sexta-feira, 5 de abril de 2019

O PROFISSIONAL DO FUTURO

24 de Janeiro de 2019, 18:08, por Daniel Miranda Soares -
O PROFISSIONAL DO FUTURO - Michelle Schneider
TED’S TALK - FAAP….YOUTUBE. Jun/2018.

Especialistas prevêem que o profissional do futuro – daqui a 20, 30 anos – terá um perfil sofisticado, inteligente e técnico, mas também humano e emotivo… Muito ao contrário do que afirmam os brucutus da Escola Sem Partido…. Ele terá que ser mais humano, mais criativo e ter um pensamento crítico, democrático e social, trabalhando em equipe. (abstract).

A tecnologia vai excluir dezenas de milhares de pessoas em todo o mundo…. Este é um problema global que afeta todo o planeta….muita gente não faz idéia do tamanho e importância desta cultura tecnológica que está para acontecer….. a mudança já começou e vai se intensificar demais nos próximos 10, 20 anos….. EM 20 ANOS 47% DOS EMPREGOS TERÃO DESAPARECIDO, segundo a Universidade de Oxford…… e não é só motorista, operadores de telemarketing e condutores…. Professores, médicos e advogados também estão nesta lista….um site de saúde nos EUA já recebem mais visitas do que todos os médicos americanos….. mesma coisa robôs resolvem conflitos na área de direito substituindo advogados e juízes…..O VATICANO CONCEDEU A PRIMEIRA LICENÇA DIGITAL em um aplicativo chamado CONFISSÃO ajudando as pessoas a se prepararem para confessar…. De um lado milhões de empregos estão desaparecendo…..muitos novos empregos vão surgir….mas existe um ponto….

Se olharmos para a trajetória da REVOLUÇÃO INDUSTRIAL em que trabalhadores foram substituídos pelas máquinas….isto geralmente aconteceu em trabalhos de baixa qualificação….os trabalhadores agrícolas (que eram 80% das vagas de emprego) passaram a ocupar as vagas na INDÚSTRIAS….nas linhas de montagem…..QUANDO ESTES EMPREGOS DAS LINHAS DE MONTAGEM COMEÇARAM A SER AUTOMATIZADOS TAMBÉM…. Eles passaram da linha de montagem para os SERVIÇOS de baixa qualificação, que é onde eles estão hoje. ….OU SEJA, a economia sempre deu um jeito…. E o desemprego no futuro ? Inteligência artificial substituindo humanos em empregos de alta qualificação ? No futuro a exigência é de alta qualificação…. Isto faz com que o mundo caminhe para uma DESIGUALDADE jamais vista antes…. Porque os mais afetados serão as pessoas de baixa qualificação e de baixa renda…. E aí o que que a gente faz com tanta gente que vai ficar sem emprego ? Muita gente fala que a solução para isso seria criar uma renda básica universal.

Grandes nomes do Vale do Silício são a favor desta medida….forma de compensar o desemprego gerado pela automação….. MAS não está claro o que é universal e nem o que é básico…. Imaginem vocês que a IA vai excluir milhões de trabalhadores escravos em Bangladesh… quem vai pagar a renda básica deles ? Será que EUA e Europa vão recolher impostos para pagar renda básica dos habitantes de lá ? Isto não vai acontecer….. e o que é básico? Alimentos, educação ? E quem tem PHD ? O que compõem esta cesta é uma questão delicada. A gente está falando de uma enorme classe de pessoas ociosas… e ainda tem as questões que vão surgir, tipo stress, suicídio, etc. Que vão se agravar com a falta do que fazer…..

ENTÃO COMO A GENTE SE PREPARA PARA ESTE MUNDO QUE A GENTE AINDA NEM SABE O QUE VAI SER ?….. Afinal quais são os empregos do futuro ? Ainda não se sabe ao certo…. Mas há 12 anos atrás ninguém sabia que ia surgir o UBER, p.ex…. a gente ainda não tem como dizer quais serão os empregos do futuro.

65% DAS CRIANÇAS HOJE - ALUNOS DO ENSINO BÁSICO E MÉDIO - VÃO TRABALHAR EM PROFISSÕES QUE AINDA NÃO EXISTEM.. (Fonte: Forum Econômico Mundial).. Mas então como as pessoas das Universidades se preparam diante de um futuro tão incerto ? Tem muita coisa acontecendo, muita coisa interessante…. p.ex. no Vale do Silício, existem escolas sem professores, crianças super dotadas que aprendem com projetos… etc…. Mas o que mais me chamou a atenção foi uma escola chamada Minerva School,eles tem um foco muito grande em desenvolver habilidades comportamentais de seus alunos….. foi a primeira vez na vida que eu ouvi dizer que as profissões do futuro não terão apenas habilidades técnicas…. e sim as habilidades comportamentais…. Uma vez que com a IA os robôs poderão aprender qualquer habilidade técnica….mas não tão cedo poderão desenvolver suas habilidades comportamentais…. O World Economic Forum reportou e apresentou quais seriam as 10 mais importantes habilidades do futuro e confirmou que todas elas sem exceções serão habilidades comportamentais….

VEJAM A LISTA DAS 10 MAIS IMPORTANTES HABILIDADES PARA O FUTURO:
1. Resolução de Problemas Complexos;
2. Pensamento crítico ;
3. Criatividade;
4. Lideranças e gestão de pessoas;
5. Trabalho em equipe;
6. Inteligência Emocional;
7. Julgamento e tomada de decisões;
8. Orientação a serviços;
9. Negociação;
10. Flexibilidade cognitiva.

Esse profissional do futuro vai ter que saber COMO pensar e não mais O QUE pensar. A maioria das universidades ensina o que pensar, mas não COMO…. Isto não quer dizer que não vamos desenvolver habilidades técnicas….vamos sim….e as chances das novas habilidades vão ter ligações com a tecnologia….
PORÉM o profissional do futuro vai ter que aprender para sempre…. Sempre se atualizando e aprendendo até muitas outras novas profissões…. Dizem que o profissional do futuro vai ter até 5 carreiras ao longo da vida…. Alvin Tofler disse que o analfabeto do século 21 será aquele que não souber aprender a reaprender, desaprender e aprender novamente….
Nós humanos hoje estamos ficando cada vez melhores em entender o cérebro e a inteligência…. As pessoas confundem INTELIGÊNCIA com CONSCIÊNCIA…. Inteligência é a capacidade para resolver problemas e consciência é a capacidade de sentir….A GENTE ESTÁ CRIANDO INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL MAS A GENTE NÃO ESTÁ CRIANDO CONSCIÊNCIA ARTIFICIAL… Em 2019 um computador vai se tornar tão inteligente quanto nós seres humanos… e em 2045 um único computador vai ser mais inteligente do que toda a humanidade junta…. PORÉM não há nenhum indício de que estes computadores vão se tornar CONSCIENTES… eles não vão poder sentir… porque é isso que vai diferenciar a gente do computador…. do robô… a gente está cada vez mais desenvolvendo nossas técnicas e esquecendo de olhar pra dentro da gente… cada vez mais nos cobram para ser mais competitivo, mais inteligente, mais técnico…. Mas ninguém ensina a gente a lidar com nossas EMOÇÕES….

