sexta-feira, 5 de abril de 2019

Questões da economia dos países dependentes segundo a Teoria da Dependência,

24 de Agosto de 2018, 19:11, por Daniel Miranda Soares - 
QUESTÕES ATUAIS DOS PAÍSES DEPENDENTES (Teoria da Dependência segundo o

livro do prof. Mathias S. Luce.)

Vários autores na América Latina e em outros países do Terceiro Mundo, já analisaram as especificidades das economias subdesenvolvidas ou dependentes ou periféricas ou simplesmente economias em desenvolvimento como as economias da América Latina, África, Médio Oriente e Ásia. Existem várias teorias e muitos pontos comuns entre elas. Os economistas da CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina, órgão da ONU sediado em Santiago do Chile, foram uma das correntes que mais desenvolveram estudos específicos. Entre eles podemos citar Celso Furtado, considerado o maior economista brasileiro, autor de vários livros considerados referência teórica e histórica. Sua primeira grande obra Formação Econômica do Brasil, foi um dos primeiros estudos mais aprofundados sobre histórica econômica do Brasil, publicado em 1959. Vários outros autores contribuíram também de forma decisiva para uma melhor compreensão de nossa realidade, entre eles Rui Mauro Marini e Vânia Bambirra. Marini é autor do clássico Dialética da Dependência de 1973, em que introduz uma análise marxista mais profunda sobre estas economias, aproveitando partes de estudos anteriores de outros autores, Ele, Bambirra e Theotônio dos Santos desenvolvem uma análise econômica mais integrada, aproveitando conceitos de Marx e Lenin e aprofundando os estudos das relações entre estas economias periféricas e as economias centrais, afirmando que o desenvolvimento destas economias estavam intrinsecamente inseridas dentro das relações entre fôrças produtivas e relações sociais de produção do sistema como um todo….Ou seja, um estudo do todo do sistema capitalistas e suas relações internas e externas. O livro do prof. Mathias Seibel Luce, Teoria Marxista da Dependência – problemas e categorias – uma visão histórica (editora Expressão Popular, São Paulo, 2018), aproveita todas estas análises, focando mais em Marini e desta forma atualiza as questões teóricas relacionadas à Teoria da Dependência.

Os autores aproveitam bastante das tabelas da Cepal para analisar a deterioração dos termos do intercâmbio que os analistas da TMD concebem como transferência de valor como intercâmbio desigual. Duas formas de transferência de valores são fundamentais para manter a dependência dos países periféricos: a deterioração dos termos do intercâmbio e a remessa de lucros, juros, royalties e dividendos. Aqui vai uma crítica contundente aos cepalinos: eles pregavam que a industrialização dos países dependentes seria uma solução por excelência para superar o subdesenvolvimento e a dependência. Para os autores da TMD existem quatro formas para a transferência de valor como intercâmbio desigual: 1) deterioração dos termos do intercâmbio; 2) o serviço da dívida (remessa de juros) como dependência financeira; 3) remessas de lucros, royalties e dividendos (como dependência tecnológica) por não controlarem as tecnologias e meios de produção necessários para uma série de mercadorias produzidas; 4) apropriação da renda diferencial e de renda absoluta de monopólio sobre os recursos naturais…. As transferências de valor provocam a reprodução ampliada da dependência, que mudam de forma e de grau historicamente, mantendo a dependência como elemento estrutural destas sociedades…

Por que a industrialização não promove o desenvolvimento dos países periféricos? Segundo a TMD, define-se como industrialização orgânica aquela que irradia os avanços de produtividade para o conjunto dos ramos e setores da produção e que desenvolve e complexifica a atividade industrial seja no setor I, seja no setor II (bens de capital)….Nossa industrialização não é orgânica ….nos países dependentes o setor I depende da importação de bens do setor II dos países avançados, por meio do mercado mundial, portanto depende também tecnologicamente destes setores, transferindo valores para isso. Os bens de consumo produzido pelos países dependentes são muitas vezes de consumo suntuário ( bens mistos como os automóveis) – bens de luxo. O traço característico da economia dependente é sua tendência a divorciar a produção das necessidades de consumo das amplas massas. A expansão da produção suntuária foi realizada à custa de um forte desequilíbrio intersetorial. No âmbito interno das sociedades latino-americanas foram se criando massas cada vez mais numerosas que se encontram excluídas do gozo dos frutos desse tipo de desenvolvimento. Em 1972, segundo a ONU 43% da população percebiam rendimentos inferiores a 180 dólares; e 27% da população total recebiam rendimentos inferiores a 90 dólares ao ano vivendo em situação de “indigência”. OU SEJA APENAS 30% DOS LATINO-AMERICANOS PARTICIPAVAM DOS FRUTOS DO PADRÃO DE DESENVOLVIMENTO QUE NOS FOI IMPOSTO. (Rui Mauro Marini).

Enfim, a distribuição intersetorial do valor pendeu para o lado que não possui a capacidade de irradiar efeitos para o restante da economia , ocorrendo a fixação da mais-valia extraordinária no subsetor produtor de bens suntuários e não sua conversão em mais-valia relativa, em que seu movimento seguiria o curso normal da tendência ao nivelamento da taxa de lucro.
É assim que uma contradição inerente à produção capitalista assume formas específicas nas economias dependentes. Segundo o prof. Mathias, uma outra característica das economias dependentes é a superexploração do trabalho. Ele analisa que mesmo com aumento de produtividade, o capital nestas economias ainda dispõe de outras formas para aumentar a exploração do trabalho, como p.ex.: 1) pagamento da força de trabalho abaixo de seu valor; 2) o prolongamento da jornada de trabalho além dos limites normais; e 3) o aumento da intensidade além dos limites normais. Um exemplo do primeiro é que em junho de 2017, o salário mínimo (SMN) era de R$937,00 (o oficial); enquanto que o salário mínimo ideal calculado pelo DIEESE estava em torno de R$3.727,00; ou seja quatro vezes o salário mínimo oficial. No segundo, geralmente a jornada de trabalho nos países dependentes é sempre maior do que a dos países avançados, além dos trabalhadores se submeterem a jornadas maiores que a jornada legal. Exemplo do terceiro é p.ex. na indústria automobilística mesmo quando houve aumento de produtividade (37 carros produzidos por hora em 1997 para 74 veículos por hora em 2005) como saber o quanto desse aumento se deve a maior composição técnica ou a maior intensidade? Em um desses anos 6 mil operários da GM foram afastados temporariamente por doenças laborais, representando 30% da fôrça de trabalho da empresa – é uma prova irrefutável da superexploração mediante aumento da intensidade. Isso sem falar que o aumento da intensidade aumenta também o número de acidentes de trabalho que no Brasil é muito alto. Entre 2002 e 2008 esse número dobrou, passando de 393.000 para 747.663 segundo dados do INSS.

