sábado, 2 de setembro de 2023

O FIM DA HEGEMONIA DO DÓLAR AMERICANO

 

O fim da era do dólar americano como moeda de reserva – Uma mudança de paradigma

1 de setembro de 2023 – Publicado em Pátria Latina

Paul Craig Roberts [*]  entrevistado por Michael Whitney

 

 A imposição de sanções serviu como um alerta para a comunidade global sobre as vulnerabilidades associadas ao uso do dólar.    Em consequência, a aliança dos BRICS conheceu uma súbita e significativa expansão, acolhendo no seu seio a Argentina, o Egito, o Irã, a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos.   Esta transformação levou à incorporação de quase toda a produção global de petróleo e de uma proporção substancial de 40-45% do Produto Interno Bruto mundial na organização



Os novos BRICS.

Mike Whitney (MW): Em que medida é que a guerra na Ucrânia acelerou a mudança para um novo realinhamento global?

Paul Craig Roberts (PCR): Foram as sanções económicas de Washington contra a Rússia, o roubo das reservas do banco central russo e o roubo do ouro da Venezuela, e não o conflito na Ucrânia, que transformaram o dólar americano em arma e resultaram num realinhamento global.

A intervenção russa limitada no Donbass foi a resposta tardia de Putin, atrasada oito anos, ao golpe dos EUA que derrubou o governo da Ucrânia em 2014 e instalou um governo hostil à Rússia e à população russa que havia sido incorporada na província ucraniana da União Soviética pelos líderes soviéticos. A intervenção foi imposta a Putin pelo facto de os Estados Unidos terem criado um grande exército ucraniano pronto a derrubar as auto-declaradas repúblicas do Donbass.

Por hábito e conveniência, o dólar americano é utilizado como moeda mundial para resolver os desequilíbrios do comércio internacional, mas as sanções despertaram o mundo para os riscos da utilização do dólar. Consequentemente, os BRICS expandiram-se subitamente, com a adesão da Argentina, do Egito, do Irão, da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos. Atualmente, a organização contém essencialmente a totalidade da produção mundial de petróleo e 40-45% do PIB mundial.

É evidente que já se registou um realinhamento.

MW: O Irã, a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos aderiram agora aos BRICS. Como é que isto vai afetar o papel do dólar como moeda de reserva mundial? (Será o fim do petrodólar?)

PCR: A Arábia Saudita anunciou o fim do petrodólar quando começou a aceitar o pagamento do petróleo noutras moedas. Os BRICS estão a tentar encontrar uma forma de fazer comércio entre si sem recorrer ao dólar americano, o que, de facto, põe fim ao papel do dólar como moeda de reserva mundial.

Os BRICS poderiam tentar criar uma nova moeda de reserva constituída por um cabaz ponderado das suas moedas. Isto é desnecessário e poderia levar a tensões entre os membros dos BRICS devido a disputas sobre as quotas de cada moeda no cabaz. Uma moeda de reserva já não é necessária. Uma moeda de reserva foi necessária no final da Segunda Guerra Mundial porque as outras economias industrializadas haviam sido destruídas. Como os EUA tinham a única economia intacta, este papel coube ao dólar americano. Atualmente, não é essa a situação. Os bancos centrais podem manter as suas reservas sob a forma das moedas dos seus parceiros comerciais.

O que isto significa para Washington é que os EUA vão começar a ter problemas de financiamento para os seus grandes déficits orçamentais e comerciais. Enquanto o dólar foi a moeda mundial, os bancos centrais estrangeiros mantiveram as suas reservas em dívida do Tesouro americano. À medida que os défices orçamentais e comerciais dos EUA aumentavam, o mesmo acontecia com as reservas do sistema bancário mundial.

A situação está a mudar. Se uma dúzia de países que constituem cerca de metade da população mundial e 40-45% do PIB mundial deixarem de usar o dólar, o mercado dos bancos centrais estrangeiros para a dívida dos EUA diminui consideravelmente. Tendo externalizado a sua produção, os EUA dependem das importações. A diminuição da utilização do dólar significa uma diminuição da oferta de clientes para a dívida dos EUA, o que significa pressão sobre o valor de troca do dólar e a perspectiva de aumento da inflação devido ao aumento dos preços das importações.

 



Comércio Arábia Saudita-China.

