terça-feira, 22 de março de 2022

MÍDIA IGNORA MASSACRES DESDE 2014

Como a mídia ignora massacres desde 2014 mas protege neonazistas ucranianos

 4 de março de 2022 às 07:00 | Publicado em: Afeganistão, África, Artigo, Ásia & Américas, Estados Unidos, Europa & Rússia, Iraque, Israel, Líbia, Opinião, Oriente Médio, Palestina, Rússia, Síria, Ucrânia


Lucia Helena Issa


Não, caros colegas jornalistas, Volodimyr Zelensky não é um herói e jamais o será. É apenas um assassino sionista e neonazista financiado pelos EUA.

Governantes ucranianos de extrema-direita que têm liderado o país desde 2014 alimentaram, sim, os grupos neonazistas como o Batalhão Azov e o Pravy Sektor e os transformaram na Guarda Nacional Ucraniana de hoje.

Há cerca de três anos, em outubro de 2018, poucos meses antes da eleição de Zelensky, eu estava em Moscou, como jornalista e embaixadora da paz, conhecendo e reportando, com imensa tristeza, os abrigos para centenas de meninas russas-ucranianas, de 13 a 18 anos obrigadas a se refugiar na capital russa para não morrerem e para tentarem recomeçar a vida após terem seus corpos e sonhos dilacerados por estupros em série, cometidos por milicianos neonazistas do Pravy Sektor e do Batalhão Azov.

Provavelmente, muitas leitoras que me acompanham nesse espaço, não tiveram a chance de sentir compaixão ou empatia pelas mais de 800 meninas russas estupradas na região do Donbass e pelas mais de 15 mil pessoas de etnia russa assassinadas na Ucrânia desde 2014, desde o Golpe de Estado financiado pelos EUA, um Golpe que guarda muitas semelhanças com o Golpe de 2016 no Brasil contra Dilma Roussef.

Como ativista pela paz e jornalista, tenho lutado contra todas as mais de 70 guerras provocadas pelos EUA nos últimos 100 anos no mundo e posso afirmar que o que vi e ouvi nesses centros de acolhimento de Moscou das meninas russas, estupradas, mutiladas, que tiveram seus corpos transformados em territórios de guerra por milicianos neonazistas, dilacerou meu coração e ficará tatuado em minha alma para sempre.

Homens apoiados e armados tanto por Petro Poroshenko quanto pelo comediante e sionista simpatizante do neonazismo ucraniano, Volodimyr Zelensky, têm invadido e atacado de maneira sistemática e assustadora há mais de oito anos as províncias de Lugansk e Donetsk,  portando metralhadoras automáticas ultramodernas, bombas e jeeps financiados pelos EUA, têm vandalizando igrejas russas, estuprado meninas espalhado terror por onde passam.

A língua russa foi proibida oficialmente nessas cidades de maioria russa, os livros didáticos escolares foram reescritos para que neonazistas como Stepan Bandera, morto em 1959, sejam apresentados como heróis nacionais e a bandeira neonazista vermelha e preta inspirada na bandeira do Exército Insurreto Ucraniano (UPA em ucraniano), o braço armado dos nazistas na região durante a II Guerra Mundial, tremula há oito anos em milhares de casas e escolas da Ucrânia. Stepan Bandera foi um dos maiores nazistas do país e o líder da Organização dos Nacionalistas Ucranianos, alguém cujo nome hoje é apresentado como o de um “ patriota” que inspira milhares de milicianos neonazistas.

Sim, durante a II Guerra, a Organização dos Nacionalistas Ucranianos (OUN) mantinha estreita relação com os nazistas liderados por Hitler, alimentava o ódio às minorias da região e assassinava quem discordasse desse sentimento.  Aproveitando-se dessa afinidade, os nazistas criaram, em 1939, uma unidade de operações terroristas de 600 membros do leste europeu, composta pelos ucranianos nazistas da OUN e com a missão de tramar uma insurgência e limpar a Ucrânia de pessoas “ impuras”, ou seja, pessoas de esquerda, deficientes, ciganos e poloneses judeus.

Logo depois da invasão da Polônia por Hitler, os grupos de milicianos ucranianos se tornaram literalmente os policiais do nazismo na região. Foram todos promovidos por Hitler e enviados para vigiar instalações nazistas na Polônia até que, na primavera de 1940, o chamado Plano Diretor para Insurgência foi executado por eles para lançar uma insurgência armada contra os soviéticos e a favor dos nazistas na região. Toda a operação foi liderada por Stepan Bandera.

