sexta-feira, 5 de abril de 2019

“QUEM MANDA NO MUNDO” ? Trechos do livro de Noam Chomsky.

14 de Agosto de 2018, 10:48, por Daniel Miranda Soares - 
QUEM MANDA NO MUNDO” ? Trechos do livro de Noam Chomsky ( ed. Planeta, SP, 2018)

A GUERRA FRIA FOI UMA FARSA..........No pós-guerra, os EUA difundiam uma "versão padrão" de que o primeiro compromisso do governo é garantir segurança CONTRA A AMEAÇA RUSSA..... Depois que a URSS foi extinta o governo americano continuou sua mesma política externa, invadindo e derrubando governos..... em sua "nova política" os EUA TINHAM QUE MANTER SEU ESTABLISMENT MILITAR.... sua "base industrial de defesa" - a expressão se referia à indústria hight-tech, que depende pesadamente de vasta intervenção estatal para pesquisa e desenvolvimento, atuando sigilosamente sob a asa do Pentágono....que os economistas costumam chamar de "economia de livre mercado". (p.191). .....CINQUENTA ANOS DE ENGANAÇÃO E MENTIRAS, o governo admitia-se discretamente que a principal preocupação no Terceiro Mundo não eram os russos, mas antes o que se chamava de "nacionalismo radical", que significava nacionalismo independente, que não estava sob controle dos EUA (dizia documento de Segurança Nacional da Casa Branca, gov. Bush, 1990)..…


NACIONALISMO? SÓ PARA OS EUA….TERCEIRO MUNDO NÃO PODE….. Os EUA defendem o nacionalismo pra eles mesmos, pois a economia americana depende pesadamente de uma substancial intervenção do Estado. (p.192)... Já para os outros do Terceiro Mundo é proibido governos nacionalistas... na América Latina governos nacionalistas tendem a atender os interesses da maioria da população....NÃO PODE!, primeiro tem que atender os interesses dos investidores norte-americanos, enquanto que a América Latina só deve servir para suprir matérias primas... Como as administrações Truman e Eisenhower deixaram bem claro, a América Latina não poderia passar por um "desenvolvimento industrial excessivo" que talvez prejudicasse os interesses dos EUA. (p.193).

ATROCIDADES….. um avião civil da Iran Air voo 655 foi abatido por um missil guiado disparado pelo cruzador norte-americano Vincennes, operando em águas iranianas no golfo Pérsico…. Todas as 290 pessoas a bordo morreram inclusive 66 crianças….é o caso de se perguntar… o que exatamente o Vincennes estava fazendo em águas iranianas ? A resposta é simples: a belonave estava defendendo o grande amigo de Washington, Saddam Hussein, em sua assassina agressão contra o Irã…… dois anos depois o comandante do Vincennes foi agraciado com a Legião de Mérito por “conduta excepcionalmente meritória na execução de extraordinários serviços”… a derrubada do avião não foi mencionada na cerimônia…. O Presidente Ronald Reagan culpou os iranianos pelo desastre e defendeu as ações do navio de guerra, que “seguiu ordens padrão e procedimentos amplamente divulgados, disparando para se proteger contra um possível ataque”. (p. 204).

ALÉM DA CRISE DOS MÍSSEIS CUBANOS…. Houve outras ocasiões próximas de uma eventual guerra nuclear….. em 1983, arquivos recentemente divulgados revelam que a situação era mais grave do que se supunha os historiadores…. Um estudo da CIA intitulado “O temor da guerra era real” concluiu que a inteligência dos EUA subestimou as preocupações com a Rússia e a ameaça de um ataque nuclear preventivo soviético… motivo: o governo Reagan lançou operações para sondar as forças aéreas soviéticas por meio da simulação de ataques aéreos e navais e de um alerta nuclear de alto nível, concebido para ser detectado pelos russos….Washington estava posicionando mísseis estratégicos Pershing II na Europa, a cinco minutos de tempo de voo de Moscou….. O protocolo das Forças Armadas soviéticas era retaliar lançando seu próprio ataque nuclear. Felizmente, o oficial no comando, Stanislav Petrov, decidiu desobedecer às ordens e não comunicar os alertas aos seus superiores. Ele recebeu uma reprimenda oficial. E graças a essa negligente falta de cumprimento do dever, ainda estamos vivos para falar a respeito. (p.229).

OS EUA SÃO O PRINCIPAL ESTADO TERRORISTA DO MUNDO….(cap.17 e seguintes). Na cultura politica ocidental, torna-se como algo natural e adequado que o Líder do Mundo Livre governe um Estado bandido terrorista e proclame abertamente sua excelência nesse tipo de crime. Em 14 de outubro de 2014, a reportagem de primeira página do jornal The New York Times trazia um estudo elaborado pela CIA examinando operações terroristas de grande envergadura comandadas pela Casa Branca e realizadas ao redor do mundo, em um esforço para determinar os fatores que levaram ao sucesso ou ao fracasso de cada uma delas. E a organização não foi capaz de encontrar muita coisa. ….Em Angola, os Estados Unidos juntaram-se à África do Sul fornecendo o apoio decisivo para a UNITA, o exército terrorista de Jonas Savimbi. Depois que a própria África do Sul já havia retirado seu apoio daquele “monstro cuja ânsia por poder havia impingido ao seu povo um apavorante sofrimento (nas palavras do embaixador britânico em Angola, Marrack Goulding) numa declaração respaldada pelo chefe da CIA na vizinha Kinshasa. O alto funcionário da CIA alertava que “não era uma boa idéia” apoiar o monstro, “por causa da extensão dos crimes de Savimbi. Ele era terrivelmente brutal.
Apesar das amplas e assassinas operações terroristas apoiadas pelos EUA em Angola, forças cubanas expulsaram do país os agressores sul-africanos, forçaram-nos a deixar a Namíbia ilegalmente ocupada e abriram caminho para a realização da eleição em Angola…..eleição livre e reconhecida internacionalmente por 800 observadores internacionais, para quem as eleições haviam sido livres e justas, segundo o NYT. …..após sua derrota no pleito Savimbi desprezou o resultado das eleições e continuou a guerra terrorista com o respaldo dos EUA.

As façanhas de Cuba na libertação da África e no fim do apartheid foram enaltecidas por Nelson Mandela quando ele finalmente ganhou a liberdade. Um de seus primeiros atos foi declarar que “durante todos os meus anos de prisão, Cuba foi uma inspiração e Fidel Castro, uma torre de fortaleza…. As vitórias cubanas destruíram o mito da invencibilidade do opressor branco e inspiraram as lutas de massas da África do Sul…. Um ponto de inflexão para a libertação de nosso continente – e do meu povo - do flagelo do apartheid….. Que outro país pode apontar para um histórico de maior altruísmo do que Cuba demonstrou em suas relações com a África?”.

