quarta-feira, 7 de abril de 2021

 

O IMPÉRIO ACUSA A CHINA DE GENOCÍDIO USANDO A 

MENTIRA COMO MÉTODO


Nova” Guerra Fria e o velho método da mentira

Vinte anos após mentirem sobre o Iraque, mídias ocidentais “denunciam” suposta perseguição aos uigures na China. O que há por trás de relatórios “independentes” cujas fontes são a CIA e a extrema direita. Até onde pode chegar a escalada?

Por Ajit Singh, em The Grayzone. Tradução: Ricardo Cavalcanti-Schiel.

25 de março, 2021 - publicado em Outras Palavras


Nos Estados Unidos os grupos dirigentes sempre buscaram inimigos externos como fator de equilíbrio político interno. As agressões foram apresentadas como defesa dos “valores ocidentais”.A opressão na Arábia Saudita é aceita, enquanto o Iraque é invadido para nos “proteger das armas de destruição de massa.” As ditaduras na América Latina foram apoiadas para nos proteger do comunismo.

Hoje está sendo construída uma guerra ideológica contra a China, em nome da defesa de direitos humanos.

Ajit Singh mostra como se montou a narrativa. Lembremos que os EUA têm 4% da população mundial, e 25% da população carcerária, cerca de 2,5 milhões de pessoas, com forte dominância de jovens negros e latinos. Pelo jeito, há direitos e direitos, dependendo de onde se situam. Os direitos humanos são essenciais, mas não o seu uso político descarado.



Ao longo de março de 2021, manchetes em veículos de mídia empresarial, da CNN a The Guardian, apregoaram o lançamento do “primeiro relatório independente” para determinar, com autoridade, que o governo chinês violou “todo e qualquer ato” da convenção das Nações Unidas contra o genocídio e, portanto, “tem a responsabilidade de Estado por cometer genocídio contra o povo Uigur”.

O relatório, publicado em 8 de março pelo Newlines Institute for Strategy and Policy, em colaboração com o Raoul Wallenberg Center for Human Rights, dá curso a uma orquestração de última hora, armada em janeiro pelo governo Trump, contando com declarações ecoadas por parlamentares holandeses e canadenses. Foi publicado logo após o lançamento de um relatório notavelmente semelhante em 8 de fevereiro, encomendado pelo Congresso Mundial Uigur, apoiado pelo governo dos Estados Unidos, e que alegava haver um “caso crível” contra o governo chinês por genocídio.

AFP (Agencia France-Presse), CNN, The Guardian, e CBC saudaram o relatório da Newlines de 8 de março como uma “análise independente” e um “relatório jurídico de referência”, que teria envolvido “dezenas de especialistas internacionais”. Samantha Power [a diplomata norte-americana que sustentou e promoveu o plano de desintegração da Líbia], nomeada pelo governo Biden para dirigir a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), também embarcou na sua promoção: “Este relatório mostra como isso [genocídio] é exatamente o que a China está fazendo com os uigures”, afirmou a notória “intervencionista humanitária”.

Os autores do relatório insistem que são “imparciais” e “não estão defendendo nenhum curso de ação”. No entanto, um olhar mais atento para o relatório e para as instituições por trás dele revela que as alegações de seus autores de “independência” e “expertise” não são muito mais que uma farsa gritante.

Na verdade, o principal autor do relatório, Yonah Diamond, recentemente clamou que o governo Biden “confrontasse” e “punisse” unilateralmente a China por, supostamente, cometer genocídio, ampliando as sanções contra o país. Enquanto isso, os think tankers por trás do relatório defenderam fervorosamente que o Ocidente “combata” e sancione a China. Foram os mesmos que promoveram os planos norte-americanos de “mudança de regime” visando a Síria, a Venezuela, o Irã e a Rússia.

A maioria dos signatários “especialistas” do relatório são membros do Newlines Institute e do Wallenberg Center. Outros são membros da falconídea Aliança Interparlamentar sobre a China, ex-funcionários do Departamento de Estado dos EUA e defensores fervorosos do intervencionismo militar norte-americano. O relatório se baseia substancialmente na “experiência” de Adrian Zenz, o ideólogo evangélico de extrema direita, cuja “incursão acadêmica” sobre a China mostrou-se crivada de erros grosseiros, falsificações e manipulações estatísticas tendenciosas.

A confiança no trabalho volumoso, mas comprovadamente fraudulento, de Zenz não é surpreendente, visto que o relatório foi financiado pela organização mãe do Newlines Institute, a Fairfax University of America (FXUA). A FXUA é uma instituição que caiu em descrédito quando os reguladores oficiais defenderam seu fechamento em 2019, depois de descobrir que seus “professores não estavam qualificados para ministrar os cursos designados”, a qualidade acadêmica era “patentemente deficiente” e onde o plágio intelectual era “desenfreado” e tratado com indiferença.

