Prêmio Nobel e o Complexo de Vira-latas
Ronaldo, o fenômeno, ex-craque da seleção, que estava com vergonha do
Brasil na Copa do Mundo, criticou mais o Brasil em sua conta na rede
social postando uma foto em que aparece um placar : “Alemanha 102 x 0
Brasil” em alusão aos prêmios Nobel recebidos pelo país. Na imagem ainda
exibe a pergunta: “E você acha que 7 x 1 foi goleada?”. Muitos
brasileiros, como Ronaldo, exibem seu complexo de vira-latas,
sentindo-se envergonhados por que o Brasil nunca ganhou um Prêmio Nobel.
E a postagem de Ronaldo não foi bem vista por seus seguidores. Diversos
deles criticaram o ex-jogador e também ironizaram suas declarações.
A
questão no entanto é mais profunda - na verdade é uma questão de
desenvolvimento econômico e social. Países mais desenvolvidos, basearam
seu próprio desenvolvimento econômico em pesquisas científicas. Estes
avanços científicos os colocaram na frente da corrida industrial. Os
países subdesenvolvidos sempre estiveram à margem desta corrida devido
ao comércio internacional que os impediam de avançar, colocando-os
sempre como fornecedores de matérias primas. Devido a este processo os
países do Primeiro Mundo receberam quase todos os prêmios Nobel,
restando muito pouco aos países do Terceiro Mundo. Enquanto os EUA
receberam 347 prêmios, o Reino Unido ganhou 120, a Alemanha 104, França
65, Suécia 30, Rússia 27, Suíça 26, Canadá 23, Áustria 22, Itália 20,
Japão 20, Austrália 13, Polônia 15, Dinamarca 14, China 9. A América
Latina recebeu 19 (Argentina 5, México 3, Chile 2, Colômbia/Costa
Rica/Peru/Venezuela 1), a África 16 e a Oceania 16.
Criado pelo milionário sueco Alfred Nobel
(1833-1896) para evitar que seu nome fosse lembrado somente pela
invenção da dinamite, desde 1901, a Academia de Ciências Sueca escolhe
seus preferidos, causando um rebuliço digno de final de Copa do Mundo. A
academia só não divulga como. O processo de escolha é secreto e recebe
indicações. Poucos sabem que o Brasil já esteve muito perto de ganhar o
Prêmio Nobel, por diversas vezes. Vamos enumerar os casos mais famosos:
1) Santos Dumont foi uma possibilidade, mas os irmãos Wright tinham a preferência dos países do Norte;
2) o brasileiro Cândido Rondon foi indicado por Albert Einstein;
3) Carlos Chagas
(1878-1934) chegou pertíssimo, foi indicado 4 vezes. A Real Academia
Sueca de Ciências procurou organismos científicos no Brasil, em busca de
mais dados sobre a personalidade e a obra do cientista. Aparentemente, o
prêmio estava reservado para Chagas, mas o instituto sueco recebeu a
informação que a doença era falsa. Curiosamente, a principal oposição à
indicação de Chagas não vinha da comissão do Nobel, mas de alguns de
seus compatriotas do Instituto de Patologia Experimental de Manguinhos
(hoje, Fundação Oswaldo Cruz) e da Academia Nacional de Medicina, ao
ponto de se negar a existência da doença e de se levantar dúvidas sobre a
seriedade do trabalho de Chagas. Essas desavenças chegaram aos ouvidos
da comissão do Nobel, que, por via das dúvidas, deixou o ano de 1921 sem
a premiação da área para a qual Chagas estava indicado;
4) O alagoano Jorge de Lima
(1893-1953) chegou perto,foi um talento reconhecido em 1947 por um
olheiro do Nobel. Impressionado com a obra do poeta, Artur Lunkvist
convenceu a academia a dar o Nobel de Literatura a ele no ano de 1958,
já que havia uma lista de autores para ganhar antes. Infelizmente, Jorge
morreu em 1953. E o Nobel só premia vivos;
5) O bioquímico carioca Maurício Rocha e Silva
(1910-1983) descobriu a bradicinina, substância importante para a
controle da pressão arterial, em pesquisa com o veneno da cobra
jararaca;
6) O bioquímico paulista Sérgio Henrique Ferreira
(1934-) continuou o trabalho de Rocha e Silva ajudando na criação de
drogas a partir da bradicinina. Fez parceria com o britânico John Vane,
que levou o Nobel de Medicina em 1982, sozinho;
7) Carlos Drummond de Andrade
(1902-1987) não queria saber do jogo. Quando, em 1967, seu tradutor
para o sueco pediu todas as suas traduções disponíveis, ele não quis
colaborar, disse que o merecedor era Jorge Amado;
8) O baiano Jorge Amado (1912-2001)
ofereceu perigo de gol até os últimos minutos do segundo tempo. Mas
acabou partindo antes que o prêmio chegasse. O momento em que esteve
mais próximo do Nobel de Literatura foi em 1967, logo após o sucesso de
Dona Flor e seus Dois Maridos. Nesse ano, perdeu para o guatemalteco
Miguel Angel Astúrias;
9) Celso Furtado (1920-2004)
paraibense, também chegou a ser cogitado, mas parece que a cartolagem
preferia economistas matemáticos. Grande economista de fama mundial,
representante do “estruturalismo”, o seu estudo mais importante trata-se
do desenvolvimento econômico e seus problemas. Este prêmio foi
atribuído em 1998 ao economista bengali Omortia Sem;
10) O mais espantoso é que um brasileiro nato já ganhou um prêmio Nobel. Peter Brian Medawar,
Prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia em 1960, era brasileiro, nascido
no hospital Santa Tereza, em Petrópolis, onde viveu até os 14 anos de
idade antes de mudar para a Inglaterra e se naturalizar. Com justiça, os
