domingo, 27 de agosto de 2023

A EXPANSÃO DO BRICS É UMA ÓTIMA NOTÍCIA

 

A expansão do Brics é uma ótima notícia

POR Hugo Albuquerque

Ao contrário do que diz a mídia, a expansão do bloco depois da última cúpula de Joanesburgo, na África do Sul, é um bom sinal de mudança global. As contradições internas dos 6 países admitidos não mudam isso, pois a possibilidade do Sul Global se integrar mais e ter sua própria moeda internacional são medidas que, na verdade, ampliam a liberdade.

 

A adesão de seis novos países ao Brics, bloco formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul é uma ótima notícia. A cúpula sul-africana do bloco, inclusive, foi prestigiada por dezenas de países e mais de vinte fizeram pedido formal de entrada. Desta vez, entraram Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Irã, Etiópia, Argentina e Egito.

Se o bloco original já era diverso, com jovens países como Brasil e África do Sul unidos a nações anciãs como China e Índia, agora é ainda mais: salvo os sul-africanos, todas as demais nações eram gigantescas. Dessa vez, teremos o acréscimo de países jovens que remetem à antiga civilização árabe – sauditas e emiradenses – ou Etiópia, Irã e Egito, países antiquíssimos, exceção feita apenas à jovem Argentina.

Há, é claro, muitas contradições. Podemos argumentar que embora a existência ou ampliação do bloco façam sentido do ponto de vista econômico e geopolítico, por outro lado, há imperfeições do ponto de vista da democracia e dos direitos humanos entre os aderentes e, até mesmo, os países já membros. Seja como for, a ampliação do bloco deve ser comemorada, porque certamente ela aponta para mais liberdade.

Liberdade importa?

Será que a presença da Arábia Saudita e do Irã ao bloco nos obriga a condenar sua adesão ou, de agora em diante, devemos silenciar sobre as violações dos direitos humanos perpetradas pelos seus governos? A resposta básica é: nem uma coisa, nem outra. A chegada desses países ao Brics conecta novas populações de centenas de milhões de pessoas e, assim, aponta para a possibilidade de mais liberdade econômica e política.

Quando a Arábia Saudita topa fazer de um bloco cujo banco de desenvolvimento é presidido por Dilma Rousseff, uma mulher que chegou a presidir um dos países fundadores do Brics, isso é uma vitória para as mulheres – até mesmo as sauditas e, naturalmente, tem de ir além disso. Quem tem de se explicar são os machistas brasileiros que aceitaram o impeachment ilegal dessa mesma Dilma.

A adesão de ricas petromonarquias como Arábia Saudita e Emirados Árabes produz a base material a ser utilizada para estruturar, no médio e longo prazo, um fundo monetário alternativo ao Fundo Monetário Internacional (FMI). Assim, países em dificuldades podem ser resgatados de forma racional e democrática, coisa que o FMI atual não faz, mesmo que seja controlado por assim chamados “países democráticos”, os quais são antes de tudo, ricos.

Esse mecanismo de resgate e, ainda, uma moeda comum para transações internacionais, como propôs o presidente Lula, é uma possibilidade concreta para o desenvolvimento do comércio e investimentos comuns que fortaleçam países de renda pequena, como a Etiópia e Índia, a países ricos como Arábia Saudita e Emirados Árabes – mas que são dependentes da exploração do petróleo -, passando por países de renda média como Brasil, Rússia, Argentina e China. 

Esse novo laço produz a possibilidade de mais liberdade, não menos, por que aumenta as opções e acesso a recursos para todos. Isso afasta populações inteiras do fantasma da fome, da pobreza ou mesmo ajudar na ação coordenada de emergências globais como a pandemia de Covid-19, na qual países ricos trabalharam para monopolizar o recebimento das primeiras doses das vacinas.

Precisamos ser coerentes: integrar mais é melhor

Hoje, muitos países ricos são “democráticos”, mas a ausência de socialismo os expõe a contradições perigosas. Se do ponto de vista interno, esses países ricos permitiram certas conquistas de direitos, fruto das lutas de trabalhadores e movimentos sociais, por outro lado, é impossível negar que países como Estados Unidos, Reino Unido e França são opressivos do ponto de vista externo.

Problematizar o conflito russo-ucraniano e a ação de Moscou não pode ser feita com pesos e medidas diferentes do julgamento sobre a ação global dos Estados Unidos em outros países. Muitos das mídias que condenam a chamada Operação Z na Rússia, pelo contrário, apoiaram a invasão norte-americana no Iraque amparada em notícias falsas — como apenas mais tarde, e com muitas mortes depois, foi admitido por grandes jornais americanos.