Poucos dias antes do Newlines Institute publicar seu relatório de “perícia” acusando a China de genocídio, um conselho consultivo do Departamento de Educação dos Estados Unidos recomendou cancelar o credenciamento da FXUA como instituição de ensino superior, comprometendo sua licença de funcionamento.


Novo” relatório repete “evidências” antigas e desacreditadas

O relatório da Newlines não apresenta nenhum material novo sobre a condição dos muçulmanos uigures na China. Em vez disso, afirma ter revisado todas as “provas disponíveis” e aplicado “o direito internacional às provas dos fatos no terreno”.

Em vez de conduzir uma revisão completa e abrangente das “evidências disponíveis”, o relatório restringiu sua pesquisa a uma faixa estreita de pseudoestudos profundamente falhos, juntamente com relatórios de lobbies apoiados pelo governo dos Estados Unidos para o movimento separatista uigur exilado. É sobre esse fundamento defeituoso que o relatório aplica a análise “jurídica” relacionada à Convenção da ONU sobre Genocídio.

O relatório da Newlines baseia-se principalmente nos estudos duvidosos de Adrian Zenz, nas “notícias” da Radio Free Asia, canal de propaganda do governo dos Estados Unidos, e nas afirmações feitas pelo Congresso Mundial Uigur, a rede separatista também financiada pelos Estados Unidos. Essas três fontes compreendem mais de um terço das referências diretas usadas para construir a base factual do documento, com Zenz como a fonte mais confiável ― citada em mais de 50 ocasiões.

Muitas das referências restantes são citações de trabalhos de membros do “Uyghur Scholars Working Group” do Newlines Institute, do qual Zenz é membro fundador, e que é formado por um pequeno grupo de acadêmicos que colaboram com ele e defendem integralmente suas proposições.

Como relatou The Grayzone, Zenz é um evangélico fundamentalista de extrema direita que afirma ser “conduzido por Deus” para lutar contra o governo da China, deplora a homossexualidade e a igualdade de gênero e tem ensinado exclusivamente em instituições teológicas evangélicas. Uma revisão cuidadosa da pesquisa de Zenz mostra que sua alegação de genocídio é inventada por meio de manipulação estatística fraudulenta, seleção tendenciosa de materiais de origem e deturpação propagandística. Seus relatórios amplamente citados não foram publicados em periódicos científicos submetidos a revisão por pares e supervisionados por instituições acadêmicas, mas sim por uma editora da CIA baseada em Washington chamada Jamestown Foundation, que edita The Journal of Political Risk, uma publicação dirigida por antigos agentes da OTAN e do aparato de segurança nacional dos Estados Unidos.

À medida que sua negligência acadêmica vem à tona, Zenz tem enfrentado crescente escrutínio e constrangimento, como se evidencia por sua ameaça em processar seus críticos acadêmicos.

A fim de reforçar a credibilidade do relatório, e para contornar sua excessiva dependência dos laudos de Zenz, seus autores insistem em enfatizar sua suposta “independência” e “imparcialidade”.

Este não é um documento promocional, não estamos, de forma alguma, defendendo algum curso de ação”, afirmou Azeem Ibrahim, Diretor de Iniciativas Especiais do Newlines Institute. “Não houve ativistas envolvidos neste relatório, ele foi inteiramente elaborado por especialistas jurídicos, especialistas da área e especialistas em questões étnicas da China”.

No entanto, poucas semanas antes da publicação do relatório, seu principal autor, Yonah Diamond, redigiu um apelo belicoso [na revista Foreign Policy, publicada pelo think-tank Carnegie Endowment for International Peace] para que o governo Biden ignorasse a ONU (que Diamond considera “em dívida com o governo chinês”) e enfrentasse unilateralmente a China. Após a declaração do governo Trump de que a China estava cometendo genocídio em Xinjiang, Diamond alegou que os Estados Unidos estão legalmente obrigados a “punir” a China e que “o governo Biden deve agora tomar medidas concretas para esse fim juntamente com os aliados dos Estados Unidos”.

