muito ricos. Fez isso com mecanismos como o “Bolsa-Família” – que retirou milhões de brasileiros da indigência, e ao mesmo tempo ajudou a girar a economia das regiões mais pobres do país. Ao contrário do que diz o deputado Vacarezza (ele é do PT mesmo?), a grana do Bolsa-Família não vai pra “cachaça”; vai pra comida, roupa… Quem visitou o Nordeste nos ultmos anos (e eu tive a felicidade de ir cinco vezes para o sertão nos últimos quatro anos) percebe como o comércio local cresceu, gerando uma nova classe média nordestina. Fora isso, houve a recuperação do salário-mínimo e a reversão da tendência (que vinha da era FHC) de sufocar o funcionalismo público (com ganhos salariais e novos concursos na era Lula).
Mas Lula também agradou os muitos ricos. Donos de fábricas e grandes comerciantes nunca faturaram tanto – graças ao mercado interno impulsionado pela redução da pobreza. E os rentistas (a minoria ínfima que aplica dinheiro, pra financiar a dívida do governo) seguiram ganhando com os juros mais altos do Planeta.
Quem ficou contra Lula? A velha clase média. Arrochada por impostos, e sem utilizar serviços públicos, essa classe média pensa com o bolso na maior parte. Sente-se prejudicada por esse arranjo de Bolsa-Família (“é esmola”, como dizem) + impostos altos + Estado forte.
Nas semanas anteriores, Dilma tomou medidas variadas na área econômica, sempre no sentido de frear a tendência expansionista do segundo mandato de Lula:
- congelou concursos públicos (desagradando a tradicional base sindical lulista entre o funcionalismo);
- deu aumento de salário mínimo abaixo do reivindicado pelas centrais sindicais (mas dentro da regra estabelecida na era Lula);
- subiu juros;
- cortou 50 bilhões de reais do Orçamento.
Os liberais aplaudiram. A esquerda e os sindicalistas ficaram ressabiados.
Agora, as medidas dessa semana mostram que Dilma segue a mesma fórmula de Lula: um agrado ao “mercado”, aos rentistas e à velha mídia (com juros altos e cortes de gastos públicos), mas sem descuidar da base popular (com aumento acima da inflação para o Bolsa-Família).
Dilma, ao que tudo indica, seguirá se equilibrando entre os dois extremos da pirâmide social (como fez Lula).
Com uma novidade: o movimento de aproximação com a velha mídia é uma tentativa de ganhar a simpatia da velha classe média, que votou em Marina e Serra (e que lê “Veja”, “O Globo”, “Folha”, “Estadão”…)
Quem está de fora desse arranjo por enquanto? Os setores organizados (sindicatos, trabalhadores do mercado formal), a esquerda tradicional, os movimentos sociais.
O cálculo de Dilma, parece-me, é de que esses setores no limite estarão com ela se a coisa apertar. Pode ser arriscado… O presidente da Força Sindical, Paulinho (PDT), já mandou petardos contra o governo. E em recente reunião da “Coordenação de Movimentos Sociais”, o presidente da CUT (central organicamente próxima do governo) deu o recado: “este namoro da Dilma com a mídia vai durar seis meses e aí depois o governo virá nos procurar para sustentá-lo, como fez em 2005”.
Há decepção geral, entre setores que apoiaram Dilma de forma decidida (e decisiva) quando a situação apertou entre o fim do primeiro turno e o início do segundo. Esses setores sentem-se abandonados pelos primeiros movimentos de Dilma.
Isso, talvez, não se reflita nas primeiras pesquisas de opinião após os cem dias inicias de governo. Resta saber se, quando a lua-de-mel com a velha mídia acabar e Dilma sofrer ataques violentos como os sofridos por Lula, ela poderá contar com essa base tradicionals do lulismo? Ainda é cedo pra saber. O certo é que rachaduras se abriram nesses dois primeiros meses.
terça-feira, 15 de fevereiro de 2011
Itália quer que o STF anule a decisão de um presidente brasileiro!!!
Itália quer que o STF anule a decisão de um presidente brasileiro!!!
