domingo, 25 de agosto de 2024

O ABC da Geopolítica Mundial.

O ABC da Geopolítica Mundial.

Breno Altman desvenda as relações Norte Sul e o surgimento do mundo multipolar, no post "O Brasil deve se aliar com EUA e Europa ou com China e Rússia?"  - Análise de Breno Altman",   que transcrevemos  de seu programa “20 minutos Analise” do Opera Mundi no You Tube no endereço abaixo:   https://www.youtube.com/live/ECtv9m6eHyw

Bom dia hoje é 13 de agosto de 2024. Meu nome é Breno Altman. Está começando mais um programa 20 minutos análise. O mundo está em polvorosa, da Ucrânia à Venezuela, da África Ocidental ao Oriente Médio. Um terremoto passa por todos os continentes. A ordem mundial estabelecida em 1991 dá múltiplos sinais de colapso. A crise mundial do capitalismo especialmente a partir de 2008 foi solapando a hegemonia mundial dos EUA conquistada após o triunfo na Guerra Fria  contra a União Soviética e o sistema socialista .  Qual é a perspectiva desse novo ambiente ?

Contexto histórico  internacional. Como deve ser lido e compreendido. Quais as lições que podem ser tiradas para a política externa brasileira. Quais os aliados e os inimigos nesse cenário ? Esses serão os pontos de minha exposição nessa terça-feira 13 de agosto de 2024.  

 

 ORDEM MUNDIAL BIPOLAR

 Mas vamos passo a passo. De 1945 a 1991, por 46 anos, o planeta esteve recortado por . De 1945 a 1991, por 46 anos, o planeta esteve recortado por uma contradição principal que determinava todas as situações regionais e nacionais: o confronto entre o sistema capitalista liderado pelos Estados Unidos e o sistema comandado pela União Soviética. A ordem mundial era BIPOLAR. O sistema capitalista havia sofrido uma fortíssima reformulação depois da Segunda Guerra Mundial.  É só então que nós podemos falar na criação de um sistema imperialista. Antes da 2ªGM nós tínhamos estados imperialistas que inclusive guerreavam entre si como na 1ªGM e parcialmente na própria Segunda Guerra Mundial. Depois da Segunda Guerra Mundial os Estados Unidos adquirem absoluta hegemonia sobre os países capitalistas e iriam construir um sistema imperialista com instituições financeiras como o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial e também instituições militares como a OTAN que é um sistema vertical com um comando,  o comando norte-americano, com todos os demais países  capitalistas se subordinando aos Estados Unidos nesse sistema imperialista criado depois da Segunda Guerra. O mesmo aconteceria no sistema socialista, depois da Segunda Guerra Mundial, a União Soviética já não era mais o único país socialista do mundo, cria-se um campo socialista na Europa formado por diversos países que se libertaram da ocupação nazista e do próprio capitalismo, vindo a integrar com a União Soviética um sistema socialista que também era vertical também tinha um centro de comando e esse centro de comando era exercido pela União Soviética.  Portanto não eram Campos ou Blocos mas Sistemas hierarquicamente constituídos com instituições financeiras e militares que expressavam o estágio mais elevado da luta de classes no plano internacional entre a burguesia e a classe trabalhadora. Cada uma dessas classes exercendo sua direção sobre sua própria coalizão de estados.

É claro que havia muitas Nações que não se incorporavam a esses sistemas havia países socialistas como a Yugoslávia e a China por exemplo, que tinham entrado em choque com a União Soviética a partir de distintos momentos e por diferentes razões se colocavam fora do sistema socialista comandado por Moscou. Também tínhamos sociedades que se libertavam do colonialismo e indicavam a intenção de seguir por um rumo socialista mas não estavam incorporadas ao sistema liderado pelos soviéticos. Por outro lado havia estados capitalistas e até pré-capitalistas que tinham no sistema imperialista liderado pelos Estados Unidos seu principal inimigo ainda que esses estados fossem governados por frações burguesas ou feudais locais. Um bom exemplo dessa situação eram países árabes como Iraque, Líbia, Síria e até o Egito onde correntes nacionalistas assumiram o governo nas décadas de 1950 e 1960. Esses  países que não integravam qualquer dos dois sistemas vieram a se articular no movimento dos Não Alinhados criado a partir dos princípios aprovados na famosa conferência de Bandung na Indonésia em 1955.

 

O TERCEIRO MUNDO  - MOVIMENTO DOS NÃO ALINHADOS.

Esse movimento ainda existe, chegou a ser integrado por 120 Nações na sua imensa maioria da África e da Ásia e também da América Latina, era o chamado Terceiro Mundo em uma teoria pouco rigorosa a teoria dos Mundos pela qual o Primeiro Mundo seriam as nações capitalistas mais ricas, o Segundo Mundo estaria integrado pelos países socialistas e o Terceiro Mundo ficaria para classificar a periferia dos dois sistemas: a periferia do sistema socialista que não se integrava a esse sistema como era o caso de Cuba e a periferia do sistema capitalista.

Na época da guerra o movimento dos não alinhados teve um papel muito relevante embora autônomo na sua constituição, seu viés era declaradamente anticolonialista e anti-imperialista o que efetivamente levava esse movimento a ser um aliado estratégico do sistema socialista. Afinal tinham o mesmo inimigo: esse inimigo era o sistema imperialista liderado pelos Estados  Unidos.

 Desde a sua Fundação formal em 1961 até o fim da União Soviética em 1991 os principais estados do Movimento dos Não Alinhados foram Yugoslávia, Índia e Cuba com a China mantendo uma posição ambígua em função das suas desavenças com os soviéticos e da sua aproximação com os norte--americanos nos anos 70. A China teve um papel muito importante na criação do Movimento dos não alinhados nos anos 50 e 60 mas depois se afasta do Movimento dos não alinhados porque suas desavenças com a União Soviética passam a ser cada vez mais radicais e a China opta por um caminho de aproximação com os Estados Unidos nos anos 70 .

 

 ORDEM MUNDIAL UNIPOLAR. Com o colapso do sistema socialista em 1991 no entanto esse cenário mudou, o sistema imperialista fundado pelos Estados Unidos depois da 2ªGG passou a exercer seu domínio em todos os aspectos político econômico militar e cultural sem a existência do sistema socialista. Portanto, a partir de 1991 o mundo passa a ser UNIPOLAR, um sistema hegemônico exercido pelos EUA com o seu grande poderio militar incontestável.  Os não alinhados perderam força, se fragmentaram e se isolaram, com os Estados Unidos intervindo por todos os meios para desmontar qualquer outros planos hegemônicos. Países foram destruídos e despedaçados como a Yugoslávia enquanto outros foram invadidos e seus governos derrubados como foram os casos do Iraque e da Líbia.  Enquanto muitos outros países foram sugados pela dinâmica econômico-financeira do sistema imperialista e outros países ainda dispostos a resistir a exemplo de Cuba, Coreia do Norte, Irã foram cada vez mais bloqueados e marginalizados a partir do século XXI. 