O relatório tenta construir uma aparência de amplo consenso de especialistas apoiando suas conclusões, incluindo uma lista de 33 signatários apresentados como “especialistas independentes”. Sem nenhuma surpresa, essa lista consiste de indivíduos que defendem uma Nova Guerra Fria e o confronto com a China, e que apoiam os esforços separatistas para transformar a região de Xinjiang, rica em minerais e geopoliticamente importante, num “etnoestado” aliado à OTAN. Destacam-se:

Irwin Cotler e Helena Kennedy- copresidentes, junto com Marco Rubio, da Aliança Interparlamentar sobre a China (IPAC), composta quase exclusivamente por falcões do Congresso, o IPAC foi constituído em 2020 com o objetivo de montar uma “defesa comum” contra a “ascensão da República Popular da China”. Membros do executivo do Congresso Mundial Uyghur, Erkin Ekrem e Rahima Mahmut, fazem parte do conselho consultivo e do secretariado do IPAC. Adrian Zenz também faz parte do conselho consultivo.

David Scheffer, Beth von Schaack e Gregory H. Stanton- os dois primeiros são ex-embaixadores do Departamento de Estado norte-americano, enquanto o último é um ex-funcionário do mesmo.

Lloyd Axworthy e Allan Rock- respectivamente, ex-ministro canadense de Relações Exteriores e ex-embaixador canadense na ONU.

Adrian Zenz- membro fundador do “Uyghur Scholars Working Group” do Newlines Institute.

Em lugar de consultar uma ampla gama de especialistas acadêmicos ou submeter seu estudo à revisão por pares, a Newlines fiou-se em uma estreita comunidade de ideólogos alinhados às mesmas ideias. A maioria dos signatários são membros dos dois think tanks por trás do relatório, o Instituto Newlines e o Centro Wallenberg. Longe de serem “independentes”, essas organizações são profundamente partidárias, autodenominadas “ativistas”, que se alinham intimamente com os objetivos da política externa dos Estados Unidos e do Ocidente, defendendo sanções e intervenções contra a China e outras nações não alinhadas em todo o Sul Global.

Newlines Institute: uma coleção de ideólogos da “mudança de regime” e de agentes da “CIA das sombras”

A direção do Newlines Institute inclui ex-funcionários do Departamento de Estado norte-americano, conselheiros militares do Pentágono, profissionais de inteligência que antes trabalharam para a empresa de espionagem privada Stratfor, a “CIA alternativa”, terceirizada, ou “CIA das sombras” (“Shadow CIA), que também tem ligações no Brasil, além de uma coleção de ideólogos intervencionistas. Seus colaboradores conformam uma seleção significativa de agentes da operação de mudança de regime na Síria: eram exatamente os chefes de torcida do intervencionismo militar dos Estados Unidos, ao mesmo tempo em que intimidavam e assediavam qualquer figura pública proeminente que ousasse insinuar alguma perspectiva crítica sobre aquela guerra por procuração. Destacam-se entre eles Hassan Hassan, diretor; fundador e editor-chefe da revista Newlines – defensor ardoroso do imperialismo norte-americano, o que inclui as guerras do Iraque, da Líbia, do Iêmen e especialmente da Síria. Junto com Michael Weiss, colaborador da Newlines, Hassan defendeu que os militares dos Estados Unidos balcanizassem a Síria, ocupassem permanentemente a região de Jazira, rica em petróleo, e transformassem o país em “um protetorado de segurança americano”.


O Instituto Newlines sob a supervisão de uma desacreditada “universidade” fraudulenta

A instituição mãe do Newlines Institute é a Fairfax University of America (FXUA), um estabelecimento também fundado e dirigido por Alwani, e anteriormente conhecida como Virginia International University. FXUA é uma universidade privada em Fairfax, Virginia. Fundada em 1998, o curto histórico da FXUA está eivado de escândalos acadêmicos e de esforços da fiscalização oficial para fechar a instituição.

Em 2019, o Conselho Estadual de Educação Superior da Virgínia iniciou procedimentos para revogar a certificação da FXUA (então conhecida como Virginia International University ― VIU) para operar. A mudança ocorreu depois que os fiscais estaduais descobriram um descumprimento generalizado dos padrões educacionais oficiais do Estado.

De acordo com o Richmond Times-Dispatch, os auditores concluíram que “os professores não estavam qualificados para ministrar os cursos designados”, a qualidade acadêmica e o conteúdo das aulas eram “patentemente deficientes” e o trabalho dos alunos foi caracterizado como “plágio desenfreado”, consagradamente impune.

Alunos desqualificados submetem regularmente trabalhos plagiados ou de muito baixa qualidade; o corpo docente faz vista grossa e rebaixa os critérios de aprovação (talvez para evitar reprovar uma classe inteira); e os administradores não monitoram de forma eficaz a qualidade da educação online oferecida”, disse a auditoria.