SE A GENTE NÃO APRENDER QUE A FELICIDADE NÃO ESTÁ EM TER MAS TAMBÉM EM SER nós vamos continuar mais e mais robôs não humanos… não é preciso ter um robô para agir como humano… Quem será o profissional do futuro ? Pra mim o profissional do futuro vai sim desenvolver as habilidades técnicas mas se ele não desenvolver o seu perfil interno….a chance dele ter uma vida medíocre e infeliz será muito grande…. EM OUTRAS PALAVRAS O PROFISSIONAL DO FUTURO NADA MAIS É DO QUE O SER HUMANO DO FUTURO…. Como profissional eu, particularmente respondia demandas… demandas da sociedade, da família, do trabalho… menos as minhas…. Até porque eu não tinha a menor idéia de quais eram minhas próprias vontades… e só atendia as expectativas dos outros…. E HOJE QUANDO ME PERGUNTAM O QUE É QUE ME FEZ ACORDAR DE TUDO ISSO…. EU DIGO QUE FOI O AMOR…. O amor em perceber, descobrir e aceitar as belezas de minhas próprias imperfeições…...E vocês ?

OBRIGADA (Michelle Schneider).

A ELITE DO ATRASO - trechos do livro de Jessé Souza

5 de Dezembro de 2018, 19:09, por Daniel Miranda Soares - 
A ELITE DO ATRASO trechos do livro de Jessé Souza.
(Livro: A Elite do Atraso: da escravidão à Lava Jato. Um livro que analisa o pacto dos donos do poder para perpetuar uma sociedade cruel forjada na escravidão. Jessé Souza. Editora Casa da Palavra. Rio, 2017.)

RACISMO, CULTURALISMO E A TEORIA DA MODERNIZAÇÃO.
A colonização da elite brasileira mais mesquinha sobre toda a população só foi e é ainda posssível pelo uso, contra a própria população indefesa, de um racismo travestido em culturalismo que possibilita a legitimação para todo ataque contra qualquer governo popular.
Todo racismo, inclusive o culturalismo racista dominante no mundo inteiro, precisa escravizar o oprimido no seu espírito e não apenas no seu corpo. Colonizar o espírito e as idéias de alguém é o primeiro passo para controlar seu corpo e seu bolso.

No mundo moderno, a dominação de fato tem que ser legitimada cientificamente. Quem atribui prestígio hoje em dia a uma idéia é o prestígio científico, assim como antes era o prestígio religioso ou supostamente divino. É a ciência hoje, mais que a religião, quem decide o que é verdadeiro ou falso no mundo. Por conta disso, toda informação midiática, no jornal ou na TV, procura se legitimar com algum especialista na matéria que esteja sendo discutida. ….é a posse do que é tido como verdadeiro que permite também se apoderar do que é percebido como justo e injusto, honesto ou desonesto, correto ou incorreto, bem ou mal e assim por diante…...Não por acaso, a dominação do culturalismo racista é um efeito da dominação americana a partir do século XX…..o racismo cultural americano vai substituir – com enormes vantagens – o racismo fenotípico ou racial do racismo científico que vigorou no colonialismo europeu…

O novo racismo culturalista americano foi implementado como política de Estado e não foi deixado à ação espontânea de ninguém. A teoria da modernização recebeu dinheiro pesado do departamento de Estado americano sob o comando de Harry Truman no pós-guerra, para se tornar paradigma universal. A partir daí, a teoria da modernização americana virou uma espécie de coqueluche mundial. Milhares de trabalhos foram realizados nas duas décadas seguintes… e os EUA viraram modelo universal para o planeta. Todos os outros países eram uma espécie de realização incompleta desse modelo. ….. Mas no Brasil onde a comparação com os EUA foi a obsessão de todos os intelectuais desde o começo do século XIX, a elaboração de nosso culturalismo racista invertido (contra nós mesmos) foi realizada por mãos nativas...a elaboração de teorias racistas que nos rebaixam e humilham foi relativamente independente do movimento internacional…..

Assim enquanto na década de 1930, Talcott Parsons dava os primeiros passos em seu engenhoso esquema da teoria da modernização no mundo e construia a imagem dos americanos superiores como objetivos, pragmáticos, antitradicionais, universalistas e produtivos…..no Brasil a sua contraparte “vira-lata”…nossos pensadores mais influentes iriam construir o brasileiro como pré-moderno, tradicional, particularista, afetivo e com uma “tendência irresistível à desonestidade.”…. Gilberto Freyre foi a figura demiúrgica desse período…. Freyre foi o criador do paradigma culturalista brasileiro vigente até hoje dominado pelas falsas idéias da continuidade com Portugal e da emotividade como traço singular dessa cultura. ….Freyre literalmente construiu a versão dominante da identidade nacional em um país que, antes dele, não tinha construído nada realmente eficaz nesse sentido. … Sérgio Buarque de Holanda vai aproveitar todas as idéias de Freyre…. Todo o esforço de Freyre em ver aspectos positivos ou pelo menos ambíguos no que ele via como “legado brasileiro” foi invertido e transformado em unicamente negativo…. Sérgio Buarque constrói a idéia do “homem cordial” como expressão mais acabada do brasileiro…. O culturalismo racista, na versão vira lata de Buarque se torna o porta-voz oficial do liberalismo conservador brasileiro. …. a legitimação perfeita para o tipo de interesse econômico e político da elite econômica que manda no mercado e se tornaria a interpretação dominante da sociedade brasileira até hoje.