“Assim, os brasileiros podem conhecer realidades socialmente justas e os árabes podem encontrar sociedades mais livres, aprendendo mutuamente.”

No mais, se sanções ajudassem a mudar qualquer coisa, o Irã já seria o lugar mais livre do mundo. Não é o caso. Integrar mais é pedagógico. Assim, os brasileiros podem conhecer realidades socialmente justas e os árabes podem encontrar sociedades mais livres, aprendendo mutuamente. Muitas das civilizações milenares dos Brics têm a aprender com o Brasil do ponto de vista externo, uma vez que nosso país não tem histórico de invasões, mesmo fazendo fronteira com países menores.

A contradição é da existência, mas não podemos negar que mais integração gera mais solidariedade e a possibilidade de encontros transformadores. A expansão do Brics é, na sua concretude e imperfeições, algo da ordem da realidade – e é um fato a ser comemorado. Na noite de hoje, mais seres humanos estarão integrados.

Hugo Albuquerque

é publisher da Jacobin Brasil, editor da Autonomia Literária, mestre em direito pela PUC-SP, advogado e diretor do Instituto Humanidade, Direitos e Democracia (IHUDD).

sexta-feira, 18 de agosto de 2023

CHINA - MERCADO E SOCIALISMO - FÔRÇAS PODEROSAS EM EXPANSÃO

 

China, o fascinante voo do dragão

Como a emergência de um país que rejeita dogmas neoliberais, e está construindo o Comum, pode sacudir um Ocidente às voltas com desigualdade, estancamento econômico, devastação ambiental e fascismo. Crônica de uma viagem

 

Antonio Martins    10 de agosto, 2023    Outras Palavras

Antonio Martins é editor de Outras Palavras.

 

Entender a China é vital. Todos têm opiniões, simplificações, mas não compreensão das dinâmicas.A China representa avanços vitais, nas soluções de redução da pobreza, no combate à mudança climática, às formas de gestão descentralizada e participativa no território. Incorpora soluções de visão socialista, bem como mecanismos de mercado: é um sistema que funciona, e se ajusta permanentemente, à medida que evoluem as tecnologias e os desafios.Outras Palavras está ajudando na compreensão deste universo, com uma série de artigos. A China é importante demais para que continuemos a receber apenas slogans simplificadores.

– Prof. Ladislau Dowbor

 



Cravada a 2,4 mil quilômetros de Pequim, mas a apenas duzentos da fronteira com o Vietnã, a estação ferroviária de Nanning é um das joias de infraestrutura que povoam a paisagem chinesa. Inaugurada em 1951, dois anos após a revolução liderada por Mao Zedong, ela foi reconstruída por inteiro em 2013. A área de seu saguão principal equivale à de seis campos de futebol, com pé direito de 48 metros. Agora, por lá passam também algumas das linhas da maior rede de trens de alta velocidade do mundo, que tem 35 mil quilômetros é e duas vezes mais extensa que todas as outras somadas.

Mas o gigantismo não ofusca a delicadeza. Os passageiros aguardam os trens em poltronas confortáveis – boa parte delas com massageador. O acesso às composições, que partem do andar subterrâneo, se dá por meio de portões de embarque semelhantes aos dos aeroportos, porém silenciosos. Há restaurantes e lojas, mas nenhum painel publicitário. A arquitetura inspira-se nas varandas da região de Guangxi. O ar é ameno. Apesar do imenso volume da estrutura, os verões indóceis da cidade (a temperatura pode chegar a 39ºC e a umidade produz sensação permanente de estufa) são suavizados por um sistema que combina ar condicionado e cortinas eletrônicas de vento. Duas linhas de metrô ligam a estação à cidade. A energia é fornecida por painéis fotovoltaicos.

Também fora da estação, tudo parece novo em Nanning: os prédios – alguns muito altos – de apartamentos ou escritórios, o transporte público, os sistemas que mantêm limpas as águas do largo rio Yong, o asfalto das ruas e até parte das árvores, escoradas por estacas que indicam plantio recente. A reurbanização da cidade – tinha 1 milhão de habitantes em 2002 e atingiu 8,5 milhões no ano passado – é uma pequena parte do movimento que livrou da pobreza, nas últimas três décadas, o equivalente a três Brasis.

A ação tornou-se intensa a partir de 2015. Vizinha à próspera Guangdong – fulcro da grande abertura da economia chinesa, em 1992 – a província de Guangxi havia ficado para trás. Lá, 32% da população é de origem zhuang (a maior minoria étnica do país) e 44% viviam na zona rural. Seu PIB per capita equivalia a apenas 60% da média nacional; 10,5% (ou 6,4 milhões de pessoas) viviam na pobreza. À época, Xi Jinping enunciava o objetivo de “prosperidade comum”, que revia, ao menos em parte, o padrão de desenvolvimento até então vigente.

