sábado, 12 de agosto de 2023

A monstruosidade do imperialismo francês na África atual

 

COMO A FRANÇA AINDA MANTÉM 14 COLÔNIAS NA ÁFRICA ?

A monstruosidade do imperialismo francês na África atual

Transcrevemos a seguir texto do documentário “Como a França mantém 14 colônias na África?” do H1 Capital, divulgado nas redes sociais. Como podemos ver pelo texto, o imperialismo francês não fica devendo nada ao imperialismo americano e ao imperialismo britânico em termos de crueldade, assassinatos, golpes militares, discriminação racial, escravidão e desrespeito aos direitos humanos.

Os autores do documentário se surpreendem com a crueldade e monstruosidade com que a França ainda mantém 14 nações africanas da zona do Sahel, desde a década de 1960 (quando Charles de Gaulle oferece “independência” às suas colônias africanas) em troca do controle econômico político e social total, ganhando com isso lucros exorbitantes sob este domínio e como este domínio representa muito para a economia francesa, estimando-se que cerca de metade do PIB francês atual tem origem nestas explorações. Sem estas colônias a França seria a 15ª economia mundial ao invés de ser a segunda da Europa. Uma em cada três lâmpadas da França vem da energia do urânio explorado nestas colônias, para gerar energia nuclear que representa 75% de sua energia total. Também controla o sistema monetário destes países que não possuem moeda própria – a França gerencia e controla o Franco CFA, moeda colonial que criou para controlar a economia destas pobres nações e assim retém 70% das reservas internacionais destas ex colônias, cerceando a soberania nacional destes países.   Todo este esquema de dominação que existe desde a década de 1960 é mantido com muita repressão, perseguição política, assassinatos e golpes de Estado. Portanto neste texto, damos conta de como o imperialismo francês não é muito  diferente do imperialismo americano e inglês  que possuiam desde o séc. XIX mais poder econômico-militar-político que os países mais fracos do Terceiro Mundo sendo capaz de sugar suas riquezas e impedir o desenvolvimento destes. Pode-se considerá-lo  um dos mais cruéis da história. Veja o texto original a seguir.

 



 

 A França tem um dos maiores impérios que o mundo já viu. Em seu auge dominou cerca de 10% da área terrestre do planeta. Mas aqui na África algo muito mais diabólico ocorre até os dias de hoje. Estas 14 nações africanas ainda permanecem presas à um tipo de neocolonialismo francês e compartilham entre si uma moeda do período colonial conhecida como Franco CFA, sistema monetário no qual a França mantém total controle. Mas como funciona este poder de influência que a França utiliza para explorar estas nações africanas e porque é tão difícil estas nações se libertarem deste domínio?  Em meados da década de 1950 e 60 a África e a Ásia estavam passando por movimentos anti-imperialistas. A França pós-guerra sofria com um império decadente.  O então presidente da França  Charles de Gaulle concedeu a independência às suas colônias africanas a partir de 1959. Mas para que cada colônia pudesse conquistar sua independência de forma amigável a França exigiu acordos de cooperação. Em troca da ajuda francesa nas áreas militar educação e economia, estas nações deveriam ceder à França o direito sobre seus recursos naturais, permitir a presença de tropas militares francesas e manter o Franco CFA como moeda corrente.  Na época esta moeda era atrelada ao franco francês e hoje ao euro e é uma moeda estável. Na teoria parecia ótimo pois permitiria a estabilidade econômica destas humildes nações, mas por trás desta benevolência francesa permitiria uma armadilha que iria perpetuar sobre elas o domínio imperialista  francês.  Neste jogo de interesses seria impossível que os países africanos fossem beneficiados, pois o esquema foi pensado de forma detalhada para manter as ex-colônias num sistema neocolonialista parasitário que até aqui tem se mostrado muito lucrativo para a França. Como parte do acordo os países do franco cfa são obrigados a depositar 50% de suas reservas internacionais no Tesouro Nacional Francês e mais 20% em passivos financeiros franceses e apenas 30% de suas reservas permanecem em seus domínios. Ou seja os países do Franco CFA só tem acesso a apenas 30% de seu próprio dinheiro. A exploração francesa sobre suas ex-colônias da África ficou mais evidente com as declarações do ex-presidente francês Jacques Chirac, que disse: “Temos que ser honestos e reconhecer que grande parte do dinheiro em nossos bancos, vem justamente da exploração do continente africano.”  Outro ex-presidente da França, François Mitterrand  acrescentou: “Sem a África, a França não teria história no século XXI.”.

O Franco CFA é dividido em duas moedas intercambiáveis. O Franco CFA Ocidental  utilizado por 8 países: Benin, Burkina Fasso, Guiné Bissau, Costa do Marfim, Mali, Niger, Senegal e Togo.  Enquanto o Franco CFA Central é utilizado por 6 países: Gabão, Chade, Congo, Rep. Centro Africana, Guiné Equatorial e Camarões.