MW: Washington pode permitir que este realinhamento se mantenha ou devemos esperar um golpe de Estado na Arábia Saudita, onde os EUA têm cinco bases militares e numerosos escritórios da CIA?

PCR: Não sei se Washington tem capacidade para derrubar o governo saudita ou se a Rússia, a China e o Irão o permitiriam. Recorde-se que o Presidente Obama ia derrubar Assad na Síria, mas Putin não o permitiu.

MW: Os sonhos globalistas dos oligarcas ocidentais (WEF) parecem estar a chegar ao fim, juntamente com a chamada “ordem baseada em regras”. Na sua opinião, qual a importância de Vladimir Putin na liderança de uma “nova arquitetura para a segurança global” e no lançamento das bases para uma nova ordem mundial multipolar?

PCR: O que destruiu a versão de Washington da ordem mundial foi a frieza do Ocidente face aos esforços de Putin para fazer parte da ordem mundial em pé de igualdade e não numa posição subserviente. Foi a arrogância e a insensatez de Washington que destruíram a ordem mundial.

MW: Antes de morrer, o conselheiro de segurança nacional Zbigniew Brzezinski avisou que os EUA teriam de procurar um acordo com a Rússia e a China para facilitar a transição do sistema unipolar. Eis o que ele disse:

“À medida que a sua era de domínio global termina, os Estados Unidos têm de assumir a liderança no realinhamento da arquitetura do poder global… os Estados Unidos continuam a ser a entidade política, económica e militarmente mais poderosa do mundo, mas, dadas as complexas mudanças geopolíticas nos equilíbrios regionais, já não são o poder imperial global….

os Estados Unidos devem assumir a liderança no realinhamento da arquitetura do poder global de forma a que a violência … possa ser contida sem destruir a ordem global….

um longo e doloroso caminho em direção a uma acomodação regional inicialmente limitada é a única opção viável para os Estados Unidos, a Rússia, a China e as entidades pertinentes do Médio Oriente. Para os Estados Unidos, isso exigirá uma persistência paciente na criação de relações de cooperação com alguns novos parceiros (particularmente a Rússia e a China) …

O facto é que nunca houve uma potência global verdadeiramente “dominante” até ao aparecimento da América na cena mundial…. Durante a última parte do século XX, nenhuma outra potência se aproximou. Essa era está agora a terminar.”

Toward a Global Realignment, Zbigniew Brzezinski, The American Interest

MW: Na sua opinião, como é que os Estados Unidos devem lidar com Moscovo e Pequim? Haverá uma forma de defendermos os interesses dos EUA e, ao mesmo tempo, evitarmos anos de conflitos e confrontos? Quais deveriam ser os objetivos da nossa política externa?

PCR: O objetivo de hegemonia dos Estados Unidos, defendido pelos neoconservadores, impede Washington de ouvir os conselhos de Brzezinski. A oportunidade de Washington para lidar com a Rússia e a China já passou. A questão que se coloca é como é que a Rússia e a China vão lidar com Washington. O monopólio neoconservador da política externa dos EUA significa que não há outras vozes para Washington ouvir e a hegemonia americana está fora de questão.

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31/agosto/2023

[*] Economista, presidente do The Institute for Political Economy. Foi colunista de The Wall Street Journal e secretário Adjunto do Tesouro durante o governo Reagan.

FONTE: https://patrialatina.com.br/o-fim-da-era-do-dolar-americano-como-moeda-de-reserva-uma-mudanca-de-paradigma/ 

O original encontra-se em geopolitics.co/2023/08/30/the-end-of-the-usd-reserve-currency-era-experts-predict-a-paradigm-shift/.

Esta entrevista encontra-se em resistir.info

 

quinta-feira, 31 de agosto de 2023

BRICS - ASCENSÃO DO SUL GLOBAL AO DESENVOLVIMENTO

A revolução do BRICS: como a expansão do grupo simboliza a revolta do Terceiro Mundo

 30.08.2023 -  Valdir da Silva Bezerra* – Sputnik Brasil

 

A última cúpula do BRICS na África do Sul foi um marco para a história das relações internacionais, com a aprovação da entrada de seis novos membros ao grupo. Essa verdadeira revolução do BRICS também representa uma espécie de revolta do assim-chamado Terceiro Mundo contra as potências centrais do sistema.