A base para o resgate de Guangxi foi o investimento público maciço, que se estendeu muito além da transformação urbana. O Estado lançou um esforço meticuloso para identificar os focos e causas de pobreza rural – muitas vezes oculta em rincões remotos – e um movimento peculiar para superá-la, que examinaremos em detalhe mais tarde. Preservou-se a pequena propriedade camponesa. Estimulou-se entre outras atividades, em Guangxi, o processamento do chá, de ervas da medicina chinesa e de frutas. Cinco anos mais tarde, o processo estava concluído em todo o país.

A força do dragão chinês é conhecida. A partir de 1977, a economia viveu um processo sem precedentes de industrialização, urbanização e avanço tecnológico. O país tornou-se a grande fábrica do mundo, e evoluiu da produção de têxteis e bugigangas eletrônicas baratas para bens e serviços sofisticados. Suas exportações são quase 50% superiores às dos EUA e o triplo das japonesas. A produção de riquezas materiais, quando medida pelo PIB, passou de menos de 3% a mais de 20% do total mundial e superou a dos Estados Unidos, segundo o critério que despreza a valorização artificial das moedas e considera a produção real.

Mas, previsivelmente, quase não se fala sobre o novo voo do dragão – aquele que poderia inspirar um Ocidente às voltas com múltiplas crises e acossado pelo fascismo. A eliminação da pobreza, as transformações como a de Guangxi, os novos saltos na Educação e Ciência ou os êxitos no combate à poluição e na transição energética não se devem apenas do crescimento do PIB. Derivam de uma virada política, que colocou a China na contramão da ortodoxia neoliberal e lhe permitiu evitar a armadilha rentista.

A partir da crise global dos mercados financeiros em 2008 – e em especial após o início do mandato de Xi Jinping, quatro anos depois – Pequim iniciou uma nova flexão em seu projeto. A mudança pode tornar-se, ao longo do tempo, tão profunda e relevante quanto a comandada, após 1978, por Deng Hsiaoping. Mas o sentido é distinto. Numa economia então estatizada, Deng liderou a abertura às lógicas de mercado, à empresa privada e às corporações transnacionais. A atitude salvou o país do colapso que pôs fim ao “socialismo real”. O novo giro, ao contrário, reverte o peso das relações mercantis como força dirigente da economia e das relações sociais. Enfatiza, em vez disso, a necessidade de construir o Comum, com base numa ação incisiva do Estado para promover a igualdade e a prosperidade de todos. E estabelece mecanismos de planejamento e direção econômica inovadores, por não se basearem na estatização burocrática que caracterizou a experiência soviética.

O giro de Xi não significa uma ruptura radical em relação ao de Deng. A China não quer se desfazer do capital externo ou das empresas privadas. O Estado continua a atraí-las e estimulá-las. Mas as duas marcas principais do processo de desenvolvimento agora são outras. A primeira é o investimento público maciço voltado ao bem-estar das maiorias. Ele eclipsa, em boa medida, a reprodução das relações capitalistas. Porque produz, ao contrário destas, igualdade e desmercantilização das relações sociais.

É fácil compreender. Quando as políticas de Saúde do Estado, por exemplo, apostam em seguros privados, o acesso aos serviços médicos passa a ser mediado pelo dinheiro e se torna, por isso, desigual. Cada indivíduo obtém aquilo que pode comprar – de hospitais com hotelaria cinco estrelas a clínicas populares precárias. Mas se o mesmo Estado oferece a todos redes públicas de médicos de família e hospitais de excelência, ele garante acesso igualitário e desconstrói a proteção privada – pois a torna supérflua.

O investimento público chinês é complementado pelo novo planejamento – ou projetamento, como preferem denominá-lo autores como Elias Jabbour. Mesmo nos momentos de maior abertura, o Estado chinês não deixou de definir condições gerais para atuação da empresa privada. Mas a partir de Xi esta ação tornou-se mais intensa – inclusive porque, numa sociedade mais rica, cresce a força dos grandes grupos privados e das relações capitalistas. Parte da ação estatal tem sentido defensivo. Ao contrário do que ocorre no Ocidente, as Big Techs chinesas são controladas. Em 2021, o Grupo Alibaba foi impedido de lançar o que poderia vir a ser uma moeda digital própria, capaz de submeter as relações sociais a sua própria lógica. Em 2022, o Estado extinguiu o negócio, então disseminado e exuberante, das aulas privadas de reforço escolar. Considerou que elas davam vantagens aos filhos das famílias mais ricas, no acesso às melhores instituições de ensino públicas.