Entre os fundadores da TMD, foi Vânia Bambirra quem mais se dedicou ao estudo das formações sociais, elaborando uma tipologia das fases de desenvolvimento das economias dependentes. Num primeiro momento ela tipificou duas configurações históricas comuns a América Latina. A primeira formações dependentes-exportadoras, que marcaram a economia da região desde as rupturas das ex-metrópoles e a formação do mercado mundial, que vai de meados do séc. XIX até o início do processo de industrialização (finais do séc. XIX), quando estes países dependiam basicamente de exportação de produtos primários (minerais e agrícolas) para satisfazer demandas em crescimento dos países avançados. Depois como formações dependentes-industriais, naqueles países que passaram por um processo de industrialização, nos marcos da condição de dependência. Na fase industrial, ela estabeleceu três tipos: tipo A, países que iniciaram a industrialização a partir das últimas décadas do séc. XIX e desdobraram-no a partir da crise de 1929: Brasil, México, Argentina, Chile, Colômbia e Uruguai.; tipo B, países que iniciaram seu processo de industrialização a partir da Segunda Guerra Mundial, controlado pelo capital estrangeiro monopolista; e tipo C, países que não atravessaram um processo de industrialização propriamente dito, embora possam abrigar indústrias. Para Bambirra apenas os países tipo A houve um conjunto de transformações que levou ao surgimento de uma burguesia vinculada ao mercado interno. Esta tipologia da industrialização dependente é complementada pela abordagem do padrão de reprodução do capital, esboçado por Marini e Jaime Osório. De acordo com Jaime Osório existiram e existem quatro padrões: 1) padrão agromineiro-exportador; 2) padrão industrial internalizado; 3) padrão industrial na fase de integração ao capital estrangeiro; e 4) novo padrão exportador de especialização produtiva.

O Padrão industrial Internalizado vigorou entre 1930 e meados de 1950 nas economias tipo A. No Brasil já a partir de 1931. Com a diminuição dos laços de dependência entre as crises de 1929 e a 2ª G.M começa a produção de produtos industriais indisponíveis no mercado mundial, com a produção industrial voltada para o mercado interno, e consequente afirmação hegemônica de uma burguesia industrial e atuação estatal a seu favor. O Estado atua criando a Petrobrás, a siderúrgica CSN, a CHESF enfim, bens intermediários necessários ao processo industrial e já no ano de 1957 a indústria supera a agropecuária no PIB. Esse modelo se esgota e a partir de meados dos anos 1950, fazendo emergir uma nova cisão que se materializa sob o padrão industrial diversificado na fase de integração ao capital estrangeiro . Tendo necessidade de passar a nova fase de industrialização para produzir máquinas e equipamentos, setor II, o Estado e o capital industrial se associa ao capital estrangeiro que assim acelera a monopolização e controle da indústria manufatureira pelo capital externo nos ramos mais dinâmicos. Esse desenvolvimento associado e integrado ao imperialismo promove redistribuição regressiva da renda; incremento da superexploração em suas diversas formas; incremento das transferências de valor nas formas das remessas de lucros, royalties e dividendos e do serviço da dívida, a qual no início dos anos 1980 assumiria dimensões explosivas, marcando o fim deste padrão de reprodução com o acontecimento chave que foi a crise da dívida.
Entre os anos 1980 e 1990 teve origem a um novo padrão exportador de especialização produtiva que vigora até hoje. Esse novo padrão marcou o fim do padrão industrial em suas diversas etapas (internalizada e autônoma; diversificada) que prevaleceu na AL entre as décadas de 1940 e meados da de 1970 nas principais economias. O novo padrão exportador implicou uma destruição importante de indústrias ou seu reposicionamento no sistema geral global do capitalismo e caracteriza-se pela desindustrialização. A desindustrialização e a permanência de algumas indústrias relevantes estão subordinadas a um novo projeto exportador no qual os eixos exportadores constituem segmentos de grandes cadeias produtivas globais sob o controle de grandes empresas transnacionais. Os principais mercados deste novo padrão de reprodução encontram-se no exterior. A especialização produtiva tende a apoiar em alguns eixos de exportação: agrícolas, minerais, industriais (com produção e também atividades de montagem ou maquila) e de serviços. Exemplos: produção de petróleo e derivados, soja, minério de ferro, cobre, montagem de automóveis com graus diversos de complexidade, maquila eletrônica, call center, etc. O novo padrão reedita novos enclaves na medida que concentra o dinamismo da produção em poucas atividades, sem estabelecer relações orgânicas com o restante da estrutura produtiva, sendo o salários e impostos o porte fundamental à dinâmica da economia local. No novo padrão, estes novos eixos de exportação não obedecem a projetos nacionais de desenvolvimento, sendo o capital mundial o que define que nichos privilegiar e impulsionar nas economias específicas. Neste novo contexto a industrialização com produção local e necessidades nacionais não existe para as grandes corporações multinacionais.

DESINDUSTRIALIZAÇÃO E GLOBALIZAÇÃO. CHINA – A FÁBRICA DO MUNDOA acirrada competição entre fabricantes de automóveis, levou várias destas empresas a instalarem suas fábricas na China, para usufruir de vantagens relativas no mercado mundial (baixos salários e baixos preços do capital constante), elevando assim suas taxas de lucro. Companhias como a General Motors fecharam suas fábricas em Detroit e a transferiram para a China. Se em 2007 o lucro obtido pelas 17 maiores empresas de automóveis provinham em 30% da China, Brasil, Rússia e Índia, em contraste com 22,5% oriundos da América do Norte, 36,5% da Europa e 12% do Japão e Coréia do Sul; em 2012, o primeiro grupo de países passariam a representar 57% do total ( sendo China mais da metade da cifra do grupo), América do Norte responderia por 42,5%, a Europa teve crescimento negativo de -1% e Japão e Coréia do Sul apenas 1%. Capitais migram e se redistribuem a nível mundial para ultrapassar suas margens de lucro.

No final do livro o professor expõe um resumo teórico do pensamento dos autores que analisou sob a perspectiva marxista (incluindo sua própria contribuição teórica) e conclui, entre outros pontos, por exemplo sobre a BURGUESIA LATINO AMERICANAA burguesia latino-americana por seu caráter dependente, associado e integrado ao imperialismo, baixa a cabeça para os de cima e pisa redobrado nos de baixo. Seu poder repousa em uma exploração redobrada, uma superexploração da fôrça de trabalho como mecanismo de compensação, produzindo um divórcio entre a estrutura produtiva e as necessidades das massas.. Ela não põe em risco seu privilégio de classe e as estruturas de dominação.

SOBRE O SOCIALISMO…. As tarefas democráticas da revolução não se confundem com as tarefas democrático-burguesas…..o caráter da revolução latino-americana – incluindo o Brasil – deverá ser anti-imperialista e socialista, realizada pela classe trabalhadora urbana e rural, tendo setores da pequena burguesia como seus aliados, e dando voz e poder a toda a diversidade de nossos povos, como as lutas de libertação das mulheres contra o patriarcado, dos negros contra o racismo e dos povos indígenas contra o genocídio cultural. ….também defende a luta pelo meio ambiente e a preservação das condições ecológicas e de saúde geral da população…..para se libertar do imperialismo tem que haver uma política soberana de ciência e tecnologia…. A auto determinação dos povos e a soberania nacional são objetivos da luta anti-imperialista….. o socialismo será nossa segunda independência como emancipação política e emancipação humana…. A superação da dependência é uma meta que se imbrica profundamente com o enfrentamento do próprio capitalismo e suas formas de poder….. por um Brasil e uma América Latina livres do capitalismo e de toda relação de alienação…..são os desafios do século XXI.

Daniel Miranda Soares é economista, ex-professor universitário e mestre pela UFV.

Diálogos de Mr. X no filme JFK de Oliver Stone

27 de Julho de 2018, 20:16, por Daniel Miranda Soares - sem comentários ainda
QUEM MATOU O PRESIDENTE JFK ?  A MELHOR 

RESPOSTA À ESTA PERGUNTA ESTÁ NO FILME

“JFK” DE OLIVER STONE – versão do diretor.