britânicos o arrolam como um Nobel inglês. Entusiasta da pesquisa
científica, nos anos trinta queria continuar a investigar sem renunciar à
sua nacionalidade brasileira. Para isto solicitou do governo brasileiro
que o isentasse de fazer o serviço militar obrigatório. O governo
recusou-lhe tal isenção, assinando o escrito de recusa o ministro
Salgado Filho. E este grande investigador, que trabalhara com Fleming,
de pai libanês, brasileiro de nascimento e com estudos primários e
secundários no Brasil, a quem se deve a importantíssima teoria da
“Tolerância Imunológica Adquirida”, vital para que hoje possamos, por
exemplo, fazer transplantes de órgãos, não teve outro remédio, para
poder continuar a pesquisar, senão solicitar a nacionalidade britânica;
11) Cesar Lattes
(1924-2005) foi injustiçado em 1950 por não ter ganho o prêmio de
Física. O brasileiro comprovou experimentalmente a existência da
partícula subatômica méson pi e quem levou o prêmio foi o britânico
Cecil Powell, que ajudou na redação do estudo.César Lattes tinha apenas
22 anos quando publicou, em 1947, na revista Nature, a descoberta do
méson pi. O artigo era assinado por Lattes, Occhialini (Giuseppe
Occhialini, físico italiano) e Powell (Ceci Powell, chefe da equipe de
pesquisadores da Universidade de Bristol, Inglaterra). Powell recebeu o
prêmio e sua equipe nem foi citada. Powell trabalhava para Lattes que
liderava e desenvolvia a pesquisa. Lattes disse: "Eu fiz a
experimentação e as medidas. Ele apenas ajudou a redigir, porque possuía
maior domínio da língua inglesa.”. Contudo, em 1949, o japonês que
propôs a partícula ganhou o Nobel, e em 1950 Cecil Powell que trabalhava
para Lattes ganhou o Nobel pela pesquisa liderada e desenvolvida por
Lattes. Até hoje isso contínua sendo um grande mistério para a
comunidade científica. Um dos prêmios mais injustos até hoje;
12) Dom Hélder Câmara -
foi autor de um dos maiores programas sociais do Nordeste nas décadas
de 1960 e 1970, o Operação Esperança. Em 1970, reuniu mais de 20 mil
pessoas em Paris para denunciar torturas no Brasil. Por suas obras, foi
indicado ao Nobel da Paz de 1970 a 1973. Era favorito absoluto nas
quatro vezes, mas nunca ganhou por causa de pressões do governo
brasileiro na época. Dizem que o próprio Médici instruiu os embaixadores
brasileiros na Suécia e na Noruega que impedissem o prêmio para o
"bispo comunista". O que muitos desconfiavam foi confirmado no livro
Dom Hélder Câmara - Entre o Poder e a Profecia, de Nélson Pilitti e
Wálter Praxedes. Os autores revelam que uma campanha afastou, entre os
anos 70 a 73, o arcebispo do Nobel da Paz. Estão no livro documentos
provando que o Governo Garrastazu Médici (1969-74) moveu, por meio da
embaixada brasileira em Oslo (Noruega), uma campanha secreta contra a
eleição do arcebispo. "Nunca soube do fato", garantiu dom Hélder, quando
o livro foi lançado. Os autores mostram trechos de telegramas enviados
ao Ministério das Relações Exteriores pelo embaixador do Brasil na
Noruega, Jaime de Souza Gomes, em que ele presta contas de sua ação pelo
discreto esvaziamento da candidatura de dom Hélder ao prêmio;
13) O químico Otto Gottlieb
(1920-2011) foi proposto nos anos 1998,1999 e 2000 para receber este
prêmio. Tinha elaborado um interessante índice para medir a
biodiversidade dos ecossistemas da Floresta Amazônica e da Mata
Atlântica. Escreveu mais de 700 artigos científicos e foi um
investigador de verdadeira categoria ;
14) Miguel Nicolelis,
neurocientista brasileiro, o único brasileiro hoje em dia em condições
de ganhar o Nobel, tem 52 anos, é médico com doutorado pela
Universidade de São Paulo, pós-doutorado no Hospital Universitário
Hahnemann (EUA) e há duas décadas é professor na Universidade Duke
(EUA), onde lidera um grupo de pesquisadores da área de
neurociência....primeiro cientista brasileiro a ser capa da Science. Já
realizou duas palestras na Fundação Nobel de Estocolmo, em 2007 e 2011.
Já ganhou 38 prêmios internacionais por suas pesquisas, três deles, em
2010, do NIH - Instituto Nacional de Saúde dos EUA. Seu experimento, o
exoesqueleto foi boicotado pela FIFA, na abertura da Copa do Mundo de
2014 (lhe deram apenas 3 segundos) e pela mídia brasileira (Reinaldo
Azevedo e Diogo Mainardi da revista VEJA). A Rede Globo cortou a
transmissão para mostrar o ônibus da Copa, e acabou não dando destaque
ao exoesqueleto. Diogo Mainardi, ex-colunista da Veja, resolveu se
aventurar no universo da ciência e criticou o Projeto Andar de Novo
liderado pelo neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis. “Exatamente
como Santos Dumont, Nicolelis inventou o que já havia sido inventado”,
provocou Mainardi no Twitter. Nicolelis respondeu. “Pena que não. Nenhum
paciente havia usado pensamento para controlar um exoesqueleto que
devolve feedback tátil para o usuário. Talvez em Veneza não tenha
chegado a notícia, mas Santos Dumont inventou o voo controlado, sem o
qual o avião não seria possível. Portanto, procure se informar, estudar
um pouco mais, durante seus passeios de gôndola. Ciência não é o seu
forte”, concluiu o cientista.