Apesar de ser moeda diferentes, possuem a mesma estrutura e o mesmo valor de câmbio e ambas são impressas e supervisionadas pelo Banco Nacional da França. Com a sua moeda atrelada ao Euro, os 14 países membros do Franco CFA não possuem autonomia e soberania sobre sua própria economia e suas políticas econômicas como taxa de juros por exemplo são conduzidas por decisões do Banco Central Europeu e isso gera enormes distorções macroeconômicas, pois a dinâmica da economia de nações tão humildes  é totalmente diferente da realidade das nações européias desenvolvidas.  Como resultado    os países da zona do franco CFA  encontram mais dificuldade para avançar em seus índices de desenvolvimento econômico e social. Desde 1994 o crescimento econômico dos países membros do franco CFA tem girado em torno de 1,5% a.a. Mesmo para os padrões africanos este desempenho econômico é considerado muito baixo, embora para os defensores do modelo isto ajuda a controlar os índices de inflação, o fato é que os países membro do franco CFA são mais pobres que seus vizinhos. A exploração monetária destas nações garantiu à França uma enorme vantagem estratégica para exercer o seu domínio e impor a sua influência. Mas isto não é o suficiente para os franceses pois a França tabalha diuturnamente para que suas ex colônias africanas sejam eternamente colônias. Este intenso instinto colonial francês sobre estas ações é conhecido como Françafrique que consiste em uma forma de influência altamente predatória da França sobre estes países da África. Mesmo sendo países independentes estão umbilicalmente ligados à França que se utiliza de seu poder com o mais puro estilo colonialista para explorar os recursos naturais destas nações e impedir qualquer possibilidade de rompimento.  A França vendo que não poderia evitar a independência destas nações estabeleceu acordos pacíficos de forma a não perder a sua influência  e principalmente não perder o acesso aos preciosos recursos naturais de suas colônias como o petróleo, urânio, diamantes, ouro, minério de ferro e muitos outros. O acordo proposto por Charles de Gaulle  proporcionou a independência das colônias francesas da África e visava formar um grupo de países  membros da comunidade francesa mas deixava claro sobre os riscos que cada colônia corria se tentasse contrariar os interesses da França. O então líder da república da Guiné Ahmed Sékou Touré disse que preferia que seu país fosse pobre na liberdade ao invés de rico na escravidão. O governo da França ficou ofendido com a audácia de Touré e fizeram tudo o que puderam para sabotar o governo da Guiné: primeiro canceleram a pensão dos veteranos de guerra que haviam lutado pela França, em seguida destruíram toda a infra estrutura do país  e depois inundaram toda a sua economia com notas falsas da moeda guineense e isto gerou uma catástrofe financeira na recém fundada nação da Guiné e provocou impasses econômicos que é refletido até hoje. Este era um claro recado da França a qualquer um dos países que quisessem seguir o seu próprio caminho iria enfrentar a fúria da França. Em 1963 Sylvanus Olympio primeiro ministro do Togo foi assassinado alguns dias antes de lançar uma moeda independente de seu país.  Outros assassinatos, golpes de Estado iriam se tornar quase que frequente em vários países da zona de influência da França.  Desde a década de 1960 a França já realizou mais de 40 intervenções militares em suas ex colônias africanas. Desta forma muitas das ex colônias da África ficaram presas ao imperialismo francês, pois a França treinou, instigou centenas de traidores e eles são ativados quando a França precisa promover outro golpe de Estado ou criar uma situação de instabilidade política na África. Assim que tem algum interesse seu ameaçado por algum líder de suas ex colônias a França se apressa em neutralizar a ameaça e na primeira oportunidade patrocina ditadores fantoches  intimamente familiarizados com as elites francesas e comprometidos a serem leais aos interesses da França. Com o apoio político a ditadores a França mantem o seu domínio colonial que garante lucros inestimáveis a empresas ligadas ao governo francês. Além disto  estatais francesas estão estrategicamente posicionadas para explorar os recursos energéticos que são fundamentais para a economia da França como o petróleo e o urânio. Como consequência em muitas ex colônias francesas todos os principais ativos econômicos estão nas mãos dos franceses, por exemplo na Costa do Marfim empresas francesas possuem e controlam todos os principais serviços públicos como água, eletricidade, telefone, transporte e grandes bancos. Todos estes setores estão fortemente dominadas por empresas privadas ou estatais francesas. Com boa parte de suas riquezas sendo saqueadas pela França, os problemas econômicos e sociais dos países do franco CFA são devastadores.  Este infinito ciclo de pobreza leva à fuga de cérebros que imigram para a França e outros países ricos. E mais uma vez isto impacta no desenvolvimento destes países pois nenhuma nação poderá prosperar se suas melhores mentes estiverem fugindo de sua pátria. Embora a França venha explorando a África por tanto tempo talvez este destino esteja reservando algo melhor para estas pobres nações africanas. Cada vez mais estes abusos estão sendo levados a público por pessoas influentes da política internacional .

Em 2019 o então vice primeiro ministro da Itália Luigi di Maio acusou a França de colonizar a África e criar refugiados. “Se a França não tivesse as suas colônias africanas, porque é assim que elas deveriam ser chamadas, seria a 15ª economia do mundo, ao invés disto  está entre as primeiras, precisamente por causa do que faz na África.”  

A atual primeira ministra da Itália, Giorgia Meloni, também fez críticas públicas aos problemas sociais que a França cria na África: “A solução não é levar africanos para a Europa, a solução é libertar a África de certos europeus que a exploram.”

Neste sentido a França vem perdendo espaço e estes exemplos expõem a França ao mundo que até a pouco tempo não tinha conhecimento desta monstruosidade. Como uma nação rica a França possui um Produto Interno Bruto de 3 trilhões de dólares e sua economia é a segunda mais importante da União Européia. Mas sem a exploração africana estima-se que a sua economia seria reduzida pela metade.  Ou seja a manutenção de sua economia como uma das mais importantes do mundo é fruto de ameaças, de ingerência política, golpes de Estado e escravidão de 14 nações pobres. Desde 1930 o franco CFA foi introduzida nas colônias francesas africanas e é a última moeda remanescente do período colonial, mas os países membros do Franco CFA  estão desenvolvendo uma moeda de nome ECO para substituir o franco CFA. A França deixará de gerir a moeda mas continuará a manter a conversibilidade para o euro como câmbio fixo. A nova moeda está sendo planejada para ser introduzida até o ano de 2027 . Porém como os franceses fazem parte desta nova construção monetária a grande dúvida que resta é porque não sabemos se a França está realmente interessada em proporcionar autonomia econômica pra estes países ou se esta é mais uma armadilha da França para continuar efetuando seu domínio colonial sobre estas pobres nações africanas.

 

FONTE: https://www.youtube.com/watch?v=dr3PUdSMPpQ

sábado, 3 de junho de 2023

A China prepara seu desacoplamento numa nova ordem mundial

 

A China prepara seu desacoplamento

A partir de 1949, país adotou três estratégias no cenário internacional. Relações Sul-Sul, centrais após a revolução, foram eclipsadas por quatro décadas pela integração com os EUA. O que uma nova reviravolta significa para África e América Latina. 

OutrasPalavras    por Cheng Yawen*  na revista Wenhua Zongheng.      Publicado 18/05/2023.   https://outraspalavras.net/descolonizacoes/a-china-prepara-seu-desacoplamento/

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Revista Outras Palavras

Quando se veem diante da ideia segundo a qual a China pode ser uma parceira decisiva para os países do Sul, certos pensadores à esquerda reagem negativamente. Apoiam-se em fatos reais. Lembram que o perfil do comércio chinês com o Brasil, por exemplo, é muito semelhante ao dos países centrais. Exportamos minérios e commodities agrícolas; importamos produtos industrializados e tecnologia. O mesmo se dá, acrescentam, com a maioria dos países da África e América Latina.

Embora verdadeiro, o argumento apoia-se numa visão estática sobre as políticas chinesas — como se elas não tivessem variado ao longo do tempo e não pudessem ser influenciadas por seus parceiros. É o que sugere o ensaio de Chen Yawen, pesquisador da geopolítica e do desenvolvimento na Universidade de Estudos Internacionais de Xangai.
Outras Palavras tem a satisfação de oferecê-lo a seus leitores, em mais uma edição da coluna Diagonais Chinesas, que busca apresentar o pensamento de pensadores contemporâneos daquele país sobre grandes temas internacionais.