Por Celso Lungaretti em 04/02/2011
Deu na Folha.com: Itália pede que STF casse decisão pró-Battisti de Lula.
Em mais uma demonstração de menosprezo pela soberania e pelas instituições brasileiras, a Itália agora entrou com uma ação pedindo ao Supremo Tribunal Federal a anulação da decisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que recusou definitivamente o pedido de extradição do escritor Cesare Battisti.
Como bem notou o ministro Marco Aurélio de Mello numa das sessões de julgamento em
Ocorre que, pela lei e pela jurisprudência brasileiras, desde o primeiro momento se evidenciava que a extradição não poderia ser concedida. Mas, dois ministros do STF ideologicamente motivados se propuseram a impor por quaisquer meios o atendimento do pedido italiano, passando como um trator por cima de nossas tradições jurídicas e das atribuições constitucionais de cada Poder.
Na escalada de arbitrariedades cometidas ou inspiradas por Gilmar Mendes e Cezar Peluso, as mais graves foram:
- a manutenção da prisão de Battisti depois que o ministro da Justiça lhe concedeu refúgio humanitário, apenas e tão somente porque o relator-lichador e o presidente-linchador tinham a esperança de reverter a decisão adiante;
- a produção do relatório mais parcial de toda a história do STF, com as principais alegações da defesa sendo tendenciosamente ignoradas, inclusive as evidências de que Battisti fora condenado à revelia (pois representado por advogados que com ele tinham conflito de interesses, munidos de procurações forjadas), de que o serviço secreto italiano tramou seu assassinato no exterior e de que é falsa a promessa do Governo Berlusconi de adequar a sentença italiana ao máximo permitido pelas leis brasileiras em casos de extradição (30 anos), pois inexiste dispositivo legal que lhe permita alterar uma decisão final do Judiciário de lá;
- a revogação, na prática, da Lei do Refúgio, usurpando as prerrogativas de legislar (do Congresso Nacional) e de decidir refúgio (do ministro da Justiça);
- novo desacato a decisão de outro Poder, quando o presidente Lula liquidou de vez a questão, com pleno direito (reconhecido pelo próprio STF) de o fazer.
Cesare Battisti é prisioneiro político no Brasil há quase quatro anos.
Pior: não há a mais remota justificativa jurídica para sua permanência no cárcere desde o último dia 31 de dezembro.
Nas últimas cinco semanas ele está submetido a prisão ilegal por ordem e a mando de Peluso, cuja atitude comporta uma única explicação, dada pelo maior jurista brasileiro vivo, Dalmo de Abreu Dallari: sua “vocação arbitrária”.
Então, foram ainda brandos os advogados de Battisti, que acabam de acusar Peluso de “constrangimento ilegal”, por recusar-se a “executar ato formal de sua competência”. O termo correto é sequestro.
Ele especula agora com a hipótese de conseguir que o STF revogue uma decisão presidencial consistente e incontestável, submetendo o Executivo a uma tutela togada que detonaria o equilíbrio de Poderes e colocaria o Brasil no caminho da turbulência institucional e do golpismo.
As informações de bastidores de que disponho, todas as avaliações embasadas que ouço e minha própria sensibilidade coincidem no sentido de que Peluso e Mendes não serão acompanhados pelos demais ministros do Supremo nessa aventura de gravíssimas consequências.
Mas, ficando comprovado que ministros da mais alta corte do País trocaram as fronteiras nacionais pelas ideológicas, atentando contra as instituições brasileiras para promover interesses estrangeiros afinados com suas devoções políticas, será o caso de, adiante, pensar-se seriamente no seu impeachment.
Em nome da dignidade nacional
“DITADURAS ABRANDADAS”
“DITADURAS ABRANDADAS”
* *Por Malu Fontes
Coitados daqueles que têm consciência de que gostam de informação e julgam-se bem informados porque veem mais de um telejornal, em mais de uma emissora, assinam ou compram jornais com frequência e têm assinatura de uma revista semanal. A convulsão no Egito, com toques de rebelião, revolta, levante e outra dúzia de substantivos que nominam qualquer coisa parecida com turbulência social e política, dá bem a dimensão do quanto quem quer saber das coisas tem é que aprender a ler nas entrelinhas de tudo o que há por aí em letras e imagens supostamente informativas e noticiosas.