 

(ADENDO ÀS INFORMAÇÕES DO BRENO :  Deve-se recordar aqui que mesmo antes das ordens mundiais Bipolar e Unipolar, antes mesmo da 2ªGM, o sistema imperialista americano (que era um dos sistemas imperialistas capitalistas, havia também o Britânico, o francês, etc – não era único) já intervia, pressionava e promovia invasões, golpes de estado e outros movimentos nos países do Terceiro Mundo,  para derrubar regimes democráticos eleitos pelo povo quer sejam socialistas ou nacionalistas – desde que fossem contra os seus interesses imperialistas. Esses movimentos foram cruéis, promoveram massacres contra populações inteiras (o caso da Indonésia – foram assassinados mais de um milhão de pessoas ligadas à partidos de esquerda num golpe que derrubou uma democracia para implantar uma ditadura militar com apoio americano) diretamente ou indiretamente financiando grupos fascistas e anti-populares, com muito dinheiro e ações de sabotagem apoiadas  pela CIA, etc. Segundo o  historiador indiano Vijay Prashad, seu  livro Balas de Washington é uma síntese da longa história de lutas dos povos do Terceiro Mundo pela libertação e por sua própria independência, mas que foram impedidos por golpes, assassinatos e massacres promovidos pelos EUA para que estes povos continuassem sob seu jugo imperialista….”queriam conter a onda que varreu a Revolução de Outubro de 1917 e as muitas ondas que açoitaram o mundo para formar o movimento anticolonial”.. O jornalista e ex-professor Urias Rocha, da UFMS realizou uma breve cronologia das invasões e ataques dos Estados Unidos ao redor do mundo nos últimos 150 anos – de 1846 a 2020. A quantidade de mortes pelas quais são responsáveis é de aproximadamente 110 milhões de pessoas. Nunca foram denunciados formalmente ante tribunais internacionais. Algumas delas: México (1846-48 – anexação do Texas); Chile (1891); Haiti (1891); Havaí (1893); Nicarágua (1894); China (1894-95); Coréia,Panamá, China, Filipinas, Cuba, Porto Rico, Espanha, Nicarágua, Samoa, Nicarágua e Panamá (alguns várias vezes,até 1901); Honduras, República Dominicana, Coréia, Cuba, Nicarágua, Honduras, China (até 1912)... Coréia (1951-53. 3 milhões de pessoas morreram); Guatemala (1954); Egito (1956, Nasser); Líbano (1958); Vietnã (1961-1975, 3 milhões de vietnamitas morreram e 60 mil soldados americanos...Entre outros.. Eles foram eficientes nestas missões ao longo dos séculos XIX, XX e XXI, pois poucos países conseguiram se emancipar de seu domínio imperialista. Os que conseguiram tiveram apoio do lado socialista. Se considerarmos apenas o período Bipolar, nenhum país do Terceiro Mundo (com exceção da Coréia do Sul que se tornou um país desenvolvido) conseguiu sair das amarras do império, não conseguiram se desenvolver economicamente, continuaram pobres e subdesenvolvidos. Com exceção apenas de Cuba, Angola, Moçambique, Vietnam e países próximos à China e Rússia que tiveram apoio destes. Fonte para estes dados:  https://blogdodamirso.blogspot.com/2022/09/porqueos-paises-pobres-continuam-pobres.html ).

 

 SURGEM  AS CONDIÇÕES PARA O  MUNDO  MULTIPOLAR. 

Quatro fenômenos concomitantes foram desafiando a hegemonia exercida pelos Estados Unidos: o primeiro fenômeno foi o acelerado e robusto desenvolvimento econômico da China, que se torna a maior potência econômica produtiva do mundo em dólares PPC (Paridade do Poder de Compra) O segundo fenômeno foi a restauração soberana do Estado Nacional Russo. Putin recupera o potencial econômico da Rússia, aumentando estatais e produzindo armas – é a maior produtora de ogivas nucleares do mundo. O terceiro fenômeno foi a resistência de nações com maioria islâmica ao sistema imperialista especialmente do Irã. O quarto fenômeno foi a emergência de governos progressistas na América Latina a partir da eleição de Hugo Chaves na Venezuela em 1998.  Esses quatro processos entrelaçados a outros mais foram alimentados pela grande crise financeira do capitalismo em 2008, a partir da qual a agenda da burguesia imperialista dos países capitalistas avançados, torna-se cada vez mais agressiva.  A recuperação da taxa de lucro passava a depender do rebaixamento de salários e direitos trabalhistas, de impostos mais baixos sobre o capital,  da obtenção de novos mercados e fontes abundantes de matéria prima barata, da conquista de reservas energéticas.  Essa agenda tem implicado para a América Latina em uma radicalização das relações de dominação entre centro e periferia principalmente através do aprofundamento da Divisão  Internacional do Trabalho. Dessa divisão internacional do trabalho que vem sendo construída desde os anos 80 na etapa do neoliberalismo com o subcontinente latino-americano que vem  interrompendo seus processos de industrialização e voltando a ser um fornecedor de matérias primas e produtos agropecuários. Essa divisão internacional do trabalho vem se aprofundando como parte da resposta da burguesia imperialista à crise do capitalismo agravada a partir de 2008. A diferença fundamental dessa vez é que África e América Latina além da Ásia deixaram de ser territórios livremente disponíveis para o sistema imperialista. A  China ao transitar de exportadora de mercadorias para exportadora de tecnologias e capitais, além de ser uma grande importadora de commodities tornou-se forte rival na disputa por alianças e um grande obstáculo para a agenda do capital ocidental.  Essa situação tem provocado a erosão da hegemonia do sistema imperialista que recorre cada vez mais agressivamente aos seus dois pilares de sustentação : o predomínio do dólar como moeda mundial e a supremacia militar.

 

CAMPO ANTI-IMPERIALISTA

Ainda assim a ordem mundial de 1991 vem se deteriorando com velocidade incrivel, favorecendo as condições objetivas e subjetivas para o surgimento de um campo anti-imperialista que leve o mundo da ordem Unipolar de 1991 para uma ordem multipolar.  Esse campo anti-imperialista não é um sistema como na era da Guerra Fria, mas um bloco composto por distintos sistemas econômicos sociais e políticos que confluem na sua contradição no seu antagonismo contra o sistema imperialista.  Participam desse Campo anti-imperialista em formação desde estados socialistas como a própria China cujas características atuais são bem distintas da União Soviética,  até nações capitalistas periféricas com governos nacionalistas ou progressistas passando por repúblicas teocráticas  como o Irã.  Este é o confronto atual: um sistema imperialista e um campo anti-imperialista.  O primeiro passo estratégico para a articulação desse Campo em termos mundiais foi a criação dos Brics em 2009, durante reunião realizada na Rússia. Essa articulação econômica formada inicialmente por Brasil, Rússia, India,  China e África do Sul são as siglas do Brics. E essa coalizão formada inicialmente por estes cinco países em 2023 ganhou adesão de  Argentina, Egito, Irã, Arábia Saudita, Emirados Árabes e Etiópia a partir de 2015.

 

OS BRICS

Os Brics passaram a ter um banco de investimento chamado NDB é a sigla para o nome em inglês do banco New Development Bank, Banco do Novo Desenvolvimento,  é um banco que atualmente é chefiado pela ex-presidenta brasileira Dilma Roussef,  aglutinando países que respondem por mais de 70% das reservas mundiais de petróleo, entre outras riquezas. Os Brics representam (dados de 2022)  36,6% do PIB Global contra 29,98% do G7,  a Cúpula do sistema imperialista. Aquela cúpula que é formada por Estados Unidos, Alemanha, França, Itália, Japão, Canadá e Reino Unido.  Por ser limitado ainda ao campo econômico os Brics são uma articulação econômica e não uma articulação geopolítica. Os Brics operam para desdolarização da economia mundial e a Constituição de uma institucionalidade financeira independente,  tanto dos Estados Unidos quanto da União Europeia e do Japão. Uma institucionalidade financeira progressivamente independente do FMI ou do Banco Mundial,  ainda que haja aliados geopolíticos dos Estados Unidos entre os integrantes do Brics como é o caso do Egito e da Arábia Saudita. Os  Brics+ (Brics mais) que é o seu novo nome depois de 2023, depois da adesão desse novo grupo de países, os Brics trabalha mais objetivamente para minar um dos pilares da sustentação do sistema imperialista, ao mesmo tempo em que ganha musculatura para oferecer fontes alternativas de financiamento que não estão condicionadas às mesmas regras e interesses do bloco liderado pelos Estados Unidos.