Sérgio Buarque ao negar Freyre, aceita a vira-latice do brasileiro como lixo da história de bom grado e degrada e distorce a percepção de todo um povo como intrinsecamente inferior. E ainda tira onda de crítico, seguido por cerca de 90% da intelectualidade nacional, por ter supostamente descoberto as razões da fraqueza nacional. O embuste se torna completo por ter também inventado o conceito mais fajuto e mais influente de todo o pensamento social brasileiro , que é a noção de patrimonialismo. O patrimonialismo defende que o Estado no Brasil é um alongamento institucionalizado do homem cordial e tão vira lata quanto ele. Abriga elites que roubam o povo e privatizam o bem público…. Essa noção é um contrabando malfeito da noção weberiana inutilizável no caso brasileiro…..mas esta noção se tornou dominante…. É a própria interpretação dominante dos brasileiros sobre si mesmo, seja na direita seja na esquerda do espectro político. ….os discípulos apenas repetem o paradigma….é a visão da singularidade brasileira a partir do homem cordial, do homem emotivo como negatividade e como potencialmente corrupto, já que dividiria o mundo entre amigos e inimigos e não de modo “impessoal”…. O Estado patrimonialista seria a principal herança do homem cordial e principal problema nacional. ….. está criada a ideologia do vira lata brasileiro, inferior, posto que percebido como afeto e, portanto, como corpo, opondo-se ao espírito do americano e europeu idealizado, como se não houvesse personalismo e relações pessoais fundando todo tipo de privilégio também nos EUA e Europa. …..

A emoção nos animalizaria, enquanto o espírito tornaria divinos americanos e europeus.
Como seres divinos os americanos seriam seres especiais que põem a impessoalidade acima de suas preferências, explicando com isso a excelência de sua democracia, assim como sua honestidade e incorruptibilidade. O capital do homem cordial é o capital de relações pessoais, ou aquilo que Roberto DaMatta, discípulo de Sérgio Buarque como quase todos, chamaria mais tarde de “jeitinho brasileiro”, uma suprema bobagem infelizmente naturalizada pela repetição e usada como explicação fácil em todos os botecos de esquina do Brasil. …. Sua explicação nega portanto a origem de toda a desigualdade que separa classes com acesso privilegiado aos capitais econômico e cultural das classes que foram excluídas de todo acesso a esses capitais.

Mas Sérgio Buarque cria muito especialmente a “Geni” brasileira….que seria o Estado sempre corrupto. O mercado é divinizado pela mera oposição com o Estado definido como corrupto, e sua corrupção tanto “legal” quanto “ilegal”, tornada invisível. Sérgio Buarque ao localizar a “elite maldita” no Estado, torna literalmente invisível a verdadeira elite de rapina que se encontra no mercado. O Estado se torna o suspeito preferido de todos os malfeitos…..essa idéia favorece os golpes de Estado baseados na corrupção seletiva…. Como acontece até hoje, essa concepção tornou possível fazer do mote da corrupção apenas do Estado o núcleo de uma concepção de mundo que permite a elite mais mesquinha fazer todo um povo de tolo. Todo brasileiro aprende na formação escolar a perceber o Brasil com os pressupostos envenenados desta teoria culturalista e da corrupção só no Estado e assim não perceber os reais problemas brasileiros. É por meio desses “óculos” composto por idéias que se tornam tão óbvias que não mais refletimos sobre elas, que não mais percebemos o mundo que nos rodeia.

Restou à mídia apenas o trabalho facilitado de selecionar contra quem seria mobilizado o ataque moralista conservador que nossos intelectuais construíram contra o povo e em benefício de uma ínfima elite….. Sem esse consenso intelectual prévio a mídia não poderia ter sido tão eficaz na sua obra de fraudar sistematicamente a realidade para a legitimação da trama do golpe de 2016.

A ESCRAVIDÃO MODERNA….O excluído, majoritariamente negro e mestiço, é estigmatizado como perigoso e inferior e perseguido não mais pelo capitão do mato, mas, sim, pelas viaturas de polícia com licença para matar pobre e preto. E essa continuação da escravidão com outros meios se utilizou e se utiliza da mesma perseguição e da mesma opressão cotidiana e selvagem para quebrar a resistência e a dignidade dos excluídos. O resumo dessa passagem dramática entre as duas formas de escravidão pode ser visto deste modo: como a escravidão exige a tortura física e psíquica cotidiana como único meio de dobrar a resistência do escravo a abdicar da própria vontade, as elites que comandaram esse processo foram as mesmas que abandonaram os seres humilhados e sem auto estima e autoconfiança e os deixaram à própria sorte. Depois, como se não tivessem nada a ver com esse genocídio de classe, buscaram imigrantes com um passado e um ponto de partida muito diferente para contraporem o mérito de um e de outro, aprofundando ainda mais a humilhação e a injustiça. Esse esquema funciona até os dias de hoje, sem qualquer diferença. Esse abandono e essa injustiça flagrante é o real câncer brasileiro e a causa de todos os reais problemas nacionais.

O Brasil passou de um mercado de trabalho escravocrata para formalmente livre, mas manteve todas as virtualidades do escravismo na nova situação. Os ex-escravos da “ralé de novos escravos” continuam sendo explorados na sua “tração muscular”, como cavalos aos quais os escravos de ontem e de hoje ainda se assemelham. Os carregadores de lixo das grandes cidades são chamados literalmente, de cavalos. O recurso que as empregadas domésticas usam é, antes de tudo, o corpo, trabalhando horas de pé em funções repetitivas, com a barriga no fogão quente, do mesmo modo que faxineiras, motoboys, cortadores de cana, serventes de pedreiros, etc. Uma classe reduzida ao corpo, que representa o que há de mais baixo na escala valorativa do Ocidente. ….essa mesma classe, do mesmo modo que os escravos, é desumanizada e animalizada. A ralé de novos escravos será não só a classe que todas as outras vão procurar se distinguir e se afastar, mas, também, vão procurar explorar o trabalho farto e barato.

NADA DE NOVO EM RELAÇÃO AO PASSADO ESCRAVISTA. Ela permite que todas as classes acima se sintam superiores a ela e possam explorá-la se possível sem limites legais. A reação violenta da classe média à lei das empregadas domésticas, que procura limitar e garantir direitos mínimos, comprova sobejamente o que estamos dizendo. A grande questão econômica, social e política do Brasil é a existência continuada dessa ralé de novos escravos….. A escola republicana igual para todos, conquistada pelos franceses a partir da Revolução Francesa, jamais aconteceu entre nós. Iniciativas como a escola de tempo integral de Brizola, foram destruídas no nascedouro com apoio da mídia elitista, como sempre, com a Rede Globo à frente. A tentativa light petista de melhorar minimamente as condições dessa classe levou ao golpe de 2016 com amplo apoio midiático da classe média e até de setores populares. ….. se um governo existir para redimí-los (a ralé de novos escravos) deve ser derrubado sob qualquer pretexto de ocasião. … pois é necessário continuar a escravidão com outros meios….. é isso que explica o golpe recente no seu conteúdo mais importante e mais assustador. … Por que nossa elite trata a ralé dos novos escravos como sub-humanos com tamanha violência material e simbólica e não os consideram seres humanos ? Essa é a principal herança da escravidão para o Brasil moderno….a naturalização de um ódio tão mesquinho em circunstâncias modernas…..essa é a grande questão brasileira do momento… nenhuma outra se compara a ela em magnitude e urgência.