O aspecto principal do projetamento, contudo, é induzir os agentes econômicos. Marx chamou de “anarquia da produção” ao caos que inevitavelmente se produz quando os capitalistas, movidos por seus interesses particulares, investem em atividades que tendem a ser destrutivas, social e ambientalmente. Na China, as empresas privadas estão em toda parte. Respondem por 80% do emprego urbano. Mas o Estado age para conduzi-las, por meio de um feixe de mecanismos como o crédito (concentrado em bancos públicos), os tributos, a criação de infraestrutura e a ação das estatais, dominantes nos setores estratégicos.

Um dos resultados é limitar a exploração dos trabalhadores. O salário médio por hora na indústria chinesa triplicou entre 2005 e 2016, segundo a Organização Internacional do Trabalho e atingiu US$ 3,60. Segue em alta (veja gráfico abaixo, da mesma fonte, para o período 2008-2022). Já era, há sete anos, 33% maior que no Brasil e 71% superior ao do México. A melhora das condições de vida e a transformação da infraestrutura, resultados do novo voo do dragão, espalham-se pela paisagem chinesa e serão examinados em detalhe, em textos futuros. Vale a pena apontar de relance, desde já, os efeitos do mesmo movimento num ponto determinante do debate político atual: as relações entre o ser humano e o ambiente.



Os anos da grande abertura econômica produziram, na China um aumento da contaminação e das emissões de CO². O uso do carvão, base histórica da matriz energética, intensificou-se. O país tornou-se conhecido por imagens de cidadãos mascarados e aflitos, sob os céus sempre turvos de Pequim ou Shangai. Eclodiram desastres ecológicos como a contaminação dos solos, a desertificação, secas e inundações extraordinárias em grandes rios como o Yangtze e o Amarelo.

O roteiro é um clássico. Da Inglaterra no início do século XIX à Índia e ao Vietnã contemporâneos, a industrialização foi sempre marcada por uma relação alienada, que vê a natureza como “recurso” a ser domado e explorado. As causas variam: da falta de consciência ecológica à chantagem do capital – que aceita deslocar suas indústrias, desde que contemplado com regras ambientais frouxas.

O que não está no script é um país do Sul Global assumir liderança na despoluição de sua sociedade e na conversão para energias limpas. Os primeiros sinais de preocupação ecológica na China vêm do início dos anos 1970, com políticas internas limitadas e participação tímida na Conferência de Estocolmo sobre Meio Ambiente, da ONU (1972) e na Rio-92. A mudança significativa começa há pouco mais de dez anos, já no período de Xi Jinping. Em 2012, o 18º congresso do Partido Comunista Chinês afirma que construir uma “civilização ecológica”, é um dos cinco “objetivos do desenvolvimento nacional”.

Outra vez, os resultados são obtidos por meio de investimento público e a condução, pelo Estado, dos agentes privados. No primeiro trimestre de 2023, a capacidade de geração de energia solar na China atingiu 228Gw – equivalente a dezesseis usinas de Itaipu, e mais que a de todos os outros países do mundo somados, segundo a organização norte-americana Global Energy Monitor. Mais 379Gw estão sendo instalados. A geração eólica ultrapassou 310Gw, o dobro de 2017 e o equivalente à soma dos sete países seguintes juntos. Em 2022, o país fabricou 80% dos painéis solares e 57,4% dos veículos elétricos do mundo.

Os resultados políticos do investimento público em favor do bem-estar chamam atenção. Há um vasto debate a ser feito sobre os sistemas institucionais do Ocidente e da China. O que se dirá a seguir não é uma tentativa simplista de apresentar as formas de governo chinesas como superiores – e este tema será retomado. Mas é preciso deixar que os fatos falem. Em março deste ano, a fundação Aliança de Democracias (AoD) sondou, em 53 países, a percepção de suas populações a respeito do caráter dos regimes políticos respectivos. A pesquisa denomina-se “Índice de Percepção de Domocracia”. Fundada por Anders Rasmussen, até há pouco secretário-geral da OTAN, a AoD é abertamente pró-ocidental. Mas a enquete revelou que 73% dos chineses consideram seu país “democrático”, enquanto o percentual cai para 54% nos EUA, 53% na Holanda e 49% na França. Uma das causas centrais parece estar no fato de que 58% dos norte-americanos acreditam que seu sistema político serve “à minoria”. Na China, são apenas 10%.

There is no alternative, disse Margareth Thatcher, e cunhou a frase que se tornou emblema do neoliberalismo. Pode haver, em meio à crise civilizatória em que mergulhou o planeta, um país onde as maiorias acreditam que o Estado age em seu favor – e em que esta opção é bem sucedida?