O filme é baseado no livro “On the trail of the assassins” de Jim Garrison e “Crossfire: the plot that killed Kennedy” de Jim Marrs. Em 22 de novembro de 1963, em Dallas o Presidente Kennedy foi assassinado. O governo anuncia   uma comissão para investigar o ocorrido em Dallas, chefiada pelo presidente da Suprema Corte, Earl Warren, para pôr fim a “muitas indagações do Texas e do Congresso”. A Comissão Warren foi criada para ocultar os fatos…. Três anos depois o promotor de New Orleans, Jim Garrison desconfia que as investigações estavam ocultando fatos reais….

A melhor parte do filme é quando o promotor se encontra com um tal de Mr. X, que explica com detalhes porquê o Presidente John Kennedy foi assassinado…. É um resumo de tudo.

ENCONTRO DE GARRISON COM MR. X.

Mr. X:….. tudo que direi é confidencial…. Não lhe darei meu nome e quem represento…. Fui soldado, lutei duas guerras…. Trabalhei no Pentágono com suprimentos de armas : aviões, balas, rifles que chamamos “Black Operations” …. Isto é, assassinatos, golpes de Estado, fraudes eleitorais, propagandas, guerra psicológica. Na Segunda Guerra, estive na Romênia, Grécia, Iugoslávia,. Ajudei a resgatar parte da inteligência nazista e os usávamos contra os comunistas. Na Itália, em 1948, roubamos as eleições. Em 49 na França, acabamos com as greves. Depusemos Quirino nas Filipinas, Arbenz na Guatemala, Mossadegh no Irã, Vietnã em 54, Indonésia em 58, Tibete em 59 expulsamos o Dalai Lama. Éramos bons. Muito bons. Daí nos envolvemos com Cuba. Não fomos muito bem. Preparamos uma invasão em outubro de 62 Khrushchev mandou mísseis e Kennedy não invadiu. Ficamos a ver navios. Muita gente se aborreceu, Sr. Garrison. Entende ? Vou voltar a esse ponto. Então em 1963, passei quase todo o mês de setembro trabalhando no plano de Kennedy em tirar o pessoal do Vietnã lá pelo final de 1965. Um dos planos concebidos pelo governo Kennedy o documento de Segurança Nacional 263 mandava de volta as primeiras mil tropas. Mas, em novembro, uma semana após o assassinato de Diem e duas antes do assassinato de Kennedy algo estranho me aconteceu…

Fui enviado pelo meu superior o qual chamávamos general Y para o Polo Sul. ….Estava voltando na Nova Zelândia, quando Kennedy foi morto. …. Oswald foi incriminado às 19:30 hs pelo assassinato de Tippit. Na Nova Zelândia eram 14 horas mas seus jornais já tinham a história toda daquele desconhecido Oswald. Foto de estúdio, biografia, sua vida na URSS e “temos certeza que agiu sozinho.”… apesar de levarem mais 4 horas para culparem-no pelo crime. Parecia que montavam uma fraude. Como costumávamos fazer. …...ao voltar me perguntei: “Por que eu, chefe de Operações Especiais fui enviado ao Polo Sul quando qualquer outro poderia ter ido ?” Imaginei que fosse porque um de meus deveres, em Washington seria o de enviar seguranças a Dallas…… descobri que alguém naquele dia ordenou à inteligência do 112º batalhão em São Houston para ficarem estacionados…. Acredito que seja um erro…..Mesmo se ele andasse em carro aberto colocaríamos no mínimo centenas de agentes na rua sem pensar…...Nunca permitiríamos janelas abertas na Dealey. Nossos atiradores cobririam a área e localizariam tudo. Observaríamos a multidão, pacotes, casacos, ninguém abriria um guarda-chuva. A limusine nunca andaria devagar ou entraria naquela curva fora de propósito . Teriam sentido a presença do Exército naquele dia. Mas nada disso ocorreu. Foram violados códigos básicos de proteção e essa é a melhor indicação de uma conspiração em Dallas. …..

Quem teria feito isso ? Gente da minha área. Nesse dia, havia agentes do Exército em Dallas não sei quem ou por que mas não protegiam clientes. Além disso, o Exército tinha a ficha completa de Lee Oswald. Essas fichas foram destruídas. Coisas estranhas aconteceram…. E Oswald nada teve com isso. …. O gabinete do Presidente estava no Extremo Oriente. Um terço da divisão de combate voava da Alemanha sobre os EUA no momento do crime. Às 12:34 hs , o sistema telefônico de Washington pifou durante uma hora. No avião que voltava a Washington informaram a Johnson por rádio que houvera um só assassino. … Coincidências Sr. Garrison ? Não por um momento. O gabinete estava fora de ação. As tropas estavam no ar. Os telefones, bloqueados, para deter as histórias indesejadas. Nada foi deixado ao acaso. ELE NÃO PODIA ESCAPAR VIVO... As coisas nunca mais foram as mesmas. …… O Vietnã começou para valer, havia uma atmosfera de encenação no Pentágono e na CIA. Nós sabíamos que a Comissão Warren era uma ficção. Mas havia algo mais profundo horrível. Eu conheci Allen Dulles. Era um de seus informantes. Por que logo ele investigaria a morte de Kennedy, o homem que o despediu ? Aliás, ele era conselheiro do General “Y”. Licenciei-me em 64. Renunciei ao meu posto.

Garrison: “não sabia que Kennedy era tão perigoso para o “establishment.” Foi por isso ? “

Mr. X: “é a verdadeira questão não é? Por quê ? “ O como e quem é só cenário para o público….. Oswald, Ruby, Cuba, a Máfia o distraem…. Evitando que a pergunta básica seja feita.: Por que Kennedy morreu ? Quem se beneficiou ? Quem tem o poder de ocultar ? Quem ?

Em 1961 logo após a Baía dos Porcos poucos sabiam que eu ajudara nos memorandos de Segurança em 55, 56 e 57. Esses documentos eram confidenciais. Neles, Kennedy diz ao general Lemnitzer, da Junta Militar que dali em diante a Junta seria totalmente responsável por todas as ações paramilitares em tempos de paz. Isso encerrava o reinado da CIA. “Estilhaçado em mil peças” como J.F.K. prometera. E agora ele exigia a ajuda dos militares. Isso era inédito!. Não imagina as reações que se deram nos corredores do poder. Além da demissão de Dulles , Richard Bissell e o general Charles Cabel. Todos figurões da inteligência desde a Segunda G. Guerra. Muitos se irritaram. As diretrizes de Kennedy não foram implementadas por causa da resistência burocrática. Mas um dos resultados foi que a Operação Cuba passara para o meu departamento como Operação Mangus. Foi serviço da “Operações”. Secretamente baseado no campus da universidade de Miami. Que tem a maior agência americana da CIA, com verbas anuais de centenas de milhões de dólares. Trezentos agentes,, 7000 cubanos treinados, 50 empresas de fachadas para lavagem de dinheiro. Lutavam ininterruptamente contra Fidel. Sabotagem industrial, queima de colheita, tudo. Tudo sob o comando do general Y. O que ele fez foi trazer os negócios escusos para cá. Agora ele tinha gente, bases, equipamentos e motivação. …. E não subestime os cortes de verbas exigidos por Kennedy em 63, Perto de 52 instalações militares em 25 estados e 21 bases ultramarinas. Muito dinheiro. Sabe quantos helicópteros foram perdidos no Vietnã ? Perto de 3 mil. A Bell os fabrica. Quem é o dono ? Ela estava quase a falência quando o Banco de Boston pediu à CIA para usá-los na Indochina. E o caça F-111 ? General Dynamics, de Fort Worth, Texas. Quem é o dono ?