Os ucranianos, naquele momento, entregaram para os alemães  e para a morte dezenas de milhares de pessoas pertencentes às minorias. Pessoas de esquerda, judeus, ciganos e todos os que lutassem contra os nazistas de alguma forma tiveram seus nomes e endereços expostos. Pelos menos 20 mil pessoas morreram naquele momento.

O ódio alimentado nesses grupos era tão letal que eles também começaram um processo de autofagia, de autodestruição, e em 1941 o OUN se dividiu em dois. Os líderes mais radicais seguiram Bandera para formar o OUN-B, enquanto membros um pouco mais moderados seguiram Andriy Melnyk e passaram a ser conhecidos como OUN-M. Em maio desse mesmo ano, o OUN-B desenvolveu um novo plano de insurgência que tinha como objetivo matar ou  “neutralizar”, nas palavras usadas por Stepan Bandera, milhares de pessoas de etnia russa, além de judeus e ciganos, e alimentar o ódio da população civil contra eles, afirmando que eram  os apoiadores dos soviéticos dentro da Ucrânia, ou seja, colocá-los como “ traidores” por lutarem contra o nazismo. Batalhões extremamente violentos foram formados dentro do OUN-B com o objetivo de seguir o avanço das marchas nazistas, as Wehrmacht, e matar o maior número de homens, mulheres e crianças.  Bandera chegou a ser preso no dia 5 de julho de 1941 pelos nazistas e colocado no Bunker de Zellenbau, mas foi libertado dois anos depois pelos alemães ao descobrirem que estavam diante de um admirador ucraniano de Hitler, alguém que poderia ser muito mais útil como colaborador nazista do que como um prisioneiro. Bandera tornou-se colaboracionista e viveu com centenas de ucranianos sob a proteção e o dinheiro dos nazistas durante mais de uma década.

O nazista ucraniano e seus colegas alemães compartilhavam o mesmo ódio pelas minorias, pelas mulheres socialistas e a noção de que todos os judeus ucranianos eram “os partidários mais leais do regime bolchevique e a vanguarda do imperialismo na Ucrânia”, segundo vários manifestos escritos por eles. Quando os nazistas invadiram Lvov, os milicianos de Bandera conseguiram matar mais de quatro mil pessoas em poucos dias usando armas que iam de canhões doados pelos nazistas a barras de metal. O líder nazista ucraniano não viveria muito e cairia morto no dia 15 de outubro, ao entrar em seu prédio, na Alemanha, na rua Kreittmayr, em Munique, por envenenamento.

Mesmo não tendo vivido muito, Stepan Bandera deixou um legado de ódio, xenofobia, racismo e antissemitismo (hoje muito mais  voltados contra os refugiados árabes e negros  do que contra a comunidade judaica da Ucrânia que ocupa vários espaços de poder, inclusive a o cargo mais alto do país, através  de seu filho Zelensky, o comediante  judeu de extrema-direita e franco apoiador de neonazistas).

Mas a mídia hegemônica brasileira escolheu esconder de seus telespectadores a história de Stepan Bandera e os 15 mil corpos assassinados ou violentados pelos grupos neonazistas ucranianos desde 2014.

Pergunto-me todos os dias as razões que levam a mídia corporativa a omitir que o sionista comediante  surfou na onda de racismo, misoginia, xenofobia, homofobia e ódio aos refugiados que tem varrido a Europa e o mundo nos últimos anos, alçando ao poder boçais perigosos como Jair Bolsonaro, Donald Trump, o presidente da Hungria e partidos fascistas como a Lega Nord  e o Movimento 5 estrelas na Itália.

Perguntei-me todos os dias onde estão a compaixão e a empatia pelas mulheres e meninas mortas na Ucrania por milicianos neonazistas que agora se tornaram parte do Exército oficial do país. Pergunto-me todos os dias onde estão as reportagens ou a comoção pelos ucranianos mortos em Odessa no massacre liderado pelos neonazistas do Pravy Sektor e outros grupos, que incendiaram o prédio onde ficavam os sindicatos de Odessa, queimando vivas 42 pessoas e deixando mais de 200 feridas. Pergunto-me por que esses jornalistas não se pronunciaram sobre o fato de os Estados Unidos nem sequer condenarem o ataque liderado por neonazistas ucranianos.