Centro Wallenberg: um paraíso para falcões anti-China e lobistas da mudança de regime

O Newlines Institute publicou seu relatório em colaboração com o Raoul Wallenberg Center for Human Rights. O principal autor do relatório, Yonah Diamond, é consultor jurídico do Wallenberg Center, e muitos dos signatários do relatório são afiliados à organização.

Com sede em Montreal, o Wallenberg Center foi fundado por Irwin Cotler, ex-ministro da Justiça e procurador-geral do Canadá.  Cotler rotineiramente elabora acusações propagandísticas de abusos dos direitos humanos, atrocidades e genocídio a serviço do imperialismo ocidental, incluindo as intervenções na Líbia e na Síria e sua possibilidade no Irã e Venezuela, onde Cotler serviu como consultor jurídico para Leopoldo López, o líder do golpe de extrema direita, apoiado pelos Estados Unidos. A esposa de Lopez, Lilian Tintori, ocupa uma posição consultiva no Wallenberg Centre.

Cotler também atuou no Haiti. Como ministro da Justiça do governo canadense, operou em coordenação com os Estados Unidos e a França, para ajudar a derrubar o ex-presidente haitiano Jean-Bertrand Aristide em 2004

Cotler há muito acalenta sentimentos hostis em relação à China. Por vários anos, serviu na equipe jurídica internacional do dissidente antichinês Liu Xiaobo, um ideólogo de direita que clamou pela privatização e “ocidentalização” da China, apoiou fervorosamente o ex-presidente George W. Bush e aplaudiu as guerras dos Estados Unidos no Vietnã, Afeganistão e Iraque.

sábado, 20 de março de 2021

O FIM DO CAPITALISMO INDUSTRIAL NO OCIDENTE

 

O Ocidente diz adeus ao capitalismo industrial

História de uma regressão: contrariando até as previsões de Marx, sistema reabilitou rentismo feudal e, associado a ele, multiplica privilégios e desigualdade. Mas daí também seu declínio - e sua impotência diante de países como China.

(trecho de introdução do artigo de Michael Hudson no site Outras Palavras, selecionado pelo prof. Ladislau Dowbor)….. ver restante no site

https://dowbor.org/2021/03/o-ocidente-diz-adeus-ao-capitalismo-industrial.html?fbclid=IwAR1B9OFDHaVQ2TvqNb_Q1U8imd9fFsYgUo7SNRqPtWePKuFkccHdVWNlaE8

 

Michael Hudson

Marx e muitos dos reformadores menos radicais que lhe foram contemporâneos viam o papel histórico do capitalismo industrial como sendo o de remover a herança do feudalismo – os latifundiários, banqueiros e monopolistas que extraíam renda econômica (ou renta) sem produzir valor real. Mas aquele movimento de reforma fracassou. Hoje o setor das Finanças, Seguros e Imobiliário (FIRE, em inglês, pelas iniciais de Finance, Insurance, Real Estate recuperou o controle do Estado, criando economias neo-rentistas.

O objetivo deste capitalismo financeiro pós-industrial é o oposto daquele do capitalismo industrial bem conhecido dos economistas do século XIX. Ele busca riqueza primariamente através da extração de renda econômica, não da formação de capital industrial. O favorecimento fiscal para o setor imobiliário, a privatização do petróleo e da extração mineral, os bancos e os monopólios de infraestrutura aumentam o custo de vida e da atividade empresarial. O trabalho está sendo explorado crescentemente pela dívida aos bancos, dívida estudantil, dívida do cartão de crédito, ao passo que a habitação e outros preços são inflacionados com o crédito, deixando menos rendimento para gastar em bens e serviços quando as economias sofrem deflação da dívida.

A Nova Guerra Fria de hoje é um combate para internacionalizar este capitalismo rentista pela privatização e financeirização global dos transportes, educação, cuidados de saúde, prisões e policiamento, correios e comunicações – além de outros setores que antigamente eram mantidos no domínio público – das economias europeias e americanas, de modo a manter seus custos baixos e minimizar seus custos de estrutura.

Nas economias ocidentais tais privatização reverteram o movimento do capitalismo industrial para minimizar custos de produção e distribuição socialmente desnecessários. Além dos preços de monopólio para serviços privatizados, os administradores financeiros estão canibalizando a indústria pela alavancagem da dívida e elevados desembolsos de dividendos para aumentar preços de ações.