A verba para a defesa, desde o Vietnã, chega a US$100 bilhões. Ainda será gasto o dobro. Em 1949 eram US$10 bilhões. Sem guerra, não há dinheiro. O princípio de organização de qualquer sociedade é para a guerra. A autoridade do Estado sobre a sociedade reside em seu poder de guerra. KENNEDY QUERIA O FIM DA GUERRA FRIA EM SEU 2º MANDATO.Parar com a corrida à Lua e colaborar com os russos. Assinou um tratado pelo fim dos testes nucleares. Negou-se a invadir Cuba em 62, e quis tirar os EUA da guerra do Vietnã. MAS TUDO TERMINOU EM 22 DE NOVEMBRO DE 1963. Desde 1961 sabiam que JFK não lutaria no Sudeste Asiático. Como César, estava cercado de inimigos. Todos sabiam de uma trama, mas não se sabiam quem. …...Há dinheiro em jogo. Muito dinheiro. US$100 Bilhões. ….. Não foi dito: “ele deve morrer.” Não houve votação ou notas. Não há ninguém para culpar. Tão antigo como a crucificação. Ou o pelotão de fuzilamento. Cinco balas, quatro de festim. Ninguém é culpado.. Todos na estrutura do poder. Tem negativas plausíveis. Não há ligações comprometedoras., exceto em assuntos secretos. Mas tem que dar certo.. Não importa quantos morram ou quanto custe. Os conspiradores devem vencer. E nunca se sujeitarem a qualquer processo. ISSO É GOLPE DE ESTADO. Kennnedy anuncia a viagem ao Texas em setembro. Nesse momento falsos Oswald aparecem em Dallas. Onde tiras e o prefeito são controlados. O Gen. Y envia os assassinos. Talvez da base da CIA da Grécia. Profissionais. Talvez fossem locais, cubanos ou a Máfia. Equipes separadas. Importa quem disparou de cima do prédio ? Parte do cenário. Fico pensado naquela terça, 26 de novembro um dia após o sepultamento de Kennedy….
Senhores, não permitirei que o Vietnã faça o mesmo que a China. Estou empenhado em não tirar os soldados de lá, pois temos negócios na Ásia. ….Lyndon Johnson assina o memorando de Segurança 273 que reverte a política de Kennedy. E aprova ações contra o Vietnã do Norte provocando o incidente de Tonkin. Se eu for eleito, darei a vocês a guerra. Aquele documento autorizou a Guerra do Vietnã.

Garrison: não acredito que ele foi morto porque quis mudar as coisas… em nosso tempo! Em nosso país!….

Mr. X: sempre fizeram isso. Reis são mortos. Política é poder, nada mais. Não se influencie por minhas palavras. Pense por si mesmo.

Garrison: a magnitude de tudo isso está além da minha compreensão.. Você testemunharia ?

Mr. X: eu? Testemunhar ? De forma alguma. Eu seria preso e silenciado. Talvez enviado a um hospício. Talvez pior. Você também. Posso lhe dar informações. Observe os eventos, tudo. Vá fundo. Você é o único promotor que abriu um processo. Isso é importante. É histórico.

Garrison: ainda não abri. Não tenho provas suficientes.

Mr. X: não tem mais escolhas. Você é uma grande ameaça para esta estrutura burocrática. Já teria matado. Mas a mídia o destacou. Tentarão agora destruir sua credibilidade. E já tem muitos nessa tarefa. Seja honesto. Sua única chance é abrir um processo. Qualquer coisa. Prenda. Perturbe-os. Busque uma reação em cadeia de depoimentos voluntários. O governo entrará em crise. Fundamentalmente as pessoas acreditam em você. E a verdade está do seu lado, amigo. Espero tê-lo ajudado. ….


EM JANEIRO DE 1961 EM SEU DISCURSO DE DESPEDIDA DO CARGO, O PRESIDENTE DWIGHT D. EISENHOWER JÁ DENUNCIAVA O GRANDE PODER DO COMPLEXO INDUSTRIAL MILITAR….SUA INFLUÊNCIA ECONÔMICA E POLÍTICA E ESPIRITUAL.…. Dizia: “temos que nos prevenir contra as injustificadas aquisições de influências, solicitadas ou não, pelo complexo industrial militar. Nunca devemos deixar que o peso dessa combinação ameace nossas liberdades e o processo democrático….”…. (imagens do ex-presidente Einsenhower citando estas frases aparecem no início do filme).

O filme de Oliver Stone põe a nu o extraordinário poder do complexo industrial militar. Um grande conglomerado de grandes corporações não só da indústria bélica mas também outras complementares e de serviços (bancos incluídos) com intricadas ligações com o governo americano, que possui um orçamento enorme e boa parte dele sigiloso e secreto que investe pesado em pesquisa e desenvolvimento além das compras de armas e serviços. Nada de mercado livre, o que existe é um mercado induzido com forte peso estatal, que vive de guerras e intrigas internacionais…. eles dominam o mundo “livre”, possuem grande influência internacional e hegemônica nas decisões dos países capitalistas e orientam os destinos dos investimentos neoliberais…. Aliás eles adoram o neoliberalismo… uma ideologia que disfarça suas reais intenções “com menos governo e mais mercado”, que na verdade se transforma em menos democracia e mais ditadura das grandes corporações. O capitalismo detesta a democracia, já dizia Noam Chomsky. O poder deste complexo citado, na verdade só promoveu derrubadas de regimes democráticas com apoio a ditaduras sangrentas em diversas partes do mundo, da América Latina, África, Oriente Médio e Ásia.

Daniel Miranda Soares é economista, ex-professor e mestre pela UFV.

“QUEM MANDA NO MUNDO” ? Trechos do livro de Noam Chomsky.

14 de Agosto de 2018, 10:48, por Daniel Miranda Soares - 
QUEM MANDA NO MUNDO” ? Trechos do livro de Noam Chomsky ( ed. Planeta, SP, 2018)

A GUERRA FRIA FOI UMA FARSA..........No pós-guerra, os EUA difundiam uma "versão padrão" de que o primeiro compromisso do governo é garantir segurança CONTRA A AMEAÇA RUSSA..... Depois que a URSS foi extinta o governo americano continuou sua mesma política externa, invadindo e derrubando governos..... em sua "nova política" os EUA TINHAM QUE MANTER SEU ESTABLISMENT MILITAR.... sua "base industrial de defesa" - a expressão se referia à indústria hight-tech, que depende pesadamente de vasta intervenção estatal para pesquisa e desenvolvimento, atuando sigilosamente sob a asa do Pentágono....que os economistas costumam chamar de "economia de livre mercado". (p.191). .....CINQUENTA ANOS DE ENGANAÇÃO E MENTIRAS, o governo admitia-se discretamente que a principal preocupação no Terceiro Mundo não eram os russos, mas antes o que se chamava de "nacionalismo radical", que significava nacionalismo independente, que não estava sob controle dos EUA (dizia documento de Segurança Nacional da Casa Branca, gov. Bush, 1990)..…


NACIONALISMO? SÓ PARA OS EUA….TERCEIRO MUNDO NÃO PODE….. Os EUA defendem o nacionalismo pra eles mesmos, pois a economia americana depende pesadamente de uma substancial intervenção do Estado. (p.192)... Já para os outros do Terceiro Mundo é proibido governos nacionalistas... na América Latina governos nacionalistas tendem a atender os interesses da maioria da população....NÃO PODE!, primeiro tem que atender os interesses dos investidores norte-americanos, enquanto que a América Latina só deve servir para suprir matérias primas... Como as administrações Truman e Eisenhower deixaram bem claro, a América Latina não poderia passar por um "desenvolvimento industrial excessivo" que talvez prejudicasse os interesses dos EUA. (p.193).