Ao longo do tempo, a liderança chinesa soube tirar proveito das ideias vindas do exterior, sempre que as julgou adequadas a seu projeto. Num mundo idílico, livre da luta de classes e de suas misérias, as soluções chinesas seriam agora examinadas pelas elites ocidentais com atenção e interesse; e em seguida adaptadas e incorporadas, ao menos em parte.

Há um motivo para que isso não ocorra. A China avança sobretudo porque contraria os dogmas que mantêm em pé o edifício ideológico neoliberal; e em especial, por ter evitado o rentismo, a forma ultraparasitária de captura da riqueza coletiva que caracteriza o capitalismo contemporâneo. A riqueza coletiva que lá assume a forma de investimentos públicos, modernização da infraestrutura, valorização dos salários ou transição energética, aparece no Ocidente transmutada em múltiplas demonstrações de fausto individual e regalias. Mas expressa-se sobretudo na “exuberância irracional” dos mercados financeiros; nos mega-fundos globais de investimento, que acumulam patrimônio superior ao PIB dos EUA; nos paraísos fiscais onde os muito ricos mantêm seu dinheiro para se livrar de impostos; na corrupção permanente do sistema político pelo poder econômico, raiz da crise que consome a democracia.

Aprender com a China significaria, para a classe rentista que passou a governar o capitalismo, abrir mão de seus privilégios e desconstruir a si mesma. Por isso, ao invés de olhar para a experiência chinesa, fazem-se curiosos esforços para evitar que ela seja examinada. Busca-se isolá-la; bloquear os caminhos por onde avança; se possível, provocar seu fim.

Na esfera econômica, os EUA e seus aliados fazem-no por meio de uma guerra comercial que nega a globalização – seu projeto mais caro por décadas – para tentar evitar que Pequim tenha acesso aos chips mais avançados e possa assumir liderança também em tecnologias como a inteligência artificial. No plano geopolítico, os EUA mergulharam, desde Barack Obama, em um giro para a Ásia. Para isso, aceitaram abrir mão de controlar o Oriente Médio – até então seu objetivo estratégico central. O movimento acirrou-se sob Donald Trump e não refluiu com Joe Biden. Em seu movimento mais recente, Washington tenta atrair a China, em Taiwan, para uma cilada semelhante à que armou para a Rússia na Ucrânia.

Mas é no terreno da luta de ideias que a ofensiva anti-Pequim torna-se intensa e quotidiana. E surge uma virada reveladora. A China foi, durante muitos anos, enaltecida pelos políticos e ideólogos do establishment ocidental. Milton Friedman e Margareth Thatcher visitaram-na e se entusiasmaram. Na narrativa dos neoliberais, o país era visto como prova da inevitabilidade do capitalismo. A União Soviética caíra. A abertura chinesa à empresa privada supostamente confirmava que era inútil e tolo desafiar a supremacia dos mercados. O Partido Comunista governava, é verdade. Mas o fim deste resquício maoísta e a emergência de uma democracia liberal eram apenas questão de tempo. Além de tudo, os chineses usavam seus superávits comerciais gigantescos para financiar, com compras maciças de treasuries, o déficit comercial dos Estados Unidos…

A lua-de-mel azedou quando ficou claro que a China não tencionava submeter-se – e tinha outro projeto. Agora, voltam à cena as armas conhecidas da demonização. Para que suas políticas antineoliberais  não “contaminem” o debate político, Pequim é apresentada nas mídias do Ocidente como uma espécie de mundo inferior, incomunicável. Dados como os vistos acima, sobre o aumento expressivo dos salários reais e o avanço da transição energética, causariam impacto, se fizessem parte do debate corrente. Para bloquear este risco, mobilizam-se os preconceitos. O país é apresentado como uma ditadura autoritária, em que a população trabalha sem direitos, não desfruta das liberdades básicas e é obrigada a engolir ordens impostas de cima.

Livros como o recente Como a China escapou da terapia de choque, de Isabella Weber, descrevem as polêmicas intensas e às vezes prolongadas que precedem, em Pequim, a tomada de decisões cruciais. Quem lê os jornais e os artigos dos think tanks chineses disponíveis em inglês dá-se conta de como são tratados, aberta e extensamente, problemas como desemprego juvenil, a redução do crescimento econômico pós-pandemia ou os riscos à privacidade representados pelo reconhecimento facial. De nada serve: para as mídias ocidentais, a China continua a ser o deserto de debate de ideias.