Pergunto-me todos os dias onde estava Jorge Pontual e outros comentaristas vergonhosos quando centenas de meninas russas eram estupradas pelos neonazistas em Luganski e Donetski. Pergunto-me todos os dias onde estava Jorge Pontual quando Zelensky , em 2020 e em 2021, promoveu centenas de ataques à região, assassinando centenas de crianças de etnia russa, como o menininho Vladik Shikov, de apenas 5 anos.

Pergunto-me onde estava o imoral Jorge Pontual quando Petro Poroshenko e seu sucessor Zelensky começaram a desrespeitar todos os Acordos de Minski, firmados em 2015 para tentar promover a paz e  impedir  as milhares de mortes e os estupros cometidos pelos grupos  neonazistas que transformaram os corpos de mulheres e meninas em territórios de guerra.

Pergunto-me onde estavam esses jornalistas brasileiros quando uma lei ucraniana que previa a derrubada de símbolos comunistas e nazistas no país foi violentada pelos governantes para que símbolos soviéticos fossem destruídos e símbolos nazistas fossem mantidos de pé e até restaurados.

Perguntei-me todos os dias, ao ouvir colegas brasileiros claramente enaltecendo os EUA e Israel em seus comentários vergonhosos, se eles têm noção de que o Iraque está infinitamente pior e mais violento hoje do que em 2003, quando os EUA alegaram que iriam invadir o país para levar “ liberdade” ao berço da civilização humana e das maiores descobertas médicas e tecnológicas do mundo medieval. Pergunto-me o que eles sentiram ao saber que todas as justificativas falsas para a invasão do Iraque foram desmentidas por milhares de observadores internacionais e pela ONU, depois que mais de 500 mil iraquianos, entre eles milhares de crianças, já haviam sido mortos pelos EUA

Pergunto-me todos os dias se jornalistas brasileiros como Pontual sabem que a Guerra do Iraque, promovida pelo país mais invasor e sanguinário do mundo, os EUA, pavimentou o caminho para a formação de grupos extremistas como o ISIS, fortaleceu a Al Qaeda, e que esses grupos  utilizaram o próprio território iraquiano destruído e fragmentado para se desenvolverem e matarem e estuprarem milhares de mulheres e crianças, elevando o número de mortos a mais de um milhão e fazendo do Iraque e da Síria um imenso cemitério de corpos, sonhos e esperanças.

Ao ouvir, em maio de 2021, centenas de jornalistas americanos e brasileiros apoiando os bombardeios e assassinatos de civis cometidos por Israel na Palestina, pergunto-me onde está a humanidade dessas pessoas ou a compaixão, palavra que vem do latim “ sofrer com”, a capacidade de sentir a dor do outro, essa empatia que eu esperei por anos dos jornalistas brasileiros em relação às mais de um milhão e 800 mil vítimas no Afeganistão, Iraque, Síria e Líbia, mas que jamais chegou.

Pergunto-me todos os dias onde está a ética ou a empatia desses jornalistas ao apoiarem o Apartheid de Israel e omitirem que há mais de 70 anos, cinco milhões de refugiados palestinos, que tiveram suas vidas, seus sonhos e futuro destruídos em 1948, buscam a paz e a dignidade poderem voltar á sua terra, de pertencer á Palestina, de voltar às suas cidades de origem, mas são proibidos por Israel, um país criminoso que desrespeita há décadas as leis internacionais nesse sentido, como a Resolução 194 da ONU.

Pergunto-me todos os dias onde está a humanidade de jornalistas brasileiros que defendem o indefensável e enaltecem uma potência militar ocidental que já matou mais de 80 milhões de vidas nos últimos 100 anos e apoiou todos os Golpes de Estado que destruíram a América Latina por décadas.

Pergunto-me onde estava a comoção dessas pessoas por uma menina iraquiana estuprada por dezenas de soldados norte-americanos, ou pelas mulheres palestinas estupradas por soldados israelenses que seguiram a recomendação de rabino extremista, ou até mesmo pelas dezenas de igrejas cristãs que estão sendo queimadas e profanadas por grupos de extremistas judeus como o Jovens da Colina e o Lehava.

Há mais de 10 anos, eu tento ajudar e dar voz às refugiadas palestinas em campos de refugiados no Oriente Médio e no Brasil com projetos humanitários que envolvem as refugiadas congolesas.

Cada vida humana importa! Vidas humanas árabes, negras e latinas importam. Mas por conveniências financeiras ou por desumanidade, centenas de jornalistas brasileiros e norte-americano parecem acreditar que a vida de uma criança árabe, morta aos 8 anos em um bombardeio a Bagdá, ou a vida de uma criança negra morta de fome no Brasil vale menos do que a de uma criança de Kiev ou de Nova York.