ATROCIDADES….. um avião civil da Iran Air voo 655 foi abatido por um missil guiado disparado pelo cruzador norte-americano Vincennes, operando em águas iranianas no golfo Pérsico…. Todas as 290 pessoas a bordo morreram inclusive 66 crianças….é o caso de se perguntar… o que exatamente o Vincennes estava fazendo em águas iranianas ? A resposta é simples: a belonave estava defendendo o grande amigo de Washington, Saddam Hussein, em sua assassina agressão contra o Irã…… dois anos depois o comandante do Vincennes foi agraciado com a Legião de Mérito por “conduta excepcionalmente meritória na execução de extraordinários serviços”… a derrubada do avião não foi mencionada na cerimônia…. O Presidente Ronald Reagan culpou os iranianos pelo desastre e defendeu as ações do navio de guerra, que “seguiu ordens padrão e procedimentos amplamente divulgados, disparando para se proteger contra um possível ataque”. (p. 204).

ALÉM DA CRISE DOS MÍSSEIS CUBANOS…. Houve outras ocasiões próximas de uma eventual guerra nuclear….. em 1983, arquivos recentemente divulgados revelam que a situação era mais grave do que se supunha os historiadores…. Um estudo da CIA intitulado “O temor da guerra era real” concluiu que a inteligência dos EUA subestimou as preocupações com a Rússia e a ameaça de um ataque nuclear preventivo soviético… motivo: o governo Reagan lançou operações para sondar as forças aéreas soviéticas por meio da simulação de ataques aéreos e navais e de um alerta nuclear de alto nível, concebido para ser detectado pelos russos….Washington estava posicionando mísseis estratégicos Pershing II na Europa, a cinco minutos de tempo de voo de Moscou….. O protocolo das Forças Armadas soviéticas era retaliar lançando seu próprio ataque nuclear. Felizmente, o oficial no comando, Stanislav Petrov, decidiu desobedecer às ordens e não comunicar os alertas aos seus superiores. Ele recebeu uma reprimenda oficial. E graças a essa negligente falta de cumprimento do dever, ainda estamos vivos para falar a respeito. (p.229).

OS EUA SÃO O PRINCIPAL ESTADO TERRORISTA DO MUNDO….(cap.17 e seguintes). Na cultura politica ocidental, torna-se como algo natural e adequado que o Líder do Mundo Livre governe um Estado bandido terrorista e proclame abertamente sua excelência nesse tipo de crime. Em 14 de outubro de 2014, a reportagem de primeira página do jornal The New York Times trazia um estudo elaborado pela CIA examinando operações terroristas de grande envergadura comandadas pela Casa Branca e realizadas ao redor do mundo, em um esforço para determinar os fatores que levaram ao sucesso ou ao fracasso de cada uma delas. E a organização não foi capaz de encontrar muita coisa. ….Em Angola, os Estados Unidos juntaram-se à África do Sul fornecendo o apoio decisivo para a UNITA, o exército terrorista de Jonas Savimbi. Depois que a própria África do Sul já havia retirado seu apoio daquele “monstro cuja ânsia por poder havia impingido ao seu povo um apavorante sofrimento (nas palavras do embaixador britânico em Angola, Marrack Goulding) numa declaração respaldada pelo chefe da CIA na vizinha Kinshasa. O alto funcionário da CIA alertava que “não era uma boa idéia” apoiar o monstro, “por causa da extensão dos crimes de Savimbi. Ele era terrivelmente brutal.
Apesar das amplas e assassinas operações terroristas apoiadas pelos EUA em Angola, forças cubanas expulsaram do país os agressores sul-africanos, forçaram-nos a deixar a Namíbia ilegalmente ocupada e abriram caminho para a realização da eleição em Angola…..eleição livre e reconhecida internacionalmente por 800 observadores internacionais, para quem as eleições haviam sido livres e justas, segundo o NYT. …..após sua derrota no pleito Savimbi desprezou o resultado das eleições e continuou a guerra terrorista com o respaldo dos EUA.

As façanhas de Cuba na libertação da África e no fim do apartheid foram enaltecidas por Nelson Mandela quando ele finalmente ganhou a liberdade. Um de seus primeiros atos foi declarar que “durante todos os meus anos de prisão, Cuba foi uma inspiração e Fidel Castro, uma torre de fortaleza…. As vitórias cubanas destruíram o mito da invencibilidade do opressor branco e inspiraram as lutas de massas da África do Sul…. Um ponto de inflexão para a libertação de nosso continente – e do meu povo - do flagelo do apartheid….. Que outro país pode apontar para um histórico de maior altruísmo do que Cuba demonstrou em suas relações com a África?”.

O comandante terrorista Henry Kissinger, ao contrário, ficou “apoplético” diante da insubordinação do “zé-ninguém” Castro, que a seu ver tinha de ser “esmagado”, conforme relatam William LeoGrande e Peter Kornbluh em seu livro Back channel to Cuba fiando-se em documentos recentemente dessegredados e liberados para conhecimento público. Em Cuba, as operações terroristas de Washington foram lançadas com plena fúria pelo presidente Kennedy e seu irmão para punir os cubanos por terem derrotado a invasão da baía dos Porcos orquestrada pelos EUA. Essa guerra terrorista não foi café pequeno. Envolveu a participação de 400 norte americanos, 2.000 cubanos, uma esquadra privada de lanchas e um orçamento anual de 50 milhões de dólares. A operação foi comandada em parte por uma base da CIA de Miami, violando o Ato de Neutralidade e a lei que proibe operações da CIA dentro dos EUA. As ações incluíram o bombardeamento de hotéis e instalações industriais, o afundamento de barcos pesqueiros, o envenenamento de plantações e rebanhos, a contaminação dos estoques de açúcar para exportação e assim por diante…. (típicas ações terroristas). Algumas dessas operações não receberam autorizações específicas da CIA, mas foram executadas pelas forças terroristas que a CIA custeava e apoiava, uma distinção que é irrelevante e não faz diferença no caso.

Como se revelou desde então, a guerra terrorista (Operação Mangusto) foi um fator de peso na decisão de Khrushchevde enviar mísseis para Cuba e na resultante “crise dos mísseis”, que chegou ameaçadoramente perto de uma guerra nuclear fatal. Deu-se atenção a apenas uma parte ínfima da guerra terrorista: as centenas tentativas de assassinar Fidel Castro, geralmente desconsideradas e tidas como meras traquinagens pueris da CIA. Além disso, nada do que aconteceu despertou muito interesse ou comentários. Em 2010 o pesquisador canadense Keith Bolender, publicou em seu livro Voices from the other side analisando os impactos das ações terroristas sobre os cubanos. Estudo valioso que em larga medida passou em branco e foi ignorado. …. a classe política aceita como normal e adequado que os EUA sejam uma superpotência terrorista, imune às leis e normas civilizadas.

De acordo com as mais importantes agências de pesquisa de opinião ocidentais (Win/Gallup International),o prêmio de “mais grave ameaça” cabe aos EUA, que o mundo considera a mais séria ameaça à paz mundial por larga margem. Felizmente, os norte-americanos foram poupados dessa informação insignificante. Quinze anos atrás o analista político Samuel Huntington alertava em um texto da revista Foreign Affairs, do establishment, que para a maior parte do mundo os EUA estavam “se tornando a superpotência vilã…. A única e maior ameaça externa às suas sociedades”. Suas palavras foram ecoadas por Robert Jervis, presidente da Associação Norte Americana de Ciência Política: “aos olhos da maior parte do mundo, o principal Estado bandido hoje são os Estados Unidos.” …. a opinião global corrobora, por ampla margem, esse juízo.