As economias neo-rentistas de hoje obtêm riqueza principalmente por meio da busca de renta. A financeirização converte a renda imobiliária e monopólica em empréstimos bancários, ações e títulos. Este processo tem sido alimentado desde 2009 pelo Quantitative Easing (“Flexibilização Quantitativa”) dos bancos centrais dos EUA. União Europeia, Inglaterra, Japão e outros. [Significa emitir volumes maciços de dólares, euros, libras ou ienes e despejá-los nas mãos de mega-especuladores, recebendo em troca títulos públicos que têm em seu poder. A inundação de dinheiro espalha-se por todo o mundo, refletindo, por exemplo, na super-valorização dos preços dos imóveis (Nota de Outras Palavras)]

Famílias e empresas afundam em dívida, devendo renda e serviço de dívida aos setores FIRE. Esta sobrecarga rentista deixa menos rendimento de salários e lucros para gastar em bens e serviços, provocando o fim dos 75 anos de expansão vividos pelos EUA e Europa a partir o término da II Guerra Mundial em 1945.

Estas dinâmicas rentistas são o oposto do que Marx descreveu como leis do movimento do capitalismo industrial. A banca alemã, à época, financiava a indústria pesada sob Bismarck, em associação com o Reichsbank e os militares. Mas em outros lugares o empréstimo bancário raramente financiou novos meios de produção tangíveis. Aquilo que prometia ser uma dinâmica democrática e em última análise socialista degradou-se em direção ao feudalismo e à servidão da dívida, com a classe financeira de hoje desempenhando o papel que a classe dos senhores da terra tinha em tempos pós-medievais……..

………………………….

*Michael Hudson: Presidente do Instituto para Estudo das Tendências Econômicas de Longo Prazo (ISLET). Professor de Economia na Universidade do Missouri. Autor de “J is for Junk Economics” (2017), “Killing the Host” (2015), “The Bubble and Beyond” (2012), “Super-Imperialism: The Economic Strategy of American Empire (1968 & 2003)”, entre outros. Conselheiro econômico de governos e agências econômicas na Islândia, Letônia e China.

domingo, 14 de março de 2021

ALBERT EINSTEIN ERA SOCIALISTA

 

EINSTEIN ESCREVEU “PORQUE SOCIALISMO?” EM 1949

Por que Socialismo? Albert Einstein - Maio 1949

Artigo escrito especialmente para o primeiro número da revista marxista estadunidense Monthly Review, lançada em maio de 1949, e está disponível em http://monthlyreview.org/2009/05/01/why-socialism/

 

Será aconselhável que um não especialista em assuntos econômicos e sociais manifeste pontos de vista sobre o tema “socialismo”? Por várias razões, eu acredito que sim.

Comecemos considerando a questão pelo ponto de vista epistemológico [isto é, que analisa o próprio conhecimento científico]. Poderia parecer que não houvesse diferenças metodológicas essenciais entre a Astronomia e a Ciência da Economia: nos dois campos, os cientistas tentam descobrir leis que sejam aceitáveis de modo generalizado para um determinado grupo de fenômenos, com a finalidade de tornar compreensível a interconexão desses fenômenos do modo mais claro possível.

Na realidade, diferenças metodológicas existem. No campo da Economia, a descoberta de leis gerais é dificultada pela circunstância de que os fenômenos econômicos observáveis são com frequência afetados por muitos fatores que é muito difícil avaliar separadamente.

Além disso, como é bem sabido, a experiência acumulada desde o início do assim chamado período civilizado da história humana tem sido grandemente influenciada e limitada por fatores cuja natureza de nenhum modo é exclusivamente econômica.

Por exemplo, a maioria dos grandes Estados da história deveu sua existência à conquista. Os povos conquistadores estabeleceram a si mesmos, legal e economicamente, como a classe privilegiada do território conquistado; apossaram-se do monopólio da propriedade da terra e designaram uma classe sacerdotal a partir de suas próprias fileiras. Os sacerdotes, no controle da educação, fizeram da divisão da sociedade em classes uma instituição permanente, criando um sistema de valores pelo qual o comportamento social das pessoas passou a ser guiado desde então, em grande medida em nível inconsciente.

Mas a tradição histórica começou ontem, por assim dizer. Em nenhum lugar nós superamos de fato o que Thorstein Veblen chamou de “fase predatória” do desenvolvimento humano. Os fatos econômicos observáveis pertencem a essa fase, e as leis que podemos derivar deles não são aplicáveis a outras fases. Como o verdadeiro propósito do socialismo é precisamente superar a fase predatória do desenvolvimento humano e avançar para além dela, a Ciência Econômica em seu estado atual pode esclarecer bem pouco sobre a sociedade socialista do futuro.

Em segundo lugar, o socialismo se direciona para uma finalidade socioética. A ciência, no entanto, não tem o poder de criar finalidades, e muito menos de instilá-las nos seres humanos; a ciência pode, no máximo, fornecer os meios com que atingir certas finalidades. As finalidades são concebidas por personalidades com ideais éticos elevados – ideais esses que, quando não são natimortos e sim cheios de vida e vigor – são adotados e levados adiante por aquela multitude de seres humanos que, de modo parcialmente inconsciente, terminam por determinar a evolução da sociedade.