Yawen descreve, no artigo, as transformações na estratégia exterior chinesa. Ele a vê marcada por duas balizas. A concepção de que o “Império do Meio” só poderia encontrar seu espaço em aliança com os países do Sul teria se mantido, nos quase 75 anos após a chegada do Partido Comunista Chinês ao poder. Mas a aplicação prática desta ideia sofreu alterações relevantes, porque foi influenciada pelas políticas adotadas pela China para alcançar seu próprio desenvolvimento.

Nos primeiros anos pós-1949, predominaram os Cinco Princípios para a Coexistência Pacífica. Em 1974, eles foram aprofundados na singular Teoria dos Três Mundos, construída por Mao Tsetung e na qual a China via-se profundamente ligada ao países “em desenvolvimento”. Mas no final dos anos 1970, reconhece Yawen, ocorreu uma mudança sensível. Ela coincidiu com a percepção, pela China, de que não poderia bastar-se economicamente a si mesma, e precisava abrir-se temporariamente às potências ocidentais, para industrializar-se e se desenvolver tecnologicamente. Nesse período de abertura, Pequim priorizou o aspecto comercial de suas relações com o Sul. Necessitando de combustíveis e alimentos, foi buscá-los onde estavam disponíveis.

As políticas chinesas estão mudando de novo, explica Yawen. O giro começa com o fortalecimento econômico progressivo do país; amplia-se com uma diplomacia muito mais ativa no cenário internacional, já no mandato de Xi Jinping. Tende a tornar-se muito mais nítida depois da guerra na Ucrânia, pois Pequim deu-se conta de que pode sofrer, por parte de Washington, as mesmas sanções impostas a Moscou.

Desacoplamento, sustenta Yawen, é o conceito que define a nova postura da China diante dos EUA e do Ocidente. As consequências geopolíticas são vastas e profundas, agora que o país é a maior economia do planeta, sob o critério de produção real de bens e serviços. Surge, aos poucos, uma “Teoria dos Três Anéis”, clara referência aos “Três Mundos”. A China está empenhada, em primeiro lugar, em aproximar-se dos países que compõem seu espaço próximo: Ásia do Leste e Central e Oriente Médio. Quer também ampliar a cooperação e a parceria com América Latina e África, o “segundo anel”. Embora não rejeite relações com os países ricos, enxerga-os apenas num “terceiro anel”.

A nova atitude terá múltiplos desdobramentos, sugere o texto. A Nova Rota da Seda, com
centenas de bilhões de dólares em investimentos em projetos de infraestrutura, nos países que a integram. Os preparativos para ações mais incisivas do Banco dos Brics e do Banco Asiático de Investimento e Infraestrutura (BAAI). Em especial, a luta para criar uma nova ordem monetária e financeira internacional. Em torno destas disputas, conclui Yawen, pode surgir uma nova polarização global. A China estará, segundo ele, aberta a relações muito mais estratégicas – e mutuamente benéficas – que as simples trocas comerciais. Mas as novas parcerias precisam ser construídas, o que exige esforço. É muito fácil vender soja ou carne aos chineses. Bem mais trabalhoso é criar, por exemplo, as bases de uma colaboração entre órgãos públicos, bancos estatais e empresas privadas, visando a desenvolver, no Brasil, o Complexo Econômico e Industria da Saúde.

O texto de Yaven intitula-se, originalmente, “Construindo os novos ‘Três Anéis’: a reconfiguração das relações exteriores da China diante do desacoplamento”. Foi publicado pela primeira vez na revista chinesa
Wenhua Dongheng
, referência em teoria política em seu país. Uma edição trimestral da revista, construída a partir de curadoria, edição e tradução do Coletivo DongSheng e do Instituto Tricontinental, circula também em português. Somos gratos a estes parceiros, por ampliarem nossas chances de diálogo com o pensamento chinês. (Antonio Martins)

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A “operação militar especial” da Rússia contra a Ucrânia e o impasse instalado entre o Ocidente e a Rússia são acontecimentos históricos que indicam o fim iminente da onda de globalização iniciada nos anos 1980. Os absurdos esforços dos Estados Unidos para intimidar seus aliados a impor sanções assassinas contra a Rússia e para constranger outros países a tomar partido neste conflito conduziram o mundo a uma situação que lembra as lutas globais mortíferas do século XX. Tais acontecimentos colocam um grande desafio para a China. O fim dessa onda de globalização significa que o país já não terá o mesmo ambiente externo para o desenvolvimento, usufruído nos últimos quarenta anos, e que os Estados Unidos devem intensificar a ofensiva para restabelecer seu domínio sobre o sistema internacional e se desacoplar da China e da Rússia. O mundo passou por uma mudança de paradigma1. Diante de uma possível desintegração forçada e completa dos Estados Unidos e dos países ocidentais, a China deve ter a iniciativa de ajustar sua orientação estratégica de relações exteriores, e priorizar as alianças com países com os quais possa desenvolver uma nova ordem internacional que a proteja contra as repercussões desse desacoplamento.

A regra tácita da ordem internacional: a estrutura de poder centro-periferia

 Durante três décadas desde o colapso da União Soviética, as relações entre a Rússia e o Ocidente foram hesitantes. Inicialmente, a Rússia buscou construir laços amistosos com os Estados Unidos e os países ocidentais, depois se afastou gradualmente destes e, agora, entrou em uma confrontação feroz. A evolução dessa relação reflete os limites políticos da globalização. Diferente das noções românticas sobre a globalização que cresceram na sequência do fim da Guerra Fria, na realidade esse período testemunhou o estabelecimento da hegemonia estadunidense e o desmembramento da União Soviética e do campo socialista. Esse processo de globalização e a busca dos Estados Unidos por supremacia global são dois lados da mesma moeda, são condições um do outro, e se promovem mutuamente. Esse sistema não pode perdurar indefinidamente, devido a sua incapacidade de promover a igualdade internacional, com países desenvolvidos e em desenvolvimento presos em uma relação de dominantes e dominados. Por um lado, a globalização é abandonada, revertida e reformatada quando se volta contra seus promotores, ameaçando sua superioridade. Por outro, os países vão continuar resistindo à busca implacável dos Estados poderosos por dominação2. A operação militar especial da Rússia contra a Ucrânia é resultado da natureza de dominação dessa fase de globalização, e levou o sistema dominado pelos Estados Unidos a um impasse.