Enquanto Miguel Nicolelis é
achincalhado por Veja e seus leitores, as principais publicações
científicas do mundo exaltam o seu trabalho. É que nas cabeças
brilhantes dos nossos cientistas de ocasião, o sucesso do exoesqueleto
seria contabilizado como uma vitória de Lula e Dilma, e não do Brasil,
dos brasileiros e da comunidade científica mundial. Assim como o governo
americano, o Brasil fez alto investimento no projeto: R$33 milhões. Não
fez mais do que a obrigação. Mesmo assim, oposicionistas desejam minar
qualquer possível ganho político que o governo venha a ter com o sucesso
do projeto. Mesmo que para isso seja necessário vandalizar essa
importante contribuição do país para a humanidade. É o famoso
viralatismo brasileiro, misturado com campanha política em ano de
eleição.
Mas nada disso mostrou-se suficiente para evitar que
Nicolelis fosse alvo dos ataques dos calunistas de plantão, que o
acusaram de midiático, perdulário com o dinheiro público, farsante e de
criar algo que pode ter futuro uso militar - claro, como a pólvora, o
avião, os alimentos enlatados, o satélite, o computador, o telefone
celular.
Paulo H. Amorim disse que a mídia resolveu desqualificar um
dos "maiores cientistas brasileiros vivos" por ter visto nele um "amigo
de Lula".
Pois é, Nicolelis não é o primeiro a ser ignorado
no Brasil. Ah, mas quando os americanos fizeram um homem voar na
abertura das Olímpiadas aí sim todo mundo achou o máximo.
Parece que o complexo de vira-latas, que atingiu muita gente no Brasil, nos impede de dar valor à ciência nacional.
Outros brasileiros também mereceriam o prêmio.
O mais extraordinário escritor do Brasil em toda a história foi Joaquim
Mª Machado de Assis (1839-1908), poderia ter sido agraciado com o
prêmio já que morreu em 1908 e o prêmio começou a ser distribuído em
1901; Cecília Meireles (1901-1964): esta grande poeta e educadora nunca
foi proposta para o Nobel. Mesmo no Brasil, de forma injusta e
incompreensível, foi só reconhecida postumamente, recebendo os prêmios
mais importantes uma vez falecida; João Guimarães Rosa (1908-1967)
;Graciliano Ramos (1892-1953); Ariano Suassuna ; Érico Veríssimo
(1905-1975), José Lins do Rego (1901-1957), João Cabral de Melo Neto
(1920-1999), etc...
Dom Paulo Evaristo Arns (1921-) foi um dos
defensores da camisa canarinho na disputa pelo Nobel da Paz. Ele
concorreu em1990, mas teve que encarar o megacraque Dalai Lama, que
ficou com o título. Zilda Arns, o sociólogo Betinho e até o presidente
Lula também deram a sua contribuição para emplacar na categoria. Imagina
o Lula candidato ? Choveria dezenas de cartas e protestos da direita
brasileira endereçada ao comitê sueco do Prêmio Nobel.
O prêmio
Nobel é tão excêntrico e político como o próprio Nobel. O prêmio Nobel,
como todos sabem, sempre teve um caráter político e geo-político muito
forte. O filósofo francês Jean Paul Sartre, ganhador do Nobel de
Literatura de 1964, simplesmente recusou o prêmio – não queria que o
reconhecimento institucional influenciasse sua obra. A meritocracia
nunca foi o tema mais importante para o prêmio. Einsten não ganhou pela
teoria da relatividade e sim por uma pesquisa muito menos significativa.
Isso pelo medo da teoria da relatividade ser falha.Por pressão do
regime nazista, Einstein teve o prêmio negado mesmo sendo indicado por
anos seguidos. Apenas em 1921 ele recebeu o Nobel de Física pelos
estudos sobre o efeito fotoelétrico.
Ghandi nunca ganhou o prêmio
Nobel da paz, contudo Kissinger (envolvido na guerra do Vietnã e na
queda do regime democrático do Chile em 1973) já levou o prêmio para os
EUA. Entre 1937 e 1948, Gandhi recebeu 12 indicações à láurea apesar de
ter se formado em Direito em Oxford, na Inglaterra, ele não era europeu,
nem americano, nem um político de carreira, nem pertencia a alguma
organização oficial. O escritor soviético Boris Pasternak (autor de
Doutor Jivago) escolhido para o Nobel de Literatura em 1958 (aquele que
estava prometido para o brasileiro Jorge de Lima), foi um dos que
tiveram que declinar, por pressão do governo de Moscou, que acusava a
fundação Nobel de sempre favorecer os países capitalistas.