Nos séculos XVI e XVII, os missionários jesuítas que foram à China trouxeram ao Ocidente o pensamento de Confúcio. Traduziram-no e o publicaram. Julgaram que, por defender uma ética sem deus e sem fantasias em relação à vida pós-morte, o filósofo não concorria com as crenças cristãs. Suas ideias, imaginaram, podiam ser incorporadas à doutrina hegemônica, que se tornaria mais rica. No século XXI, um neoliberalismo convertido em dogma não é capaz de fazer o mesmo com as saídas chinesas para a crise global…

A poética política que a China projeta também incomoda à esquerda, quando esta é romântica. Pequim parece-lhe impura: aceitou a lógica suja dos mercados, quando isso lhe foi indispensável. E mesmo hoje, quando é um nítido contraponto ao credo capitalista, o processo chinês não cabe no figurino das velhas ideias de revolução. Xi Jinping parece simpático e bem humorado. Mas como compará-lo, segundo certa estética, a Lênin e Trotsky, celebrando no Smolny a vitória da revolução; ou a Fidel e o Che, em meio a guerrilhas, charutos, salsa e rum?

A ilusão romântica tem um preço. Mais de trinta anos após o fim da União Soviética, a esquerda no Ocidente não foi capaz de formular um projeto alternativo. E quase nunca reconhece que ele é necessário, diante das imensas mudanças operadas, desde o pós-II Guerra, na produção e captura das riquezas, na estrutura de classes, na natureza e composição do poder político e nas relações sociais. Divide-se entre um pragmatismo eleitoral cego e uma nostalgia diante de uma classe operária que já não existe e das revoluções que ficaram para trás.

A poética chinesa, ao contrário, é antropofágica. Parece não crer em ideal. Deglute e transforma o que lhe serve. Não se vê como modelo. Reconhece o experimento e o erro. Sua trajetória está transformando o mundo. Por desprezar a perfeição, é um convite fascinante à criação política.

Visitei Pequim e a região de Guangxi entre 12 e 26 de julho, a convite da embaixada chinesa em Brasília e do Grupo Internacional de Comunicações da China. Este é o primeiro de uma série de textos originados da viagem e de um longo acompanhamento da realidade do país, que segue em curso. O objetivo político é explícito: verificar de que forma as políticas chinesas podem ser contraponto à onda de regressão e pessimismo que marca o Ocidente.

FONTE: https://dowbor.org/2023/08/china-o-fascinante-voo-do-dragao.html?fbclid=IwAR2wVCvxrWwML4YjSrBszKy6hDWvvA6G58FqgJSLSY9M2CAqQ_XkUYj-lFw          

e/ou

https://outraspalavras.net/pos-capitalismo/china-fascinante-voo-do-dragao/

 

sábado, 12 de agosto de 2023

A monstruosidade do imperialismo francês na África atual

 

COMO A FRANÇA AINDA MANTÉM 14 COLÔNIAS NA ÁFRICA ?

A monstruosidade do imperialismo francês na África atual

Transcrevemos a seguir texto do documentário “Como a França mantém 14 colônias na África?” do H1 Capital, divulgado nas redes sociais. Como podemos ver pelo texto, o imperialismo francês não fica devendo nada ao imperialismo americano e ao imperialismo britânico em termos de crueldade, assassinatos, golpes militares, discriminação racial, escravidão e desrespeito aos direitos humanos.

Os autores do documentário se surpreendem com a crueldade e monstruosidade com que a França ainda mantém 14 nações africanas da zona do Sahel, desde a década de 1960 (quando Charles de Gaulle oferece “independência” às suas colônias africanas) em troca do controle econômico político e social total, ganhando com isso lucros exorbitantes sob este domínio e como este domínio representa muito para a economia francesa, estimando-se que cerca de metade do PIB francês atual tem origem nestas explorações. Sem estas colônias a França seria a 15ª economia mundial ao invés de ser a segunda da Europa. Uma em cada três lâmpadas da França vem da energia do urânio explorado nestas colônias, para gerar energia nuclear que representa 75% de sua energia total. Também controla o sistema monetário destes países que não possuem moeda própria – a França gerencia e controla o Franco CFA, moeda colonial que criou para controlar a economia destas pobres nações e assim retém 70% das reservas internacionais destas ex colônias, cerceando a soberania nacional destes países.   Todo este esquema de dominação que existe desde a década de 1960 é mantido com muita repressão, perseguição política, assassinatos e golpes de Estado. Portanto neste texto, damos conta de como o imperialismo francês não é muito  diferente do imperialismo americano e inglês  que possuiam desde o séc. XIX mais poder econômico-militar-político que os países mais fracos do Terceiro Mundo sendo capaz de sugar suas riquezas e impedir o desenvolvimento destes. Pode-se considerá-lo  um dos mais cruéis da história. Veja o texto original a seguir.