O comandante terrorista Henry Kissinger, ao contrário, ficou “apoplético” diante da insubordinação do “zé-ninguém” Castro, que a seu ver tinha de ser “esmagado”, conforme relatam William LeoGrande e Peter Kornbluh em seu livro Back channel to Cuba fiando-se em documentos recentemente dessegredados e liberados para conhecimento público. Em Cuba, as operações terroristas de Washington foram lançadas com plena fúria pelo presidente Kennedy e seu irmão para punir os cubanos por terem derrotado a invasão da baía dos Porcos orquestrada pelos EUA. Essa guerra terrorista não foi café pequeno. Envolveu a participação de 400 norte americanos, 2.000 cubanos, uma esquadra privada de lanchas e um orçamento anual de 50 milhões de dólares. A operação foi comandada em parte por uma base da CIA de Miami, violando o Ato de Neutralidade e a lei que proibe operações da CIA dentro dos EUA. As ações incluíram o bombardeamento de hotéis e instalações industriais, o afundamento de barcos pesqueiros, o envenenamento de plantações e rebanhos, a contaminação dos estoques de açúcar para exportação e assim por diante…. (típicas ações terroristas). Algumas dessas operações não receberam autorizações específicas da CIA, mas foram executadas pelas forças terroristas que a CIA custeava e apoiava, uma distinção que é irrelevante e não faz diferença no caso.

Como se revelou desde então, a guerra terrorista (Operação Mangusto) foi um fator de peso na decisão de Khrushchevde enviar mísseis para Cuba e na resultante “crise dos mísseis”, que chegou ameaçadoramente perto de uma guerra nuclear fatal. Deu-se atenção a apenas uma parte ínfima da guerra terrorista: as centenas tentativas de assassinar Fidel Castro, geralmente desconsideradas e tidas como meras traquinagens pueris da CIA. Além disso, nada do que aconteceu despertou muito interesse ou comentários. Em 2010 o pesquisador canadense Keith Bolender, publicou em seu livro Voices from the other side analisando os impactos das ações terroristas sobre os cubanos. Estudo valioso que em larga medida passou em branco e foi ignorado. …. a classe política aceita como normal e adequado que os EUA sejam uma superpotência terrorista, imune às leis e normas civilizadas.

De acordo com as mais importantes agências de pesquisa de opinião ocidentais (Win/Gallup International),o prêmio de “mais grave ameaça” cabe aos EUA, que o mundo considera a mais séria ameaça à paz mundial por larga margem. Felizmente, os norte-americanos foram poupados dessa informação insignificante. Quinze anos atrás o analista político Samuel Huntington alertava em um texto da revista Foreign Affairs, do establishment, que para a maior parte do mundo os EUA estavam “se tornando a superpotência vilã…. A única e maior ameaça externa às suas sociedades”. Suas palavras foram ecoadas por Robert Jervis, presidente da Associação Norte Americana de Ciência Política: “aos olhos da maior parte do mundo, o principal Estado bandido hoje são os Estados Unidos.” …. a opinião global corrobora, por ampla margem, esse juízo.

Daniel Miranda Soares é economista, ex-professor universitário e mestre pela UFV.

O desastre do Neoliberalismo no Terceiro Mundo

12 de Janeiro de 2017, 10:32, por Daniel Miranda Soares - sem comentários ainda
DOIS LIVROS: MESMO TEMA – O DESASTRE DO NEO-LIBERALISMO.

O coreano Ha-Joon Chang escreveu “Chutando a escada” da Editora Unesp e é professor de Cambridge. O norueguês Erik S. Reinert escreveu “Como os países ricos ficaram ricos....e por que os países pobres continuam pobres” da editora Contraponto. Os dois abordam o mesmo assunto. Eles descrevem a história de como os países ditos desenvolvidos conseguiram se desenvolver partindo de estágios mais atrasados, alguns de pobreza mesmo e chegando aos níveis atuais de desenvolvimento. Detalhe: eles fizeram isso protegendo suas indústrias e todo o processo que envolveu suas revoluções econômicas e técnico-científicas. Erik disse que esse protecionismo acontece há mais de 500 anos na Europa do Norte. Outro detalhe importante: ao atingirem os estágios mais avançados de seu desenvolvimento, eles passam a pregar o liberalismo para os outros países.... ou seja, atingindo o topo, chutam a escada.... para impedir que outros países possam segui-los no caminho do sucesso e da riqueza..... pregam a livre concorrência, o livre mercado e o não intervencionismo estatal, como se estas condições por si só propiciassem espontaneamente o desenvolvimento ..... premissas que segundo a teoria econômica são abstratas demais para que possam funcionar na prática…. a hipocrisia é total e está toda armada e desenvolvida em instituições internacionais que fazem a maior pressão em cima dos países mais pobres.... instituições tipo FMI, Banco Mundial, OMC, etc....
Para se ter uma idéia, Erik cita o caso dos EUA, que protegeram com unhas e dentes todo o seu processo de desenvolvimento industrial durante 150 anos : do séc. XIX até o pós-2ª Guerra Mundial .... A partir daí, e principalmente a partir da queda do Muro de Berlim, os EUA e Europa passam a defender o livre comércio internacional, a desregulamentação da economia, as privatizações, o Estado mínimo, queda das barreiras alfandegárias, tarifárias, impostos, etc..… passam a defender o Consenso de Washington, que é uma cartilha detalhada para que os países do Terceiro Mundo possam realizar empréstimos e obter ajuda dos organismos internacionais…...estes princípios se tornam um pensamento único… pregado em todas as instâncias e absorvido totalmente pela mídia dominante.

Um exemplo marcante do fracasso destas políticas neoliberais é o caso da Mongólia. Logo após a queda do Muro de Berlim, o país abriu totalmente sua economia, da noite para o dia, seguindo fielmente os conselhos das instituições de Washington (Banco Mundial, FMI) no sentido de minimizar o Estado e deixar o mercado tomar conta. O meio século de construção da indústria da Mongólia (pós-1940) foi praticamente varrido em apenas quatro anos : 1991-1995. Na maioria dos setores industriais a produção em volume físico caíra mais de 90%. O Plano dos neoliberais do Consenso de Washington foi extremamente bem sucedido em desindustrializar a Mongólia. A indústria havia sido praticamente erradicada, começando pelas mais avançadas. A produção de pão caíra 71% e a produção de livros e jornais, 79% - sem que a população diminuísse. Em poucos anos os salários reais haviam sido cortados quase pela metade e o desemprego era crescente. A taxa real de juros era de 35%, destruindo qualquer possibilidade de investimentos produtivos e favorecendo os investimentos financeiros e especulativos. As únicas indústrias que cresciam era a produção de álcool e as de “penas de estofamento de aves”. Fazer a população recolher penugem de aves não pode ser outra coisa senão a primitivização da economia. Muitas pessoas foram obrigadas a regressar ao seu modo de vida ancestral: o pastoreio nômade. O desemprego em grande escala aumentou a degradação ambiental.