A OPERAÇÃO LAVA-JATO foi desde seu começo uma caça aos petistas e a seu líder maior, como forma de garantir e assegurar a mesma distância social em relação aos pobres que não os torne tão ameaçadores como eles haviam se tornado com Lula. O maior perigo representado pelos pobres foi quando eles começaram a poder entrar para a universidade pública, reduto dos privilegiados da classe média, pois durante a administração do PT aumentou de 3 para 8 milhões o número de matriculados. Se não fosse essa a razão, o que faria os “camisas amarelas” ficarem em casa quietinhos, agora, em meados de 2017, quando a corrupção real mostra sua pior face ? Se fosse a corrupção que indignasse esse povo, o panelaço deveria ser ensurdecedor agora, não concorda, caro leitor ? É a seletividade da corrupção não só apenas no Estado, mas apenas dos partidos de esquerda, que querem diminuir a distância entre as classes sociais, o que verdadeiramente move e comove nossos “camisas amarelas”.

PATRIMONIALISMO E ESCRAVIDÃO. A noção de patrimonialismo passa a ser fundamental exatamente por sua imprecisão conceitual. Ela está no lugar da noção de escravidão e serve para tornar invisíveis as relações sociais de humilhação e subordinação criados nesse contexto. ….Somos nós brasileiros, portanto, filhos de um ambiente escravocrata, que cria um tipo de família específica, uma Justiça específica, uma economia específica. Aqui valia tomar a terra dos outros à fôrça para acumular capital, como acontece até hoje, e condenar os mais frágeis ao abandono e à humilhação cotidiana. Isso é herança escravocrata e não portuguesa. O patrimonialismo, percebido como herança portuguesa, substitui a escravidão como núcleo explicativo de nossa formação. Essa é sua função real. Por conta disso, até hoje, reproduzimos padrões de sociabilidade escravagistas, como exclusão social massiva, a violência indiscriminada contra os pobres, chacinas contra pobres indefesos que são comemoradas pela população, etc. O patrimonialismo esconde as reais bases do poder social entre nós…..uma noção do senso comum, uma noção absurda, mas tida como verdade acima de qualquer suspeita – a noção de que a elite poderosa está no Estado, com isso invisibilizando a ação da elite real, que está no mercado. O conceito de patrimonialismo serve para encobrir os interesses organizados no mercado. A real função da noção de patrimonialismo é fazer o povo de tolo e manter a dominação mais tosca e abusiva de um mercado desregulado completamente invisível.

A elite do atraso e seu braço midiático fazem parte, portanto, do mesmo esquema de depenar a população em seu benefício. É o que explica a constante necessidade de criar espantalhos para desviar a atenção do público do que lhe é surrupiado e explicar a penúria que seu saque provoca por outras causas. O espantalho da criminalização da política só serve para que a economia dispense a mediação da política e ponha seus lacaios sem voto e que se vangloriam de sua impopularidade vendida como cartão de visitas para a elite do atraso,…. Já o espantalho da criminalização da esquerda e do princípio da igualdade social só serve para que a justa raiva e o ressentimento da população, que sofre sem entender os reais motivos do sofrimento, percam sua expressão política e racional possível.

MÍDIA E BOLSONARO. Foi assim que a mídia irresponsável possibilitou e pavimentou o caminho para a violência fascista do ódio cego dos bolsonaros da vida. O ódio fomentado todos os dias ao PT e a Lula produziu, inevitavelmente, Bolsonaro e sua violência em estado puro, agressividade burra e covarde. Agora, uma população pobre e à mercê de demagogos religiosos está minando as poucas bases civilizadas que ainda restam à sociedade brasileira. Essa dívida tem que ser cobrada da mídia que cometeu esse crime. …. A conta do ódio aos pobres foi o empobrecimento de todos. Será que valeu a pena tudo isso para pagar salários de fome às empregadas domésticas e não ver mais pobres nos aeroportos, nos shopping centers e, principalmente, nas universidades ? Afinal, a educação, a saúde e a previdência, agora sucateadas pelo Estado capturado, abrem caminho para que essas áreas se tornem o novo negócio dos bancos…. Será que vale a pena tudo isso para manter os escravos no seu lugar ?

Daniel Miranda Soares é economista, ex-professor e mestre pela UFV.

Questões da economia dos países dependentes segundo a Teoria da Dependência,

24 de Agosto de 2018, 19:11, por Daniel Miranda Soares - 
QUESTÕES ATUAIS DOS PAÍSES DEPENDENTES (Teoria da Dependência segundo o

livro do prof. Mathias S. Luce.)

Vários autores na América Latina e em outros países do Terceiro Mundo, já analisaram as especificidades das economias subdesenvolvidas ou dependentes ou periféricas ou simplesmente economias em desenvolvimento como as economias da América Latina, África, Médio Oriente e Ásia. Existem várias teorias e muitos pontos comuns entre elas. Os economistas da CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina, órgão da ONU sediado em Santiago do Chile, foram uma das correntes que mais desenvolveram estudos específicos. Entre eles podemos citar Celso Furtado, considerado o maior economista brasileiro, autor de vários livros considerados referência teórica e histórica. Sua primeira grande obra Formação Econômica do Brasil, foi um dos primeiros estudos mais aprofundados sobre histórica econômica do Brasil, publicado em 1959. Vários outros autores contribuíram também de forma decisiva para uma melhor compreensão de nossa realidade, entre eles Rui Mauro Marini e Vânia Bambirra. Marini é autor do clássico Dialética da Dependência de 1973, em que introduz uma análise marxista mais profunda sobre estas economias, aproveitando partes de estudos anteriores de outros autores, Ele, Bambirra e Theotônio dos Santos desenvolvem uma análise econômica mais integrada, aproveitando conceitos de Marx e Lenin e aprofundando os estudos das relações entre estas economias periféricas e as economias centrais, afirmando que o desenvolvimento destas economias estavam intrinsecamente inseridas dentro das relações entre fôrças produtivas e relações sociais de produção do sistema como um todo….Ou seja, um estudo do todo do sistema capitalistas e suas relações internas e externas. O livro do prof. Mathias Seibel Luce, Teoria Marxista da Dependência – problemas e categorias – uma visão histórica (editora Expressão Popular, São Paulo, 2018), aproveita todas estas análises, focando mais em Marini e desta forma atualiza as questões teóricas relacionadas à Teoria da Dependência.