 



 

 A França tem um dos maiores impérios que o mundo já viu. Em seu auge dominou cerca de 10% da área terrestre do planeta. Mas aqui na África algo muito mais diabólico ocorre até os dias de hoje. Estas 14 nações africanas ainda permanecem presas à um tipo de neocolonialismo francês e compartilham entre si uma moeda do período colonial conhecida como Franco CFA, sistema monetário no qual a França mantém total controle. Mas como funciona este poder de influência que a França utiliza para explorar estas nações africanas e porque é tão difícil estas nações se libertarem deste domínio?  Em meados da década de 1950 e 60 a África e a Ásia estavam passando por movimentos anti-imperialistas. A França pós-guerra sofria com um império decadente.  O então presidente da França  Charles de Gaulle concedeu a independência às suas colônias africanas a partir de 1959. Mas para que cada colônia pudesse conquistar sua independência de forma amigável a França exigiu acordos de cooperação. Em troca da ajuda francesa nas áreas militar educação e economia, estas nações deveriam ceder à França o direito sobre seus recursos naturais, permitir a presença de tropas militares francesas e manter o Franco CFA como moeda corrente.  Na época esta moeda era atrelada ao franco francês e hoje ao euro e é uma moeda estável. Na teoria parecia ótimo pois permitiria a estabilidade econômica destas humildes nações, mas por trás desta benevolência francesa permitiria uma armadilha que iria perpetuar sobre elas o domínio imperialista  francês.  Neste jogo de interesses seria impossível que os países africanos fossem beneficiados, pois o esquema foi pensado de forma detalhada para manter as ex-colônias num sistema neocolonialista parasitário que até aqui tem se mostrado muito lucrativo para a França. Como parte do acordo os países do franco cfa são obrigados a depositar 50% de suas reservas internacionais no Tesouro Nacional Francês e mais 20% em passivos financeiros franceses e apenas 30% de suas reservas permanecem em seus domínios. Ou seja os países do Franco CFA só tem acesso a apenas 30% de seu próprio dinheiro. A exploração francesa sobre suas ex-colônias da África ficou mais evidente com as declarações do ex-presidente francês Jacques Chirac, que disse: “Temos que ser honestos e reconhecer que grande parte do dinheiro em nossos bancos, vem justamente da exploração do continente africano.”  Outro ex-presidente da França, François Mitterrand  acrescentou: “Sem a África, a França não teria história no século XXI.”.

O Franco CFA é dividido em duas moedas intercambiáveis. O Franco CFA Ocidental  utilizado por 8 países: Benin, Burkina Fasso, Guiné Bissau, Costa do Marfim, Mali, Niger, Senegal e Togo.  Enquanto o Franco CFA Central é utilizado por 6 países: Gabão, Chade, Congo, Rep. Centro Africana, Guiné Equatorial e Camarões.