Ozires Silva (Reitor da Unimonte, de Santos; foi ministro da
Infraestrutura e presidiu empresas como Embraer, Varig e Petrobras)
responde a pergunta: porque o Brasil nunca ganhou um Prêmio Nobel? Em
1994 quando participava de uma reunião na Real Academia Sueca de
Engenharia fez a pergunta a um colega sueco e ele respondeu: "Vocês,
brasileiros, são destruidores de heróis". E acrescentou que brasileiros
indicados devem ter sido retirados das listas de candidatos, muito
possivelmente, por cartas e manifestações, duras e ácidas, produzidas
por outros brasileiros. Ao contrário dos Estados Unidos, onde, disse
ele, há um aplauso generalizado aos candidatos ao Nobel, no Brasil, as
pessoas usualmente se sentem constrangidas quanto a produzir elogios,
mas são extremamente desenvoltas quanto a fazer críticas. Como vimos
pela lista dos possíveis ganhadores do prêmio vários candidatos
brasileiros foram caluniados e desconstruídos pelos próprios brasileiros
na indicação do Nobel - como é o caso de Carlos Chagas e D. Hélder
Câmara; fora os outros que não sabemos (Miguel Nicolelis e Lula ?). Mas
também houve casos que poderíamos ter ganho o prêmio mas a política de
premiação e/ou preconceito ou discriminação impediram (César Lattes,
Sérgio Henrique). E outros casos que não tivemos sorte (Jorge de Lima,
morreu antes de receber o prêmio) ou descaso do governo (Peter Brian
Medawar).
"Darcy Ribeiro costumava dizer que temos as elites
mais reacionárias do mundo e aquelas que mais internalizaram dentro de
si o processo de colonização que implica submeter-se ao senhor
estrangeiro, considerar-se sempre dependentes dele, e para manter
vantagens como sócios subalternos e agregados, nunca se oporem a ele",
analisa o teólogo, filósofo e escritor Leonardo Boff. Ele identifica que
esta estratégia ainda está em vigor na mente das elites políticas
brasileiras, que sempre se alinharam ao poder do momento. Primeiro a
Inglaterra, agora os EUA.
No dia 17 de dezembro de 2010,
durante uma aula de abertura da Universidade Aberta do Brasil em
Moçambique, o Presidente Lula defendeu a necessidade de integração entre
os países do Hemisfério Sul, para que deixem de ser submissos aos do
Norte ou que se sintam inferiorizados: "Como tivemos nossa cabeça
colonizada durante séculos, aprendemos que somos seres inferiores e que
qualquer um que enrola a língua é melhor do que nós. O que queremos
agora é levantar a cabeça juntos e construir juntos um futuro em que o
Sul não seja mais fraco do que o Norte, em que o Sul não seja dependente
do Norte. Se nós acreditarmos em nós mesmos, podemos ser tão
importantes quanto eles, tão sabidos quanto eles", afirmou.... ( in :
http://www.webartigos.com/artigos/porque-o-brasil-nunca-ganhou-um-premio-nobel/55611/).
Daniel Miranda Soares é economista e EPPGG aposentado. Mestre pela UFV e ex-professor.
segunda-feira, 21 de julho de 2014
quarta-feira, 25 de junho de 2014
A crise neoliberal representa um retrocesso social
A
crise neoliberal é a crise do capitalismo financeiro
François Chesnais,
economista e professor da Universidade de Paris, em seu livro mais
recente “A Finança Mundializada” (Boitempo Editorial) distingue
dois tipos mais destacados de empresas capitalistas: os grandes
grupos industriais transnacionais (ou multinacionais)
e ao seu lado menos visíveis e menos analisadas estão as
instituições financeiras. Este último
capital, também chamado por ele de “capital
portador de juros” busca “fazer dinheiro” sem sair da
esfera financeira, sob a forma de juros de empréstimos, dividendos e
outros pagamentos recebidos a título de posse de ações. Os
investidores institucionais atuam com fundos de pensão, fundos
coletivos de aplicação, sociedades de seguros, bancos que
administram sociedades de investimento, bônus do Tesouro e outras
formas de títulos da dívida pública, obrigações das empresas e
ações. Buscaram suas bases na centralização dos lucros não
reinvestidos das empresas e das rendas não consumidas das famílias
(especialmente os planos de previdência privada e a poupança
salarial) formando um trampolim de uma acumulação financeira de
grandes dimensões. Foi necessário que os Estados mais poderosos
decidissem liberar o movimento dos capitais e desregulamentar e
desbloquear seus sistemas financeiros a partir de 1979-81, dando
início ao sistema de finança mundializada e interconectada
internacionalmente. Os investidores institucionais foram os primeiros
beneficiários da desregulamentação monetária e financeira e ao
longo dos anos 80, eles tiram dos bancos o
primeiro lugar como pólo da centralização financeira. O
mercado de câmbio com taxas flexíveis e o colapso do sistema de
Bretton Woods foi o primeiro a entrar na mundialização financeira,
junto com a abertura externa e interna dos sistemas nacionais (o
livre comércio internacional) antes fechados e compartimentados,
conduziram à emergência de um espaço financeiro mundial.
As consequências
mais dramáticas desta liberalização foi a crise
da dívida externa do Terceiro Mundo. Estes países pegaram
muito dinheiro emprestado a juros baixos nos anos 70 (Brasil pra
financiar grandes projetos) e aí veio o golpe de 1979 quando as
taxas explodiram, multiplicando por 3 e até por 4 os juros a serem
pagos por estes países. A crise foi dramática e o FMI e Banco
Mundial (por imposição americana) impôs ajustes estruturais (para
garantir o pagamento da dívida) provocando crises econômicas e
sociais, privatização de estatais, bancos e até de serviços
públicos na AL (água, gás, telefone, eletricidade) e
desindustrialização, aumentando a dominação da periferia pelo
centro. O Brasil recorreu ao FMI e sua dívida cresceu como uma bola
de neve, quanto mais pagava mais devia – houve queda do PIB e até
quedas das taxas sociais de desenvolvimento (como aumento do índice
de mortalidade infantil devido ao enxugamento de recursos pelo Estado
para pagar os juros). A violência da crise financeira na América
Latina ocorreu na proporção da desindustrialização, do desemprego
e da pobreza provocada pela abertura ultraliberal. Mas em termos de
valores absolutos de transferências financeiras, a dívida pública
decisiva não foi a do Terceiro Mundo, mas a dos países mais
avançados : EUA e Europa. Investidores financeiros estrangeiros
financiaram déficits orçamentários dos grandes países
industrializados pela aplicação de bônus do Tesouro e outros
compromissos da dívida sobre o mercado financeiro.