A princípio, é preciso lembrar que o termo Terceiro Mundo foi utilizado (vagamente) durante a Guerra Fria para se referir a países economicamente menos desenvolvidos pertencentes à Ásia, África e América Latina, que possuíam certas características comuns, tais como maiores níveis de pobreza, elevadas taxas de desigualdade e dependência econômica para com os países avançados do Ocidente.

 

O assim chamado Primeiro Mundo era composto, por sua vez, pelos Estados desenvolvidos, incluindo Estados Unidos, Canadá, a Europa Ocidental, o Japão e países como Austrália e Nova Zelândia. Já o Segundo Mundo era composto pelo bloco comunista liderado pela União Soviética e os países do Leste Europeu.

Todavia, com o desaparecimento da União Soviética o termo Segundo Mundo já não é mais utilizado para se referir aos países do espaço pós-soviético ou mesmo à própria Rússia. Ainda assim, o título Terceiro Mundo continua em uso em diversos círculos acadêmicos e políticos ao redor do mundo.

 

A própria China, por exemplo, apesar de ter se desenvolvido economicamente durante as últimas décadas, permanece sendo considerada como parte do Terceiro Mundo, juntamente com regiões como América Latina, África e a maior parte dos países asiáticos.

Nos meios de comunicação social e na academia, quando se discute, seja o Terceiro Mundo seja o Sul Global, aponta-se que a culpa por seu subdesenvolvimento se deve ao fato de que, por um longo período da história, suas economias foram distorcidas pelas potências ocidentais (o chamado Primeiro Mundo), tornando-os dependentes dos grandes centros industrializados europeus e norte-americanos.

 

Em vista disso, os países do Terceiro Mundo foram incentivados a exercer o papel de meros exportadores de produtos primários para o mundo desenvolvido, enquanto absorviam destes produtos manufaturados de maior valor agregado; esse tipo de situação teria gerado, por sua vez, pouca mobilidade social, estruturas sociais e rurais de teor tradicionalista, além de uma deficiente distribuição da riqueza nacional.

Países como Brasil, Argentina, Índia e diversos Estados africanos teriam assumido, em algum momento do tempo, justamente essas características. Ora, dado que as economias dos países subdesenvolvidos na América Latina, Ásia e África foram orientadas para as necessidades dos países industrializados (pertencentes ao Ocidente, o assim chamado Primeiro Mundo), e dado que sua importância política se viu diminuída em vista dessa condição, todas essas regiões se viram menos representadas em instituições multilaterais de tomada de decisão global.

O controle destas organizações acabou então nas mãos de um pequeno grupo privilegiado de países (o vulgo G7), que passou a utilizá-las para o seu próprio benefício. O baixo poder de voto de países não ocidentais nestas instituições é um retrato claro da falta de consideração das potências centrais pelas economias emergentes, que, durante os anos 2000, passaram a pleitear maior voz e representatividade dentro do sistema.

Foi então que, em 2009, surge o BRIC, uma associação política heterogênea que visava enfrentar o caráter injusto da arquitetura global sob dominação do Ocidente, dando espaço para que países do Terceiro Mundo pudessem defender seus interesses no sistema.

Se antes, durante as décadas de 1950, 1960 e 1970, as economias do Terceiro Mundo desenvolviam-se de forma lenta, nos anos 2000 o crescimento acelerado de diversos países latino-americanos, africanos e asiáticos apontava para uma nova realidade econômica global, realidade essa que demandava mudanças políticas significativas.

China e Índia, por exemplo, dois Estados com sistemas sociais e econômicos bastante distintos (mas ainda assim considerados como parte do Terceiro Mundo), desempenharam um papel fundamental na promoção dessa mudança sistêmica, que encontrou sua mais clara manifestação na formação e consolidação do BRICS.

 

Como resultado, o BRICS não somente auferiu maior autoridade no plano internacional, como também passou a operar no formato BRICS+, visando atrair a cooperação de países terceiros no âmbito das reuniões do grupo. Desse modo, conforme outros Estados foram sendo convidados a discutir as principais pautas da agenda global junto aos cinco membros originais, o BRICS foi gradualmente se transformando numa espécie de fórum dos países do Terceiro Mundo.

Com crescente urgência, os problemas do subdesenvolvimento, da falta de representatividade em instituições multilaterais dominadas pelo Ocidente, assim como a ênfase na multipolaridade nas relações internacionais tornaram-se o foco de permanentes debates intra-BRICS.