Apesar de ser moeda diferentes, possuem a mesma estrutura e o mesmo valor de câmbio e ambas são impressas e supervisionadas pelo Banco Nacional da França. Com a sua moeda atrelada ao Euro, os 14 países membros do Franco CFA não possuem autonomia e soberania sobre sua própria economia e suas políticas econômicas como taxa de juros por exemplo são conduzidas por decisões do Banco Central Europeu e isso gera enormes distorções macroeconômicas, pois a dinâmica da economia de nações tão humildes  é totalmente diferente da realidade das nações européias desenvolvidas.  Como resultado    os países da zona do franco CFA  encontram mais dificuldade para avançar em seus índices de desenvolvimento econômico e social. Desde 1994 o crescimento econômico dos países membros do franco CFA tem girado em torno de 1,5% a.a. Mesmo para os padrões africanos este desempenho econômico é considerado muito baixo, embora para os defensores do modelo isto ajuda a controlar os índices de inflação, o fato é que os países membro do franco CFA são mais pobres que seus vizinhos. A exploração monetária destas nações garantiu à França uma enorme vantagem estratégica para exercer o seu domínio e impor a sua influência. Mas isto não é o suficiente para os franceses pois a França tabalha diuturnamente para que suas ex colônias africanas sejam eternamente colônias. Este intenso instinto colonial francês sobre estas ações é conhecido como Françafrique que consiste em uma forma de influência altamente predatória da França sobre estes países da África. Mesmo sendo países independentes estão umbilicalmente ligados à França que se utiliza de seu poder com o mais puro estilo colonialista para explorar os recursos naturais destas nações e impedir qualquer possibilidade de rompimento.  A França vendo que não poderia evitar a independência destas nações estabeleceu acordos pacíficos de forma a não perder a sua influência  e principalmente não perder o acesso aos preciosos recursos naturais de suas colônias como o petróleo, urânio, diamantes, ouro, minério de ferro e muitos outros. O acordo proposto por Charles de Gaulle  proporcionou a independência das colônias francesas da África e visava formar um grupo de países  membros da comunidade francesa mas deixava claro sobre os riscos que cada colônia corria se tentasse contrariar os interesses da França. O então líder da república da Guiné Ahmed Sékou Touré disse que preferia que seu país fosse pobre na liberdade ao invés de rico na escravidão. O governo da França ficou ofendido com a audácia de Touré e fizeram tudo o que puderam para sabotar o governo da Guiné: primeiro canceleram a pensão dos veteranos de guerra que haviam lutado pela França, em seguida destruíram toda a infra estrutura do país  e depois inundaram toda a sua economia com notas falsas da moeda guineense e isto gerou uma catástrofe financeira na recém fundada nação da Guiné e provocou impasses econômicos que é refletido até hoje. Este era um claro recado da França a qualquer um dos países que quisessem seguir o seu próprio caminho iria enfrentar a fúria da França. Em 1963 Sylvanus Olympio primeiro ministro do Togo foi assassinado alguns dias antes de lançar uma moeda independente de seu país.  Outros assassinatos, golpes de Estado iriam se tornar quase que frequente em vários países da zona de influência da França.  Desde a década de 1960 a França já realizou mais de 40 intervenções militares em suas ex colônias africanas. Desta forma muitas das ex colônias da África ficaram presas ao imperialismo francês, pois a França treinou, instigou centenas de traidores e eles são ativados quando a França precisa promover outro golpe de Estado ou criar uma situação de instabilidade política na África. Assim que tem algum interesse seu ameaçado por algum líder de suas ex colônias a França se apressa em neutralizar a ameaça e na primeira oportunidade patrocina ditadores fantoches  intimamente familiarizados com as elites francesas e comprometidos a serem leais aos interesses da França. Com o apoio político a ditadores a França mantem o seu domínio colonial que garante lucros inestimáveis a empresas ligadas ao governo francês. Além disto  estatais francesas estão estrategicamente posicionadas para explorar os recursos energéticos que são fundamentais para a economia da França como o petróleo e o urânio. Como consequência em muitas ex colônias francesas todos os principais ativos econômicos estão nas mãos dos franceses, por exemplo na Costa do Marfim empresas francesas possuem e controlam todos os principais serviços públicos como água, eletricidade, telefone, transporte e grandes bancos. Todos estes setores estão fortemente dominadas por empresas privadas ou estatais francesas. Com boa parte de suas riquezas sendo saqueadas pela França, os problemas econômicos e sociais dos países do franco CFA são devastadores.  Este infinito ciclo de pobreza leva à fuga de cérebros que imigram para a França e outros países ricos. E mais uma vez isto impacta no desenvolvimento destes países pois nenhuma nação poderá prosperar se suas melhores mentes estiverem fugindo de sua pátria. Embora a França venha explorando a África por tanto tempo talvez este destino esteja reservando algo melhor para estas pobres nações africanas. Cada vez mais estes abusos estão sendo levados a público por pessoas influentes da política internacional .

Em 2019 o então vice primeiro ministro da Itália Luigi di Maio acusou a França de colonizar a África e criar refugiados. “Se a França não tivesse as suas colônias africanas, porque é assim que elas deveriam ser chamadas, seria a 15ª economia do mundo, ao invés disto  está entre as primeiras, precisamente por causa do que faz na África.”  

A atual primeira ministra da Itália, Giorgia Meloni, também fez críticas públicas aos problemas sociais que a França cria na África: “A solução não é levar africanos para a Europa, a solução é libertar a África de certos europeus que a exploram.”

Neste sentido a França vem perdendo espaço e estes exemplos expõem a França ao mundo que até a pouco tempo não tinha conhecimento desta monstruosidade. Como uma nação rica a França possui um Produto Interno Bruto de 3 trilhões de dólares e sua economia é a segunda mais importante da União Européia. Mas sem a exploração africana estima-se que a sua economia seria reduzida pela metade.  Ou seja a manutenção de sua economia como uma das mais importantes do mundo é fruto de ameaças, de ingerência política, golpes de Estado e escravidão de 14 nações pobres. Desde 1930 o franco CFA foi introduzida nas colônias francesas africanas e é a última moeda remanescente do período colonial, mas os países membros do Franco CFA  estão desenvolvendo uma moeda de nome ECO para substituir o franco CFA. A França deixará de gerir a moeda mas continuará a manter a conversibilidade para o euro como câmbio fixo. A nova moeda está sendo planejada para ser introduzida até o ano de 2027 . Porém como os franceses fazem parte desta nova construção monetária a grande dúvida que resta é porque não sabemos se a França está realmente interessada em proporcionar autonomia econômica pra estes países ou se esta é mais uma armadilha da França para continuar efetuando seu domínio colonial sobre estas pobres nações africanas.

 

FONTE: https://www.youtube.com/watch?v=dr3PUdSMPpQ