Os países hoje desenvolvidos desde o final do século XV até depois da Segunda Guerra Mundial sempre praticaram (internamente e não abertamente: “façam o que eu digo e não façam o que eu faço”) em política econômica o “culto da indústria manufatureira”, isso significava “plantar indústrias” e para isso criaram duas instituições diferentes: a proteção de novos conhecimentos (via patentes) e a transferência desses conhecimentos para novas áreas, via proteção tarifária. Isto criava e expandia geograficamente os novos conhecimentos mediante estímulo à concorrência imperfeita. Concorrência perfeita e livre comércio só para os pobres…. Enquanto que os efeitos “ruins” da economia estão ligados à concorrência perfeita, os efeitos “bons” da economia estão ligados à concorrência imperfeita. O termo indústria, durante séculos era sinônimo de mudança tecnológica, rendimentos crescentes e concorrência imperfeita….. ao se dedicarem à indústria algumas nações se apossaram dos tipos “bons” de atividade econômica. Esse foi o modelo de sucesso, começando com a Inglaterra de Henrique VII (1485 – protegendo sua indústria têxtil), passando pela industrialização do continente europeu e dos EUA, o Império Meiji no Japão (quando o governo japonês cria políticas abrangentes para industrializar o país a partir de 1860) até os mais recentes sucessos de Coréia e Taiwan. Todos se tornaram ricos da mesma forma, por meio de políticas que protegeram suas atividades manufatureiras. Além desses países, nenhum outro conseguiu se desenvolver no período pós-2ª G.M., em mais de meio século…. Nenhum outro se tornou desenvolvido…. Alguns conseguiram uma industrialização instável, capenga e dependente: mas não conseguiram um desenvolvimento autônomo e singular e por isso continuaram sendo subdesenvolvidos.

E o livre comércio, o Estado mínimo e a concorrência perfeita ? Só funciona entre os países que já atingiram níveis semelhantes de desenvolvimento econômico e social. No entanto o comércio livre entre países com estágios muito diferentes de desenvolvimento sempre foi um desastre para os mais fracos. É como colocar na arena dois atletas de pesos diferentes: p.ex: um peso pesado e um peso pena. Você já sabe o resultado…. Mas o Consenso de Washington trabalhou intensamente para ter a hegemonia do pensamento único de forma a não permitir contestações. Eles controlam instituições, universidades, equipe técnica dos bancos, mídia, intelectuais…e até as elites do Terceiro Mundo. Até hoje, apesar das várias crises sofridas pelas economias neoliberais, é muito difícil contestar o sistema…. Mas sempre existiram contestações e modelos alternativos.
Obs: os dois autores não chegam a analisar a atual fase do capitalismo financeiro ou financeirização da economia, que não dá importância para a indústria. Eles analisaram a indústria enquanto importante elemento histórico no desenvolvimento dos países centrais.
Daniel Miranda Soares é economista e mestre pela UFV.
Artigo publicado originalmente no jornal Diário Popular, edição de 10/01/2017.
http://www.diariopopularmg.com.br/

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

A crise é muito mais política do que econômica

A crise é muito mais política do que econômica

(artigo publicado originalmente no jornal Diário Popular em 15/12/2015, contracapa). http://issuu.com/jornaldiariopopular/docs/15_12_2015_00_21_03/1?e=4106722/31980345

      A previsão dos analistas de mercado para a economia brasileira em 2015 seria de uma recessão em torno de 0,7% a 1,3% de queda no PIB; em condições normais sem considerar aspectos políticos. As coisas complicaram a partir do resultado das eleições de 2014, em que a oposição não aceitou o resultado das urnas e criou um tremendo impasse político a partir daí. O governo também não soube se proteger e perdeu várias batalhas, principalmente a presidência da Câmara dos Deputados que passou a ditar uma pauta bomba, exacerbando despesas públicas. Os rugidos negativistas da mídia encontraram o parceiro ideal numa oposição obcecada em derrubar Dilma a qualquer preço.A birra da oposição se perpetua e contamina o cenário político e dos meios de comunicação que passam a gerar e exagerar um clima de pessimismo na economia, diminuindo expectativas de investimentos. Para complicar a Operação Lava Jato que investiga corrupção na Petrobrás e sua cadeia produtiva, atinge as maiores corporações brasileiras ligados ao setor:  "Não podemos ignorar o fato de as empresas investigadas não poderem mais operar negócios, terem acesso ao crédito e às licitações. A verdade é que a cadeia de petróleo e gás sofreu um imenso impacto", disse o diretor do Ipea, André Calixtre. Só neste setor há uma queda de 5% no nível de investimentos do país. Segundo a BBC, “os impactos diretos e indiretos da operação poderiam ser de R$142,6 bilhões em 2015 – algo em torno de 2,5% do PIB”. Portanto uma recessão de coisa de 1% negativo pode chegar a menos 3,5;4%. Ou seja a crise política multiplica por 4 a crise econômica. Haveria uma forma de enfrentar a corrupção no mundo do petróleo sem o custo devastador que se apresentou? Muito provavelmente. Moro não pegou uma calculadora ou tudo foi intencional para provocar a recessão?

      Para Marcio Pochmann, ex-presidente da Fundação Perseu Abramo, houve uma opção pela recessão. Para ele, a crise econômica foi construída por uma crise política que se estabeleceu em função do resultado eleitoral. “Nós tivemos um impasse político e tem a ver com a forma como o governo se organizou a partir desse resultado eleitoral. Houve um erro na sucessão no Legislativo que acabou provocando o acirramento dentro da base do governo.  Então, isso resultou num impasse. E essa crise política contaminou a economia. Não aconteceu nada de substancial que justificasse termos uma piora na situação econômica, portanto, no meu modo de ver, é de natureza política.”....  Segundo Pochmann, “ao abandonar a trajetória da política econômica anterior, aceitando o diagnóstico da oposição e passando a governar com o programa dos perdedores, o Brasil terminou por confirmar posteriormente o vaticínio neoliberal. Não há saídas positivas sem a retomada do crescimento econômico, desprendendo-se radicalmente da dominância financeira.”  Para este economista, isso nunca aconteceu nos anos 2000, pelo contrário....se havia piora no quadro internacional, o Brasil negava essa piora e estimulava o crescimento econômico enfrentando o desemprego e a pobreza. Agora há uma outra orientação.

       Para Wilson Cano, professor do Instituto de Economia da Unicamp, estamos em crise há 35 anos: década de 80 - crise da dívida externa e fragilização do Estado; anos 90 - abertura comercial e instauração do neoliberalismo, privatização e valorização cambial que acabou com a indústria nacional. O pior é que não foram só os governos “liberais” que fizeram isso - os governos do PT deram continuidade à dominância financeira neoliberal, a despeito de suas progressistas políticas sociais e de uma nova postura na política externa.  Para este economista a predominância do capital financeiro nas relações econômicas internacionais e a política neoliberal ampliam-se a partir dos anos 80...O capital financeiro passa a dominar o capital produtivo. O capitalismo, com sua predominância financeira, nunca foi tão voraz e irracional, nunca criou tantos miseráveis como hoje, e nunca alimentou e realimentou tantas guerras como nos últimos 30 anos! Soltaram a fera, com a desregulamentação do sistema financeiro, agora, que se cuidem todos…Hoje o mundo trabalha para pagar juros ao capital financeiro internacional em todos os países capitalistas e não é à toa que as dívidas públicas e privadas cresceram exponencialmente e quem ganha é o capital rentista especulativo. Os governos estão cortando gastos com benefícios sociais e educação na Europa para sobrar dinheiro para pagar o capital rentista. No Brasil, as razões da ingovernabilidade são causadas por um orçamento em que os juros da dívida perfazem a metade do orçamento federal e 95% do deficit público. 