Veja Bem pessoal não se trata de ingenuidade sobre os objetivos da China e de seu principal aliado a Rússia,  mas de uma análise concreta dos propósitos que tem essas duas Nações, China e Rússia com a crescente polarização contra os Estados Unidos ,ambos países China e Rússia necessitam de Aliados que se descolem do sistema imperialista.  O que torna impositivo propor um programa multipolar baseado no respeito à diversidade de sistemas e interesses com reflexos sobre as próprias instituições mundiais.  China e Rússia necessitam defender a diversidade e a pluralidade,  não por uma questão moral, não porque sejam a  priori moralmente superiores que quaisquer outros estados, mas por uma polarização contra os Estados Unidos,  Rússia e China precisam de apoios e esses apoios somente podem ser construídos se tanto China quanto Rússia oferecerem essa pluralidade, essa diversidade de sistemas, sem querer impor modelos políticos, sem querer impor modelos econômicos, sem querer impor regras draconianas, sem querer impor planos que permitam exclusivamente o seu próprio desenvolvimento sem atentar pro desenvolvimento alheio, como ocorre com os Estados Unidos que  para manter o sistema fundado depois da Segunda Guerra Mundial  precisam da maior verticalidade possível do maior grau de submissão que puderem obter da aceitação como Universal do seu modelo político e econômico.  Tudo isso fica claro na sua estratégia belicista das sanções unilaterais que adota contra Nações que desafiam sua hegemonia e até mesmo no comando absoluto sobre Aliados históricos como a União Europeia.  Basta ver a submissão da União Europeia aos Estados Unidos tanto no que diz respeito à guerra da Ucrânia quanto no que se refere à questão Palestina, a Europa chega a aprovar resoluções contra os seus próprios interesses em função da verticalidade imposta pelos Estados Unidos no sistema imperialista.  A Europa aderiu às sanções contra a Rússia ainda que  essas sanções tenham provocado escassez de combustível e encarecimento brutal na aquisição de petróleo e gás trazendo inflação para os países europeus ao mesmo tempo em que geravam riqueza para empresas norte-americanas.  Ainda assim a União Europeia bateu continência aos Estados Unidos porque é assim que funciona o sistema imperialista, Ao contrário de China e Rússia, os Estados Unidos não desejam diversidade e pluralidade, não podem suportar diversidade e pluralidade, porque o sistema imperialista norte-americano para resistir à atual crise de hegemonia precisa ser vertical de comando único cada vez mais centralizado.

 

RUSSIA QUEBRA O MONOPÓLIO DA GUERRA MANTIDO PELOS EUA DESDE 1991.

Para completarmos o quadro analítico é preciso lembrar que outro Pilar do sistema imperialista foi abalado no dia 24 de fevereiro de 2022 quando a Rússia atacou a Ucrânia para garantir a proteção e a separação do Donbass, a zona leste ucraniana de maioria russa, depois de negociações infrutíferas que duraram 8 anos desde 2014.  Na tentativa por parte de Moscou de manter a Ucrânia fora da OTAN e de preservar a autonomia daquelas regiões de origem majoritariamente russa.  Nesse momento, no momento em que a Rússia resolve agir militarmente contra a Ucrânia quebrou-se o monopólio da Guerra exercido pelos Estados Unidos desde o desaparecimento da União Soviética.  Esse é um fato muito importante a quebra do monopólio da Guerra,  talvez no futuro os historiadores datem o 24 de fevereiro de 2022 como o fim dessa ordem Unipolar porque foi exatamente o momento em que se quebrou o monopólio da Guerra exercido pelos Estados Unidos até 24 de fevereiro de 2022.  Os Estados Unidos eram a única potência na face da terra que podiam ou que conseguiam impor os seus interesses por  meios militares, os demais países quando os Estados Unidos interviam de forma armada recuavam podiam até resistir um pouco mas eram obrigados a acatar os interesses dos EUA por conta do seu enorme poderio militar. Isso se quebra na Ucrânia.

 

DESEQUILÍBRIO MILITAR

Por isso a disputa na Ucrânia é tão importante entre outras razões para os Estados Unidos e para a OTAN mas o fato é que a Rússia se transformou em protagonista militar capaz de desafiar tanto os Estados Unidos quanto a OTAN.  Não é possível, para citar alguns exemplos, não é possível compreender as rebeliões populares e militares na África ocidental em países de antiga  colonização francesa sem incluir na análise o papel Militar de forças regulares e irregulares russas que deslocaram a influência Militar de franceses e norte-americanos. Isso tem sido fundamental para a substituição de governos na África ocidental.  Aqui eu me refiro a Burquina Fasso, ao  Niger e outras Nações que estão chutando para casa os antigos colonizadores franceses e também os americanos.  Um fator para que isso esteja sendo possível é a presença militar russa seja com forças regulares, suas armas, seja com grupos armados que a Rússia monta mas que não são oficialmente vinculados a Moscou.

 

FÔRÇAS ARMADAS VENEZUELANAS

 Seria pouco viável entender a capacidade da Venezuela construir Forças Armadas totalmente independentes dos Estados Unidos  sem a Rússia e isso tem sido decisivo para que Caracas possa conter sucessivas tentativas golpistas, incluindo ameaças de invasão militar como ocorreu no biênio 2019 2020.  O fato da Venezuela poder ter forças armadas totalmente independente,  que não são formadas pelos Estados Unidos,  que não adquirem armas norte-americanas ou europeias que podem constituir essas Forças Armadas a partir de armamento  Russo, isso permite um elemento de estabilidade na Venezuela contra as tentativas golpistas.   

 

A CONTRADIÇÃO

Se as forças armadas venezuelanas continuassem a ser treinadas pelos Estados Unidos ou a comprar armas dos Estados Unidos ou da Europa evidentemente as forças armadas da Venezuela seriam um elemento favorável aos interesses imperialistas, como acontece nos demais países incluindo o Brasil o fato é que ao longo do século 21,  podemos constatar que a contradição principal do mundo passou a ser regida pelo confronto entre o novo Campo anti-imperialista liderado por China e Rússia e o velho sistema imperialista comandado pelos Estados Unidos. Todas as grandes disputas regionais e nacionais devem ser analisadas à luz dessa contradição como as situações da Venezuela, da Palestina e da Ucrânia,  é claro que essa não é a única contradição, não se pode ler a situação destes países, exclusivamente a partir dessa contradição entre o sistema imperialista e o campo anti-imperialista, mas ler a situação desses países fora dessa contradição é cometer um grave erro metodológico para podermos compreender o que se passa e o que está em jogo nessas nações, nós temos que fazê-lo a partir da identificação desta contradição principal que atualmente rege o cenário mundial , particularmente os países periféricos como o Brasil, Estes países  somente poderão encontrar uma nova via de desenvolvimento se forem capazes de se emancipar do sistema imperialista,  se esse sistema deixar de de existir ou se esse sistema perder completamente a hegemonia Mundial.  Quanto mais fraco estiver o sistema imperialista liderado pelos Estados Unidos menor poder de fogo terá o grande capital nacional que impõe um modelo econômico baseado na concentração de renda e riqueza, no rentismo, na sua super exploração do trabalho, no monopólio da terra e na dependência externa.  

 

O FIM DO IMPERIALISMO

Quanto mais debilitado estiver o sistema imperialista melhores serão as condições para livrar o Brasil e os demais países latino-americanos dos obstáculos que impedem seu crescimento industrial e impõe um modelo agro-extrativista cujas drásticas consequências econômicas sociais e ambientais são visíveis até para as pessoas mais desatentas.  Somente com o fim do sistema imperialista poderá haver democracia real, respeito aos direitos humanos, proteção às ameaças golpistas e as pressões internas e externas.  Somente com o fim do sistema imperialista poderá haver normalidade pros países poderem construir, cada qual a partir do seu modelo, regimes efetivamente Democráticos de Participação Popular e de respeito aos Direitos Humanos.  Portanto a derrota do sistema imperialista é um objetivo estratégico para aquelas forças políticas que estão dispostas a pensar o mundo a partir de uma perspectiva de justiça social, democracia e fim da concentração de renda e riqueza.