Por essas razões, deveríamos nos precaver no sentido de não superestimar a ciência e os métodos científicos quando o que está em questão são problemas humanos - e não deveríamos presumir que somente especialistas têm direito a se manifestar sobre as questões que afetam a organização da sociedade.

Incontáveis vozes vêm afirmando, já desde há algum tempo, que a sociedade humana está passando por uma crise; que sua estabilidade foi gravemente abalada. É característico dessa situação que os indivíduos se sintam indiferentes ou até mesmo hostis ao grupo a que pertencem, seja o pequeno grupo ou ao grupo de maior escala. Permitam-me recordar aqui uma experiência pessoal para ilustrar o que quero dizer: não faz muito, eu debatia com um homem inteligente e de boa disposição sobre a ameaça de mais uma guerra – o que, na minha opinião, poria em sério perigo a existência da humanidade – e observei que somente uma organização supranacional ofereceria proteção contra esse perigo. Nesse ponto o meu visitante me disse, com toda calma e indiferença: “Mas por que você se opõe tão profundamente ao desaparecimento da raça humana?”

Tenho certeza que apenas um século atrás ninguém teria declarado algo desse tipo com toda essa despreocupação. Temos aí uma declaração de um homem que lutou em vão para alcançar um equilíbrio interior e mais ou menos perdeu a esperança de alcançá-lo. É expressão de uma dolorosa solidão e isolamento, de que tanta gente sofre hoje em dia. Qual é a causa? Existe saída?

É fácil levantar essas perguntas, mas é difícil respondê-las com qualquer grau de segurança. No entanto eu preciso tentar, o melhor que puder, embora esteja bem consciente de que nossos sentimentos e aspirações são muitas vezes contraditórios e obscuros, e não podem ser expressos em nenhuma fórmula simples e fácil.

O homem é ao mesmo tempo um ser solitário e um ser social. Como ser solitário, ele tenta proteger sua própria existência e a dos que lhe são mais próximos, satisfazer seus desejos pessoais, desenvolver suas habilidades inatas. Como ser social, busca conquistar o reconhecimento e afeição dos seus companheiros de humanidade, compartilhar de seus prazeres, confortá-los em seus sofrimentos, melhorar suas condições de vida. Somente a existência dessas diferentes aspirações, muitas vezes conflitantes, já responde pelo caráter especial de uma pessoa, e sua combinação específica determina a medida em que o indivíduo consegue, por um lado, alcançar um equilíbrio interior e, por outro lado, consegue contribuir para o bem-estar da sociedade.

É bem possível que a intensidade relativa desses dois impulsos seja, em seu principal, determinada pela hereditariedade – mas a personalidade que termina emergindo é formada em ampla medida pelo ambiente em que acontece de a pessoa se encontrar durante o seu desenvolvimento, pela estrutura da sociedade em que ela cresce, pela tradição daquela sociedade, e pelo valor que a sociedade atribui a este ou àquele tipo de comportamento.

Para o indivíduo humano, o conceito abstrato “sociedade” significa a soma de suas relações diretas e indiretas com os seus contemporâneos e com todas as pessoas das gerações anteriores. O indivíduo é capaz de pensar, sentir, aspirar e trabalhar por si mesmo; mas [ao mesmo tempo] ele depende tanto da sociedade – em sua existência física, intelectual e emocional – que é impossível pensá-lo ou entendê-lo fora da moldura que é o contexto social. É “a sociedade” o que lhe proporciona comida, roupas, um lar, a ferramentas do seu trabalho, a linguagem, as formas de pensar, e a maior parte do conteúdo do pensamento; a sua vida se faz possível mediante o trabalho e realizações dos muitos milhões, passados e presentes, que estão escondidos por trás da pequena palavra “sociedade”.

É evidente, portanto, que a dependência do indivíduo em relação à sociedade é um fato da natureza que não pode ser abolido – tanto quanto o é no caso das formigas e abelhas. No entanto, enquanto o inteiro processo de vida das formigas e abelhas é determinado nos mínimos detalhes por instintos hereditários rígidos, o padrão social e os inter-relacionamentos dos seres humanos são altamente variáveis e suscetíveis de mudanças. A memória, a capacidade de realizar novas combinações e o dom da comunicação verbal possibilitaram desenvolvimentos, entre os seres humanos, que não são ditados por necessidades biológicas. Tais desenvolvimentos se manifestam em tradições, instituições e organizações; em literatura; em realizações científicas e técnicas; em obras de arte. Isso explica como acontece de o ser humano ser capaz de, em certo sentido, influir em sua vida mediante a sua própria conduta, e de que nesse processo o pensamento e a vontade conscientes consigam desempenhar um papel.