      Ainda segundo Márcio Pochmann, a dominância financeira é o maior entrave para o crescimento do país. Enquanto 99% da população tenderão a conviver com a redução nominal do PIB estimada em 745,3 bilhões de reais em 2015, por conta da recessão econômica, o 1% mais rico receberá como ganho financeiro 548 bilhões de reais adicionais devido à alta dos juros. A altíssima taxa de juros (30 meses seguidos de elevação da taxa Selic) inviabiliza o crescimento econômico e eleva o custo do setor produtivo. Dessa forma, a dominância financeira gera recessão econômica e mais inflação. O único ensaio desenvolvimentista que houve nos últimos 20 anos foi durante o segundo mandato do governo Lula (2006-10) quando houve queda brusca dos ganhos financeiros. Nos outros períodos os ganhos financeiros foram sempre maiores que os retornos produtivos:  entre 2011 e 2015, a taxa de retorno das atividades produtivas decresceu 89,7%, em média, o ganho financeiro subiu 39,8% no mesmo período. Com a atual taxa básica de juros praticada insistentemente pelo Banco Central, dificilmente a atividade produtiva obterá retorno positivo, capaz de competir com a dominância financeira.

Daniel Miranda Soares é economista, ex-professor de Economia com mestrado pela UFV.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Um outro olhar sobre a crise : os bilionários americanos corrompem a política

(Artigo revisado e ampliado, originalmente publicado no endereço: http://www.diariodoaco.com.br/noticia/90445-7/opiniao/um-outro-olhar-da-crise-os-bilionarios-americanos-corrompem-a-politica.     Diário do Aço, 18/02/2015. ).

       Pouca gente viu os excelentes documentários da série “Porque Pobreza?” que são exibidos em canais de TV educativos. Um deles é “Park Avenue: Dinheiro, Poder e o Sonho Americano” realizado pelo jornalista Alex Gibney, que analisa com cuidado as relações entre os novos ricos e os novos pobres nos EUA nos últimos 30 anos, tomando como modelo a rua Park Avenue. A rua passa por Manhattan onde ficam os prédios mais luxuosos de Nova York e onde moram bilionários detentores de fortunas financeiras, dos barões das falcatruas aos controladores de fundos de investimentos.  Do outro lado da rua, ao sul do Bronx, fica o distrito eleitoral mais pobre dos EUA com 700 mil pessoas - destas cerca de 40% vivem na pobreza. Aqui, os últimos 30 anos foram bem diferentes do que se viu no Park Avenue de Manhattan. As pessoas viram seus salários diminuirem e o custo de quase tudo chegar às alturas. Eles perderam seus empregos durante a recessão causada pelos banqueiros do outro lado do rio. E acabaram em situação ainda pior do que a geração passada. Neste distrito o desemprego chega a 19%  e algumas famílias tem dificuldades até para por comida na mesa.
       É muito difícil de sair da extrema pobreza nos EUA. Isto quase nunca acontece. Isto é exatamente o oposto do que as pessoas pensam sobre os EUA - a terra das oportunidades. Para Jeffrey Sachs (prof. da Columbia) quando ele era jovem os EUA se orgulhavam de serem uma nação de cidadãos de classe média, com um pequeno grupo de ricos e um pequeno grupo de pobres. Mas nos últimos 30 anos esta relação se inverteu:  a receita pública era divida igualmente entre todos no gráfico 1947-1972 (1% aos super ricos ,10% ricos e 90% destinada ao americano médio). A partir do final dos anos 70, os 90% que estavam na base viram sua pizza ser totalmente devorada pelos 1% do topo - os mais ricos estão ficando com um percentual enorme de todos os ganhos da economia : cerca de 2/3  com os super-ricos, os ricos cerca de 1/3 e a classe média ficando com a menor parte, perto de 1% - invertendo as posições.
       Michael Gross (autor do livro “740 Park Avenue...”) diz que um pequeno grupo de multibilionários, os 1% dos 1% que moram em pouquíssimos lugares em N.York. Entre os prédios mais luxuosos de NY, o nº 740 da Park Avenue moram mais bilionários do que em qualquer outro prédio do mundo. São 31 moradores e cada apartamento tem cerca de 1860m². A maior parte destes são executivos de hedge fund. Dentre os principais moradores encontramos: John Thain (CEO na época da derrocada Merril Lynch); Ezra Merkin que trabalhou para Bernie Madoff; David Koch (o mais rico do prédio) ; Steve Schwartzman (foi executivo do Lehman Brothers); entre outros.
      O prof. Jacob Hacker (cientista político da Univ. de Yale) afirma que a gigantesca acumulação de riqueza não tem a ver só com o trabalho , mas com os ricos  que usam o sistema político a favor deles. Houve um ciclo que reforçou isso. Eles investiram em políticas que os favoreceram e ainda reinvestiram esse dinheiro na política. Para entender até que ponto o dinheiro influencia Washington, Gibney contatou o símbolo máximo da corrupção - o ex-lobista Jack Abramoff (ficou 4 anos na cadeia), que diz : “.... hoje os congressistas usam os serviços dos lobistas para redigirem os projetos de lei no esboço exato do que eles querem e isso envolve pagamento em dinheiro. As campanhas políticas custam milhões e quem tem dinheiro pede algo em troca. ... Eu fazia assim e eu sei o que fazia” -  afirma o ex-lobista.
       Mas quando tudo isso começou ? Quando os ricos começaram a controlar Washington ? Segundo o prof. Hacker de Yale tudo tem a ver com a mobilização dos empresários que ocorreu nos anos 70.  Os empresários seguiram os conselhos do futuro juiz da Suprema Corte, Lewis Powell que fez um memorando muito convincente para a Câmara do Comércio determinando que os empresários se unissem, basicamente contra os reformistas e o poder político dos trabalhadores e líderes de massa como Ralph Nader. Ele pediu que as grandes corporações se esforçassem mais para moldar a política americana e as leis. E os empresários o atenderam. O poder lobista dos empresários cresceu vertiginosamente a partir dos anos 70  Eles investiram quantias enormes na política. O resultado foi o fim das políticas que beneficavam as classes médias e os pobres dando início às políticas a favor dos ricos. O lobby era uma indústria de US$400 milhões nos anos 80  e hoje é uma indústria de $4 bilhões.
      Jeffrey Sachs (prof. da Columbia) : “Um exemplo da influência que os bilionários podem ter no governo é algo no código tributário chamado de “provisão de juros transitados”. Operadores de hedge fund e  private equity como Schwartzman pagam 15% de impostos sobre sua renda.... os empresários mais ricos são taxados em um percentual menor do que o mercadinho da esquina”. Os democratas tentaram acabar com estes juros, mas não conseguiram. Por quê ? A influência dos bilionários corromperam também os democratas: esse é o exemplo perfeito de como o dinheiro manda na política americana hoje em dia.
      E nenhum dinheiro manda tanto quanto o de David Koch e seu irmão Charles. Esse magnata de direita é o morador mais rico do Park Avenue 740. Juntos, eles influenciam a política americana mais que qualquer outra pessoa. Doaram milhões a grupos de reflexão de direita (CATO Institute, Ayn Rand Institute, Capital Research Center, Mercatus Center,  etc.)  Financiaram Universidades, programas que promovessem a desregulamentação. Para eles o modelo ideal é um mercado livre de impostos - o supra sumo do paraíso em sociedade. Ofereceram grande apoio financeiro ao movimento Tea Party. que divulga muito as idéias de Ayn Rand que disse em 1959: “eu me oponho a todas as formas de controle, sou a favor de uma economia livre e sem regulamentações”. No mundo de Rand quem precisa de ajuda é um vagabundo ou um parasita. Quem quer ajudar os outros é um vilão. Seus heróis tem orgulho de serem os mais egoístas possíveis. Perguntaram a Ayn Rand : “você não gosta do mundo altruísta em que vivemos” ? Resposta: “dizer que não gosto é pouco, eu o considero um mal”. Para eles ser ganancioso é bom, o individualismo é prioridade em relação aos interesses da coletividade. Eles não aceitam a idéia de que se você é pobre e sua educação é ruim, você não tem a mesma oportunidade de competir que os ricos. Parece que os ideais da direita americana foram copiados pela direita brasileira - vide oposição que fizeram ao Bolsa Família, às cotas para universidades e a outros programas de distribuição de renda.
       Quase todos concordam que  educação é a chave para a  ascensão social, mas a universidade está cada vez mais inalcansável. O custo subiu mais de 500% desde 1980 - sem um diploma universitário é muito mais difícil conseguir trabalho. Com 12 milhões de americanos desempregados os programas de educação e treinamento estão sendo cortados por ambos os partidos em troca do corte de impostos para os ricos. Tim Smeeding (Instituto de Pesquisa e Pobreza) :  “1 em cada 7 americanos recebem vales-alimentação. Mais da metade são crianças e idosos: 41% deles moram em abrigos”. Como não conseguem emprego eles precisam da rede de proteção. Paul Ryan, estrela do Tea Party, quer cortar em 134 bilhões o programa de vale-alimentação nos próximos 10 anos - sem estes recursos a rede de proteção seria destruída - para ele a rede de proteção é uma rede de dormir. Ou seja, bolsa de ajuda para os pobres é Bolsa Vagabundagem como diz também a direita brasileira.
       Para Jeffrey Sachs: “Os impostos são o preço que pagamos pela civilização. Sem impostos não há civilização é simples assim....Os impostos pagos pelos milionários diminuíram mais de 25% nos últimos 20 anos. E para muitas pessoas extremamente ricas os impostos caíram quase 50%.” A maior parte começou no governo Bush. O corte de impostos aumentou a dívida pública americana (o corte de Bush acrescentou 2,9 trilhões) e com a proposta de Paul Ryan a dívida aumentaria para 4,6 trilhões nos próximos 10 anos. A concentração de renda aumentou nos EUA: os CEOs (altos executivos) ganhavam 20 vezes mais que um trabalhador comum em 1965; hoje eles ganham 231 vezes mais. Então, pergunta Gibney, o que está havendo ? Eles estão ganhando mais porque merecem ? O que é difícil de entender é na insistência dos ricos em cortar mais impostos já que eles possuem bem mais do que nós.  A riqueza é criada, mas a pobreza também, sem a democracia social todos os ganhos da economia vão para quem está no topo; enquanto nossos políticos dependerem do dinheiro dos ricos para se elegerem eles farão leis para proteger os castelos de riqueza do outro lado do rio....Um rio que se tornou um fosso profundo e proibido.