A expansão da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) para o Leste, que já dura décadas, foi a principal razão do ataque preventivo da Rússia. Essa expansão militar não foi apenas uma questão de segurança, mas também econômica, parte dos esforços dos Estados Unidos para marginalizar a Rússia. Os esforços russos para aproveitar a globalização, avançar em seu desenvolvimento nacional e se tornar um país central na ordem mundial contrariam a lógica da globalização liderada pelos EUA. O capital internacional, particularmente o capital financeiro, se concentrou predominantemente em energia, grãos e minerais russos, setores que pode explorar para obter lucros extravagantes. No entanto, durante o mandato de Vladimir Putin como presidente da Rússia, o Estado fortaleceu seu peso em setores estratégicos para a segurança nacional e as condições de vida da população, e buscou construir uma união econômica eurasiana para criar espaço para seu próprio crescimento econômico. Isso irritou o capital estrangeiro. A expansão da OTAN ao leste expressa o controle do capital sobre a política com o objetivo de expandir seus mercados. Se a Rússia não puder responder efetivamente aos esforços que visam restringir seu espaço de desenvolvimento e ao aumento de sua marginalização, ela será ainda mais profundamente obrigada a ser mera produtora de bens primários e perderá o acesso à política das grandes potências. Isso aumentaria as probabilidades de crises políticas internas, que as elites russas pretendem evitar.

A estrutura de poder da ordem mundial contemporânea foi revelada pela expansão da OTAN ao leste e pelo regime de sanções abrangentes impostas pelos países ocidentais à Rússia. Após a Segunda Guerra Mundial, o sistema colonial europeu começou a desvanecer e, durante a segunda metade do século XX, a ordem mundial passou a estar centrada nas Nações Unidas e no direito internacional, notadamente no princípio de igualdade soberana dos Estados. Entretanto, a ordem hierárquica centro-periferia do sistema colonial europeu não desapareceu de fato. Ao contrário, continua a existir de forma implícita e dissimulada. As hierarquias de poder absoluto impostas pelos regimes coloniais foram substituídas por uma ordem internacional baseada em “responsabilidades comuns, porém diferenciadas”, na qual os Estados são soberanos e iguais em aparência, mas desiguais no exercício efetivo de poder3. Embora os Estados Unidos e seus aliados se refiram a esse sistema internacional como uma ordem “baseada em regras”, na qual cada nação deveria cumprir as mesmas regras, trata-se, com efeito, de uma ordem que gira em torno do Ocidente, e não da ONU e do direito internacional.

A hegemonia dos Estados Unidos no pós-guerra é a encarnação moderna da ordem global centro-periferia. O Grupo dos Sete (G7), estabelecido nos anos 1970, realiza reuniões anuais nas quais Canadá, França, Alemanha, Itália, Japão, Reino Unido e os Estados Unidos discutem não apenas questões relativas a estes sete países, mas também questões globais sobre as quais negociam e determinam regras internacionais. A chamada ordem baseada em regras é, com efeito, uma ordem baseada nas regras estabelecidas pelos países ocidentais e seus aliados. O importante, aqui, é quem faz as regras. Nesse sistema internacional, a divisão do trabalho, a oferta monetária, a produção industrial e o estabelecimento de regras são atribuições exclusivas de um pequeno e seleto grupo de países. A posição vantajosa desses países seria rompida se outros países tentassem entrar nesse clube, perturbando a autoridade normativa, o domínio monetário e a superioridade tecnológica mantida pelo regime de propriedade intelectual. O surpreendente crescimento econômico da China nas últimas décadas rompeu precisamente essa ordem mundial centro-periferia do pós-guerra, ameaçando os privilégios estruturais dos países ocidentais, que jamais imaginariam que a China pudesse chegar ao centro do cenário global (mesmo que a China apenas esteja se aproximando dessa posição e ainda não tenha chegado a ela). Como resultado, nos últimos anos os Estados Unidos definiram a China como seu “concorrente estratégico” e demonstraram sua disposição de usar todos os meios para impedir seu desenvolvimento.

A expansão da OTAN para o Leste e a tentativa de Washington de contenção da China são indicações de que os Estados Unidos e os países ocidentais pretendem manter e reforçar suas posições de poder na ordem mundial. O conflito Rússia-Ucrânia e as abrangentes sanções ocidentais contra a Rússia evidenciaram, ainda mais, a verdade sobre o sistema global: a maioria do mundo se encontra no “campo” da periferia global, enquanto apenas poucos e seletos países estão nas “cidades” do centro global, cujo núcleo é ocupado pelos Estados Unidos. Esses países não pretendem ver o “campo” se transformar em “cidade”, como o são. China e Rússia atrapalham o “centro urbano” em dois aspectos fundamentais. Por um lado, devido a sua forte capacidade de controle de capital, os dois países são os maiores territórios do mundo que ainda não foram submetidos a dominação arbitŕaria da globalização capitalista. Por outro lado, sua força nacional é muito maior do que a de muitos países e bloqueia esforços do “centro urbano” de ampliar seu controle sobre o “campo” da periferia global. Durante essa onda de globalização, a China foi do “campo” para a “cidade” com seu crescimento econômico robusto e a ampliação de sua força nacional. Os países do centro, apesar de sua prévia apologia entusiasmada à globalização, agora protagonizam esforços de “desglobalização”, expondo os limites da universalidade da ordem mundial do pós-guerra. A integração da China e de outras nações do “campo” às “cidades” é simplesmente intolerável para os países centrais.

A base de apoio para o multilateralismo está no Sul Global

 Desde a década de 1980, a China adotou a política de reforma e abertura e promoveu a cooperação internacional, incluindo, na última década, a apresentação da proposta de construir uma “comunidade de futuro compartilhado para a humanidade” (类命运共同体, rénlèi mìngyùn gòngtóngtǐ). Esses esforços remontam à antiga noção chinesa de “grande unidade sob o céu” (天下大同, tiānxià dàtóng). No entanto, essa “grande unidade” não pode ser atingida apenas pela vontade da China. No atual contexto de hostilidade aberta do Ocidente, liderado pelos Estados Unidos, contra Rússia e China, o mundo não pode mais ser visto de forma mecânica, nem é possível presumir simplesmente que todos estejam unidos em torno da paz e do desenvolvimento. Ao contrário, é preciso considerar seriamente as ameaças de competição, conflito e guerra. Ainda que se exclua a guerra dos resultados prováveis, é evidente que não é mais possível que a China continue buscando seu caminho de desenvolvimento no sistema de globalização dominado pelo Ocidente. Assim, a China deve reavaliar sua resposta à questão básica nas relações exteriores: quais países são parceiros potenciais da China, hoje e no futuro, e com quais países a China terá dificuldade de estabelecer e manter parcerias?