Mas o mais
importante da análise de François Chesnais
é que ele aprofunda a análise sobre como o capital financeiro
passa a dominar o sistema econômico como um todo e a partir daí o
declínio econômico resultante desta supremacia financeira e as
consequentes crises neoliberais, até hoje acontecendo. A partir dos
anos 80 o capital financeiro transforma o sistema, inclusive
juridicamente, despendendo energias consideráveis para subordinar os
administradores industriais aos interesses do mercado bursátil,
transformando seus agentes, interiorizando valores e códigos de
conduta. O administrador financeiro passa a ser sujeito em vez de
objeto em relação ao administrador industrial. As prioridades se
invertem, juros dominam lucros e os grupos são dirigidos por pessoas
para as quais a tendência da Bolsa passa a ser mais importante e os
valores da finança triunfam. Os assalariados
foram as principais vítimas da chegada dos proprietários
acionistas. É contra eles que se exerce o novo poder
administrativo. A flexibilização do emprego e o recurso sistemático
ao trabalho barato e pouco protegido dominam o ambiente por meio da
deslocalização e da subcontratação internacional. Ou seja os
empregos se deslocam para o Terceiro Mundo onde o trabalho é
precarizado e pouco protegido e os salários muito mais baixos,
devido à ausência de regulamentação do trabalho. As
filiais no exterior e as redes de subcontratação sustentam os
lucros e os valores acionários. E criam nos países de origem
dos grupos as condições de forte pressão para impor “reformas”
que organizam o retrocesso social.
A fuga de cérebros para os EUA também é resultado desse processo
na área de P&D.
As
promessas neoliberais em matéria de crescimento econômico, de
emprego e de bem estar social resultaram em desastre completo, apesar
do apoio da imprensa (quase totalidade
da grande mídia reza na cartilha neoliberal)
dizendo que a economia “está cada vez melhor”. Segundo o
autor se se usa o indicador de taxa de crescimento per capita do PIB
(indicador de produção e riqueza) constata-se que: a) uma taxa de
4% no período 1960/1973; b) 2,4% entre 1973/1980; e c) e uma queda
para 1,2% entre 1980/1993, não aumentando depois disso. Já o PIB
mundial não superou 2% ao longo da década de 1990, enquanto que foi
de 7% no período keynesiano 1963/1973, caindo para 3% entre
1973/1990. Outro indicador importante é a taxa de crescimento do
produto industrial: nos países da OCDE, ela passou de 6% no início
dos anos 60 para 2% ao longo dos anos 90. O
crescimento econômico cai devido à queda no nível dos
investimentos e estes caem porque uma parte cada vez maior dos lucros
está sendo direcionada ao capital financeiro e não sendo
reinvestida na produção e também uma parte cada vez menor
direcionada aos salários. Como
resultado deste processo : a taxa de
crescimento é lenta e o desemprego aumenta, junto
com as desigualdades sociais.
Um relatório
recente da OCDE (2014) —
sugestivamente intitulado “Divididos estamos:
porque aumenta a desigualdade”, indica que “a renda média
de 10% das pessoas mais ricas representa nove vezes a renda dos 10%
mais pobres” nos países (ricos, em sua maioria) que integram esta
organização. A distância aumenta em dez para um na Grã-Bretanha,
Itália e Coreia do Sul; chega a quatorze para um em Israel, Estados
Unidos e Turquia, diz o informe. O Relatório
reconhece que houve aumento da desigualdade
entre seus membros - ”O
número de famílias sem renda de trabalho dobrou em Grécia, Irlanda
e Espanha; e subiu 20% ou mais em Estônia, Itália, Letônia,
Portugal, Eslovênia, Estados Unidos, Inglaterra e País de Gales.”
Nos últimos 30
anos, mostra o estudo, as reformas tributárias em todas as nações
da OCDE cortaram de forma substancial os impostos cobrado aos mais
ricos. A média de taxação caiu de 66%, em 1981, para 43%, em 2013.
E as taxas cobradas de dividendos sobre lucros recuaram de 75%
para 42%. É o capital financeiro dominando ideologias e valores,
formando o pensamento único (vide Consenso de Washington) e
conquistando a superestrutura política , nos meios políticos dos
EUA e Europa. O pensamento único decreta o fim da política e dos
partidos, não existe mais “esquerda e direita”. Na verdade o
pensamento único consegue transformar os partidos de esquerda em
partidos neoliberais, não havendo muitas diferenciações hoje entre
democratas e republicanos (nos EUA) e nos partidos de esquerda e de
direita na Europa.
Os dados sobre os
Estados Unidos mostram que “a renda por família, após o pagamento
de impostos, mais do que dobrou entre 1979 e 2007, entre o 1% mais
rico. Na fatia dos 20% mais pobres, caiu de 7% para 5% no mesmo
período. Um quarto de todos os lares da Inglaterra e País de Gales,
cerca de 20 milhões de pessoas, vivem em estado de pobreza
atualmente, um sólido legado de sucessivos governos neoliberais,
desde Thatcher, passando por Blair ... Pesquisas indicam que em pleno
inverno, um número crescente de famílias inglesas vive o pior
quadro de aperto financeiro desde a II Grande Guerra.