Como se não bastasse, discussões acerca da possibilidade de ampliação do grupo foram ganhando forma ao longo dos anos, culminando então na esperada expansão do BRICS, aprovada durante a última cúpula na África do Sul.

 

O BRICS mostrou, portanto, que a unidade do Terceiro Mundo é sim possível, e que ela pode ser expressada pela cooperação em plataformas políticas alternativas e abrangentes, facilitando a defesa de seus interesses no plano internacional.

Por certo, qualquer que seja o desenvolvimento futuro do grupo daqui para a frente, fato é que o assim chamado Terceiro Mundo (ou, para quem preferir, o Sul Global) já demonstrou claramente sua insatisfação com as estruturas de poder existentes.

Tais estruturas, dominadas pelo Ocidente (o vulgo Primeiro Mundo), além de radicalmente injustas também são radicalmente obsoletas, a julgar pelas novas realidades globais do século XXI. É por isso que, além de simbólica, a cúpula na África do Sul representou uma verdadeira revolta do Terceiro Mundo e uma revolução do BRICS.

 

FONTE:     https://sputniknewsbr.com.br/20230830/a-revolucao-do-brics-como-a-expansao-do-grupo-simboliza-a-revolta-do-terceiro-mundo-30107255.html

 

Valdir da Silva Bezerra*

Mestre em Relações Internacionais pela Universidade Estatal de São Petersburgo

Membro do Núcleo de Pesquisas em Relações Internacionais sobre Ásia da Universidade de São Paulo (NUPRI-GEASIA)

Pesquisador do Grupo de Estudos Sobre os BRICS da Universidade de São Paulo (GEBRICS-USP)

Colaborador do Grupo de Estudos sobre a Rússia (PRORUS) da Universidade Federal de Santa Catarina

 

domingo, 27 de agosto de 2023

UMA NOVA CORRIDA PELA ÁFRICA?

 

Uma nova corrida pela África?

Como as grandes potências têm disputado influência no continente

 15.08.2023

 

A atual instabilidade política no Níger e a deterioração da influência europeia na África tem sido uma das principais pautas de discussões em tempos recentes. Enquanto isso, potências como China e Rússia têm ganhado cada vez mais espaço no continente.

Quanto ao caso do Níger, cerca de 15% de todo o urânio usado pela França em suas usinas nucleares são provenientes do país africano, que também responde por um quinto do estoque total de urânio da União Europeia. Ao mesmo tempo, o IDH de Níger se encontra entre os três piores do mundo, segundo dados da ONU de 2021.

Em verdade, a anterior elite política no Níger, encabeçada pelo presidente deposto Mohamed Bazoum, segundo denúncias, apropriava-se justamente da riqueza do país com o aval das potências ocidentais, tendo sido destituída por um movimento político-militar com forte conotação popular e que conta com o apoio de seus vizinhos africanos.

Diante dessa situação a própria França, de acordo com a junta militar hoje à frente do Níger, teria dado indícios de que poderia organizar uma intervenção internacional para "estabilizar a situação no país" e reempossar o antigo presidente.

 

Ora, para além da instabilidade no Níger, fato é que as mudanças ocorridas na economia e na política mundial nas últimas décadas foram tão significativas que o continente africano readquiriu sua importância geopolítica internacional e as grandes potências não se mostraram alheias a essa realidade. A Europa, por sua vez, vê sua posição cada vez mais enfraquecida na África.

Em suma, a perda da influência europeia na região possui raízes históricas. Afinal, no período de expansão do colonialismo europeu na África a partir do século XV, uma de suas principais motivações era justamente a obtenção de matérias-primas e recursos naturais do continente, sem se importar com a qualidade de vida de seus habitantes.

Para além disso, a França, país mais diretamente envolvido na crise no Níger, foi um dos que mais participou de intervenções militares no Norte da África em defesa dos interesses geopolíticos do Ocidente, como no caso do calamitoso bombardeio da Líbia em 2011 pela OTAN.

Ações desastrosas como essa por parte de potências europeias, causando mudanças de regime pela força, resultaram em crises migratórias, instabilidade política e no empobrecimento de países inteiros, colocando em xeque justamente a abordagem pseudo-humanista do Ocidente.