Os autores aproveitam bastante das tabelas da Cepal para analisar a deterioração dos termos do intercâmbio que os analistas da TMD concebem como transferência de valor como intercâmbio desigual. Duas formas de transferência de valores são fundamentais para manter a dependência dos países periféricos: a deterioração dos termos do intercâmbio e a remessa de lucros, juros, royalties e dividendos. Aqui vai uma crítica contundente aos cepalinos: eles pregavam que a industrialização dos países dependentes seria uma solução por excelência para superar o subdesenvolvimento e a dependência. Para os autores da TMD existem quatro formas para a transferência de valor como intercâmbio desigual: 1) deterioração dos termos do intercâmbio; 2) o serviço da dívida (remessa de juros) como dependência financeira; 3) remessas de lucros, royalties e dividendos (como dependência tecnológica) por não controlarem as tecnologias e meios de produção necessários para uma série de mercadorias produzidas; 4) apropriação da renda diferencial e de renda absoluta de monopólio sobre os recursos naturais…. As transferências de valor provocam a reprodução ampliada da dependência, que mudam de forma e de grau historicamente, mantendo a dependência como elemento estrutural destas sociedades…

Por que a industrialização não promove o desenvolvimento dos países periféricos? Segundo a TMD, define-se como industrialização orgânica aquela que irradia os avanços de produtividade para o conjunto dos ramos e setores da produção e que desenvolve e complexifica a atividade industrial seja no setor I, seja no setor II (bens de capital)….Nossa industrialização não é orgânica ….nos países dependentes o setor I depende da importação de bens do setor II dos países avançados, por meio do mercado mundial, portanto depende também tecnologicamente destes setores, transferindo valores para isso. Os bens de consumo produzido pelos países dependentes são muitas vezes de consumo suntuário ( bens mistos como os automóveis) – bens de luxo. O traço característico da economia dependente é sua tendência a divorciar a produção das necessidades de consumo das amplas massas. A expansão da produção suntuária foi realizada à custa de um forte desequilíbrio intersetorial. No âmbito interno das sociedades latino-americanas foram se criando massas cada vez mais numerosas que se encontram excluídas do gozo dos frutos desse tipo de desenvolvimento. Em 1972, segundo a ONU 43% da população percebiam rendimentos inferiores a 180 dólares; e 27% da população total recebiam rendimentos inferiores a 90 dólares ao ano vivendo em situação de “indigência”. OU SEJA APENAS 30% DOS LATINO-AMERICANOS PARTICIPAVAM DOS FRUTOS DO PADRÃO DE DESENVOLVIMENTO QUE NOS FOI IMPOSTO. (Rui Mauro Marini).

Enfim, a distribuição intersetorial do valor pendeu para o lado que não possui a capacidade de irradiar efeitos para o restante da economia , ocorrendo a fixação da mais-valia extraordinária no subsetor produtor de bens suntuários e não sua conversão em mais-valia relativa, em que seu movimento seguiria o curso normal da tendência ao nivelamento da taxa de lucro.
É assim que uma contradição inerente à produção capitalista assume formas específicas nas economias dependentes. Segundo o prof. Mathias, uma outra característica das economias dependentes é a superexploração do trabalho. Ele analisa que mesmo com aumento de produtividade, o capital nestas economias ainda dispõe de outras formas para aumentar a exploração do trabalho, como p.ex.: 1) pagamento da força de trabalho abaixo de seu valor; 2) o prolongamento da jornada de trabalho além dos limites normais; e 3) o aumento da intensidade além dos limites normais. Um exemplo do primeiro é que em junho de 2017, o salário mínimo (SMN) era de R$937,00 (o oficial); enquanto que o salário mínimo ideal calculado pelo DIEESE estava em torno de R$3.727,00; ou seja quatro vezes o salário mínimo oficial. No segundo, geralmente a jornada de trabalho nos países dependentes é sempre maior do que a dos países avançados, além dos trabalhadores se submeterem a jornadas maiores que a jornada legal. Exemplo do terceiro é p.ex. na indústria automobilística mesmo quando houve aumento de produtividade (37 carros produzidos por hora em 1997 para 74 veículos por hora em 2005) como saber o quanto desse aumento se deve a maior composição técnica ou a maior intensidade? Em um desses anos 6 mil operários da GM foram afastados temporariamente por doenças laborais, representando 30% da fôrça de trabalho da empresa – é uma prova irrefutável da superexploração mediante aumento da intensidade. Isso sem falar que o aumento da intensidade aumenta também o número de acidentes de trabalho que no Brasil é muito alto. Entre 2002 e 2008 esse número dobrou, passando de 393.000 para 747.663 segundo dados do INSS.

Entre os fundadores da TMD, foi Vânia Bambirra quem mais se dedicou ao estudo das formações sociais, elaborando uma tipologia das fases de desenvolvimento das economias dependentes. Num primeiro momento ela tipificou duas configurações históricas comuns a América Latina. A primeira formações dependentes-exportadoras, que marcaram a economia da região desde as rupturas das ex-metrópoles e a formação do mercado mundial, que vai de meados do séc. XIX até o início do processo de industrialização (finais do séc. XIX), quando estes países dependiam basicamente de exportação de produtos primários (minerais e agrícolas) para satisfazer demandas em crescimento dos países avançados. Depois como formações dependentes-industriais, naqueles países que passaram por um processo de industrialização, nos marcos da condição de dependência. Na fase industrial, ela estabeleceu três tipos: tipo A, países que iniciaram a industrialização a partir das últimas décadas do séc. XIX e desdobraram-no a partir da crise de 1929: Brasil, México, Argentina, Chile, Colômbia e Uruguai.; tipo B, países que iniciaram seu processo de industrialização a partir da Segunda Guerra Mundial, controlado pelo capital estrangeiro monopolista; e tipo C, países que não atravessaram um processo de industrialização propriamente dito, embora possam abrigar indústrias. Para Bambirra apenas os países tipo A houve um conjunto de transformações que levou ao surgimento de uma burguesia vinculada ao mercado interno. Esta tipologia da industrialização dependente é complementada pela abordagem do padrão de reprodução do capital, esboçado por Marini e Jaime Osório. De acordo com Jaime Osório existiram e existem quatro padrões: 1) padrão agromineiro-exportador; 2) padrão industrial internalizado; 3) padrão industrial na fase de integração ao capital estrangeiro; e 4) novo padrão exportador de especialização produtiva.