Daniel Miranda Soares é economista, MSc; ex-professor universitário.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Para entender a crise econômica mundial


 O ABC DA CRISE ECONÔMICA MUNDIAL
09/01/2015 - 16h59  Diário do Aço
Daniel Miranda Soares
 (artigo revisado, publicado originalmente no jornal Diário do Aço, no endereço : http://www.diariodoaco.com.br/noticia/89046-7/opiniao/o-abc-da-crise-economica-mundial )


David Harvey, formado pela Universidade de Cambridge, de orientação marxista  é professor da Universidade da Cidade de Nova York e um dos principais nomes da Geografia Humana contemporânea, tendo sido agraciado em 1995 com o Prêmio Vautrin Lud, o Nobel da Geografia. Publicou "Para entender o Capital: Livro I" e "Para entender o Capital: Livro II e III", traduzidos em português. Segundo Harvey as origens da crise atual do sistema capitalista tem início nos anos 1970. Para os capitalistas o problema era que os salários dos trabalhadores do Primeiro Mundo estavam relativamente muito elevados. Portanto para eles a grande questão era o controle do trabalho, da oferta de trabalho.

Porque estavam muito elevados? A força de trabalho era muito organizada, tinham poder sindical e tinham poder político e exerciam esse poder através dos partidos políticos. O capital “precisava” disciplinar essa força de trabalho. Para Harvey essa disciplina foi feita de diferentes maneiras: mudanças tecnológicas, globalização e imigração. No início eles acharam que poderiam resolver o problema através da imigração - então abriram suas portas aos imigrantes - os franceses com a entrada de trabalhadores magrebinos; os alemães com a entrada dos turcos; os ingleses com o povo de suas ex-colônias e nos EUA com uma enorme reforma na lei de imigração em 1965 que permitiu que pessoas do mundo todo fossem para o país. Pensavam que com o aumento da oferta interna do trabalho os salários cairiam. Mas não foi o suficiente.

Aí vem a globalização a partir dos anos 1980 quando a produção se transfere para diversas áreas do mundo emergente à procura de salários baixos. Assim boa parte do que era o centro do capitalismo acabou se desindustrializando: em boa parte dos EUA, a indústria desapareceu assim como na Inglaterra e na Alemanha. Ela foi deslocada. É um modelo de expansão geográfica muito diferente que se baseia nas expansões das multinacionais que continuam com suas sedes no Norte e estabelecem suas bases produtivas no Sul: China, Brasil, México, Taiwan, etc... Mas é uma globalização diferente da que aconteceu no século XIX quando os países centrais exportavam produtos industrializados para a periferia; agora a periferia se torna produtora destes bens industrializados em vários pontos ao redor do mundo.

Quanto às mudanças tecnológicas - houve muitas e significativas mudanças - nos anos 1970 não havia laptops, celulares, computadores pessoais, internet, etc. Harvey afirma que as concepções mentais eram muito diferentes incluindo é claro, as sensibilidades políticas. Ele diz: “Nós nos preocupávamos muito mais com solidariedade social, essas coisas. Hoje somos muito mais individualistas. Nós nos tornamos indivíduos ao telefone, no computador. Tudo isso mudou e o dia a dia mudou radicalmente.”
 O mundo se tornou mais individualista e isso diminuiu o poder dos trabalhadores se organizarem. Portanto o novo regime que surgiu a partir de então - que podemos chamar de neoliberalismo - na década de 1980, Margaret Thatcher, Ronald Reagan, o general Pinochet entre outros colocaram um ponto final no poder político dos trabalhadores.    