 

POLITICA EXTERNA BRASILEIRA – NÃO ALINHAMENTO ATIVO..

Nesse contexto vamos falar da política externa brasileira atual que é baseada no conceito de não alinhamento ativo:  essa tese é correta ou está ultrapassada? Quando o presidente Lula assumiu em 2003 o seu então chanceler Celso Amorim formulou a política externa brasileira de uma maneira sintética como sendo uma política externa ativa e altiva.  Nesse terceiro governo Lula o mesmo Celso Amorim agora assessor internacional do presidente Lula reformulou o conceito com base na ideia de não alinhamento ativo - esse conceito parte da ideia de que os interesses brasileiros seriam melhor atendidos se o Brasil mantivesse capacidade de diálogo com os dois grandes polos.  E se o Brasil a partir desse diálogo fosse criando entre esses dois polos um campo intermediário um Campo não alinhado e a construção desse Campo não alinhado passaria não apenas por relações regionais na região natural do Brasil que é a América do Sul mas também por relações com os governos sociais Democratas da Europa e até mesmo com o partido Democrata dos Estados Unidos. Então era a ideia de um caminho do Meio, um caminho não alinhado um caminho no qual o Brasil poderia estar presente nos Brics poderia ter relações fluidas e fortes com Rússia e China,  aproveitando  o que estas relações têm de bom a oferecer especialmente novas condições de financiamento e novos mercados; mas ao mesmo tempo em que fortalecesse suas relações com os Estados Unidos e a Europa na medida em que isso poderia  trazer benefícios ao Brasil pela sua inserção ocidental.  Este é o conceito do não alinhamento, ou seja nas grandes questões  conflitivas do mundo de hoje o Brasil atuaria sempre por um tripé pragmático e não alinhado Qual é esse tripé? Paz . Sempre buscar uma solução pacífica segundo respeito ao direito internacional das Nações Unidas e das demais instituições e um terceiro fator a partir de uma postura de mediação o Brasil sempre se apresentando não como defensor de uma situação A ou B.  mas como um mediador, como um país capaz de ajudar a resolver os conflitos a partir dessas desses três critérios.  O Brasil poderia digamos se relacionar com a situação Mundial favorecendo os próprios interesses brasileiros.  Eu considero que,  essa é apenas a minha opinião uma modesta opinião, que esse conceito não tem pés na realidade, não tem base na realidade. Não tem base na realidade em primeiro lugar porque ao contrário do que aconteceu na Guerra Fria o espaço de não alinhamento é muito mais restrito. Na Guerra Fria havia um grande espaço de não alinhamento porque como eu já disse era um confronto entre dois sistemas verticais - o sistema capitalista ou sistema imperialista liderado pelos Estados Unidos e o sistema socialista liderado pela União Soviética.  Mas havia muitos países que não estavam integrados nem a um nem a outro sistema e isso abria espaço para o não alinhamento. Mas mesmo não alinhamento naquela época ele tinha um prisma muito claro que era a luta contra o colonialismo e a luta contra o imperialismo, esse espaço de não alinhamento está muito estreito hoje e é cada vez mais estreito porque esta polarização atual entre o sistema imperialista e o campo anti-imperialista praticamente domina todo o tabuleiro e esses interesses são absolutamente confrontados.  No que diz respeito aos interesses brasileiros não há o que se esperar do sistema imperialista. A fórmula que Ele oferece ao Brasil é a fórmula do suicídio econômico, da dependência e da submissão política. Vejam ali o acordo em discussão felizmente parece que adiado  sem prazo ou até enterrado o acordo Mercosul União Europeia ele é muito parecido com aquele velho acordo da ALCA é um acordo pelo qual em troca de ganhar espaço para os seus produtos agropecuários o Brasil cede espaço ainda mais pra indústria europeia, cede espaço para empresas europeias nas compras públicas. O Brasil aprofundaria por esse acordo União Europeia Mercosul as características neocoloniais de ser principalmente na divisão internacional do trabalho um país provedor de matérias primas e produtos agrícolas, se afastando cada vez mais das grandes cadeias industriais, das grandes cadeias de valor agregado do mundo. Esta é a fórmula que o sistema imperialista tem a oferecer aos países periféricos, além de impor o seu modelo econômico e político. 

 

POLÍTICA EXTERNA BRASILEIRA – A SAÍDA É PELO MUNDO  MULTIPOLAR

Não há nada o que se esperar dos Estados Unido e da União Europeia eles estão ao lado dos piores inimigos dos povos o tempo todo,  como a gente vê na questão Palestina o apoio praticamente incondicional dos Estados Unidos e da União Europeia ao regime colonial e racista de Israel,  ao regime sionista ou a postura que adotam Estados Unidos e União Europeia em relação à guerra da Ucrânia cujo único objetivo é bloquear, isolar, enfraquecer e derrotar a Rússia não porque a Rússia atacou a OTAN  mas porque a Rússia é uma aliada militar fundamental da China que disputa hegemonia com os Estados Unidos. Basta ver o que os Estados Unidos e a União Europeia fazem com a Venezuela, fazem com Cuba, fazem com qualquer país que ousa ofuscar ou combater a hegemonia norte-americana no nosso continente. Na Venezuela  apoiam  a Extrema direita, a golpes de estado,  a sabotagens, adotando sanções. É  isso que é o sistema imperialista, evidente que nada se pode mais esperar desse sistema. Alianças antes do sistema imperialista, quando eram vários sistemas (p.ex. antes da 2ªGGM) eram possíveis para incentivar a industrialização – acordo Getúlio Vargas com Frank D. Roosevelt para criar a CSN. Mas esse momento já passou porque o inimigo do sistema imperialista hoje não é outro que não o próprio mundo periférico que quer se libertar da hegemonia do sistema imperialista.  O sistema imperialista não apresenta possibilidades de acordo que abram ao Brasil e outros países da América do Sul uma Nova via de desenvolvimento, ao contrário estas possibilidades na minha opinião estão exclusivamente na aliança com Rússia e China.  Especialmente porque Rússia e China não propõe a construção de um sistema vertical mas de um campo no qual possam estar presentes distintos sistemas e modelos  numa situação multipolar.  A aliança com a Rússia e com a China é o caminho para a ordem multipolar, quanto maior for a aliança do Brasil com a Rússia e com a China melhores serão as possibilidades de desenvolvimento brasileiro, maiores serão os recursos para o desenvolvimento brasileiro, melhores serão as possibilidades democráticas do Brasil porque é também por exemplo na aliança com Rússia e China que as Forças Armadas Brasileiras poderiam se libertar da indústria de defesa dos Estados Unidos seguindo o mesmo caminho da Venezuela. Uma aliança cada vez mais próxima com Rússia e China seria fundamental porque esta independência da nossa indústria de defesa em relação ao sistema imperialista permitiria deslocar as Forças Armadas Brasileiras do papel que historicamente elas cumprem no nosso país de guarda pretoriana dos grandes capitalistas, de instrumento de tutela sobre o estado, portanto na minha repito modesta opinião a política externa brasileira está ultrapassada e conduz o Brasil a equívocos em várias questões.  Por exemplo agora na Venezuela, o fato é que o Brasil tampouco reconheceu até agora a vitória de Nicolás Maduro ao contrário do que fizeram Rússia e China e há declarações do próprio Celso Amorim ou do Rui Costa, chefe da casa civil muito ruins que colocam em questão a soberania de um país aliado como a Venezuela.  Por que há essa atitude, entre outras razões penso eu, porque a política externa brasileira é guiada por um objetivo falso, esse objetivo do não alinhamento, esse objetivo de ficar de bem com os dois lados não é sustentável no mundo de hoje, eu acredito que o conceito de não alinhamento ativo deveria ser substituído pelo conceito de alinhamento soberano.  Uma clara aliança com Rússia e China está ali esperando a terceira cadeira nessa mesa do campo anti-imperialista. Rússia China e Brasil seria um tripé fundamental para fortalecer esse Campo anti-imperialista, necessariamente diverso e plural e soberano,  porque é da Lógica desse Campo anti-imperialista que tá sendo criado a multipolaridade. O Brasil não terá que mudar o seu modelo político e econômico em função de pressões externas em função da pressão da Rússia e da China, não é isso que está sendo construído nesse Campo anti-imperialista, o Brasil mudará seu modelo político econômico seu sistema político econômico em função dos desejos e das aspirações das lutas das massas brasileiras e não por pressão externa nesse desenho que vai adquirindo o campo anti-imperialista.