FONTE :

https://www.monitordooriente.com/20220304-como-a-midia-ignora-massacres-desde-2014-mas-protege-neonazistas-ucranianos/?fbclid=IwAR2o50R7WCVcMwX82pGFBl0M3jU-GN4phqPJckOZeXwn8-AXFhaTFBA7dew

 

domingo, 30 de janeiro de 2022

 

O socialismo é para a humanidade


POR
ADAM J SACKS

O objetivo final do socialismo é tão simples quanto belo: libertar todas as pessoas da dominação, substituir sonhos atrofiados e alienação pelo florescimento humano e criatividade ilimitada.


(Interessante artigo do autor cujo objetivo é enfatizar os aspectos mais humanistas e nobres do socialismo…. Embora deixe a desejar quanto às críticas ao “socialismo real” - afinal o humanismo destes países ainda eram melhores do que os países capitalistas - mas cabíveis se forem direcionadas à uma análise mais abrangente, como Domenico Losurdo faz quando analisa Marxismo Ocidental X Marxismo Oriental).



Marx tinha um olho afiado para o coração em um mundo sem coração. Desde jovem se preocupou com as formas como o capitalismo submergia os “problemas humanos” na luta pela sobrevivência material. Ele ansiava pelo dia em que eles se tornariam mais claros, quando o véu opressivo do capitalismo fosse levantado e uma “sociedade humana” finalmente surgisse.

Em um momento em que os socialistas estão sendo chamados a explicar sua política novamente , é importante lembrar que o socialismo sempre foi e ainda é um movimento humanista que busca libertar as pessoas da dominação e da exploração – promovendo o florescimento individual, a criatividade e até mesmo a espiritualidade. enriquecimento no lugar de sonhos atrofiados e alienação.

Os socialistas há muito sustentam esses objetivos. Quando o socialismo  surgiu como um movimento de massa no final de 1800, não era incomum ouvi-lo anunciado como o maior avanço do humanitarismo desde o Novo Testamento. O socialismo, pensavam seus adeptos, poderia proporcionar a renovação da consciência necessária para salvar a sociedade.

No início do século XX, o socialista alemão  Leo Kestenberg adotou o lema “educação para a humanidade” para uma Europa enfrentando um dilúvio do fascismo. Ele esperava que a luta pelo socialismo pudesse servir de ponte para um novo humanismo radical, uma sociedade que recompensasse a bondade em vez da exploração. O chamado “Papa do Marxismo”, Karl Kautsky , invocou a noção de uma “consciência socialista”, como meio de “salvar a nação” (ele tinha os EUA em mente).


Várias décadas depois, em seu discurso inaugural no Parlamento chileno, Salvador Allende falou em tom igualmente arrebatador, descrevendo o socialismo como uma “missão” que poderia dar significado ao país:


Como podem as pessoas em geral — e os jovens em particular — desenvolver um sentido de missão que lhes inspire uma nova alegria de viver e dignifique a sua existência? Não há outro caminho senão o de nos dedicarmos à realização de grandes tarefas impessoais, como a de atingir uma nova etapa na condição humana, até agora degradada por sua divisão em privilegiados e despossuídos. . . . Aqui e agora, no Chile e na América Latina, temos a possibilidade e o dever de liberar energias criativas, particularmente as dos jovens, em missões que nos inspiram mais do que qualquer outra no passado.


Aqui estava o coração da filosofia marxista: o élan do sujeito humano, o esforço inspirado para o crescimento.

Rosa Luxemburgo, a grande socialista polonesa-alemã, encarnava isso na própria maneira de viver, escrevendo a um camarada :


Ser um ser humano significa jogar toda a sua vida com alegria 'na balança gigante do destino', se assim for, e ao mesmo tempo se alegrar com o brilho de cada dia e a beleza de cada nuvem. . . o mundo é tão belo, com todos os seus horrores, e seria ainda mais belo se não houvesse fracos ou covardes nele.


A organizadora dos direitos civis e socialista americana  Ella Baker também enfatizou o humanismo em sua prática diária. Para ela, o objetivo da organização era despertar o espírito humano e capacitar as pessoas para mudar o mundo. “Dê luz”, disse Baker, de forma memorável, “e as pessoas encontrarão o caminho”. Tratar as pessoas como “brinquedos” (playthings) , mesmo a serviço de um objetivo finalmente libertador, era um anátema para o espírito do socialismo.