Como diz um conhecido ditado chinês, as coisas semelhantes se juntam e as pessoas semelhantes se dão bem (ou, pássaros da mesma plumagem voam juntos). O mesmo se aplica às nações. Aquelas nações que compartilham experiências, contextos e desafios semelhantes tendem a formar relações de cooperação mais sólidas. Desde o século XIX, o mundo passou por uma transformação global conduzida por três componentes principais: industrialização, construção racional de Estados-nação, e ideologias de progresso, passando de um mundo policêntrico, sem centro dominante, para uma ordem centro-periferia altamente interligada e hierárquica na qual o centro gravitacional está no Ocidente4.

Entre a segunda metade do século XIX e o início do século XX, imperialismo e globalização foram os dois lados da mesma moeda: o imperialismo impulsionou a globalização, enquanto a globalização reforçou o imperialismo. Juntos, esses processos articulados confinaram as nações periféricas do mundo à prisão do subdesenvolvimento, da qual é extremamente difícil se libertar. O Ocidente, como antigo centro do sistema internacional e berço do imperialismo, produziu tanto a ordem colonial moderna como o sistema de hegemonia dos Estados Unidos, que dominam o mundo desde a segunda metade do século XX. Contudo, muitos movimentos revolucionários, notadamente as lutas anticoloniais do século passado, lutaram para superar a desigualdade e injustiça dessa estrutura global de poder centro-periferia.

Nessa ordem mundial desigual, os países centrais não acolhem de forma justa os países periféricos no centro e se opõem a revoluções na periferia. Assim, para se libertar da subordinação e exploração, os países periféricos precisam trabalhar conjuntamente e, ocasionalmente, explorar as fissuras entre os Estados do centro, cooperando taticamente com Estados centrais quando isso puder contribuir para o avanço da luta. Ao longo do século passado, durante a Revolução Chinesa e a consolidação do poder estatal, as principais forças externas nas quais a China se apoiou eram do Sul Global. Na primeira metade do século XX, o Partido Comunista da China (PCCh) integrou a Internacional Comunista, uma aliança de atores estatais e não estatais entre os povos colonizados e oprimidos do mundo. Durante a Guerra de Resistência contra a Agressão Japonesa (1931-1945), a China se somou à Guerra Mundial Anti-Fascista, levantou a bandeira anti-imperialista e fomentou a luta para desmantelar as estruturas globais de desigualdade criadas pelos Estados imperialistas. Depois que a República Popular da China foi fundada em 1949, a China deu muita ênfase à cooperação com os países do Terceiro Mundo, apoiou os movimentos anti-coloniais e o desenvolvimento pós-independência na Ásia, África e América Latina. Foi de particular importância a participação ativa da China na Conferência de Bandung em 1955 – um passo importante na criação do Movimento dos Países Não-Alinhados em 1961 – onde sua proposta de Cinco Princípios de Coexistência Pacífica (和平共处五项原则, hépíng gòngchǔ wǔ xiàng yuánzé) foi bem recebida. A conferência se tornou um marco das relações da China com o Sul Global, na qual cooperação e solidariedade tiveram um impulso positivo5. Foi com o apoio dos países periféricos que a República Popular da China retomou o assento que lhe é de direito nas Nações Unidas, e se tornou membro permanente do Conselho de Segurança.

A solidariedade e apoio mútuo entre a China e os países da Ásia, África e América Latina continuam sendo componentes importantes da abordagem chinesa às relações internacionais, com ênfase na cooperação multilateral com países em desenvolvimento do Sul Global para defender a soberania nacional e o desenvolvimento, em uma luta conjunta contra a ordem mundial desigual e injusta estruturada pelos países centrais. Apesar de focar em relações com os países periféricos, com o paradigma da “diplomacia omnidirecional” (全方位外交, quán fāngwèi wàijiāo), a China permanece aberta a estabelecer e desenvolver uma cooperação amistosa com os países ocidentais desenvolvidos e outras grandes potências. Entretanto, há que se atentar para o fato de que, no passado, a interação e cooperação entre China e os países centrais sempre tiveram duas pré-condições. Por um lado, a insistência da China em desenvolver relações exteriores tendo a independência, igualdade e benefício mútuos como premissas, e se opondo as hierarquias de poder existentes nas relações internacionais. Por outro lado, os países centrais colocaram um teto em sua colaboração com a China, a saber, a impossibilidade de alteração na posição dos países ocidentais no centro da estrutura global de poder. Sempre que uma dessas duas pré-condições não estava dada, a China – como parte do mundo em desenvolvimento – enfrentou sérios desafios para aprofundar sua cooperação com os países ocidentais, especialmente em matérias políticas.

Ajustando as prioridades geográficas das relações exteriores da China

Nos últimos quarenta anos, deixando de lado diferenças ideológicas e disparidades institucionais entre os países, a China buscou atuar junto com outras nações. Gradualmente, as relações internacionais da China passaram a ser guiadas pela seguinte lógica: as potências são o principal, as áreas do entorno são a primeira prioridade, os países em desenvolvimento são as fundações, e os fóruns multilaterais são os cenários importantes. No entanto, na medida em que a era da globalização chega ao fim, essa abordagem tem encontrado cada vez mais obstáculos. É improvável que o processo de desacoplamento da China em termos econômicos, tecnológicos, de conhecimento e intercâmbio entre as pessoas – iniciado pelos Estados Unidos, ao qual Washington coagiu outros países ocidentais a se somarem –, seja revertido. Pelo contrário, devido à guerra Rússia-Ucrânia, esse processo pode ser ainda mais intensificado.