Mas então como se caracteriza o neoliberalismo? Segundo Harvey, com o poder do capital financeiro. Ao reprimir trabalhadores e salários a participação dos salários na renda nacional caiu em quase todos os países (com exceção de alguns países da América do Sul no séc. XXI).  Nos EUA nos anos 1970 um chefe de executivo ganhava 30 vezes o salário de um empregado médio - agora eles ganham 350 vezes mais. A classe média diminuiu. O capitalismo prospera com a precarização do trabalho - mantendo salários baixos e aumentando os lucros - o resultado é um sistema que cria pobreza e também desemprego.

Então surge a questão: o que acontece com o mercado quando você retrai os salários? Nos EUA a resposta foi: “Dê crédito a eles”, deixe que comprem a crédito. Assim surgiu a economia do débito que é esse enorme negócio que os bancos entraram. As famílias americanas triplicaram suas dívidas em 30 anos. A queda na demanda causada pelos baixos salários foi compensada pelo aumento da dívida. Mas quando os salários caem e a dívida aumenta, em algum momento há o problema de como as pessoas pagarão a dívida. 
  
As famílias americanas já vinham se endividando ao longo dos anos 1990 e a partir de 1995 o mercado imobiliário voltou se expandir, assim como o endividamento - crédito ao consumidor e hipotecas. Com a crise de 2000-2001, do mercado de ações, o mercado imobiliário ganhou estímulos e se expandiu mais vigorosamente. As famílias, já endividadas, elevaram a contratação de empréstimos, fazendo novas hipotecas e adquirindo novas linhas de crédito.
A partir de 2003, com a intensificação da valorização dos imóveis e esgotamento dos clientes tradicionais, o crédito foi facilitado para as famílias sem histórico de crédito, sem emprego e sem renda - o subprime. Como os empréstimos subprime eram dificilmente liquidáveis, os bancos arquitetaram uma estratégia de securitização desses créditos. Para diluir o risco dessas operações duvidosas os bancos juntaram-nas e transformaram a massa daí resultante em derivativos negociáveis no mercado financeiro internacional, cujo valor era cinco vezes superior ao das dívidas originais.

Assim, criaram-se títulos negociáveis cujo lastro eram esses créditos "podres". Foi a negociação em enormes quantidades desses títulos que provocou o alastramento da crise, de origem estadunidense, para os principais bancos do mundo. Tais papéis, lastreados em quase nada, obtiveram o aval das agências internacionais de classificação de risco, obtendo chancela máxima - AAA - geralmente dados a títulos bem mais sólidos como os do tesouro americano.  Todos os bancos foram atingidos, porque todo o sistema financeiro estava interligado na multiplicação destes papéis. Quando os juros dispararam nos Estados Unidos - com a consequente queda do preço dos imóveis - houve inadimplência em massa. A mesma classe média detentora de tantas ações, teve seu patrimônio (imobiliário) depreciado e começou a não pagar as parcelas de hipoteca, levando as hipotecadoras a terem prejuízos vultosos. 
 
A empresta R$ 100.000 ao elemento B a uma taxa de juros de 1% ao mês; o B empresta ao C os mesmos R$ 100.000 a uma taxa de 2% ao mês, até aí A e B são credores de R$ 100 mil cada, totalizando R$ 200.000; C empresta os mesmíssimos R$ 100 mil a uma taxa de juros de 3% ao mês para D; até então, A, B e C são credores de R$ 100 mil cada, totalizando R$ 300 mil. Ou seja, todos eles são credores do mesmo capital. No exemplo colocado, houve a "geração" de R$200 mil virtuais a partir de R$ 100 mil reais. Puro capital fictício, sem lastro real, alavancagem multiplicada várias vezes de um valor original muito menor. Foi isso o que aconteceu com o mercado americano.

Em alguns casos a alavancagem chegava a 50 por 1. Quando os credores deixaram de pagar suas dívidas a coisa se propagou em massa atingindo todo o sistema financeiro em todo o mundo. Nos EUA cerca de 7 milhões de famílias  perderam seus imóveis ou cerca de 30 milhões de pessoas; foi um dos maiores movimentos de transferência de direitos de propriedade privada na história americana. A acumulação por espoliação - foi como tomar das pessoas seus bens de valor - também aconteceu na Espanha, Irlanda e Leste europeu (um milhão de pessoas perderam suas casas na Hungria). A crise se propaga com queda na demanda por bens, queda na produção, aumento do desemprego, queda de salários etc. aumentando o ciclo.  
      
Para Harvey nos últimos 30 anos o neoberalismo promoveu o capital financeiro, sob sua forma especulativa. Boa parte dos investimentos não foi para a produção, mas para ativos, papéis, ações e quotas de empresas, permitindo que se ganhe dinheiro jogando com o dinheiro.
A pressão em cima de empresas como Petrobrás, Cemig, Copasa e Sabesp é no sentido de abrir mais seu capital, aumentar dividendos aos acionistas, distribuindo mais lucros em vez de mais investimentos produtivos (deu certo para as últimas três). É emblemático a pressão que os neoliberais estão fazendo para abrir o capital da Caixa Econômica Federal (empresa 100% estatal com o menor juros da praça que gerencia programas sociais do governo). Imagine a pressão que vão fazer para distribuir todo o lucro do banco aos acionistas e deixar a empresa com pouquíssimos recursos para investimentos. É o que acontece  quando o sistema financeiro passa a dominar empresas de capital aberto. A Cemig ficou com poucos recursos para investir sucateando boa parte de seu patrimônio. A Sabesp distribuiu R$4 bilhões dos lucros aos acionistas e agora está pedindo R$3 bilhões ao governo federal. Promovendo a desregulamentação, ao invés de se dar uma retomada da expansão econômica, houve uma gigantesca transferência de capitais da esfera produtiva para a especulativa. Porque, como dizia Marx, o capital não está feito para produzir, mas para acumular. Se ele encontra melhores condições — maior retorno, menos tributação, liquidez total — ele se concentra na esfera financeira.