Portanto o alinhamento soberano pelo qual o Brasil possa exercer sua liderança natural na América Latina me parece ser hoje a política mais adequada respondendo ao próprio título do programa a própria pergunta que o nosso programa de hoje colocou, o Brasil deve se aliar aos Estados Unidos e a Europa ou a Rússia e a China eu não tenho dúvidas em afirmar que nossos Aliados naturais especialmente em um mundo cada vez mais polarizado como atual para que nós possamos construir um novo ciclo de desenvolvimento para que nós possamos ter financiamento para a nossa reindustrialização para que nós possamos manter mercados para os nossos produtos para que nós possamos cumprir uma liderança democrática e humanista no mundo,  a nossa aliança natural  é com a Rússia e com a China, no mundo onde há cada vez menos espaço para o não alinhamento e assim termino minha longa exposição de hoje, peço desculpas pelo tempo que eu tomei, antes de passarmos as perguntas e comentários eu queria lembrar vocês que operamundi continua a sofrer ataques sionistas, o que vem ocorrendo desde que iniciamos a cobertura da ofensiva de Israel contra o povo palestino, nós seguimos lutando para levar informação gratuita independente a todos e a todas, mas nós precisamos da ajuda de vocês para manter e desenvolver a nossa cobertura jornalística, isso é muito importante para nós, eu queria fazer esse apelo a vocês, opera mundi está lançando uma campanha de arrecadação e vocês podem ajudar.

 

FONTE:  Opera Mundi, programa 20 minutos análise, “O Brasil deve se alinhar à Europa e  EUA ou com à Rússia e China?”, análise de Breno Altman.  Veja no endereço abaixo:

https://www.youtube.com/live/ECtv9m6eHyw

 

segunda-feira, 12 de agosto de 2024

A EXTREMA DIREITA LEU GRAMSCI E ENTENDEU.... A ESQUERDA ESQUECEU DELE.

 

Rodrigo Perez Oliveira FB - 08/08/24

"A EXTREMA DIREITA BRASILEIRA LEU GRAMSCI, E ENTENDEU

As eleições para o Conselho Federal de Medicina chamaram bastante atenção ao longo dessa semana.
A repercussão tem sua razão de ser, pois traduz a polarização ideológica sobre a qual está fundada a política brasileira contemporânea.
E ainda digo mais: nos convida a analisar aquele que é um dos maiores potenciais da extrema direita , algo que costuma ser subestimado pelas forças políticas democráticas.
Antes de desenvolver o argumento, algumas informações importantes:
No dia 07 de agosto, depois de uma disputa polarizada que movimentou a comunidade médica, o infectologista Francisco Cardoso foi eleito representante de São Paulo no CFM.
O processo foi conflituoso e conturbado, envolvendo denúncias à Polícia Federal, e circulação de Fakenews.
Cardoso contou com o apoio organizado das mídias digitais bolsonaristas, inclusive com manifestações de lideranças como Luciano Hang, Nikolas Ferreira e Marcelo Queiroga.
Cardoso se notabizou durante a pandemia por ter defendido o uso off label da cloroquina, ecoando o negacionismo do então presidente Jair Bolsonaro.
A extrema direita parece ter entendido a dimensão estratégica de um órgão como o CFM, cuja função é normatizar, disciplinar e fiscalizar o exercício da medicina, ou seja, definir o que os médicos podem ou não podem fazer.
Em tempos de grandes disputas nas políticas de saúde pública, como no tema dos direitos reprodutivos das mulheres, o CFM é um importante foro de decisão.
O representante do principal estado da federação no conselho será um bolsonarista de primeira ordem.
Mobilização semelhante já havia aconteido em outubro de 2023, na ocasião das eleições para o Conselho Tutelar, que tem a missão de cuidar dos direitos fundamentais das crianças e dos adolescentes.
Todos sabemo como o Estatuto da Criança e do Adolescente e a educação pública são pautas prioritárias para a extrema direita.
Parlamentares bolsonaristas e igrejas evangélicas convocaram suas
bases sociais a comparecerem às urnas e votarem em candidatos ideologicamente alinhados com os seus valores. O resultado lhes foi bastante favorável.
As eleições para o Conselho Federal de Medicina e para o Conselho Tutelar mostram que a extrema direita está organizada e disposta a disputar diversos espaços de poder, a maioria ignorados pelas demais forças políticas.
Podemos lembrar, também, a “super live” da família Bolsonaro em janeiro de 2024, onde Jair e seus três filhos lançavam o programa da “Ação Conservadora” para formação de militantes com foco nas eleições para os legislativos municipais.
A extrema direita parecer ter entendido muito bem as lições de Antonio Gramsci, um dos principais representantes do pensamento político de esquerda.
Segundo Gramsci, a melhor tática de dominação política não deveria se sustentar na violência e na supremacia militar, mas sim na lenta e progressiva conquista de “hegemonia” na sociedade civil, através da ocupação de diversos espaços de poder
O pensamento político de Gramsci começou a circular na direita brasileira na década de 1990, através da atuação de Olavo de Carvalho, para quem a esquerda havia seguido os passos de Gramsci ao conseguir construir hegemonia em diversas instâncias de poder na Nova República, como nas universidades, na imprensa e no sistema judiciário.
Carvalho convidava a direita a fazer algo semelhante, num gesto de apropriação das teses gramscianas.
Sei que muitos ainda tendem a tratar a extrema direita herdeira de Olavo de Carvalho na perspectiva do deboche e da caricatura, como se fossem um grupo de ignorantes e iletrados.
Não acho que seja boa ideia, pois a arrogância não costuma ser boa conselheira.
Essas pessoas estão lendo, estudando, conta com financiamento e investe muita energia, e dinheiro, na formação ideológica de sua militância.
Lentamente, estão ocupando posições estratégicas, avançando pouco a pouco no território da institucionalidade.
Enquanto isso as forças democráticas continuam voltadas quase que exclusivamente para o poder executivo, como se a hegemonia política fosse construída de cima pra baixo, quando o que acontece é exatamente o contrário.
Sim, a extrema direita leu e entendeu Gramsci, enquanto a esquerda parece tê-lo esquecido".

sexta-feira, 19 de janeiro de 2024

PATRICE LUMUMBA E A HISTÓRIA DA ÁFRICA

 

Patrice Lumumba lutou para reescrever a história da África

POR Sean Jacobs

Tradução
Priscilla Marques

 

REVISTA JACOBINA   ·  17/01/2024

Neste dia, em 1961, o líder anticolonial Patrice Lumumba foi assassinado em uma conspiração articulada pela CIA com o Exército congolês e mercenários estrangeiros. Ele lutou contra o colonialismo belga e criou o Movimento Nacional Congolês, o único partido que ofereceu uma visão nacional - em oposição a uma visão étnica - e meios de organizar os congoleses em torno de um ideal progressista.