Daniel Miranda Soares é economista, ex-professor universitário e mestre pela UFV.

O desastre do Neoliberalismo no Terceiro Mundo

12 de Janeiro de 2017, 10:32, por Daniel Miranda Soares - sem comentários ainda
DOIS LIVROS: MESMO TEMA – O DESASTRE DO NEO-LIBERALISMO.

O coreano Ha-Joon Chang escreveu “Chutando a escada” da Editora Unesp e é professor de Cambridge. O norueguês Erik S. Reinert escreveu “Como os países ricos ficaram ricos....e por que os países pobres continuam pobres” da editora Contraponto. Os dois abordam o mesmo assunto. Eles descrevem a história de como os países ditos desenvolvidos conseguiram se desenvolver partindo de estágios mais atrasados, alguns de pobreza mesmo e chegando aos níveis atuais de desenvolvimento. Detalhe: eles fizeram isso protegendo suas indústrias e todo o processo que envolveu suas revoluções econômicas e técnico-científicas. Erik disse que esse protecionismo acontece há mais de 500 anos na Europa do Norte. Outro detalhe importante: ao atingirem os estágios mais avançados de seu desenvolvimento, eles passam a pregar o liberalismo para os outros países.... ou seja, atingindo o topo, chutam a escada.... para impedir que outros países possam segui-los no caminho do sucesso e da riqueza..... pregam a livre concorrência, o livre mercado e o não intervencionismo estatal, como se estas condições por si só propiciassem espontaneamente o desenvolvimento ..... premissas que segundo a teoria econômica são abstratas demais para que possam funcionar na prática…. a hipocrisia é total e está toda armada e desenvolvida em instituições internacionais que fazem a maior pressão em cima dos países mais pobres.... instituições tipo FMI, Banco Mundial, OMC, etc....
Para se ter uma idéia, Erik cita o caso dos EUA, que protegeram com unhas e dentes todo o seu processo de desenvolvimento industrial durante 150 anos : do séc. XIX até o pós-2ª Guerra Mundial .... A partir daí, e principalmente a partir da queda do Muro de Berlim, os EUA e Europa passam a defender o livre comércio internacional, a desregulamentação da economia, as privatizações, o Estado mínimo, queda das barreiras alfandegárias, tarifárias, impostos, etc..… passam a defender o Consenso de Washington, que é uma cartilha detalhada para que os países do Terceiro Mundo possam realizar empréstimos e obter ajuda dos organismos internacionais…...estes princípios se tornam um pensamento único… pregado em todas as instâncias e absorvido totalmente pela mídia dominante.

Um exemplo marcante do fracasso destas políticas neoliberais é o caso da Mongólia. Logo após a queda do Muro de Berlim, o país abriu totalmente sua economia, da noite para o dia, seguindo fielmente os conselhos das instituições de Washington (Banco Mundial, FMI) no sentido de minimizar o Estado e deixar o mercado tomar conta. O meio século de construção da indústria da Mongólia (pós-1940) foi praticamente varrido em apenas quatro anos : 1991-1995. Na maioria dos setores industriais a produção em volume físico caíra mais de 90%. O Plano dos neoliberais do Consenso de Washington foi extremamente bem sucedido em desindustrializar a Mongólia. A indústria havia sido praticamente erradicada, começando pelas mais avançadas. A produção de pão caíra 71% e a produção de livros e jornais, 79% - sem que a população diminuísse. Em poucos anos os salários reais haviam sido cortados quase pela metade e o desemprego era crescente. A taxa real de juros era de 35%, destruindo qualquer possibilidade de investimentos produtivos e favorecendo os investimentos financeiros e especulativos. As únicas indústrias que cresciam era a produção de álcool e as de “penas de estofamento de aves”. Fazer a população recolher penugem de aves não pode ser outra coisa senão a primitivização da economia. Muitas pessoas foram obrigadas a regressar ao seu modo de vida ancestral: o pastoreio nômade. O desemprego em grande escala aumentou a degradação ambiental.

Os países hoje desenvolvidos desde o final do século XV até depois da Segunda Guerra Mundial sempre praticaram (internamente e não abertamente: “façam o que eu digo e não façam o que eu faço”) em política econômica o “culto da indústria manufatureira”, isso significava “plantar indústrias” e para isso criaram duas instituições diferentes: a proteção de novos conhecimentos (via patentes) e a transferência desses conhecimentos para novas áreas, via proteção tarifária. Isto criava e expandia geograficamente os novos conhecimentos mediante estímulo à concorrência imperfeita. Concorrência perfeita e livre comércio só para os pobres…. Enquanto que os efeitos “ruins” da economia estão ligados à concorrência perfeita, os efeitos “bons” da economia estão ligados à concorrência imperfeita. O termo indústria, durante séculos era sinônimo de mudança tecnológica, rendimentos crescentes e concorrência imperfeita….. ao se dedicarem à indústria algumas nações se apossaram dos tipos “bons” de atividade econômica. Esse foi o modelo de sucesso, começando com a Inglaterra de Henrique VII (1485 – protegendo sua indústria têxtil), passando pela industrialização do continente europeu e dos EUA, o Império Meiji no Japão (quando o governo japonês cria políticas abrangentes para industrializar o país a partir de 1860) até os mais recentes sucessos de Coréia e Taiwan. Todos se tornaram ricos da mesma forma, por meio de políticas que protegeram suas atividades manufatureiras. Além desses países, nenhum outro conseguiu se desenvolver no período pós-2ª G.M., em mais de meio século…. Nenhum outro se tornou desenvolvido…. Alguns conseguiram uma industrialização instável, capenga e dependente: mas não conseguiram um desenvolvimento autônomo e singular e por isso continuaram sendo subdesenvolvidos.

E o livre comércio, o Estado mínimo e a concorrência perfeita ? Só funciona entre os países que já atingiram níveis semelhantes de desenvolvimento econômico e social. No entanto o comércio livre entre países com estágios muito diferentes de desenvolvimento sempre foi um desastre para os mais fracos. É como colocar na arena dois atletas de pesos diferentes: p.ex: um peso pesado e um peso pena. Você já sabe o resultado…. Mas o Consenso de Washington trabalhou intensamente para ter a hegemonia do pensamento único de forma a não permitir contestações. Eles controlam instituições, universidades, equipe técnica dos bancos, mídia, intelectuais…e até as elites do Terceiro Mundo. Até hoje, apesar das várias crises sofridas pelas economias neoliberais, é muito difícil contestar o sistema…. Mas sempre existiram contestações e modelos alternativos.
Obs: os dois autores não chegam a analisar a atual fase do capitalismo financeiro ou financeirização da economia, que não dá importância para a indústria. Eles analisaram a indústria enquanto importante elemento histórico no desenvolvimento dos países centrais.
Daniel Miranda Soares é economista e mestre pela UFV.
Artigo publicado originalmente no jornal Diário Popular, edição de 10/01/2017.
http://www.diariopopularmg.com.br/

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

A crise é muito mais política do que econômica

A crise é muito mais política do que econômica

(artigo publicado originalmente no jornal Diário Popular em 15/12/2015, contracapa). http://issuu.com/jornaldiariopopular/docs/15_12_2015_00_21_03/1?e=4106722/31980345