Robert Reich,
ex-secretário do Trabalho do Governo Clinton, filmou um documentário
mostrando o agravamento das desigualdades nos EUA, com o título
Inequality for All (Desigualdade para
Todos). Em 1978, o salário médio atingia US$ 48 mil,
enquanto hoje despencou para US$ 34 mil com condições de poder
aquisitivo equivalentes.....Já ao contrário, o rendimento médio
para cada família que compõe o 1% da parcela mais rica da população
norte-americana, de US$ 393 mil, em 1978, passou para US$ 1,1 milhão.
A ditadura
dos “mercados financeiros” sobre todo o processo de acumulação
de capital revela o caráter insaciável do apetite dos acionistas
administradores e das sociedades especializadas da indústria
financeira e que se encontra na base dos escândalos financeiros
desde então : da Enron até o Lehmann Brothers na crise atual, a
partir de 2008; tendo estas sociedades impelidas a assumir mais
riscos e comportamentos de altos riscos.
Americanos de classe
média foram ativamente incentivados a se endividar continuamente
(devido à perda de poder aquisitivo nas últimas décadas),
oferecendo suas casas em garantia, ou a canibalizar seus fundos de
aposentadoria, confiando em que os preços dos imóveis e as bolsas
de valores desafiariam permanentemente a lei gravidade - um
grande número de famílias operárias, endividada e sem renda,
entraram na fila dos despejos e amargaram a perda de suas
residências.....As coisas pioraram
com a recessão iniciada no final de 2007, que destruiu cerca de 9
milhões de empregos, degradou um pouco mais as condições de
trabalho e rebaixou salários (menos de um décimo dos
trabalhadores do setor privado americano pertence a um sindicato).
A
indústria agora representa somente 12% dos postos de trabalho nos
EUA e
boa parte dela se transfere para países do Terceiro Mundo.
Os
sindicatos perderam seu poder de barganha com a crise neoliberal,
contribuindo para a depreciação dos salários.
Em 2007, a taxa de
desemprego para a faixa etária
de 20 a 29 anos foi de cerca de 6,5%. Hoje (2012), a taxa de
desemprego para esse mesmo grupo de idade é de cerca de 13%
(Michael, no The Economic Collapse). Desde o ano de 2000, os
rendimentos dos lares americanos
liderados por pessoas entre as idades de 25 e 34 anos caíram em
cerca de 12% depois de descontada a inflação. A renda
familiar média para as famílias com filhos caiu bastante,
em
cerca
de US$
6.300 entre 2001 e 2011. Mais de uma em cada cinco crianças nos
Estados Unidos está atualmente vivendo na pobreza.
Cerca de 48,7 milhões de norte-americanos vivem hoje na pobreza,
constituindo-se na taxa mais elevada dos últimos 17 anos: 15,1%..
De
acordo com o Departamento de Agricultura, em 2012, 46 milhões de
pessoas usufruíram de algum tipo de subsídio
alimentar mensal (os
chamados foodstamps),
crescimento espantoso se comparado aos 17 milhões contabilizados em
2001 e aos dois milhões em 1969.
As
tent-city (cidade-acampamento) é o correspondente às favelas
brasileiras, com os mesmos problemas, é resultado da precarização
das condições de vida e trabalho nos Estados Unidos e seu
surgimento se deu em várias partes do país, especialmente a partir
de 2005. Existe cerca de 30 cidades deste tipo nos EUA. Detroit
é uma delas – a cidade pediu falência
em 18 de julho de 2013 (para
se
proteger
contra credores). Detroit já foi a capital da indústria
automobilística americana – sede das Big
Three
– as “Três Grandes” : General Motors, Ford e Chrysler ; foram
atingidas pela crise atual. A crise diminuiu os consumidores de
automóveis e transferiu as indústrias para outros países. O
desemprego, a miséria e a fome é pior em Detroit que a média
americana : 36% da população vivem abaixo da linha de pobreza. É
uma cidade abandonada: possuia 2 milhões de habitantes nos anos 50,
hoje possui 700 mil. A
profunda e progressiva desindustrialização pela qual os Estados
Unidos passou a partir dos anos 1980 e seu caráter crônico depois
da crise financeira de 2007, atacou a cidade-automóvel em cheio.
Virou uma cidade-fantasma:
35%
do território do município está desabitado: prédios,
hotéis, delegacias de polícias, igrejas, bibliotecas e teatros
completamente vazios e destruídos - cerca de 40% da iluminação
pública não funciona, mais de metade dos parques da cidade fecharam
e apenas um terço das ambulâncias estão operacionais.
O
capital portador de juros,
especulativo e predador, domina o mercado econômico mundial, gozando
de toda liberdade que conseguiu a partir das desregulamentações dos
sistemas financeiros nos anos 80 e é exatamente esse ambiente
neoliberal que lhe deu as condições necessárias para
adquirir
sua hegemonia internacional – condições essas que propiciaram e
detonaram as crises atuais, provocando as bolhas financeiras, os
ganhos espetaculares
de altos riscos e a supremacia sobre o capital produtivo. O
caso de algumas estatais brasileiras que foram privatizadas são
exemplos desses comportamentos – CEMIG, por exemplo, era uma
estatal até início dos anos 2000. Depois que entrou o governo
neoliberal em 2002, desde então está sendo privatizada. Hoje a
maioria das ações da estatal, cerca de 70% pertencem a acionistas
internacionais e as prioridades mudaram. A maior parte dos lucros são
transformados em dividendos pra remunerar seus acionistas e os níveis
de investimentos caíram. Pra pressionar o aumento dos lucros os
acionistas pressionam a direção da empresa para reajustar os preços
acima da inflação, transformando a energia desta empresa numa das
mais caras do país. A
prioridade deixa de ser o usuário e passa a ser o acionista.