 

Em vista desse cenário de derrocada moral dos europeus, o espaço estava aberto para que Rússia e China ganhassem cada vez mais influência na África ao longo dos últimos tempos. Xi Jinping, por exemplo, no âmbito de sua Nova Rota da Seda, concedeu incentivos a empresas estatais chinesas para que investissem em todo o continente africano, sobretudo na construção de rodovias, portos e ferrovias, que visavam modernizar economicamente diversos países da região.

Como resultado, a China ganhou bastante influência política e prestígio perante as lideranças africanas. Dado que a África possui desconfianças bastante arrazoadas quanto aos países ocidentais por conta de seu conturbado passado histórico e colonial, não é de se surpreender que os investimentos chineses tenham sido recebidos com maior entusiasmo.

Não obstante, não foi somente a China que aumentou sua presença na África nos últimos tempos. A Rússia também procurou fazer o mesmo. Em benefício de Moscou encontra-se o fato de que o continente africano ainda mantém vivo na memória a ajuda oferecida pela União Soviética durante a Guerra Fria para os processos de descolonização da África frente às antigas metrópoles europeias.

 

Por si só, esse histórico oferece um grande capital político para Rússia em sua relação com as lideranças africanas. Não é à toa que, no contexto das sanções ocidentais aplicadas ao país em 2022, a Rússia ampliou o alcance de sua política externa para a África, reaproximando-se do assim chamado Sul Global.

Além do mais, recentemente a Rússia prometeu às lideranças africanas assegurar o fornecimento de grãos necessários ao continente, atendendo assim aos anseios de segurança alimentícia regional.

Nos primeiros seis meses de 2023, por exemplo, a Rússia já exportou cerca de dez milhões de toneladas de grãos para a África. Não obstante, ainda em 2023 o comércio de produtos agrícolas entre a Rússia e o continente africano cresceu em torno de 60%.

Outra das questões que ilustra a proximidade entre russos e africanos nos últimos tempos são as interpretações em torno do conflito na Ucrânia. Ora, o plano de paz para o Leste Europeu elaborado pelas lideranças da África sugere justamente a suspensão do mandado de prisão a Putin emitido pelo Tribunal Penal Internacional, assim como a suspensão das sanções unilaterais aplicadas pelo Ocidente contra a Rússia.

A Europa, que desejava que a África seguisse os seus ditames com relação à condenação de Moscou, viu seus planos serem frustrados, sobretudo pela bem-sucedida realização da Cúpula Rússia-África, que teve lugar no final de julho em São Petersburgo.

 

No decorrer do fórum, aliás, ficou claro que a Rússia e a África defendem a "multipolaridade nas relações internacionais", reiterando a necessidade de estabelecer relações mais cada vez mais próximas, tanto no âmbito comercial quanto político.

Tal cenário se tornou inclusive mais vantajoso para o aumento da influência do BRICS na África. Afinal, vale lembrar que alguns países africanos (como Egito, Tunísia e Etiópia por exemplo) já manifestaram sua intenção de ingressar na associação, demonstrando seu crescente interesse pelo BRICS em um cenário de acentuado descrédito das potências europeias aos olhos do Sul Global.

 

Não obstante, o próprio Banco do BRICS já tem marcado sua presença na África. Além de seu escritório regional na África do Sul, o Egito hoje é um dos membros da instituição, ampliando assim o alcance global do Banco. No mais, na próxima Cúpula do BRICS a ocorrer na África do Sul ainda este mês, questões como a expansão do BRICS, envolvendo inclusive a adesão de outros países africanos ao bloco, certamente deverão fazer parte da pauta.

Tudo isso serve para demonstrar que, no despertar dessa nova era, a África caminha para se tornar um continente cada vez mais importante no cenário global.

Dessa vez, ao contrário do passado, essa importância se dará não mais pela exploração de seus recursos naturais pelas potências colonialistas europeias (esse recado já foi dado pelo Níger), mas sim por sua cooperação com novos polos de poder (como a Rússia, a China e o próprio BRICS) na construção de um mundo verdadeiramente multipolar.

 

FONTE:   Valdir da Silva Bezerra  -   no Sputnik Brasil

https://sputniknewsbr.com.br/20230815/uma-nova-corrida-pela-africa-como-as-grandes-potencias-tem-disputado-influencia-no-continente-29930919.html