O Padrão industrial Internalizado vigorou entre 1930 e meados de 1950 nas economias tipo A. No Brasil já a partir de 1931. Com a diminuição dos laços de dependência entre as crises de 1929 e a 2ª G.M começa a produção de produtos industriais indisponíveis no mercado mundial, com a produção industrial voltada para o mercado interno, e consequente afirmação hegemônica de uma burguesia industrial e atuação estatal a seu favor. O Estado atua criando a Petrobrás, a siderúrgica CSN, a CHESF enfim, bens intermediários necessários ao processo industrial e já no ano de 1957 a indústria supera a agropecuária no PIB. Esse modelo se esgota e a partir de meados dos anos 1950, fazendo emergir uma nova cisão que se materializa sob o padrão industrial diversificado na fase de integração ao capital estrangeiro . Tendo necessidade de passar a nova fase de industrialização para produzir máquinas e equipamentos, setor II, o Estado e o capital industrial se associa ao capital estrangeiro que assim acelera a monopolização e controle da indústria manufatureira pelo capital externo nos ramos mais dinâmicos. Esse desenvolvimento associado e integrado ao imperialismo promove redistribuição regressiva da renda; incremento da superexploração em suas diversas formas; incremento das transferências de valor nas formas das remessas de lucros, royalties e dividendos e do serviço da dívida, a qual no início dos anos 1980 assumiria dimensões explosivas, marcando o fim deste padrão de reprodução com o acontecimento chave que foi a crise da dívida.
Entre os anos 1980 e 1990 teve origem a um novo padrão exportador de especialização produtiva que vigora até hoje. Esse novo padrão marcou o fim do padrão industrial em suas diversas etapas (internalizada e autônoma; diversificada) que prevaleceu na AL entre as décadas de 1940 e meados da de 1970 nas principais economias. O novo padrão exportador implicou uma destruição importante de indústrias ou seu reposicionamento no sistema geral global do capitalismo e caracteriza-se pela desindustrialização. A desindustrialização e a permanência de algumas indústrias relevantes estão subordinadas a um novo projeto exportador no qual os eixos exportadores constituem segmentos de grandes cadeias produtivas globais sob o controle de grandes empresas transnacionais. Os principais mercados deste novo padrão de reprodução encontram-se no exterior. A especialização produtiva tende a apoiar em alguns eixos de exportação: agrícolas, minerais, industriais (com produção e também atividades de montagem ou maquila) e de serviços. Exemplos: produção de petróleo e derivados, soja, minério de ferro, cobre, montagem de automóveis com graus diversos de complexidade, maquila eletrônica, call center, etc. O novo padrão reedita novos enclaves na medida que concentra o dinamismo da produção em poucas atividades, sem estabelecer relações orgânicas com o restante da estrutura produtiva, sendo o salários e impostos o porte fundamental à dinâmica da economia local. No novo padrão, estes novos eixos de exportação não obedecem a projetos nacionais de desenvolvimento, sendo o capital mundial o que define que nichos privilegiar e impulsionar nas economias específicas. Neste novo contexto a industrialização com produção local e necessidades nacionais não existe para as grandes corporações multinacionais.

DESINDUSTRIALIZAÇÃO E GLOBALIZAÇÃO. CHINA – A FÁBRICA DO MUNDOA acirrada competição entre fabricantes de automóveis, levou várias destas empresas a instalarem suas fábricas na China, para usufruir de vantagens relativas no mercado mundial (baixos salários e baixos preços do capital constante), elevando assim suas taxas de lucro. Companhias como a General Motors fecharam suas fábricas em Detroit e a transferiram para a China. Se em 2007 o lucro obtido pelas 17 maiores empresas de automóveis provinham em 30% da China, Brasil, Rússia e Índia, em contraste com 22,5% oriundos da América do Norte, 36,5% da Europa e 12% do Japão e Coréia do Sul; em 2012, o primeiro grupo de países passariam a representar 57% do total ( sendo China mais da metade da cifra do grupo), América do Norte responderia por 42,5%, a Europa teve crescimento negativo de -1% e Japão e Coréia do Sul apenas 1%. Capitais migram e se redistribuem a nível mundial para ultrapassar suas margens de lucro.

No final do livro o professor expõe um resumo teórico do pensamento dos autores que analisou sob a perspectiva marxista (incluindo sua própria contribuição teórica) e conclui, entre outros pontos, por exemplo sobre a BURGUESIA LATINO AMERICANAA burguesia latino-americana por seu caráter dependente, associado e integrado ao imperialismo, baixa a cabeça para os de cima e pisa redobrado nos de baixo. Seu poder repousa em uma exploração redobrada, uma superexploração da fôrça de trabalho como mecanismo de compensação, produzindo um divórcio entre a estrutura produtiva e as necessidades das massas.. Ela não põe em risco seu privilégio de classe e as estruturas de dominação.

SOBRE O SOCIALISMO…. As tarefas democráticas da revolução não se confundem com as tarefas democrático-burguesas…..o caráter da revolução latino-americana – incluindo o Brasil – deverá ser anti-imperialista e socialista, realizada pela classe trabalhadora urbana e rural, tendo setores da pequena burguesia como seus aliados, e dando voz e poder a toda a diversidade de nossos povos, como as lutas de libertação das mulheres contra o patriarcado, dos negros contra o racismo e dos povos indígenas contra o genocídio cultural. ….também defende a luta pelo meio ambiente e a preservação das condições ecológicas e de saúde geral da população…..para se libertar do imperialismo tem que haver uma política soberana de ciência e tecnologia…. A auto determinação dos povos e a soberania nacional são objetivos da luta anti-imperialista….. o socialismo será nossa segunda independência como emancipação política e emancipação humana…. A superação da dependência é uma meta que se imbrica profundamente com o enfrentamento do próprio capitalismo e suas formas de poder….. por um Brasil e uma América Latina livres do capitalismo e de toda relação de alienação…..são os desafios do século XXI.

Daniel Miranda Soares é economista, ex-professor universitário e mestre pela UFV.

Diálogos de Mr. X no filme JFK de Oliver Stone

27 de Julho de 2018, 20:16, por Daniel Miranda Soares - sem comentários ainda
QUEM MATOU O PRESIDENTE JFK ?  A MELHOR 

RESPOSTA À ESTA PERGUNTA ESTÁ NO FILME

“JFK” DE OLIVER STONE – versão do diretor.