Desde sua fundação em 1949, a República Popular da China passou por mudanças significativas na direção de sua política externa, todas tendo acontecido em resposta a situações históricas específicas: da proposta de Cinco Princípios de Coexistência Pacífica nos primeiros anos da RPC, à Teoria dos Três Mundos proposta no contexto da normalização das relações China-Estados Unidos nos anos 1970, e à ênfase ao desenvolvimento de parcerias com os países ocidentais como parte da transição à reforma e abertura após 1978. A situação contemporânea é definida pelo que o presidente da China Xi Jinping chamou de “grandes mudanças inéditas em um século” (百年未有之大变局, bǎinián wèi yǒu zhī dà biànjú) e pela tendência crescente dos Estados ocidentais de suprimirem os questionamentos à sua autoridade. Especialmente desde a eclosão da guerra entre Rússia e Ucrânia, os Estados ocidentais explicitaram sua disposição de se unir na pressão e contenção aos países em desenvolvimento, característica da atual ordem dominada pelo Ocidente que irá debilitar as relações internacionais por algum tempo. Não há como a China não ficar altamente alarmada pelas medidas punitivas que o Ocidente impôs à Rússia, já que estas podem ser impostas à China de forma similar no futuro. Por isso, é urgente e necessário que a China reavalie sua tradição de multilateralismo e reoriente a configuração geográfica de suas relações exteriores, fortalecendo suas parcerias com os países em desenvolvimento do Sul Global para fomentar um novo ambiente internacional que favoreçam a segurança nacional e o desenvolvimento de longo prazo da China.

Em 1974, Mao Zedong estabeleceu sua Teoria dos Três Mundos, categorizando os países em três grupos principais, cada um demandando da China uma relação distinta. O terceiro grupo, dos países em desenvolvimento do Terceiro Mundo, era o principal foco da China. O povo e o governo chinês apoiaram com firmeza as lutas justas de todos os povos e nações oprimidas. Tomando como base as práticas e experiências anteriores da China em suas relações exteriores, a teoria delineou prioridades geográficas para os laços da China com outros países, e forneceu um importante guia ideológico para a abordagem do país com relação à cooperação Sul-Sul. Essa teoria permanece de grande relevância e deveria orientar a reconfiguração atual das prioridades geográficas das relações exteriores da China. Ao contrário da ênfase dedicada ao trabalho com países ocidentais desde o início da reforma e abertura há quatro décadas, a China agora precisa trazer o avanço do projeto Sul-Sul para o primeiro plano.

Seja em relação a assuntos diplomáticos, desenvolvimento de longo prazo ou rejuvenescimento da nação, os arranjos exteriores da China terão que priorizar o engajamento com países do Sul Global por um período de tempo considerável. A China deveria configurar suas relações exteriores e promover a construção de uma nova ordem mundial a partir do paradigma dos “três anéis” (, sān huán). O primeiro anel se refere às regiões vizinhas da China, ou seja, o Leste Asiático, a Ásia Central e o Oriente Médio, que apresentam elementos importantes em termos de recursos, energia e segurança. O segundo anel engloba os países em desenvolvimento da Ásia, África e América Latina, com os quais a China tem relações de comércio e investimento e projetos de infraestrutura, e aos quais a China direciona a maioria de sua ajuda externa. O terceiro anel engloba os Estados Unidos, os países europeus e outros países industrializados com os quais a China intercambia produtos industriais, tecnológicos e conhecimento.

No paradigma dos “três anéis”, a primeira e mais importante prioridade para ajudar a construir um novo sistema internacional deveria ser o primeiro anel, ou seja, o Leste Asiático, a Ásia Central e o Oriente Médio. Para promover ainda mais a integração econômica do leste asiático e suas ligações com a Ásia Central e o Oriente Médio, é preciso fortalecer o engajamento e a cooperação entre os países asiáticos. Nos últimos anos, ao promover a diplomacia econômica, a China fez progressos consideráveis em ampliar a integração econômica do leste asiático e a cooperação econômica com diversos outros países desta região. O último grande marco da integração econômica do Leste Asiático foi lançado no dia 1º de janeiro de 2022, quando a Parceria Regional Econômica Abrangente (RCEP pela sigla em inglês) finalmente entrou em vigor, após dez anos de negociação. No entanto, o intercâmbio econômico entre os países do Leste Asiático tem sido crescentemente afetado por forças extra-regionais e questões de segurança nos últimos anos, com disputas sobre direitos marítimos no Mar do Sul da China e a estratégia “Indo-Pacífico” de Washington que fomentam incertezas na região. Como forma de prevenir a exploração de problemas internos da Ásia por forças externas, a China deveria se afastar da “supremacia do PIB”, ou do foco estreito em assuntos econômicos que priorizou anteriormente em suas relações exteriores, e dedicar mais atenção às agendas políticas e de segurança na região, promovendo mais cooperação em matéria de segurança entre os países asiáticos.

A cooperação Sul-Sul é a base material dos novos “Três Anéis”

A base material para o paradigma dos “três anéis” é a cooperação Sul-Sul, conceito que emergiu no fim do século XX e se relaciona com os interesses, solidariedade e apoio mútuos entre os países do Terceiro Mundo6. No século XXI, um novo patamar da cooperação Sul-Sul tem sido estabelecido, tornando esse conceito ainda mais alcançável na realidade. A principal razão para isso é que, nas décadas recentes, diversos países em desenvolvimento na Ásia, África e América Latina foram capazes de se industrializar ou quase se industrializar ao “subir na escada emprestada”, aproveitando as oportunidades da onda de globalização. Entre esses países, um novo sistema global de produção e circulação material tomou forma, e está a caminho de eclipsar a “escada” original da globalização construída pelos países ocidentais. Esse novo sistema global tem se manifestado em dois aspectos importantes.

Em primeiro lugar, a participação dos países em desenvolvimento na economia mundial mudou significativamente. Em 1980, os países desenvolvidos correspondiam a 75,4% do PIB mundial, enquanto os países em desenvolvimento representavam menos de 25%. No entanto, em 2021, o percentual do primeiro grupo caiu para 57,8% do PIB mundial, enquanto o segundo ampliou sua participação para 42,2%7. O PIB combinado dos países do BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), somados com Turquia, Coreia do Sul e Indonésia, em termos de paridade de poder de compra (PPC), saltou de 21% da economia global em 1992 para 37,7% em 2021, enquanto a participação combinada dos países do G7 declinou de 45,8% para 30,7% no mesmo período8.