Com muita frequência, os críticos confundiram o lado ético e humanista do socialismo como uma variante do socialismo “utópico” contra o qual Marx criticou .   Marx contrastou seus escritos com pensadores cujas imaginações, como Charles Fourier e Robert Owen , os trouxeram para o reino do hiper-idealismo, se não vôos quase mágicos da fantasia. Ele identificou seu próprio trabalho como “científico”. No entanto, esta palavra em inglês não capta bem o significado do original alemão “ wissenschaft.” Este último termo implica a busca humana holística por conhecimento dentro das “ciências” naturais e humanas, em vez da conotação inglesa, onde a ciência é totalmente isolada das “humanidades”. A crítica de Marx às condições atuais foi marcada por um compromisso com a realização da dignidade humana – ele deplorou as mercadorias “sem alma” do capitalismo e suas implicações para o eu humano.


Talvez o maior teórico do socialismo como uma espécie de metamoral humanista pós-secular tenha sido Jean Jaurès, mais conhecido nos EUA por seu livro de 1911 A Socialist History of the French Revolution. Jaurès pesquisou os discursos dominantes da França da virada do século e os achou terrivelmente embrutecidos. O nacionalismo foi uma estratégia reacionária deliberada para evitar pensamentos de uma esfera superior. A religião oficial era uma força nociva cuja caridade tão alardeada simplesmente encobriu uma nova forma de opressão. E os espiritualismos em voga da época — como a  Teosofia, que atraiu as pessoas para longe da religião organizada para novos cultos pós-seculares – equivalia a misticismos diletantes, amortecendo a coragem das pessoas para enfrentar as lutas da vida real. Somente o socialismo, argumentou Jaurès, poderia emancipar a consciência humana e restaurar um senso de infinitas possibilidades humanas.


No final do século XX, uma das vozes mais fortes para um marxismo da consciência foi Isaac Deutscher, mais conhecido por suas biografias definitivas de Stalin e Trotsky. Judeu galego que optou pelo Partido Comunista Polaco ao invés do Bund, Deutscher estava numa posição única para observar tanto os desencantos do poder socialista de Estado no Oriente como o pessimismo da Nova Esquerda no Ocidente. Ele retornaria uma e outra vez a essa subjetividade humana fundamental no coração do marxismo. Deutscher observou que essa subjetividade humana, que já existe dentro de cada um de nós como potencial, é distorcida, esmagada e embrutecida pelo capitalismo. Literalmente reduz nossa personalidade, o que é prejudicial tanto para nosso bem-estar social quanto para nosso sustento econômico. A promessa do socialismo, para Deutscher, estava na expansão e reintegração de nossa personalidade – na redescoberta de partes de nós mesmos que haviam sido perdidas.

Após o colapso da União Soviética, uma voz crítica para a esperança humanista socialista foi a física cubana Celia Hart . Filha da geração fundadora de revolucionários, Hart morreu tragicamente jovem em um acidente de carro – mas não antes de revigorar o que ela chamou de “bela batalha”. Crítica interna do socialismo de Estado cubano, ela, no entanto, defendeu o papel dos partidos políticos na “melhoria da humanidade” e adotou como slogan uma citação do poeta cubano José Martí: “a pátria é a humanidade”. Ela pediu um retorno às origens do socialismo e defendeu uma espécie de ecumenismo marxista – “precisamos de todos aqueles que disseram a verdade à humanidade”. Em 2016, pouco antes de sua morte, os escritos de Hart foram coletados em um volume em inglês intitulado, apropriadamente, “Nunca é tarde demais para amar ou se rebelar .”

Nessas tradições e figuras, podemos ver um socialismo que procurou combater não apenas a escassez de bens materiais, mas a escassez de valores imateriais, humanistas, como respeito, estima e autorrealização. As questões da moral, da psique e da alma nunca foram relegadas às margens, porque cada uma é parte integrante do livre crescimento e florescimento do sujeito humano.

“Espiritual, não religioso” é um clichê de nossos dias; nesta tradição, podemos substituí-lo pelo lema “socialista, não religioso” – e manter uma aspiração diferente: não o fim da história humana, mas seu verdadeiro começo.




REVISTA JACOBIN

FONTE: https://jacobinmag.com/2018/11/socialist-humanism-luxemburg-ella-baker?fbclid=IwAR3rivh6NZDNOLPCCPtRxMxATf8HU-qP57sxSMA3sKej-AWVxQ3QW-pZd0I