Para o telespectador dos telejornais brasileiros, por exemplo, mesmo os mais assíduos, o Egito era, até a semana passada, tão somente um destino turístico exótico na fronteira entre a África e o Oriente, o país das pirâmides, das tumbas e dos faraós. Até as imagens de convulsão irromperem e permanecerem na tela da TV, pode-se dizer que a maioria dos telespectadores brasileiros tinha certeza de que a vida política egípcia era assexuada, inexistente. No entanto, sentado e centrado no poder estava um ditador há 30 anos, abençoado e tratado a pão-de-ló durante todo esse período pelos sucessivos governos dos EUA, que dão ao Egito mais de um bilhão e meio de dólares por ano só para armar seu exército.
PITBULL
Por que os Estados Unidos armam o exército egípcio e fazem de conta, diante do mundo, há 30 anos, que ali não havia uma ditadura? Sim, pois quando se trata de invadir o Iraque e demonizar o Irã, os EUA lançam como primeiro argumento a defesa da restauração da democracia nesses países e a caçada aos ditadores que tanto mal fazem ao povo. E como polícia do mundo, o governo dos EUA sempre ensina ao mundo inteiro, sobretudo via telejornais, que não tolera ditadores. Essa intolerância está longe de ser verdadeira. Se o ditador é amiguinho, pode dormir tranquilo no berço esplêndido do poder que a polícia do mundo esquece esse blábláblá de defesa da democracia e dos direitos políticos de um povo oprimido. Assim foi com a ditadura na Tunísia, que se esfacelou há uma semana, praticamente em horas, e assim foi com o Egito durante três décadas.
A ditadura egípcia era a menina dos olhos dos Estados Unidos e recebia seu bilhão e meio de dólares primeiro porque se tem algo que mete medo, e muito, aos Estados Unidos, é a ira fermentada historicamente contra eles por grupos terroristas, fundamentalistas e radicais islâmicos do Oriente Médio. Ou seja, a ditadura egípcia e seu exército armado até os dentes é uma espécie de barricada, uma delas, atrás da qual os EUA se protegem com medo do Oriente Médio. A outra razão do afeto americano pelo Egito nesses 30 anos é o fato de Israel ser o filho primogênito e amado/armado dos Estados Unidos. No contexto geopolítico, o Egito é, para Israel, enquanto este não acha uma forma definitiva de varrer do mapa daqueles costados a Palestina e os palestinos, uma espécie de pitbull dos Estados Unidos, disposto a avançar sobre os palestinos ao menor pedido de socorro dos israelenses no meio da madrugada.
DIAGNOSTICADO
O fato é que, para o telespectador mediano, só há dois tipos de ditadores no mundo: os malucos das repúblicas de bananas da América Latina ou os radicais islâmicos do Oriente Médio. Para os ditadores da África pouca atenção é dada no noticiário, pois o continente só é destaque na mídia quando ocorre uma tragédia de grandes proporções por doença ou catástrofe natural. Quanto à América Latina, o discurso do mainstream televisivo ocidental ensina todos os dias a suas platéias amestradas que Hugo Chaves é o sucessor encarnado do diabo.
Dois pesos e duas medidas. Chavez é um ditador diagnosticado e etiquetado, mas Diogo Mainardi repreende Lucas Mendes no Manhattan Connection porque este diz que Sílvio Berlusconi é quase um ditador entronado há uma década no poder, quase um ‘dulce’, numa referência ao passado fascista da Itália. A defesa inconteste de Mainardi, hoje morador de Veneza: ‘essa fala é inverídica e um desrespeito aos italianos, pois ele foi eleito nas urnas, pela população da Itália’. Ora, então, por essa linha de raciocínio, por que a imprensa brasileira e sobretudo as emissoras de TV, em uníssono, ficam tão à vontade para “desrespeitar” os cidadãos venezuelanos se foram eles, também nas urnas, que elegeram Chávez por vezes sucessivas? Por que se pode desrespeitá-los tanto e nem um pouco aos italianos?