Em segundo lugar, o comércio e investimento recíproco entre os países em desenvolvimento também se tornaram cruciais. De 1997 a 2010, o comércio entre a China e os países da África, assim como com os países da América Latina, aumentou cerca de 22 vezes. Entre 2010 e 2021, o comércio China-África e China-América Latina cresceu novamente, 2 e 2,5 vezes, respectivamente9. De 2000 a 2018, o comércio entre China e países árabes saltou de 15,2 bilhões para 244,3 bilhões de dólares, um aumento de 16 vezes em menos de 20 anos10. Outras economias emergentes, como Brasil e Índia, aumentaram acentuadamente seu comércio com países em desenvolvimento. De 2003 a 2010, o comércio do Brasil com os países árabes aumentou quatro vezes, enquanto seu comércio com os países africanos quintuplicou, totalizando 26 bilhões de dólares, um valor superior ao comércio do Brasil com parceiros tradicionais como Alemanha e Japão. E, de 2010 a 2019, o comércio do Brasil com países árabes e africanos aumentou 98% e 68% respectivamente11. De maneira semelhante, desde 2001, o comércio da Índia com os países africanos tem crescido a uma taxa média anual de 17,2% e, de 2011 a 2021, aumentou 2,26 vezes12

O comércio da Índia com os países da América Latina, assim como com a região do Norte da África e Oriente Médio, experimentou crescimento similar. O volume de comércio entre os países em desenvolvimento está crescendo a uma taxa mais rápida que a média global, enquanto o comércio com os países desenvolvidos continua diminuindo.

No mundo em transformação, uma rede particularmente importante de desenvolvimento econômico emergiu na Ásia, em torno da China. Isso é demonstrado pelas quatro tendências a seguir:

  1. A Ásia é novamente o centro de gravidade da economia mundial. Em 1980, os países em desenvolvimento da Ásia correspondiam a 13,7% do PIB mundial. Contudo, sua participação cresceu para 24,7% em 2010 e alcançou 35,8% em 202113 . No caso dos países do leste asiático (incluindo China, Japão, Coréia do Sul e dez países do sudeste asiático), em 1980 sua participação no PIB mundial era em torno de apenas 16,2%, mas em 2020 esse percentual quase dobrou, alcançando 30%14. Enquanto isso, em 2020, a população total dos quinze países membros do RCEP chegou a 2,27 bilhões, o PIB acumulado atingiu 26 trilhões de dólares e o total de importações e exportações superou 10 trilhões de dólares, correspondendo a 30% do total mundial15 . Segundo o HSBC, a estimativa é que o tamanho acumulado das economias do RCEP se expanda para 50% da economia mundial até 203016 .
  2. O comércio e investimento mundiais também estão se direcionando para a Ásia. O crescimento consistente da participação asiática no comércio mundial passou de 15,7%, em 1980, para 22,2% em 1990, 27,3% em 1995, 26,7% em 2000, 25,6% em 2001, avançando para 36% em 2020. Atualmente, a Ásia é a principal região comercial do mundo17.
  3. O nível de comércio intra-regional é muito superior ao do comércio extra-regional na Ásia. Entre 2001 e 2020, o comércio interno total da Ásia saltou de 3,2 trilhões para 12,7 trilhões de dólares, com taxa média de crescimento anual nominal de 7,5%. Durante o mesmo período, a participação da Ásia no comércio mundial cresceu de 25,6% para 36%18 . Em 2020, o comércio intra-regional da Ásia correspondeu a cerca de 58,5% do total de seu comércio exterior19 .
  4. O Leste e o Oeste da Ásia estão se aproximando economicamente. Os principais destinos da energia do Oriente Médio se deslocaram dos Estados Unidos e Europa para o Leste e Sul da Ásia.

Atualmente, os países em desenvolvimento conformam a estrutura preliminar para um novo sistema econômico global, mas uma sinergia ainda maior entre eles é necessária para alcançar um patamar mais elevado de conectividade econômica, assim como maior influência política na arena internacional para se libertarem do controle e coerção ocidental. Nesta última década, a China se tornou a maior economia real do mundo (considerando a produção e comercialização de bens e serviços) e a segunda maior economia em geral, assim como o maior parceiro comercial da maioria dos países no mundo. Em 2021, a participação mundial do setor manufatureiro da China era de quase 30%. Sendo o país que produz a maioria dos bens materiais no mundo, a China está em posição similar a dos Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial (no auge, em 1953, os Estados Unidos representavam aproximadamente 28% da produção industrial global). O que a China pode e deve fazer é tomar a iniciativa de conduzir uma estratégia global que melhore o sistema mundial de intercâmbio material entre os países em desenvolvimento, ou seja, concretizar verdadeiramente a cooperação Sul-Sul.

No entanto, as deficiências persistem. O comércio e investimento entre os países em desenvolvimento ainda dependem fortemente dos sistemas financeiro e monetário dirigido pelo Ocidente. Para que os países em desenvolvimento possam elevar ainda mais sua autonomia política e econômica, e para que as economias emergentes atinjam níveis de influência política no sistema mundial correspondentes a suas escalas econômicas, devem superar sua dependência monetária e financeira do Ocidente. Assim, para construir um novo sistema internacional de “três anéis”, os países em desenvolvimento devem considerar não só os fatores geopolíticos tradicionais, mas também os sistemas mundiais de informação e finanças. Nos últimos anos, a China começou a fazer isso ao desenvolver swap cambial com diversas economias de mercado emergentes. Mecanismos mais abrangentes e de alto nível para a cooperação monetária e financeira devem ser criados entre os países em desenvolvimento. Para isso, é importante aproveitar os mecanismos e plataformas existentes que podem fortalecer a cooperação Sul-Sul, incluindo: a atualização e transformação do Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (BAII) e o Novo Banco de Desenvolvimento (NBD) criado pelo BRICS para impulsionar um sistema autônomo de pagamentos internacionais; fortalecer a cooperação financeira e em matéria de segurança no âmbito da Organização de Cooperação de Xangai (OCX), particularmente a cooperação entre China, Rússia, Índia e Irã (ressalte-se que a Rússia também é um país em desenvolvimento e que as economias chinesa e russa são altamente complementares); promover ainda mais a integração econômica do leste asiático no âmbito da Iniciativa Cinturão e Rota (ICR), com esforços especiais para consolidar as realizações do RCEP; a construção de um mercado comum de energia na Ásia, para que os compradores no leste e sul da Ásia e os vendedores do Oriente Médio, Ásia Central e Rússia possam compartilhar o mesmo sistema de comércio e pagamento de energia; fazer uso adequado do mecanismo da Cúpula do BRICS para aprofundar, assim, a cooperação Sul-Sul; e promover a diversificação do sistema monetário internacional e a internacionalização do RMB no contexto da cooperação Sul-Sul, assim como apoiar o status internacional do euro enquanto se protege da hegemonia do dólar estadunidense.