Daniel Miranda Soares. Economista, Msc. Ex-professor e EPPGG aposentado.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Crise em Ipatinga desacelera e inicia recuperação

12 de Dezembro de 2014, por Daniel Miranda Soares


artigo originalmente publicado no Diário do Aço em 10.12.2014 (edição digital e dia 11.12.2014 edição impressa)no  seguinte endereço:  http://www.diariodoaco.com.br/noticia/88100-7/opiniao/crise-do-setor-siderurgico-desacelera-em-ipatinga

A previsão de investimentos do BNDES para o setor siderúrgico cai 46% no triênio 2015/2018 em relação ao triênio 2013/2016. A decisão do BNDES se baseia no elevado índice de ociosidade do parque instalado do setor. “O mercado mundial de aço tem hoje uma ociosidade altíssima, com um Nuci (nível de utilização da capacidade instalada) entre 72% e 74%. No Brasil, o Nuci é de 70%”, comenta Pedro Sergio Landim, do BNDES. O Nuci já foi pior no período pós-crise de 2009 quando chegou a 63%, havendo também um alívio na balança comercial do setor, com as importações de aço caindo de US$ 5,4 bilhões em 2010 para US$ 3,7 bilhões em 2013.  “O mercado de aço é caracterizado, atualmente, por uma situação de sobre oferta e de margens reduzidas, tanto no Brasil quanto no mundo”, afirma Landim.
A capacidade instalada atual no país é de 48,5 milhões de toneladas por ano. Segundo projeção do Instituto Aço Brasil (IABr), o consumo aparente deve somar 24,7 milhões de toneladas este ano, queda de 6,4% com relação ao ano anterior. Para 2015, o IABr espera uma retomada “modesta”, com alta de 4% nas vendas ao mercado interno. O setor vem reivindicando do governo medidas para conter as importações de aço que devem subir 9,7% este ano. Embora o governo já tenha atendido várias reivindicações que resultaram numa queda das importações, mas concorrer com a China é muito difícil - o custo do aço chinês entra aqui mais barato que o aço nacional, embora o aço brasileiro seja competitivo em termos globais.
Ainda há gargalos a enfrentar para diminuir mais os custos brasileiros, tais como: logística, custo energético, dependência de importação de tecnologias, etc. O estudo do BNDES, porém, aponta vantagens que podem contribuir para que a siderurgia nacional possa sair da crise, como o desenvolvimento tecnológico (uso do Tecnored - produção de gusa com maior variedade de insumos; uso do biocoque, carvão vegetal, etc.) e a necessidade de aços especiais para o pré-sal.

     Tudo isso começou com a crise mundial de 2008, atingindo a China - maior produtora mundial de aço - que com a desaceleração da demanda mundial e décadas de expansão desenfreada agora atinge a indústria. A China está com excesso de oferta e tenta desovar sua produção no mercado internacional. Os lucros do setor siderúrgico chinês caíram 98 por cento no ano passado e muitas empresas registraram prejuízo. O governo chinês vai encorajar fusões e fechamentos de usinas obsoletas com o objetivo de aumentar a concentração nas 10 maiores empresas até 2015. Assim o governo chinês não mais vai ajudar as empresas em crise, simplesmente vai deixar que morram.

      A crise do setor siderúrgico brasileiro atingiu em cheio a cidade de Ipatinga, sede principal da Usiminas, a maior siderúrgica nacional. A empresa acumulou um prejuízo de R$598 milhões em 2012, mas recuperou bem em 2013 quando obteve um pequeno lucro de R$17 milhões. A empresa realizou cortes de pessoal e de custos, diversificando suas atividades com a mineração de ferro, mas mesmo assim houve queda de produção (4% em relação a 2012) e sua dívida líquida permaneceu estável. Ipatinga sofre as consequências da crise desde 2011. Dados do CAGED do Ministério do Trabalho (emprego formal registrado em carteira de trabalho) revelam que até 2010, os saldos de emprego (admitidos menos demitidos) foram positivos em Ipatinga, mas de 2011 a 2013 foram negativos em 7858 postos de trabalho na indústria de transformação.
Em Minas a indústria metalúrgica obteve saldos negativos em postos de trabalho no mesmo período: 4362 menos empregos de 2011 a 2013. Mas enquanto a metalurgia mineira registra menos 2179 empregos em 2014 (até outubro), Ipatinga registra mais 717 empregos em 2014, indicando alguma recuperação da indústria de transformação da cidade, indústria esta que nunca sofreu saldos negativos no CAGED desde 2011 em termos de Minas e Brasil.  É claro que a cidade perdeu preciosos postos de trabalho e isso teve consequências no comércio e no setor serviços, afetando os empregos destes setores. Mas a partir deste fundo do poço, com menos massa salarial, a cidade inicia um processo de recuperação incrementando novas atividades em outras áreas, tais como construção civil (+1315 novos empregos) e setor serviços (+1153).

    Durante todo o período de crise a Administração Pública da cidade não sofreu reveses, mantendo o mesmo nível de emprego e o mesmo nível de receitas. Pode-se ver pela contabilidade pública que as receitas correntes do município não caíram em termos nominais, embora tenham aumentado menos que a inflação no período 2011/2012 (2,26%), mas conseguiram aumento acima da inflação em 2013/2012 (8,8%). Em 2014 (até outubro) as receitas totais são maiores do que todo o ano de 2013.
Embora a imprensa tenha dado destaque para a queda de arrecadação do ISS (-25,2% em 2012/2011 e -4,4% em 2013/2012), no entanto a receita deste imposto até agora está sendo maior do que foi arrecadado em 2012 e 16,8% mais que 2013. A recuperação do ISS em 2014 é um sintoma de que a economia do município está em processo de recuperação. Além do mais as receitas próprias do município (ISS, IPTU, taxas, etc.) representam apenas 1/6 do total das receitas (nos municípios pequenos estas receitas são menos de 1/10), pois os municípios brasileiros dependem muito de transferências do governo estadual (ICMS via Lei Robin Hood) e do governo federal (FPM, Fundeb, etc.). As transferências não sofreram quedas nominais embora os aumentos tenham sido abaixo da inflação mas foram compensadas com crescimentos maiores dos tributos municipais em 2013/2012 (7,4%) e 2014/2013(10,6%). Enfim a Administração Pública sentiu o impacto da crise, mas manteve-se em equilíbrio, não sofrendo quedas no vermelho.

    Embora a indústria metalúrgica esteja em crise em Ipatinga e em Minas, devido à situação internacional, não se pode dizer o mesmo da indústria de transformação em Minas e no Brasil. Ipatinga é o único dos cinco municípios selecionados pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (Mdic), a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) e a Petrobras para receber um programa de capacitação de fornecedores da indústria de petróleo e gás, longe do mar. “Justamente porque temos uma forte experiência em metal-mecânica”, acrescenta Jeferson Bachour Coelho, dono da Líder Indústria Mecânica, uma das empresas que constroem peças para a indústria naval.
Uma dezena de empresas do município passou a fornecer peças para a cadeia produtiva do pré-sal e recebem apoio de entidades industriais e de agencias de fomento como BNDES e FINEP. Com o aumento da produção do pré-sal que pode ser dobrada até 2020 e a entrada em operação de mais quatro refinarias da Petrobrás (o Brasil não constrói refinarias desde 1980), nossa esperança é que o APL (arranjo produtivo local) desta cadeia produtiva em Ipatinga e Vale do Aço, possa trazer grandes progressos à indústria regional e mineira.

*Daniel Miranda Soares. Economista, Msc.