O
jornalista James Shaft observou no NYT que, “ao
que tudo indica, as empresas estão muito mais dispostas a acumularem
papel-moeda ou utilizá-lo para compra de ações do que promoverem a
criação de nova dinâmica produtiva”.
Enquanto, na década de 1970, as improdutivas imobilizações de
capital constituíam, em média, cerca de 5% do ativo das empresas
norte-americanas, em 2010 este patamar passou a 60%. Apesar do fato
de disporem de grandes volumes de liquidez em suas caixas, as
grandes empresas não investem.
Quando
a fortuna dos mais ricos não é aumentada graças às atividades
produtivas, mas apoderando-se de cada vez maior percentual do valor
agregado, então o crescimento
econômico desacelera.
Existe,
portanto, uma economia que recusa-se a recuperar-se, apesar de todos
os generosos fluxos de papel-moeda. O problema é conhecidíssimo:
trata-se
da “armadilha
de liquidez”,
descrita por Keynes
na década de 1930. Para ser enfrentada existe apenas uma única
solução: recorrer ao uso da segunda ferramenta da política
econômica, o gasto fiscal....
Daniel
Miranda Soares é economista e EPPGG aposentado, Mestre pela UFV e
ex-professor de Economia.
quinta-feira, 29 de maio de 2014
POR QUE O BRASIL É O PAÍS DAS OPORTUNIDADES
ARTIGO DE LULA: POR QUE O BRASIL É O PAÍS DAS OPORTUNIDADES
Por Luiz Inácio Lula da Silva
Passados cinco anos do início da crise
global, o mundo ainda enfrenta suas consequências, mas já se prepara
para um novo ciclo de crescimento. As atenções estão voltadas para
mercados emergentes como o Brasil. Nosso modelo de desenvolvimento com
inclusão social atraiu e continua atraindo investidores de toda parte. É
hora de mostrar as grandes oportunidades que o país oferece, num quadro
de estabilidade que poucos podem apresentar.
Nos últimos 11 anos, o Brasil deu um
grande salto econômico e social. O PIB em dólares cresceu 4,4 vezes e
supera US$ 2,2 trilhões. O comércio externo passou de US$ 108 bilhões
para US$ 480 bilhões ao ano. O país tornou-se um dos cinco maiores
destinos de investimento externo direto. Hoje somos grandes produtores
de automóveis, máquinas agrícolas, celulose, alumínio, aviões; líderes
mundiais em carnes, soja, café, açúcar, laranja e etanol.
Reduzimos a inflação, de 12,5% em 2002
para 5,9%, e continuamos trabalhando para trazê-la ao centro da meta. Há
dez anos consecutivos a inflação está controlada nas margens
estabelecidas, num ambiente de crescimento da economia, do consumo e do
emprego. Reduzimos a dívida pública líquida praticamente à metade; de
60,4% do PIB para 33,8%. As despesas com pessoal, juros da dívida e
financiamento da previdência caíram em relação ao PIB.
Colocamos os mais pobres no centro das
políticas econômicas, dinamizando o mercado e reduzindo a desigualdade.
Criamos 21 milhões de empregos; 36 milhões de pessoas saíram da extrema
pobreza e 42 milhões alcançaram a classe média.
Quantos países conseguiram tanto, em tão pouco tempo, com democracia plena e instituições estáveis?
A novidade é que o Brasil deixou de ser
um país vulnerável e tornou-se um competidor global. E isso incomoda;
contraria interesses. Não é por outra razão que as contas do país e as
ações do governo tornaram-se objeto de avaliações cada vez mais
rigorosas e, em certos casos, claramente especulativas. Mas um país
robusto não se intimida com as críticas; aprende com elas.
A dívida pública bruta, por exemplo,
ganhou relevância nessas análises. Mas em quantos países a dívida bruta
se mantém estável em relação ao PIB, com perfil adequado de vencimentos,
como ocorre no Brasil? Desde 2008, o país fez superávit primário médio
anual de 2,58%, o melhor desempenho entre as grandes economias. E o
governo da presidenta Dilma Rousseff acaba de anunciar o esforço fiscal
necessário para manter a trajetória de redução da dívida em 2014.
Acumulamos US$ 376 bilhões em reservas:
dez vezes mais do que em 2002 e dez vezes maiores que a dívida de curto
prazo. Que outro grande país, além da China, tem reservas superiores a
18 meses de importações? Diferentemente do passado, hoje o Brasil pode
lidar com flutuações externas, ajustando o câmbio sem artifícios e sem
turbulência. Esse ajuste, que é necessário, contribui para fortalecer
nosso setor produtivo e vai melhorar o desempenho das contas externas.
O Brasil tem um sistema financeiro
sólido e expandiu a oferta de crédito com medidas prudenciais para
ampliar a segurança dos empréstimos e o universo de tomadores. Em 11
anos o crédito passou de R$ 380 bilhões para R$ 2,7 trilhões; ou seja,
de 24% para 56,5% do PIB. Quantos países fizeram expansão dessa ordem
reduzindo a inadimplência?
O investimento do setor público passou
de 2,6% do PIB para 4,4%. A taxa de investimento no país cresceu em
média 5,7% ao ano. Os depósitos em poupança crescem há 22 meses. É
preciso fazer mais: simplificar e desburocratizar a estrutura fiscal,
aumentar a competitividade da economia, continuar reduzindo aportes aos
bancos públicos, aprofundar a inclusão social que está na base do
crescimento. Mas não se pode duvidar de um país que fez tanto em apenas
11 anos.