O filme é baseado no livro “On the trail of the assassins” de Jim Garrison e “Crossfire: the plot that killed Kennedy” de Jim Marrs. Em 22 de novembro de 1963, em Dallas o Presidente Kennedy foi assassinado. O governo anuncia   uma comissão para investigar o ocorrido em Dallas, chefiada pelo presidente da Suprema Corte, Earl Warren, para pôr fim a “muitas indagações do Texas e do Congresso”. A Comissão Warren foi criada para ocultar os fatos…. Três anos depois o promotor de New Orleans, Jim Garrison desconfia que as investigações estavam ocultando fatos reais….

A melhor parte do filme é quando o promotor se encontra com um tal de Mr. X, que explica com detalhes porquê o Presidente John Kennedy foi assassinado…. É um resumo de tudo.

ENCONTRO DE GARRISON COM MR. X.

Mr. X:….. tudo que direi é confidencial…. Não lhe darei meu nome e quem represento…. Fui soldado, lutei duas guerras…. Trabalhei no Pentágono com suprimentos de armas : aviões, balas, rifles que chamamos “Black Operations” …. Isto é, assassinatos, golpes de Estado, fraudes eleitorais, propagandas, guerra psicológica. Na Segunda Guerra, estive na Romênia, Grécia, Iugoslávia,. Ajudei a resgatar parte da inteligência nazista e os usávamos contra os comunistas. Na Itália, em 1948, roubamos as eleições. Em 49 na França, acabamos com as greves. Depusemos Quirino nas Filipinas, Arbenz na Guatemala, Mossadegh no Irã, Vietnã em 54, Indonésia em 58, Tibete em 59 expulsamos o Dalai Lama. Éramos bons. Muito bons. Daí nos envolvemos com Cuba. Não fomos muito bem. Preparamos uma invasão em outubro de 62 Khrushchev mandou mísseis e Kennedy não invadiu. Ficamos a ver navios. Muita gente se aborreceu, Sr. Garrison. Entende ? Vou voltar a esse ponto. Então em 1963, passei quase todo o mês de setembro trabalhando no plano de Kennedy em tirar o pessoal do Vietnã lá pelo final de 1965. Um dos planos concebidos pelo governo Kennedy o documento de Segurança Nacional 263 mandava de volta as primeiras mil tropas. Mas, em novembro, uma semana após o assassinato de Diem e duas antes do assassinato de Kennedy algo estranho me aconteceu…

Fui enviado pelo meu superior o qual chamávamos general Y para o Polo Sul. ….Estava voltando na Nova Zelândia, quando Kennedy foi morto. …. Oswald foi incriminado às 19:30 hs pelo assassinato de Tippit. Na Nova Zelândia eram 14 horas mas seus jornais já tinham a história toda daquele desconhecido Oswald. Foto de estúdio, biografia, sua vida na URSS e “temos certeza que agiu sozinho.”… apesar de levarem mais 4 horas para culparem-no pelo crime. Parecia que montavam uma fraude. Como costumávamos fazer. …...ao voltar me perguntei: “Por que eu, chefe de Operações Especiais fui enviado ao Polo Sul quando qualquer outro poderia ter ido ?” Imaginei que fosse porque um de meus deveres, em Washington seria o de enviar seguranças a Dallas…… descobri que alguém naquele dia ordenou à inteligência do 112º batalhão em São Houston para ficarem estacionados…. Acredito que seja um erro…..Mesmo se ele andasse em carro aberto colocaríamos no mínimo centenas de agentes na rua sem pensar…...Nunca permitiríamos janelas abertas na Dealey. Nossos atiradores cobririam a área e localizariam tudo. Observaríamos a multidão, pacotes, casacos, ninguém abriria um guarda-chuva. A limusine nunca andaria devagar ou entraria naquela curva fora de propósito . Teriam sentido a presença do Exército naquele dia. Mas nada disso ocorreu. Foram violados códigos básicos de proteção e essa é a melhor indicação de uma conspiração em Dallas. …..

Quem teria feito isso ? Gente da minha área. Nesse dia, havia agentes do Exército em Dallas não sei quem ou por que mas não protegiam clientes. Além disso, o Exército tinha a ficha completa de Lee Oswald. Essas fichas foram destruídas. Coisas estranhas aconteceram…. E Oswald nada teve com isso. …. O gabinete do Presidente estava no Extremo Oriente. Um terço da divisão de combate voava da Alemanha sobre os EUA no momento do crime. Às 12:34 hs , o sistema telefônico de Washington pifou durante uma hora. No avião que voltava a Washington informaram a Johnson por rádio que houvera um só assassino. … Coincidências Sr. Garrison ? Não por um momento. O gabinete estava fora de ação. As tropas estavam no ar. Os telefones, bloqueados, para deter as histórias indesejadas. Nada foi deixado ao acaso. ELE NÃO PODIA ESCAPAR VIVO... As coisas nunca mais foram as mesmas. …… O Vietnã começou para valer, havia uma atmosfera de encenação no Pentágono e na CIA. Nós sabíamos que a Comissão Warren era uma ficção. Mas havia algo mais profundo horrível. Eu conheci Allen Dulles. Era um de seus informantes. Por que logo ele investigaria a morte de Kennedy, o homem que o despediu ? Aliás, ele era conselheiro do General “Y”. Licenciei-me em 64. Renunciei ao meu posto.

Garrison: “não sabia que Kennedy era tão perigoso para o “establishment.” Foi por isso ? “

Mr. X: “é a verdadeira questão não é? Por quê ? “ O como e quem é só cenário para o público….. Oswald, Ruby, Cuba, a Máfia o distraem…. Evitando que a pergunta básica seja feita.: Por que Kennedy morreu ? Quem se beneficiou ? Quem tem o poder de ocultar ? Quem ?

Em 1961 logo após a Baía dos Porcos poucos sabiam que eu ajudara nos memorandos de Segurança em 55, 56 e 57. Esses documentos eram confidenciais. Neles, Kennedy diz ao general Lemnitzer, da Junta Militar que dali em diante a Junta seria totalmente responsável por todas as ações paramilitares em tempos de paz. Isso encerrava o reinado da CIA. “Estilhaçado em mil peças” como J.F.K. prometera. E agora ele exigia a ajuda dos militares. Isso era inédito!. Não imagina as reações que se deram nos corredores do poder. Além da demissão de Dulles , Richard Bissell e o general Charles Cabel. Todos figurões da inteligência desde a Segunda G. Guerra. Muitos se irritaram. As diretrizes de Kennedy não foram implementadas por causa da resistência burocrática. Mas um dos resultados foi que a Operação Cuba passara para o meu departamento como Operação Mangus. Foi serviço da “Operações”. Secretamente baseado no campus da universidade de Miami. Que tem a maior agência americana da CIA, com verbas anuais de centenas de milhões de dólares. Trezentos agentes,, 7000 cubanos treinados, 50 empresas de fachadas para lavagem de dinheiro. Lutavam ininterruptamente contra Fidel. Sabotagem industrial, queima de colheita, tudo. Tudo sob o comando do general Y. O que ele fez foi trazer os negócios escusos para cá. Agora ele tinha gente, bases, equipamentos e motivação. …. E não subestime os cortes de verbas exigidos por Kennedy em 63, Perto de 52 instalações militares em 25 estados e 21 bases ultramarinas. Muito dinheiro. Sabe quantos helicópteros foram perdidos no Vietnã ? Perto de 3 mil. A Bell os fabrica. Quem é o dono ? Ela estava quase a falência quando o Banco de Boston pediu à CIA para usá-los na Indochina. E o caça F-111 ? General Dynamics, de Fort Worth, Texas. Quem é o dono ?