 

Patrice Lumumba foi primeiro-ministro do recém-independente Congo por apenas sete meses, entre 1960 e 1961, antes de ser assassinado, 63 anos atrás, com 36 anos de idade.

No entanto, a curta vida política de Lumumba – assim como figuras como Thomas Sankara e Steve Biko, que tiveram vidas igualmente curtas – ainda é um ponto de referência para debates sobre o que é politicamente possível na África pós-colonial, o papel de líderes carismáticos e o destino da política progressista em outros lugares.

Os detalhes da biografia de Lumumba são curiosos e controversos: um ex-funcionário dos Correios no Congo Belga, ele se tornou político após ingressar em um ramo local de um partido liberal belga. Ao retornar de uma viagem de estudos à Bélgica organizada pelo partido, as autoridades notaram seu crescente envolvimento político e o prenderam por desviar fundos do correio. Ele cumpriu 12 meses de prisão.

O historiador congolês Georges Nzongola-Ntalaja – que estava no ensino médio durante a ascensão e o assassinato de Lumumba – destaca que as acusações foram fabricadas. Seu principal efeito foi radicalizá-lo contra o racismo belga, embora não contra o colonialismo. Após sua liberação em 1957, Lumumba, que na época era vendedor de cerveja, foi mais explícito sobre a autonomia congolense e ajudou a fundar o Movimento Nacional Congolês [Congolese National Movement], o primeiro grupo político congolês que explicitamente rejeitou o paternalismo belga, demandando pela independência e exigindo que a vasta riqueza mineral do Congo (explorada pela Bélgica e por empresas multinacionais euro-americanas) beneficiasse primeiramente os congoleses.

Para a opinião pública belga – que destacava as diferenças étnicas congolesas, infantilizava os africanos e, no final dos anos 1950, ainda tinha um plano de 30 anos para a independência congolesa – as declarações de Lumumba e do Movimento Nacional Congolês foram chocantes.

Dois meses após sua libertação da prisão, em dezembro de 1958, Lumumba estava em Gana, a convite do Presidente Kwame Nkrumah, que havia organizado a Conferência de Todo Povo de África [All Africa People’s Conference]. Lá, enquanto vários outros nacionalistas africanos que buscavam a independência política, ouviram Lumumba declarar:

Os ventos da liberdade que atualmente varrem toda a África não deixaram o povo congolês indiferente. A consciência política, que até muito recentemente estava adormecida, agora está se manifestando e assumindo uma expressão visível, e ela se afirmou com ainda mais força nos meses vindouros. Portanto, estamos assegurados do apoio das massas e do sucesso dos esforços que estamos empreendendo.

 

Os belgas concederam relutantemente a independência política aos congoleses, e 2 anos depois, após uma vitória decisiva do Movimento Nacional Congolês nas primeiras eleições democráticas, Lumumba se viu eleito primeiro-ministro e com o direito de formar um governo. Um líder mais moderado, Joseph Kasavubu, ocupava a posição em grande parte cerimonial de presidente congolês.

Em 30 de junho de 1960, Dia da Independência, Lumumba proferiu o que hoje tem sido considerado um discurso atemporal. O rei belga, Boudewijn, abriu o evento elogiando o regime assassino de seu tataravô, Leopoldo II (onde 8 milhões de congoleses morreram durante seu reinado de 1885 a 1908), como benevolente, destacando os supostos benefícios do colonialismo e advertiu os congoleses: “Não comprometam o futuro com reformas precipitadas.” Kasavubu, previsivelmente, agradeceu ao rei.

Então, Lumumba, de maneira não programada, subiu ao púlpito. O que aconteceu em seguida se tornou uma das declarações mais reconhecíveis do desafio anticolonial e um programa político pós-colonial. Como o escritor e crítico literário belga Joris Note apontou posteriormente, o texto original em francês consistia em não mais do que 1.167 palavras. No entanto, abordou muitos pontos importantes.

A primeira metade do discurso traçou uma trajetória do passado ao futuro: a opressão que os congoleses tiveram que suportar juntos, o fim do sofrimento e do colonialismo. A segunda metade delineou uma visão ampla e convocou os congoleses a se unirem na tarefa que tinham pela frente.

O mais importante é que os recursos naturais do Congo iam beneficiar seu povo em primeiro lugar: “faremos com que as terras de nosso país beneficiem primeiramente seus filhos”, disse Lumumba, acrescentando que o desafio era “criar uma economia nacional e garantir nossa independência econômica”. Os direitos políticos seriam reimaginados: “revisaremos todas as leis antigas e as transformaremos em novas leis que serão justas e nobres”.

 

“A CIA tentou envenená-lo, mas acabou optando por políticos locais (e assassinos belgas) para fazer o trabalho.”

 Deputados congoleses e aqueles que ouviam pelo rádio irromperam em aplausos. Mas o discurso não foi bem recebido pelos antigos colonizadores, jornalistas ocidentais, nem pelos interesses multinacionais de mineradoras, elites comerciantes locais (especialmente Kasavubu e elementos separatistas no leste do país), governo dos Estados Unidos (que rejeitou os apelos de Lumumba para ajudar na luta contra os belgas reacionários e os separatistas, forçando-o a recorrer à União Soviética) e até mesmo pelas Nações Unidas.

Esses interesses encontraram um cúmplice, o amigo de Lumumba, o ex-jornalista e agora chefe do Exército, Joseph Mobutu. Juntos, eles trabalharam para fomentar a rebelião no Exército, alimentar a agitação, explorar ataques contra brancos, criar uma crise econômica e, eventualmente, sequestrar e executar Lumumba. A CIA tentou envenená-lo, mas acabou optando por políticos locais (e assassinos belgas) para fazer o trabalho. Ele foi capturado pelo Exército amotinado de Mobutu e levado à província separatista de Katanga, onde foi torturado, baleado e morto.

Na sequência de seu assassinato, alguns dos companheiros de Lumumba – especialmente Pierre Mulele, ministro da Educação em seu governo – controlaram parte do país e lutaram bravamente, mas foram esmagados por mercenários norte-americanos e sul-africanos. Nessa época, Che Guevara viajou para o Congo em uma missão militar fracassada para ajudar o exército de Mulele.

Mobutu  colocou a máscara do anticomunismo, ao declarar o Estado unipartidário, repressivo e governar, com o consentimento dos Estados Unidos e dos governos ocidentais, pelos próximos trinta e poucos anos.

Em fevereiro de 2002, o governo da Bélgica expressou “seus profundos e sinceros arrependimentos e suas desculpas” pelo assassinato de Lumumba, reconhecendo que “alguns membros do governo e alguns atores belgas na época têm uma parte inegável de responsabilidade pelos acontecimentos.”

Uma comissão governamental também ouviu testemunhos de que “o assassinato não poderia ter sido realizado sem a cumplicidade de oficiais belgas apoiados pela CIA, e concluiu que a Bélgica tinha uma responsabilidade moral pelo assassinato”.

Hoje, Lumumba possui uma tremenda força semiótica: ele é um avatar das redes sociais, um meme no Twitter e uma fonte de citações inspiradoras – um herói perfeito como Biko. Ele está até livre do tipo de críticas reservadas a figuras como Fidel Castro ou Thomas Sankara, que enfrentaram algumas das contradições inerentes de seus próprios regimes por meio de “métodos antidemocráticos”.

Nesse sentido, Lumumba polariza os debates sobre estratégia política: muitas vezes, ele é criticado como sendo apenas um líder carismático ou um bom orador com visão estratégica bastante limitada.

Por exemplo, no livro muito elogiado do escritor belga de ficção histórica David van Reybrouck, Congo: An Epic History of a People, Lumumba é caracterizado como um mau estrategista, pouco estadista e mais interessado em rebelião e adulação do que em governança. Ele seria culpado por não priorizar os interesses dos ocidentais.