O ser humano adquire ao nascer, através da hereditariedade, uma constituição biológica que precisamos considerar determinada e inalterável, inclusive os impulsos naturais que são característicos da espécie humana. Em acréscimo, ao longo de sua vida ele adquire uma constituição cultural que ele adota da sociedade por meio da comunicação e de muitos outros tipos de influências. É a sua constituição cultural que está sujeita a mudanças com a passagem do tempo, e que determina em vasta medida a relação entre o indivíduo e a sociedade. A antropologia moderna nos ensinou, através da investigação comparativa das culturas chamadas de primitivas, que o comportamento social dos seres humanos pode diferir grandemente, dependendo dos padrões culturais e dos tipos de organização que predominam na sociedade. Os que se empenham em melhorar a condição humana podem fundamentar suas esperanças nisso: seres humanos não estão condenados por sua constituição biológica a aniquilarem uns aos outros, nem a estar à mercê de um destino cruel autoinfligido.

Se nos perguntarmos de que modo a estrutura da sociedade e a atitude cultural do ser humano deveriam ser mudados para tornar a vida humana tão satisfatória quanto possível, deveríamos estar sempre conscientes de que há certas condições que somos incapazes de modificar. Como já foi mencionado, para todos os efeitos práticos a natureza biológica do ser humano não é modificável. Além disso, os desenvolvimentos tecnológicos e demográficos dos últimos séculos criaram condições que estão aqui para ficar. Em populações assentadas com considerável densidade, levando em conta os bens que são indispensáveis para a continuidade de sua existência, tornam-se absolutamente indispensáveis uma extrema divisão de trabalho e um aparato produtivo altamente centralizado. Foi-se para sempre o tempo – que, olhando-se para trás, parece tão idílico – em que indivíduos ou grupos relativamente pequenos podiam ser completamente autossuficientes. Há pouco exagero em dizer que a humanidade já constitui uma comunidade planetária de produção e consumo.

Cheguei agora ao ponto em que posso indicar brevemente o que, para mim, constitui a essência da crise do nosso tempo: refere-se à relação do indivíduo com a sociedade. O indivíduo se tornou mais consciente do que nunca de sua dependência da sociedade - mas sua experiência dessa dependência não é a de um bem positivo, um laço orgânico, uma força protetora, e sim a de uma ameaça aos seus direitos naturais, ou até mesmo à sua existência econômica. Além disso, o indivíduo está posicionado na sociedade de modo tal, que os impulsos egoístas da sua constituição recebem reforço constante, enquanto que os seus impulsos sociais, que por natureza já são mais fracos, se deterioram progressivamente. Todos os seres humanos, qualquer que seja sua posição na sociedade, vêm sofrendo esse processo de deterioração. Prisioneiros de seu próprio egoísmo sem saber disso, sentem-se inseguros, sozinhos e privados de todo desfrute da vida que seja inocente, simples, não sofisticado. O ser humano somente pode encontrar sentido na vida, curta e arriscada como é, mediante sua dedicação à sociedade.

A anarquia econômica da sociedade capitalista como existe hoje é, na minha opinião, a verdadeira fonte do mal. Vemos diante de nós uma enorme comunidade de produtores cujos membros se empenham sem cessar em privar uns aos outros dos frutos de seu trabalho coletivo – não por força, mas em inteiro e fiel cumprimento de regras estabelecidas legalmente. A respeito disso, é importante dar-se conta [do papel do fato] de que os meios de produção – quer dizer, tudo o que dá capacidade de produzir bens para os consumidores, bem como bens de capital adicionais – possam ser propriedade privada de indivíduos (e de fato o sejam, em sua maior parte).

Pelo bem da simplicidade, na discussão a seguir chamarei de “trabalhadores” todos os que não têm parte na propriedade dos meios de produção – embora isso não corresponda com exatidão ao uso costumeiro do termo. O proprietário dos meios de produção está em posição de comprar a força de trabalho do trabalhador. Usando os meios de produção, o trabalhador produz novos bens que se tornam propriedade do capitalista. O ponto essencial deste processo é a relação entre o que o trabalhador produz e aquilo que lhe pagam, ambos medidos em termos de valor real. Na medida em que a contratação do trabalho é “livre”, o que o trabalhador recebe não é determinado pelo valor real dos bens que ele produz, e sim por quais são suas necessidade mínimas, bem como pela relação entre a demanda por força de trabalho por parte dos capitalistas e o número de trabalhadores que competem por empregos. É importante entender que nem mesmo na teoria o pagamento do trabalhador é determinado pelo valor do seu produto.