Há cem anos, a direção do Partido Comunista da China propôs a estratégia revolucionária do “cerco das cidades pelo campo” (农村包围城市, nóngcūn bāoweí chéngshì). Na atual era de “grandes mudanças inéditas em um século”, a China e os países em desenvolvimento precisam desmantelar a ordem mundial centro-periferia, superar a hostilidade dos países ocidentais e aprofundar a solidariedade e cooperação entre o “campo” global. O aprofundamento da cooperação Sul-Sul irá criar as condições favoráveis e mobilizar recursos para a construção de um novo sistema mundial de “três anéis”, que pode aliviar as tensões internacionais e permitir que os países em desenvolvimento, incluindo a China, ocupem o lugar que lhes corresponde no centro da ordem política e econômica mundial. Depois de mais de quarenta anos de reforma e abertura, a China deve ajustar sua compreensão de “abertura” e transformar seu pensamento sobre as relações exteriores. Evidentemente, a China ainda deve tentar manter sua cooperação com o Ocidente enquanto for possível, e desde que o Ocidente não tome a decisão de se opor completamente à China.

(Esse artigo foi editado por Guo Jinze)

 

Notas

* Cheng Yawen亚文) é diretor do departamento de Ciência Política da Escola de Relaçães Internacionais e Administração Pública, da Universidade de Estudos Internacionais de Xangai. Anteriormente lecionou no departamento de Teoria da Guerra e Pesquisa Estratégica, da Academia de Ciências Militares do Exército de Libertação Popular. Suas áreas de pesquisas incluem política comparada e estratégias de desenvolvimento nacional. Tem interesse de longa data em temas como os impactos da globalização nos países subdesenvolvidos, as estratégias de desenvolvimento dos países em desenvolvimento no contexto da globalização, e as relações entre a China e os países subdesenvolvidos.

1 Cheng Yawen, “Compreendendo a mudança de paradigma nas características dos tempos” [理解时代特征的范式性变革], Fronteiras Acadêmicas [术前沿], n. 15, p. 42-53, 2022.

2 Cheng Yawen, “Limites políticos da globalização” [全球化的政治限度], Dushu [读书], n. 11, 2020.

3 Cheng Yawen, “Compreendendo a mudança de paradigma nas características dos tempos”.

4 Barry Buzan e George Lawson, The Global Transformation: History, Modernity, and the Making of International Relations [全球转型历史、现代性与国际关系的形成], traduzido do original em inglês (2015) ao chinês por Sui Shunji e publicado na China pela Editora popular de Xangai em 2020.

5 Hong Liu, “China Engages the Global South: From Bandung to the Belt and Road Initiative”, Global Policy 13, n. S1, p. 11-22, 2022.

6 Para a edição internacional deste artigo, as estatísticas foram atualizadas para refletir os dados mais recentes.

7 Valores calculados a partir da base de dados World Economic Outlook, do FMI. Consultado em outubro de 2022, disponível em: https://www.imf.org/external/datamapper/NGDPD@WEO/OEMDC/ADVEC/WEOWORLD.

8 Valores calculados a partir da base de dados World Economic Outlook, do FMI. Consultado em outubro de 2022, disponível em: https://www.imf.org/external/datamapper/PPPSH@WEO/OEMDC/ADVEC/WEOWORLD/BRA/RUS/IND/CHN/ZAF/TUR/IDN/KOR/MAE.

9 Em 1997, o valor do comércio entre China e África totalizou 5,673 bilhões de dólares, e entre China e América Latina 8,376 bilhões, de acordo com o China Statistical Yearbook 1999. Em 2010, o valor do comércio entre China e África foi de 127 bilhões de dólares, e entre China e América Latina 183,6 bilhões, segundo o China Statistical Yearbook 2021. Finalmente, em 2021, o valor do comércio entre China e África foi 254,3 bilhões de dólares, e entre China e América Latina totalizou 451,591 bilhões, de acordo com a Administração Geral Aduaneira da China.

10 Jing Kai, “Um novo capítulo se abre para a cooperação econômica e comercial sino-árabe” [中阿经贸合作奏响新乐章], Diário de Guangming [光明日], 5 de setembro de 2019.

11 Cálculos realizados a partir dos dados disponíveis no World Integrated Trade Solution (WITS), software desenvolvido pelo Banco Mundial em colaboração com a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), que provê acesso a informações estatísticas tarifárias e não tarifárias sobre comércio internacional. “Brasil joga um papel global ambicioso” [巴西要在全球扮演雄心勃勃角色], Reference News [参考消息], 2 de setembro de 2010.

12 Sun Xiaohan, “Análise da atual situação e prospecção do investimento e comércio entre Índia e África” [印度对非投资贸易现状分析与前景展望], Investimento chinês [中国投], Setembro 2021.

13 Valores calculados a partir da base de dados World Economic Outlook, do FMI. Consultado em outubro de 2022, disponível em: https://www.imf.org/external/datamapper/NGDPD@WEO/WEOWORLD/APQ/CAQ/MEQ/JPN/AZQ. Aqui, países em desenvolvimento da Ásia englobam as regiões designadas pelo FMI como Ásia-Pacífico, Ásia Central e Cáucaso, e o Oriente Médio, com exceção do Japão, Austrália e Nova Zelândia.

14 Valores calculados a partir da base de dados World Economic Outlook, do FMI. Consultado em outubro de 2022, disponível em: https://www.imf.org/external/datamapper/NGDPD@WEO/OEMDC/ADVEC/WEOWORLD/EAQ/SEQ. Aqui, o leste asiático corresponde às regiões designadas pelo FMI como Leste da Ásia e Sudeste da Ásia.

15 Zhu Xiaoxiong e Li Pan, “Como a eficácia do RCEP irá beneficiar a economia mundial” [RCEP生效世界经济受益几何], Diário de Guangming [光明日], 4 de janeiro de 2022.

16 Li Ning, “RCEP se torna oficial! A maior área de livre comércio do mundo tem início” [RCEP正式生效世界最大自贸区启航], Diário de Negócios Internacionais [际商报], 3 de janeiro de 2022.

17 Wing Chu e Yuki Qian, Tapping the RCEP Opportunities: Hong Kong to Maximise GBA’s Unique Edge as a Business Platform, Hong Kong Trade Development Council (HKTDC) e ACCA, 18 de novembro de 2021, https://portal.hktdc.com/resources/RMIP/20211112/67htt6r-QUNDQSZIS1REQyBSZXBvcnRfR0JBX1JDRVBfRU4=.pdf.

18 Chu e Qian, Tapping the RCEP Opportunities.

19 Boao Forum for Asia, Annual Report 2022: Asian Economic Outlook and Integration Process, abril de 2022.

 

Referências Bibliográficas

Boao Forum for Asia, Annual Report 2022: Asian Economic Outlook and Integration Process, abril de 2022.

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FONTE:  https://outraspalavras.net/descolonizacoes/a-china-prepara-seu-desacoplamento/