DITADORES E DITADORES
Sobre como o mundo aprende que há ditadores e ditadores, há um fator extremamente poderoso no agendamento do conteúdo do noticiário internacional. A jornalista Maria Cleidejane Espiridião desenvolveu uma análise brilhante em sua tese de doutoramento pela Universidade Metodista de São Paulo, ainda
Embora existam dezenas de agências internacionais e três ou quatro outras sejam importantes para a produção do conteúdo sobre o que acontece todos os dias no mundo, são a APTN e a Reuters TV que geram a maior parte do que as emissoras de TV brasileiras repetirão verticalmente tal e qual. Assim, não é difícil entender porque os estereótipos dos bons e dos maus do mundo sejam previamente definidos e anunciados ao mundo por meia dúzia de pessoas. São esses grandes oligopólios da informação, junto com os interesses econômicos dos donos do mundo, que silenciam diante de uma ditadura egípcia de 30 anos e apresentam um incômodo Chávez como ‘o’ perigo para a democracia na terra.
Mas é muito bom saber que as redes sociais estão fazendo uma diferença jamais vista nesse agendamento do que o mundo deve ou não ficar sabendo e que emissoras de TV como a All Jazeera, são uma pedrada nas vidraças das agências que narram o mundo ao sabor da economia política da Europa e dos Estados Unidos.
(*Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. Texto publicado em 06 de fevereiro de 2011 no jornal A Tarde, Salvador/BA. maluzes@gmail.com)
Fonte:
http://melhorespublicacoes.blogspot.com/2011/02/teleanalise-ditaduras-abrandadas.html
domingo, 6 de fevereiro de 2011
EUA sempre apoiaram ditaduras como a do Egito
EUA sempre apoiaram ditaduras como a do Egito
Em nome de seus interesses, americanos usaram regimes autoritários para liderar
Osmar Freitas Jr., do R7
- Os Estados Unidos não têm amigos. Têm interesses.
Com esta sentença de brutal sinceridade, o ex-secretário de Estado americano, Henry Kissinger, resumiu a “ópera” da política externa de seu país. O ditador egípcio Hosni Mubarak é exemplo ainda vivo dessa filosofia.
Mubarak foi apoiado como faraó supremo pelos governos americanos dos últimos 30 anos. Entrou em 1981 no palácio de governo com suporte entusiasmado do presidente Ronald Reagan (dois mandatos), passou por George H. Bush, Bill Clinton (dois mandatos) e George W. Bush (dois mandatos).
Durante todo esse tempo, Hosni “era o cara”, pelo menos no Oriente Médio.Mas passou dessa condição à de incomodo infeccioso, agora, durante a administração Barack Obama. Já não é amigo: faz mal aos interesses dos EUA.
É importante lembrar que o presidente Barack Obama escolheu justamente o Egito para fazer, em 2009, seu importante discurso de conciliação com os muçulmanos do mundo. Era, então, hospedado por um ditador que, como seus pares no resto da região, alimenta ódios , miséria, ignorância e radicalismo político na população.
Medo é repetir os erros do passado
Nem dois anos se passaram desde a fala de Obama, e a preocupação com a imagem - e os interesses - americanos junto às populações árabes forçam pedidos de renúncia ao ditado ex-amigo.
A secretária de Estado Hillary Clinton pede, em tom cada vez mais aflito, que "seja feita uma transição pacífica, ordeira, respeitando princípios de autodeterminação e que levem à democracia".
O medo é o de que se repitam os desastres do passado, quando ditadores amigos dos americanos, foram depostos na marra e substituídos por gente definitivamente contra os interesses do país.
O xá do Irã, Reza Pahlavi, vem à mente. Ele caiu em 1979 e deu lugar ao regime dos aiatolás islâmicos, que governam o país até hoje e têm os EUA como inimigos.
Mas como o xá iraniano, há uma fileira enorme de semelhantes. Um deles foi Anastásio Somoza – “dono” da Nicarágua, de
E a lista de tiranos apoiados ou colocados no poder pelos EUA - alguns retirados sem muitos desastres, como o regime militar brasileiro, que recebeu sinal verde americano em 1964 - é muito extensa e vergonhosa para caber nesse espaço.