A verba para a defesa, desde o Vietnã, chega a US$100 bilhões. Ainda será gasto o dobro. Em 1949 eram US$10 bilhões. Sem guerra, não há dinheiro. O princípio de organização de qualquer sociedade é para a guerra. A autoridade do Estado sobre a sociedade reside em seu poder de guerra. KENNEDY QUERIA O FIM DA GUERRA FRIA EM SEU 2º MANDATO.Parar com a corrida à Lua e colaborar com os russos. Assinou um tratado pelo fim dos testes nucleares. Negou-se a invadir Cuba em 62, e quis tirar os EUA da guerra do Vietnã. MAS TUDO TERMINOU EM 22 DE NOVEMBRO DE 1963. Desde 1961 sabiam que JFK não lutaria no Sudeste Asiático. Como César, estava cercado de inimigos. Todos sabiam de uma trama, mas não se sabiam quem. …...Há dinheiro em jogo. Muito dinheiro. US$100 Bilhões. ….. Não foi dito: “ele deve morrer.” Não houve votação ou notas. Não há ninguém para culpar. Tão antigo como a crucificação. Ou o pelotão de fuzilamento. Cinco balas, quatro de festim. Ninguém é culpado.. Todos na estrutura do poder. Tem negativas plausíveis. Não há ligações comprometedoras., exceto em assuntos secretos. Mas tem que dar certo.. Não importa quantos morram ou quanto custe. Os conspiradores devem vencer. E nunca se sujeitarem a qualquer processo. ISSO É GOLPE DE ESTADO. Kennnedy anuncia a viagem ao Texas em setembro. Nesse momento falsos Oswald aparecem em Dallas. Onde tiras e o prefeito são controlados. O Gen. Y envia os assassinos. Talvez da base da CIA da Grécia. Profissionais. Talvez fossem locais, cubanos ou a Máfia. Equipes separadas. Importa quem disparou de cima do prédio ? Parte do cenário. Fico pensado naquela terça, 26 de novembro um dia após o sepultamento de Kennedy….
Senhores, não permitirei que o Vietnã faça o mesmo que a China. Estou empenhado em não tirar os soldados de lá, pois temos negócios na Ásia. ….Lyndon Johnson assina o memorando de Segurança 273 que reverte a política de Kennedy. E aprova ações contra o Vietnã do Norte provocando o incidente de Tonkin. Se eu for eleito, darei a vocês a guerra. Aquele documento autorizou a Guerra do Vietnã.

Garrison: não acredito que ele foi morto porque quis mudar as coisas… em nosso tempo! Em nosso país!….

Mr. X: sempre fizeram isso. Reis são mortos. Política é poder, nada mais. Não se influencie por minhas palavras. Pense por si mesmo.

Garrison: a magnitude de tudo isso está além da minha compreensão.. Você testemunharia ?

Mr. X: eu? Testemunhar ? De forma alguma. Eu seria preso e silenciado. Talvez enviado a um hospício. Talvez pior. Você também. Posso lhe dar informações. Observe os eventos, tudo. Vá fundo. Você é o único promotor que abriu um processo. Isso é importante. É histórico.

Garrison: ainda não abri. Não tenho provas suficientes.

Mr. X: não tem mais escolhas. Você é uma grande ameaça para esta estrutura burocrática. Já teria matado. Mas a mídia o destacou. Tentarão agora destruir sua credibilidade. E já tem muitos nessa tarefa. Seja honesto. Sua única chance é abrir um processo. Qualquer coisa. Prenda. Perturbe-os. Busque uma reação em cadeia de depoimentos voluntários. O governo entrará em crise. Fundamentalmente as pessoas acreditam em você. E a verdade está do seu lado, amigo. Espero tê-lo ajudado. ….


EM JANEIRO DE 1961 EM SEU DISCURSO DE DESPEDIDA DO CARGO, O PRESIDENTE DWIGHT D. EISENHOWER JÁ DENUNCIAVA O GRANDE PODER DO COMPLEXO INDUSTRIAL MILITAR….SUA INFLUÊNCIA ECONÔMICA E POLÍTICA E ESPIRITUAL.…. Dizia: “temos que nos prevenir contra as injustificadas aquisições de influências, solicitadas ou não, pelo complexo industrial militar. Nunca devemos deixar que o peso dessa combinação ameace nossas liberdades e o processo democrático….”…. (imagens do ex-presidente Einsenhower citando estas frases aparecem no início do filme).

O filme de Oliver Stone põe a nu o extraordinário poder do complexo industrial militar. Um grande conglomerado de grandes corporações não só da indústria bélica mas também outras complementares e de serviços (bancos incluídos) com intricadas ligações com o governo americano, que possui um orçamento enorme e boa parte dele sigiloso e secreto que investe pesado em pesquisa e desenvolvimento além das compras de armas e serviços. Nada de mercado livre, o que existe é um mercado induzido com forte peso estatal, que vive de guerras e intrigas internacionais…. eles dominam o mundo “livre”, possuem grande influência internacional e hegemônica nas decisões dos países capitalistas e orientam os destinos dos investimentos neoliberais…. Aliás eles adoram o neoliberalismo… uma ideologia que disfarça suas reais intenções “com menos governo e mais mercado”, que na verdade se transforma em menos democracia e mais ditadura das grandes corporações. O capitalismo detesta a democracia, já dizia Noam Chomsky. O poder deste complexo citado, na verdade só promoveu derrubadas de regimes democráticas com apoio a ditaduras sangrentas em diversas partes do mundo, da América Latina, África, Oriente Médio e Ásia.

Daniel Miranda Soares é economista, ex-professor e mestre pela UFV.