Capital privado tende a se concentrar em poucas mãos, em parte devido à competição entre os capitalistas, em parte porque o desenvolvimento tecnológico e o crescimento da divisão do trabalho estimulam a formação de unidades de produção maiores, em prejuízo das menores. O resultado desses desenvolvimentos é uma oligarquia do capital privado, cujo enorme poder não pode ser efetivamente controlado sequer por uma sociedade política democraticamente organizada.

Isso é assim porque os membros dos corpos legislativos são selecionados por partidos políticos, que são amplamente financiados, ou influenciados de algum outro modo, por capitalistas privados que, para todos os propósitos práticos, separam o eleitorado da legislatura. A consequência é que os representantes do povo não protegem de fato e de modo suficiente os interesses dos setores menos privilegiados da população. Além disso, nas condições atuais os capitalistas privados inevitavelmente controlam, direta ou indiretamente, as principais fontes de informação (imprensa, rádio, educação). Torna-se assim extremamente difícil para o cidadão individual, e de fato impossível na maioria dos casos, chegar a conclusões objetivas e fazer uso inteligente dos seus direitos políticos.

A situação predominante em uma economia baseada na propriedade privada de capital caracteriza-se então por dois princípios centrais: primeiro, os meios de produção (capital) são possuídos privadamente, e os proprietários dispõem deles como acham melhor; segundo, a contratação de trabalho é livre [isto é, não regulada]. É claro que não há sociedade capitalista pura nesse sentido. Em especial, é preciso registrar que os trabalhadores, através de longas e amargas lutas políticas, conseguiram assegurar uma forma um tanto melhorada de “livre contrato de trabalho” para algumas categorias de trabalhadores. Mas, tomada em seu conjunto, a economia atual não difere muito de um capitalismo “puro”.

A produção é realizada com a finalidade do lucro, não com a do uso. Não existem disposições para garantir que todas as pessoas capazes e dispostas a trabalhar sempre consigam achar emprego; quase sempre existe um “exército de desempregados”. O trabalhador está perpetuamente com medo de perder seu emprego. Devido ao fato de que desempregados e trabalhadores mal pagos não formam um mercado rendoso, a produção de bens de consumo é restrita, o que resulta em grandes privações. O progresso tecnológico resulta com frequência em mais desemprego, em lugar de aliviar a carga de trabalho para todos. O lucro como motivação, em conjunto com a concorrência entre os capitalistas, é responsável por uma instabilidade na acumulação e utilização do capital, a qual leva a crises cada vez mais graves. A competição irrestrita leva a um gigantesco desperdício de força de trabalho, e também àquela deformação da consciência social dos indivíduos, que eu mencionei anteriormente.

Essa deformação dos indivíduos, eu a considero o pior dos males do capitalismo. Nosso sistema educacional inteiro sofre desse mal. Uma atitude competitiva exagerada é inculcada no estudante, que, como preparação para sua futura carreira, é treinado para idolatrar um sucesso aquisitivo.

Estou convencido de que existe apenas um caminho para eliminar esses graves males, e esse é o estabelecimento de uma economia socialista, acompanhada por um sistema educacional orientado para objetivos sociais. Em uma economia tal, os meios de produção são propriedade da própria sociedade, e utilizados de modo planejado. Uma economia planejada, que ajusta a produção às necessidades da comunidade, distribuiria o trabalho a ser feito entre todos os capazes de trabalhar, e garantiria o sustento de cada homem, mulher e criança. A educação do indivíduo, além de desenvolver suas próprias habilidades inatas, se empenharia em desenvolver nele um senso de responsabilidade por seus companheiros de humanidade, em lugar da glorificação do poder e do sucesso, como temos na sociedade atual.

Contudo é preciso lembrar que uma economia planejada ainda não é socialismo. Uma economia planejada pode ser acompanhada por uma escravização completa do indivíduo. A realização do socialismo requer a solução de alguns problemas sociopolíticos extremamente difíceis: como é possível, em face da centralização abrangente do poder político e econômico, impedir que a burocracia se torne todo-poderosa e prepotente? Como se podem proteger os direitos do indivíduo e garantir com isso um contrapeso democrático ao poder da burocracia?

A clareza quanto às metas e aos problemas do socialismo é da mais alta significação em nossa era de transição. Como, na conjuntura atual, a discussão livre e sem barreiras destes problemas se tornou um grande tabu, eu considero a fundação desta revista um relevante ato de interesse público.