Veja os regimes autoritários apoiados pelo EUA
05/02/2011 atualizado em 05/02/2011, R7.COM
IRÃ. Com apoio americano e britânico, o xá do Irã, Reza Pahlavi, foi progressivamente se tornando um governante tirano. Os EUA fechavam os olhos para sua ação implacável contra a oposição do clero xiita e dos defensores da democracia, até que islamitas, comunistas e liberais promoveram a Revolução Iraniana de 1979, expulsando Pahlavi. Na foto, o xá (direita) aparece com o presidente americano Richard M. Nixon (esquerda)
EGITO. Hoje os EUA pressionam para que o presidente egípcio Hosni Mubarak (na foto com George W. Bush) deixe o poder, após 30 anos, mas até pouco tempo o líder contava com o total apoio americano. O regime Mubarak é sinônimo ao combate contra o islamismo radical na região, apoio à Israel e controle do Canal do Suez (importante para o escoamento de petróleo)
CUBA. A benção americana ao cubano Fulgencio Batista aconteceu em um clássico contexto de Guerra Fria: um governante tirânico e corrupto, contra o terrível comunismo, e benevolente com os planos capitalistas americanos para a ilha. Mal imaginavam que o período de abundância fosse acabar, justamente, pelas mãos de dois revolucionários comunistas
BRASIL. Telegramas trocados entre a embaixada brasileira em Washington e a Casa Branca na véspera do golpe militar, em 30 de março, mostram que o governo norte-americano estava disposto a intervir em auxílio às forças amigas no Brasil; John Kennedy chegou a financiar campanhas de candidatos governistas brasileiros
CHILE. Em 1973, as Forças Armadas do Chile - com expressivo apoio dos EUA - organizaram um golpe para depor o presidente com aspirações socialista, Salvador Allende. Em seguida, Augusto Pinochet estabeleceu um dos mais violentos regimes ditatoriais latino-americanos. Na foto, o presidente George H. W. Bush cumprimenta Pinochet em Santiago
NICARÁGUA. Anastásio Somoza Debayle, o “dono” da Nicarágua de
ARÁBIA SAUDITA. O relacionamento mais próximo dos EUA com a Arábia Saudita começou após a Guerra do Golfo, em 1991, quando se instalaram militarmente no país islâmico para monitorar uma zona de exclusão do Iraque. Os sauditas vivem em um sistema monárquico, sem espaço oposição política, onde as mulheres são submetidas a limitações para viajar, trabalhar e até estudar. Na foto, rei Abdullah bin Abdul Aziz se trata em hospital de Nova York
Berlusconi apóia Mubarak.
Tags: Julian Assange, Hosni Mubarak, Nobel da Paz, Praça Tahrir, Vladimir Putin, Wikileaks, Silvio Berlusconi, Egito
Por: Flavio Aguiar
Em meio a rumores, dúvidas e gente indecisa sobre que rumo tomar na crise, afinal surgiu um líder de visão clara e afinada com princípios e fins: numa reunião de cúpula da União Européia, na sexta-feira passada, 4 de fevereiro, em Burxelas, o primeiro ministro italiano Silvio Berlusconi reafirmou sua confiança
Noam Chomsky em entrevista a Página 12
Los Estados Unidos están siguiendo su libreto habitual. Ha habido muchas veces en las que un dictador “cercano” perdió el control o estuvo en peligro de hacerlo. Hay como una rutina estándar: seguir apoyándolo tanto tiempo como se pueda; cuando se vuelva insostenible –especialmente, si el ejército se cambia de bando–, dar un giro de 180 grados y decir que siempre estuvieron del lado de la gente, borrar el pasado y después hacer todas las maniobras necesarias para restaurar el viejo sistema pero con un nuevo nombre. Presumo que eso es lo que está pasando ahora. Están viendo si Mubarak se puede quedar. Si no aguanta, pondrán en práctica el libreto.