      A previsão dos analistas de mercado para a economia brasileira em 2015 seria de uma recessão em torno de 0,7% a 1,3% de queda no PIB; em condições normais sem considerar aspectos políticos. As coisas complicaram a partir do resultado das eleições de 2014, em que a oposição não aceitou o resultado das urnas e criou um tremendo impasse político a partir daí. O governo também não soube se proteger e perdeu várias batalhas, principalmente a presidência da Câmara dos Deputados que passou a ditar uma pauta bomba, exacerbando despesas públicas. Os rugidos negativistas da mídia encontraram o parceiro ideal numa oposição obcecada em derrubar Dilma a qualquer preço.A birra da oposição se perpetua e contamina o cenário político e dos meios de comunicação que passam a gerar e exagerar um clima de pessimismo na economia, diminuindo expectativas de investimentos. Para complicar a Operação Lava Jato que investiga corrupção na Petrobrás e sua cadeia produtiva, atinge as maiores corporações brasileiras ligados ao setor:  "Não podemos ignorar o fato de as empresas investigadas não poderem mais operar negócios, terem acesso ao crédito e às licitações. A verdade é que a cadeia de petróleo e gás sofreu um imenso impacto", disse o diretor do Ipea, André Calixtre. Só neste setor há uma queda de 5% no nível de investimentos do país. Segundo a BBC, “os impactos diretos e indiretos da operação poderiam ser de R$142,6 bilhões em 2015 – algo em torno de 2,5% do PIB”. Portanto uma recessão de coisa de 1% negativo pode chegar a menos 3,5;4%. Ou seja a crise política multiplica por 4 a crise econômica. Haveria uma forma de enfrentar a corrupção no mundo do petróleo sem o custo devastador que se apresentou? Muito provavelmente. Moro não pegou uma calculadora ou tudo foi intencional para provocar a recessão?

      Para Marcio Pochmann, ex-presidente da Fundação Perseu Abramo, houve uma opção pela recessão. Para ele, a crise econômica foi construída por uma crise política que se estabeleceu em função do resultado eleitoral. “Nós tivemos um impasse político e tem a ver com a forma como o governo se organizou a partir desse resultado eleitoral. Houve um erro na sucessão no Legislativo que acabou provocando o acirramento dentro da base do governo.  Então, isso resultou num impasse. E essa crise política contaminou a economia. Não aconteceu nada de substancial que justificasse termos uma piora na situação econômica, portanto, no meu modo de ver, é de natureza política.”....  Segundo Pochmann, “ao abandonar a trajetória da política econômica anterior, aceitando o diagnóstico da oposição e passando a governar com o programa dos perdedores, o Brasil terminou por confirmar posteriormente o vaticínio neoliberal. Não há saídas positivas sem a retomada do crescimento econômico, desprendendo-se radicalmente da dominância financeira.”  Para este economista, isso nunca aconteceu nos anos 2000, pelo contrário....se havia piora no quadro internacional, o Brasil negava essa piora e estimulava o crescimento econômico enfrentando o desemprego e a pobreza. Agora há uma outra orientação.

       Para Wilson Cano, professor do Instituto de Economia da Unicamp, estamos em crise há 35 anos: década de 80 - crise da dívida externa e fragilização do Estado; anos 90 - abertura comercial e instauração do neoliberalismo, privatização e valorização cambial que acabou com a indústria nacional. O pior é que não foram só os governos “liberais” que fizeram isso - os governos do PT deram continuidade à dominância financeira neoliberal, a despeito de suas progressistas políticas sociais e de uma nova postura na política externa.  Para este economista a predominância do capital financeiro nas relações econômicas internacionais e a política neoliberal ampliam-se a partir dos anos 80...O capital financeiro passa a dominar o capital produtivo. O capitalismo, com sua predominância financeira, nunca foi tão voraz e irracional, nunca criou tantos miseráveis como hoje, e nunca alimentou e realimentou tantas guerras como nos últimos 30 anos! Soltaram a fera, com a desregulamentação do sistema financeiro, agora, que se cuidem todos…Hoje o mundo trabalha para pagar juros ao capital financeiro internacional em todos os países capitalistas e não é à toa que as dívidas públicas e privadas cresceram exponencialmente e quem ganha é o capital rentista especulativo. Os governos estão cortando gastos com benefícios sociais e educação na Europa para sobrar dinheiro para pagar o capital rentista. No Brasil, as razões da ingovernabilidade são causadas por um orçamento em que os juros da dívida perfazem a metade do orçamento federal e 95% do deficit público. 

      Ainda segundo Márcio Pochmann, a dominância financeira é o maior entrave para o crescimento do país. Enquanto 99% da população tenderão a conviver com a redução nominal do PIB estimada em 745,3 bilhões de reais em 2015, por conta da recessão econômica, o 1% mais rico receberá como ganho financeiro 548 bilhões de reais adicionais devido à alta dos juros. A altíssima taxa de juros (30 meses seguidos de elevação da taxa Selic) inviabiliza o crescimento econômico e eleva o custo do setor produtivo. Dessa forma, a dominância financeira gera recessão econômica e mais inflação. O único ensaio desenvolvimentista que houve nos últimos 20 anos foi durante o segundo mandato do governo Lula (2006-10) quando houve queda brusca dos ganhos financeiros. Nos outros períodos os ganhos financeiros foram sempre maiores que os retornos produtivos:  entre 2011 e 2015, a taxa de retorno das atividades produtivas decresceu 89,7%, em média, o ganho financeiro subiu 39,8% no mesmo período. Com a atual taxa básica de juros praticada insistentemente pelo Banco Central, dificilmente a atividade produtiva obterá retorno positivo, capaz de competir com a dominância financeira.

Daniel Miranda Soares é economista, ex-professor de Economia com mestrado pela UFV.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Um outro olhar sobre a crise : os bilionários americanos corrompem a política

(Artigo revisado e ampliado, originalmente publicado no endereço: http://www.diariodoaco.com.br/noticia/90445-7/opiniao/um-outro-olhar-da-crise-os-bilionarios-americanos-corrompem-a-politica.     Diário do Aço, 18/02/2015. ).