A denúncia de Lumumba ao rei belga em junho de 1960, por exemplo, só serviu para fortalecer seus inimigos, argumenta Van Reybrouck. Lumumba também foi criticado por seus críticos ocidentais por se voltar para a União Soviética depois que os Estados Unidos o haviam rejeitado.

Mas, como o escritor Adam Shatz argumentou: “Não está compreensível como… em seus dois meses e meio no cargo, Lumumba poderia ter lidado de maneira diferente com uma invasão, duas rebeliões secessionistas e uma campanha americana secreta para desestabilizar seu governo.”

 

Talvez ainda mais poderoso seja como Lumumba lidou com o tamanho do seu desafio. À medida que a decepção com os movimentos de libertação nacional na África (em particular, Argélia, Angola, Zimbábue, Moçambique e mais recentemente o Congresso Nacional Africano da África do Sul) se instala, e novos movimentos sociais (#OccupyNigeria, #WalktoWork em Uganda, o mais radical #FeesMustFall e lutas por terra, moradia e saúde na África do Sul) começam a tomar forma, referências e imagens de Patrice Lumumba servem como um chamado à ação.

 

“O Movimento Nacional Congolês de Lumumba foi o único partido que ofereceu uma visão nacional – em oposição a uma visão étnica – e meios de organizar os congoleses em torno de um ideal progressista.”

No Congo de Lumumba, cidadãos comuns estão atualmente lutando contra as tentativas do presidente Joseph Kabila de contornar a Constituição (seus dois mandatos expiraram em dezembro, mas ele se recusou a renunciar). Centenas foram mortos pela polícia e milhares foram presos. Kabila, que herdou a presidência de seu pai, que derrubou Mobutu, explora a fraqueza da oposição, especialmente o poder da etnia (por meio da política clientelista) para dividir os congoleses politicamente. Nisso, Kabila esteve apenas imitando os colonizadores belgas e Mobutu.

Aqui, o legado de Lumumba pode ser útil. O Movimento Nacional Congolês de Lumumba foi o único partido que ofereceu uma visão nacional – em oposição a uma visão étnica – e meios de organizar os congoleses em torno de um ideal progressista.

Mas a história de Lumumba não oferece apenas um convite para revisitar o potencial político de movimentos e correntes passados, mas também oportunidades para se abster de projetar demais em líderes como Lumumba, que tiveram uma vida política complicada e que não puderam confrontar a confusão da governança pós-colonial. Também significa tratar os líderes políticos como seres humanos. Para levar a sério o conselho do cientista político Adolph Reed Jr. sobre Malcolm X:

Ele era apenas como o resto de nós — uma pessoa comum carregada de conhecimento imperfeito, fraquezas humanas e imperativos conflitantes, mas ainda assim tentando dar sentido à sua história muito específica, tentando sem sucesso transcendê-la e lutando para direcioná-la de forma humana.

É talvez então que possamos começar a tornar real o desejo crítico de Patrice Lumumba, como autorreflexão, quando ele escreveu em uma carta da prisão para sua esposa em 1960:

O dia chegará quando a história falará. Mas não será a história que será ensinada em Bruxelas, Paris, Washington ou nas Nações Unidas. Será a história que será ensinada nos países que conquistaram a liberdade do colonialismo e de seus fantoches. África escreverá sua própria história e, tanto no norte quanto no sul, será uma história de glória e dignidade.

 

Sobre os autores

Sean Jacobs

é professor associado de assuntos internacionais na New School e editor-fundador da Africa is a Country.

 

FONTE:    https://jacobin.com.br/2024/01/patrice-lumumba-lutou-para-reescrever-a-historia-da-africa/

sexta-feira, 29 de dezembro de 2023

OCIDENTE DIMINUI E O ORIENTE CRESCE EM 2023

 

Para analistas, EUA encolheram na geopolítica global em 2023, enquanto Rússia e China se destacaram

28.12.2023   SPUTNIK  BRASIL

Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, especialistas destacam que o principal marco de 2023 no que diz respeito à geopolítica foi o declínio dos Estados Unidos e do Ocidente como um todo, e a ascensão do Sul Global, liderada por Rússia e China.

O ano de 2023 ficou marcado por um processo de mudança na geopolítica global, com antigas organizações internacionais sendo questionadas e pela ascensão de novos atores globais.

Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, especialistas explicam quais foram os grandes vencedores na geopolítica neste ano, e quem foram os perdedores, além de apontarem fatos que marcaram os últimos 12 meses.

 

Para Flávio Ricardo Vassoler, escritor, professor, youtuber, fundador da Universidade Virtual do Vassoler e doutor em Letras pela Universidade de São Paulo (USP), com pós-doutorado em Literatura Russa pela Northwestern University (EUA), o ano de 2023 foi marcado por um processo de reorganização de eixos, onde os EUA foram os maiores perdedores.

Segundo ele, a cadeia de eventos vivenciada hoje, com o conflito entre Rússia e Ucrânia, a ofensiva truculenta de Israel na Palestina e o aumento das tensões no mar do Sul da China, remete a um processo iniciado no ano de 2021, com a retirada das tropas norte-americanas do Afeganistão.

"Eu gostaria de retornar a 2021, porque aquela é uma sinalização importante de um início de colapso da dominação inequívoca dos EUA no mundo. Porque os EUA só saíram do Afeganistão porque o custo político-econômico da saída do Afeganistão não era mais passível de ser suportado", explica Vassoler.

Ele acrescenta que os EUA "se arrogam o papel de maior democracia do mundo", mas o país, na verdade, é sustentado por lobby privado, em especial o da indústria de armas.

"Eu só posso falar em democracia nos Estados Unidos se eu esquecer historicamente e socialmente o que é a democracia de fato. Os Estados Unidos são uma plutocracia dominada pelo complexo industrial, financeiro e militar", afirma o especialista.

 

Ele acrescenta que o fato de o lobby da indústria das armas não ter conseguido sustentar a permanência dos EUA no Afeganistão, que durou 20 anos, "é um sinal bem interpretado pelo eixo do Pacífico, por China e por Rússia, de que os Estados Unidos não têm mais sua estrutura de manutenção".

"Isso não significa que [os EUA] ainda não sejam a maior economia do mundo, mas não têm mais a fatia do bolo econômica, geoestratégica e geopolítica para manter essa dominação inequívoca."

Vassoler lembra um discurso do presidente russo, Vladimir Putin, feito em 2007, em Munique, Alemanha, na presença de altos mandatários da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), afirmando que a dominação unipolar e inequívoca dos Estados Unidos havia chegado ao fim. "Ele foi ironizado, satirizado, mas deu um aviso. Não à toa, um ano depois, [Putin] mandou tanques lá para a Geórgia."

O especialista destaca que a expansão da OTAN observada desde meados da década de 90, contradizendo aquilo que os Estados Unidos haviam prometido a Mikhail Gorbachev, provocou a reação da Rússia.

"O pessoal fala que o Gorbachev tinha que ter pedido uma assinatura dos EUA, que o James Baker prometeu, apalavrou que os EUA não se expandiriam para além da Alemanha Ocidental, [por meio da] OTAN. Gente, se os Estados Unidos tivessem assinado alguma coisa, eles respeitam alguma coisa? Não. Isso teria feito alguma diferença? Eles expandiram a OTAN e enfureceram a Rússia quando três ex-repúblicas soviéticas, os países bálticos, a Letônia, a Lituânia e a Estônia, em 2004, entraram para a OTAN", destaca Vassoler.

 

"A questão é a seguinte: existe essa contraposição. Os EUA veem a Rússia como adversário militar, mas o grande adversário dos Estados Unidos geoeconomicamente é a China. E essa aliança forjada entre Rússia e China […] é um fato para mudar o cenário geopolítico do mundo, tão importante quanto o que aconteceu no pós-Segunda Guerra", acrescenta.