Mubarak es uno de los dictadores más brutales del mundo. No sé cómo después de esto alguien pudo haberse tomado en serio los comentarios de Obama sobre los derechos humanos. Pero el apoyo ha sido muy grande. Los aviones que están sobrevolando la plaza Tahrir son por supuesto estadounidenses. EE.UU. es el principal sostén del régimen egipcio. No es como en Túnez, donde el principal apoyo era Francia. Los Estados Unidos son los principales culpables en Egipto y también Israel, que junto con Arabia Saudita fueron los que prestaron apoyo al régimen cairota. De hecho, los israelíes estaban furiosos porque Obama no sostuvo más firmemente a su amigo Mubarak.
quinta-feira, 27 de janeiro de 2011
Surpresa: a Tunísia era uma ditadura
19/01/2011 - 08:48 Igor Fuser São Paulo
Quando eu ingressei como redator na editoria de assuntos internacionais da Folha de S.Paulo, um colega veterano me ensinou como se fazia para definir quais, entre as centenas de notícias que recebíamos diariamente, seriam merecedoras de destaque no jornal do dia seguinte. "É só olhar os telegramas das agências e ver o que elas acham mais importante", sentenciou. Pragmático, ele adotava esse método como um meio seguro de evitar que o noticiário da Folha destoasse dos jornais concorrentes, os quais, por sua vez, se comportavam do mesmo modo. Na realidade, portanto, quem pautava a cobertura internacional da imprensa brasileira era um restrito grupo de três agência noticiosas -- Reuters, Associated Press e United Press International, todas afinadíssimas com as prioridades geopolíticas dos Estados Unidos.
Passadas mais de duas décadas, a cobertura internacional da mídia brasileira ainda se orienta por diretrizes estrangeiras. A única diferença é que agora as agências enfrentam a competição de outros fornecedores de informação, como a CNN e os serviços de empresas como a BBC e o New York Times, oferecidos pela internet. Mas o conteúdo é o mesmo. O resultado é que as informações internacionais que circulam pelo planeta, reproduzidas com mínimas variações em todos os continentes, são quase sempre aquelas que correspondem aos interesses de Washington.
Quem confia nessa agenda está condenado uma visão parcial e distorcida, uma ignorância que só se revela quando ocorrem "surpresas" como a rebelião popular que derrubou o governo da Tunísia. De repente, o mundo tomou conhecimento de que a Tunísia -- um país totalmente integrado à ordem neoliberal e um dos destinos favoritos dos turistas europeus -- era governada há 23 anos por um ditador corrupto, odiado pelo seu povo. Como é que ninguém sabia disso?
A mídia silenciou sobre o despotismo na Tunísia porque se tratava de um regime servil aos interesses políticos e econômicos dos EUA. O ditador Ben Ali nunca foi repreendido por violações aos direitos humanos e, mesmo quando ordenou que suas forças repressivas abrissem fogo contra manifestantes desarmados, matando dezenas de jovens, o presidente estadunidense Barack Obama e sua secretária de Estado, Hillary Clinton, permaneceram em silêncio. Não abriram a boca nem mesmo para tentar conter o massacre. Só se manifestaram depois que Ben Ali fugiu do país, como um rato, carregando na bagagem mais de uma tonelada de ouro. O caso da Tunísia não é o único na região. No vizinho Egito, outro regime vassalo dos EUA, Hosni Mubarak governa ditatorialmente desde 1981. Suas prisões estão lotadas de opositores políticos e as eleições ocorrem em meio à fraude e à violência, o que garante ao governo quase todas as cadeiras parlamentares. Mas o que importa, para o "Ocidente", é o apoio da ditadura egípcia às posições estadunidenses no Oriente Médio, em especial sua conivência com o expansionismo israelense.
Por isso, a ausência de democracia em países como a Tunísia e o Egito nunca recebe a atenção da mídia convencional, ao contrário da condenação sistemática de regimes autoritários não-alinhados com os EUA, como o Irã e o Zimbábue. É sempre assim: dois pesos, duas medidas.
*Artigo publicado originalmente no Brasil de Fato. Igor Fuser é jornalista, doutorando em Ciência Política na USP, professor na Faculdade Cásper Líbero e membro do Conselho Editorial do Brasil de Fato. Siga o Opera Mundi no Twitter