       Pouca gente viu os excelentes documentários da série “Porque Pobreza?” que são exibidos em canais de TV educativos. Um deles é “Park Avenue: Dinheiro, Poder e o Sonho Americano” realizado pelo jornalista Alex Gibney, que analisa com cuidado as relações entre os novos ricos e os novos pobres nos EUA nos últimos 30 anos, tomando como modelo a rua Park Avenue. A rua passa por Manhattan onde ficam os prédios mais luxuosos de Nova York e onde moram bilionários detentores de fortunas financeiras, dos barões das falcatruas aos controladores de fundos de investimentos.  Do outro lado da rua, ao sul do Bronx, fica o distrito eleitoral mais pobre dos EUA com 700 mil pessoas - destas cerca de 40% vivem na pobreza. Aqui, os últimos 30 anos foram bem diferentes do que se viu no Park Avenue de Manhattan. As pessoas viram seus salários diminuirem e o custo de quase tudo chegar às alturas. Eles perderam seus empregos durante a recessão causada pelos banqueiros do outro lado do rio. E acabaram em situação ainda pior do que a geração passada. Neste distrito o desemprego chega a 19%  e algumas famílias tem dificuldades até para por comida na mesa.
       É muito difícil de sair da extrema pobreza nos EUA. Isto quase nunca acontece. Isto é exatamente o oposto do que as pessoas pensam sobre os EUA - a terra das oportunidades. Para Jeffrey Sachs (prof. da Columbia) quando ele era jovem os EUA se orgulhavam de serem uma nação de cidadãos de classe média, com um pequeno grupo de ricos e um pequeno grupo de pobres. Mas nos últimos 30 anos esta relação se inverteu:  a receita pública era divida igualmente entre todos no gráfico 1947-1972 (1% aos super ricos ,10% ricos e 90% destinada ao americano médio). A partir do final dos anos 70, os 90% que estavam na base viram sua pizza ser totalmente devorada pelos 1% do topo - os mais ricos estão ficando com um percentual enorme de todos os ganhos da economia : cerca de 2/3  com os super-ricos, os ricos cerca de 1/3 e a classe média ficando com a menor parte, perto de 1% - invertendo as posições.
       Michael Gross (autor do livro “740 Park Avenue...”) diz que um pequeno grupo de multibilionários, os 1% dos 1% que moram em pouquíssimos lugares em N.York. Entre os prédios mais luxuosos de NY, o nº 740 da Park Avenue moram mais bilionários do que em qualquer outro prédio do mundo. São 31 moradores e cada apartamento tem cerca de 1860m². A maior parte destes são executivos de hedge fund. Dentre os principais moradores encontramos: John Thain (CEO na época da derrocada Merril Lynch); Ezra Merkin que trabalhou para Bernie Madoff; David Koch (o mais rico do prédio) ; Steve Schwartzman (foi executivo do Lehman Brothers); entre outros.
      O prof. Jacob Hacker (cientista político da Univ. de Yale) afirma que a gigantesca acumulação de riqueza não tem a ver só com o trabalho , mas com os ricos  que usam o sistema político a favor deles. Houve um ciclo que reforçou isso. Eles investiram em políticas que os favoreceram e ainda reinvestiram esse dinheiro na política. Para entender até que ponto o dinheiro influencia Washington, Gibney contatou o símbolo máximo da corrupção - o ex-lobista Jack Abramoff (ficou 4 anos na cadeia), que diz : “.... hoje os congressistas usam os serviços dos lobistas para redigirem os projetos de lei no esboço exato do que eles querem e isso envolve pagamento em dinheiro. As campanhas políticas custam milhões e quem tem dinheiro pede algo em troca. ... Eu fazia assim e eu sei o que fazia” -  afirma o ex-lobista.
       Mas quando tudo isso começou ? Quando os ricos começaram a controlar Washington ? Segundo o prof. Hacker de Yale tudo tem a ver com a mobilização dos empresários que ocorreu nos anos 70.  Os empresários seguiram os conselhos do futuro juiz da Suprema Corte, Lewis Powell que fez um memorando muito convincente para a Câmara do Comércio determinando que os empresários se unissem, basicamente contra os reformistas e o poder político dos trabalhadores e líderes de massa como Ralph Nader. Ele pediu que as grandes corporações se esforçassem mais para moldar a política americana e as leis. E os empresários o atenderam. O poder lobista dos empresários cresceu vertiginosamente a partir dos anos 70  Eles investiram quantias enormes na política. O resultado foi o fim das políticas que beneficavam as classes médias e os pobres dando início às políticas a favor dos ricos. O lobby era uma indústria de US$400 milhões nos anos 80  e hoje é uma indústria de $4 bilhões.
      Jeffrey Sachs (prof. da Columbia) : “Um exemplo da influência que os bilionários podem ter no governo é algo no código tributário chamado de “provisão de juros transitados”. Operadores de hedge fund e  private equity como Schwartzman pagam 15% de impostos sobre sua renda.... os empresários mais ricos são taxados em um percentual menor do que o mercadinho da esquina”. Os democratas tentaram acabar com estes juros, mas não conseguiram. Por quê ? A influência dos bilionários corromperam também os democratas: esse é o exemplo perfeito de como o dinheiro manda na política americana hoje em dia.
      E nenhum dinheiro manda tanto quanto o de David Koch e seu irmão Charles. Esse magnata de direita é o morador mais rico do Park Avenue 740. Juntos, eles influenciam a política americana mais que qualquer outra pessoa. Doaram milhões a grupos de reflexão de direita (CATO Institute, Ayn Rand Institute, Capital Research Center, Mercatus Center,  etc.)  Financiaram Universidades, programas que promovessem a desregulamentação. Para eles o modelo ideal é um mercado livre de impostos - o supra sumo do paraíso em sociedade. Ofereceram grande apoio financeiro ao movimento Tea Party. que divulga muito as idéias de Ayn Rand que disse em 1959: “eu me oponho a todas as formas de controle, sou a favor de uma economia livre e sem regulamentações”. No mundo de Rand quem precisa de ajuda é um vagabundo ou um parasita. Quem quer ajudar os outros é um vilão. Seus heróis tem orgulho de serem os mais egoístas possíveis. Perguntaram a Ayn Rand : “você não gosta do mundo altruísta em que vivemos” ? Resposta: “dizer que não gosto é pouco, eu o considero um mal”. Para eles ser ganancioso é bom, o individualismo é prioridade em relação aos interesses da coletividade. Eles não aceitam a idéia de que se você é pobre e sua educação é ruim, você não tem a mesma oportunidade de competir que os ricos. Parece que os ideais da direita americana foram copiados pela direita brasileira - vide oposição que fizeram ao Bolsa Família, às cotas para universidades e a outros programas de distribuição de renda.
       Quase todos concordam que  educação é a chave para a  ascensão social, mas a universidade está cada vez mais inalcansável. O custo subiu mais de 500% desde 1980 - sem um diploma universitário é muito mais difícil conseguir trabalho. Com 12 milhões de americanos desempregados os programas de educação e treinamento estão sendo cortados por ambos os partidos em troca do corte de impostos para os ricos. Tim Smeeding (Instituto de Pesquisa e Pobreza) :  “1 em cada 7 americanos recebem vales-alimentação. Mais da metade são crianças e idosos: 41% deles moram em abrigos”. Como não conseguem emprego eles precisam da rede de proteção. Paul Ryan, estrela do Tea Party, quer cortar em 134 bilhões o programa de vale-alimentação nos próximos 10 anos - sem estes recursos a rede de proteção seria destruída - para ele a rede de proteção é uma rede de dormir. Ou seja, bolsa de ajuda para os pobres é Bolsa Vagabundagem como diz também a direita brasileira.
       Para Jeffrey Sachs: “Os impostos são o preço que pagamos pela civilização. Sem impostos não há civilização é simples assim....Os impostos pagos pelos milionários diminuíram mais de 25% nos últimos 20 anos. E para muitas pessoas extremamente ricas os impostos caíram quase 50%.” A maior parte começou no governo Bush. O corte de impostos aumentou a dívida pública americana (o corte de Bush acrescentou 2,9 trilhões) e com a proposta de Paul Ryan a dívida aumentaria para 4,6 trilhões nos próximos 10 anos. A concentração de renda aumentou nos EUA: os CEOs (altos executivos) ganhavam 20 vezes mais que um trabalhador comum em 1965; hoje eles ganham 231 vezes mais. Então, pergunta Gibney, o que está havendo ? Eles estão ganhando mais porque merecem ? O que é difícil de entender é na insistência dos ricos em cortar mais impostos já que eles possuem bem mais do que nós.  A riqueza é criada, mas a pobreza também, sem a democracia social todos os ganhos da economia vão para quem está no topo; enquanto nossos políticos dependerem do dinheiro dos ricos para se elegerem eles farão leis para proteger os castelos de riqueza do outro lado do rio....Um rio que se tornou um fosso profundo e proibido.

Daniel Miranda Soares é economista, MSc; ex-professor universitário.