 

Por que a China está se destacando?

 

Vassoler afirma que o fortalecimento geopolítico e econômico da China é tudo o que os EUA não desejam. Porém, esse cenário vem se consolidando, em grande parte pela aliança entre Moscou e Pequim.

"Dado esse inimigo comum para China e Rússia, os EUA, [Moscou e Pequim] se unem em uma aliança militar e econômica, e a China tem esse restabelecimento das rotas da seda. [...] A China vai patrocinando infraestrutura em vários países e os EUA não querem a expansão do fortalecimento econômico chinês com esses patrocínios — que, obviamente, depois, cobram seus preços com os empréstimos bancários e tudo mais —, porque está aumentando a fatia do bolo do PIB mundial que os chineses abocanham."

Ele lembra que a China, que na década de 1980 tinha o tamanho da economia brasileira, hoje já é vista se aproximando pelo retrovisor dos EUA.

"Já está começando a chegar àquele ponto cego do retrovisor que você não consegue mais ver quem está atrás de você, que já está te passando."

Vassoler afirma que a China hoje, assim como os EUA, possui as chamadas plataformas-Estado, "que são as grandes plataformas que fazem a mediação de todas as nossas transações hoje em dia".

"Só a China e os EUA têm essas plataformas. Eu posso falar, por exemplo, do Alibaba, da Huawei e aí, obviamente, as que a gente mais conhece aqui no Ocidente, o Facebook, o Instagram e o próprio YouTube [plataformas proibidas na Rússia por extremismo]."

 

Ele argumenta que, atualmente, "a China tem um potencial de ciberguerra com essas plataformas, com uma compilação de grandes dados, que faz frente aos Estados Unidos".

Segundo o especialista, todos esses fatores apontam uma mudança no eixo geopolítico global, que contou também com a resiliência econômica da Rússia após as sanções impostas pelos EUA e pela Europa no contexto do conflito ucraniano, recebida com surpresa pelo Ocidente.

 

"A Rússia se voltou cada vez mais para o eixo do Oriente Médio, da Índia, do Paquistão e da China, sobretudo. A economia russa não colapsou. Existem declarações de altos mandatários das Forças Armadas e da inteligência ucraniana dizendo: 'Olha, a contraofensiva já era, essa forma de recrutamento aqui está colapsando e a Ucrânia já não tem tropas'. Então, é uma admissão de que a Ucrânia não vai ter condições de tocar essa guerra adiante."

Nesse contexto, Vassoler acrescenta que "os EUA roubaram o gás da Rússia". "Eles tomaram o mercado de gás e fornecem gás, o liquefeito, 30% mais caro para a União Europeia."

 

Declínio do Ocidente como espaço de influência global

 

Analúcia Danilevicz Pereira, especialista em relações internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), afirma considerar que os principais eventos de 2023 refletem processos de mudanças importantes iniciadas há 30 anos, a partir do final da Guerra Fria.

"Mas eu acho que o que nós temos, assim, de mais marcante em termos mais amplos é uma espécie de declínio do Ocidente como um espaço de poder e de influência global. Nós tivemos inúmeros eventos que vão revelando essa nova realidade internacional."

Pereira destaca, em especial, os eventos observados em países do continente africano.

"Nós observamos mudanças muito importantes no comportamento político, no posicionamento desses países, no padrão de realinhamento internacional que esses países vêm assumindo e que nos mostram justamente a importância de países que vêm assumindo uma condição, vamos dizer assim, de referência para um enorme espaço mundial que outrora chamávamos de terceiro mundo", explica a especialista.

"Me refiro ao comportamento internacional da Rússia, ao papel que a China vem desempenhando também, estabelecendo uma série de conexões econômico-comerciais e político-diplomáticas que vão oportunizando condições novas para Estados mais frágeis ou com menos capacidade estatal. Enfim, que conseguem, agora, se libertar das amarras neocoloniais de exploração dos seus recursos, das suas capacidades."

 

Ela acrescenta que a Índia também vem se projetando como país importante, o que, segundo ela, sinaliza claramente a importância do BRICS nessa nova configuração internacional que vem se constituindo.

Analúcia afirma que a China, nesse contexto, vem desempenhando um papel fundamental especialmente a partir de 2013, "com a reinauguração de uma via de conexão mundial que é a chamada Nova Rota da Seda".

"Para mim, esse é o foco e é o grande problema. Ou seja, a China vem conduzindo a reestruturação de um enorme espaço territorial, mas não só [isso]. Também tem as suas vias marítimas, vamos dizer assim, que interligam não só o espaço asiático, mas também o espaço asiático ao espaço africano, ao espaço europeu e também ao espaço americano."

A especialista argumenta que essa expansão de conexão da China, de Pequim à América do Sul, vem desempenhando um papel importante e decisivo "no sentido de uma reconfiguração internacional".

"E isso, evidentemente, vai produzindo uma série de conflitos, especialmente em relação ao antigo polo de poder internacional, que é o Ocidente."

 

A analista afirma que não pode deixar de citar também o papel da Rússia nessa nova configuração geopolítica global.

"Porque a Rússia acaba por fazer algo que os chineses não se dispõem a fazer. Esses conflitos a que eu me refiro, que são resultantes, no final das contas, de uma guerra econômica que vem acontecendo. Os russos têm se disposto também a apoiar esses países afro-asiáticos, no que diz respeito às questões securitárias", explica.

"Então, eu diria que são os dois grandes polos hoje que têm uma influência muito importante em 75% do planeta, se nós considerarmos que os outros 25% compõem esse chamado mundo ocidental", acrescenta.

Ela afirma que nesses dois polos, um "está em ascensão e com vitalidade, outro em declínio e, evidentemente, com deficiências muito grandes que se revelam numa estratégia um tanto quanto desencontrada".

"Porque os Estados Unidos e as instituições internacionais ocidentais, que evidentemente existem para gerenciar essas tentativas de estabelecimento de ordem internacional por parte do Ocidente, têm demonstrado que são agentes desestabilizadores, são produtores de instabilidade internacional. Ao passo que a China, e isso também é um movimento da Rússia, buscam produzir estabilidade internacional", destaca.

 

BRICS seria um contrapeso à dominância global do Ocidente?

 

A expansão do BRICS e sua ascensão em defesa dos interesses do Sul Global também foi um assunto bastante comentado em 2023.

Questionada se o grupo conseguiu se consolidar como um contrapeso ao Ocidente, Analúcia diz considerar que esse não é o objetivo do BRICS.

"Acho que o BRICS não se constitui como um bloco. Eu acho que nós temos ali uma agremiação, por assim dizer, de países que têm interesses em comum, especialmente no que diz respeito a essa grande questão, ou seja, a necessidade de relações. E aí eu vou partir sobre o ponto de vista econômico de uma nova ordem econômica que diminua os níveis de desigualdade internacional."

Ela acrescenta que, ainda em 2023, o mundo precisa lidar com questões relacionadas ao colonialismo, ocupação territorial e neocolonialismo.

"Ações políticas extremamente nocivas à capacidade de desenvolvimento de Estados e sociedades. Os conflitos, eles não são obra de outra coisa senão desses níveis de desigualdade que existem no mundo, dos níveis de oportunidade que os países têm. Então, eu acho que o BRICS se coloca como um agrupamento de países que pautam coletivamente temas que são de interesse coletivo."

Ela diz que a tendência para os próximos anos é que o BRICS cresça ainda mais, contribuindo para o fortalecimento regional em diferentes continentes.

"Que ele vá comportando outros países que tenham justamente uma posição e uma visão convergente que possam ter algum nível de influência sobre as suas regiões."

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FONTE:   https://sputniknewsbr.com.br/20231228/para-analistas-eua-encolheram-na-geopolitica-global-em-2023-enquanto-russia-e-china-se-destacaram-32259010.html