Dois projetos econômicos em disputa nestas eleições

publicado originalmente no jornal Diário do Aço  http://www.diariodoaco.com.br/noticia/85343-7/opiniao/dois-projetos-economicos-em-disputa-nestas-eleicoes
24/09/2014      

      "O capitalismo é um sistema que, ou cresce, ou morre. As possibilidades de crescimento estão cada vez mais e mais limitadas” disse o prof. inglês David Harvey. E é verdade, o capitalismo não pode parar de crescer, quando pára entra em crise. No século XIX entrava em crise de 6 em 6 anos no período chamado de “liberalismo” quando o Estado (mínimo) não existia para controlar a economia. A partir da grande crise de 1929 (a maior de todas) o Estado aumenta sua participação na sociedade de 7% para 35-45% do PIB no período 1945-75, chamado keynesiano. O Estado aumenta sua intervenção na economia, promovendo reformas sociais, investindo mais em saúde e educação, redistribuindo a renda e melhorando a vida dos trabalhadores. Os salários sobem e aumentam sua participação no PIB, diminuindo a participação dos lucros das empresas. Os capitalistas reagem, aproveitando a crise da década de 1970 e passam a controlar os governos, diminuindo o poder de barganha dos trabalhadores (nos partidos e sindicatos) e aumentando seu poder na sociedade (mídia, intelectuais, partidos, novas instituições). Um novo ciclo se inicia a partir da década de 1980 - o neoliberalismo (a volta do Deus mercado - o mercado livre resolve todos os problemas da sociedade). A partir de Thatcher e Reagan, os governos (EUA e Europa) desregulamentam o sistema financeiro. Os impostos diminuem, criam-se novos títulos, ações e derivativos no mercado, aumentando os lucros e aumentando a circulação financeira de papéis especulativos sem lastros no mundo produtivo - o capital fictício.
        Para aumentar seus lucros o capital financeiro domina as decisões do capital produtivo, transferindo suas fábricas para países onde os salários são muito baixos. Pagando baixos salários os lucros aumentam e o volume de papéis financeiros multiplicam chegando a US$600 trilhões em circulação mundial, nove vezes o PIB mundial. A partir dos anos 1990 e 2000 as condições sociais se deterioram nas matrizes do capitalismo mundial, com aumento do desemprego, fechamento de fábricas, queda dos salários; culminando na bolha imobiliária nos EUA em 2007/8. A criação fictícia de novos papéis se multiplicam tanto que estes papéis não se realizam na ponta do sistema - os devedores (detentores dos “subprimes”) não conseguem pagar suas dívidas e a quebradeira acontece como bola de neve até atingir os bancos. Mas mesmo depois da crise o capital financeiro ainda sobrevive com ajuda dos governos que jogam bilhões no mercado para cobrir o rombo do capital especulativo - socializando o prejuízo. O capitalismo financeiro cresce concentrando a riqueza e aumentando a pobreza - essa dominância do capital fictício deprime o investimento e impõe um ritmo de crescimento muito baixo e elevadas taxas de desemprego - ao contrário do período keynesiano quando os investimentos e o crescimento econômico eram elevados e o desemprego muito baixo. Procuram novos mercados no Terceiro Mundo, forçando os  governos a abrir o capital de  suas estatais, como por exemplo CEMIG e COPASA, onde boa parte de seus acionistas são estrangeiros.
     Os paraísos fiscais são suas novas formas de expansão. No universo corporativo mundial uma rede de 737 grupos controla 80% do mundo corporativo, dos quais um núcleo mais restrito de 137 grupos controla 40%, sendo que 75% deles são grupos financeiros. Um estudo conduzido por James Henry, antigo economista chefe da consultoria McKinsey, estima que entre US$ 21 trilhões e US$ 32 trilhões estão guardados em paraísos tributários. Isso equivale à cerca de um terço à metade do PIB do planeta.Os paraísos fiscais se multiplicam como coelhos. Hoje, são mais de sessenta (Bahamas, Ilhas Cayman, Bermudas, Suíça, Mônaco, Luxemburgo, etc...) Atualmente eles servem para sediar novas empresas e fundações ou para virar “matrizes” em que todo o lucro é contabilizado ali, independentemente se o dinheiro é gerado fisicamente em outro lugar. Eles fogem do fisco elevado dos países de origem e vão para os “paraísos fiscais” onde a taxação do fisco é baixíssima (em Luxemburgo é de 0,5%).
      A transferência de lucros dos países de origem para os paraísos fiscais normalmente envolvem sofisticadas operações financeiras. Tomemos, por hipótese, o caso de uma máquina fabricada na França e vendida ao Equador, por meio das Bermudas. O preço de venda no Equador é de 2 mil dólares; os custos de produção, mil dólares. A filial das Bermudas paga à filial francesa 1.001 dólares pela máquina, que é faturada em seguida à filial equatoriana por 1.998 dólares. A companhia francesa obtém, portanto, um dólar de lucro (1001-1000 = 1); a subsidiária equatoriana, 2 dólares (2000 – 1998 = 2), o que gera muito pouca receita tanto para o Estado francês como para o Estado equatoriano. Já a filial das Bermudas realiza um lucro de 997 dólares (1998 – 1001 = 997), que não é tributado. E pronto! Aí está como desaparece uma nota fiscal! (Nicholas Shaxson - autor de um livro sobre paraísos fiscais). 
        Os paraísos fiscais possibilitam sonegar impostos, certamente, mas também fugir às responsabilidades civis e sociais. Eles isentam os ricos e as grandes empresas das restrições, dos riscos e das obrigações que a democracia exige de cada um de nós. Com este sistema ganham os muito ricos e as grandes corporações (80% do comércio internacional ocorre entre multinacionais), e perdem os contribuintes e os governos dos países. Ameaçam a soberania dos países e impedem a justiça tributária, condição necessária à justiça social. Mas, apesar de tudo isso, não rendem manchetes na imprensa brasileira.
      “Hoje o Brasil tem sua economia travada pela ação predatória e anti-social do sistema financeiro, que prefere colocar seus capitais na Bolsa de Valores e nos paraísos fiscais, ao invés dos investimentos produtivos que o pais necessita.” (Emir Sader). No Brasil estima-se que cerca de um quarto do PIB estão em paraísos fiscais, segundo o Tax Justice Network. Os capitais não se dirigem para um projeto desenvolvimentista (democratização social, combate à desigualdade, à miséria e à pobreza). Eles preferem sabotar esse projeto e permanecer na esfera especulativa. Uma eventual vitória de um candidato neoliberal (Aécio ou Marina) significaria o fortalecimento do capital financeiro sobre a economia, atentando fortemente contra o processo de distribuição de renda do governo atual. A opção brasileira foi a de resguardar as conquistas sociais e manter a economia a fogo brando até que a crise se extinga. Governos neoliberais (vide EUA, Europa) significam desemprego alto, salários reduzidos, dívidas impagáveis, perdas de moradia, aumento da pobreza e da miséria; exatamente porque o mercado livre (do controle do Estado) não resolve as questões sociais. No Brasil estas duas correntes estão em luta permanente: desenvolvimentismo (keynesiano) X neoliberalismo (capital financeiro). David Harvey, um dos maiores nomes do pensamento geográfico da atualidade, formado em Cambridge, professor britânico, disse recentemente: "A América Latina, em geral, está dando um exemplo ao tratar de reverter alguns dos piores aspectos do neoliberalismo.”

Daniel Miranda Soares é economista, Msc.