Que país duplicou a safra e tornou-se
uma das economias agrícolas mais modernas e dinâmicas do mundo? Que país
duplicou sua produção de veículos? Que país reergueu do zero uma
indústria naval que emprega 78 mil pessoas e já é a terceira maior do
mundo?
Que país ampliou a capacidade instalada
de eletricidade de 80 mil para 126 mil MW, e constrói três das maiores
hidrelétricas do mundo? Levou eletricidade a 15 milhões de pessoas no
campo? Contratou a construção de 3 milhões de moradias populares e já
entregou a metade?
Qual o país no mundo, segundo a OCDE,
que mais aumentou o investimento em educação? Que triplicou o orçamento
federal do setor; ampliou e financiou o acesso ao ensino superior, com o
Prouni, o FIES e as cotas, e duplicou para 7 milhões as matrículas nas
universidades? Que levou 60 mil jovens a estudar nas melhores
universidades do mundo? Abrimos mais escolas técnicas em 11 anos do que
se fez em todo o Século XX. O Pronatec qualificou mais de 5 milhões de
trabalhadores. Destinamos 75% dos royalties do petróleo para a educação.
E que país é apontado pela ONU e outros organismos internacionais como exemplo de combate à desigualdade?
O Brasil e outros países poderiam ter
alcançado mais, não fossem os impactos da crise sobre o crédito, o
câmbio e o comércio global, que se mantém estagnado. A recuperação dos
Estados Unidos é uma excelente notícia, mas neste momento a economia
mundial reflete a retirada dos estímulos do Fed. E, mesmo nessa
conjuntura adversa, o Brasil está entre os oito países do G-20 que
tiveram crescimento do PIB maior que 2% em 2013.
O mais notável é que, desde 2008,
enquanto o mundo destruía 62 milhões de empregos, segundo a Organização
Internacional do Trabalho, o Brasil criava 10,5 milhões de empregos. O
desemprego é o menor da nossa história. Não vejo indicador mais robusto
da saúde de uma economia.
Que país atravessou a pior crise de todos os tempos promovendo o pleno emprego e aumentando a renda da população?
Cometemos erros, naturalmente, mas a boa
notícia é que os reconhecemos e trabalhamos para corrigi-los. O governo
ouviu, por exemplo, as críticas ao modelo de concessões e o tornou mais
equilibrado. Resultado: concedemos 4,2 mil quilômetros de rodovias com
deságio muito acima do esperado. Houve sucesso nos leilões de petróleo,
de seis aeroportos e de 2.100 quilômetros de linhas de transmissão de
energia.
O Brasil tem um programa de logística de
R$ 305 bilhões. A Petrobras investe US$ 236 bilhões para dobrar a
produção até 2020, o que vai nos colocar entre os seis maiores
produtores mundiais de petróleo. Quantos países oferecem oportunidades
como estas?
A classe média brasileira, que consumiu
R$ 1,17 trilhão em 2013, de acordo com a Serasa/Data Popular, continuará
crescendo. Quantos países têm mercado consumidor em expansão tão
vigorosa?
Recentemente estive com investidores
globais no Conselho das Américas, em Nova Iorque, para mostrar como o
Brasil se prepara para dar saltos ainda maiores na nova etapa da
economia global. Voltei convencido de que eles têm uma visão objetiva do
país e do nosso potencial, diferente de versões pessimistas. O povo
brasileiro está construindo uma nova era – uma era de oportunidades.
Quem continuar acreditando e investindo no Brasil vai ganhar ainda mais e
vai crescer junto com o nosso país.
Luiz Inácio Lula da Silva é ex-presidente da República e presidente de honra do PT
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ARTIGO DE LULA: POR
QUE O BRASIL É O PAÍS DAS OPORTUNIDADES
Por Luiz Inácio
Lula da Silva
Passados cinco anos
do início da crise global, o mundo ainda enfrenta suas
consequências, mas já se prepara para um novo ciclo de crescimento.
As atenções estão voltadas para mercados emergentes como o Brasil.
Nosso modelo de desenvolvimento com inclusão social atraiu e
continua atraindo investidores de toda parte. É hora de mostrar as
grandes oportunidades que o país oferece, num quadro de estabilidade
que poucos podem apresentar.
Nos últimos 11
anos, o Brasil deu um grande salto econômico e social. O PIB em
dólares cresceu 4,4 vezes e supera US$ 2,2 trilhões. O comércio
externo passou de US$ 108 bilhões para US$ 480 bilhões ao ano. O
país tornou-se um dos cinco maiores destinos de investimento externo
direto. Hoje somos grandes produtores de automóveis, máquinas
agrícolas, celulose, alumínio, aviões; líderes mundiais em
carnes, soja, café, açúcar, laranja e etanol.
Reduzimos a
inflação, de 12,5% em 2002 para 5,9%, e continuamos trabalhando
para trazê-la ao centro da meta. Há dez anos consecutivos a
inflação está controlada nas margens estabelecidas, num ambiente
de crescimento da economia, do consumo e do emprego. Reduzimos a
dívida pública líquida praticamente à metade; de 60,4% do PIB
para 33,8%. As despesas com pessoal, juros da dívida e financiamento
da previdência caíram em relação ao PIB.
Colocamos os mais
pobres no centro das políticas econômicas, dinamizando o mercado e
reduzindo a desigualdade. Criamos 21 milhões de empregos; 36 milhões
de pessoas saíram da extrema pobreza e 42 milhões alcançaram a
classe média.
Quantos países
conseguiram tanto, em tão pouco tempo, com democracia plena e
instituições estáveis?
A novidade é que o
Brasil deixou de ser um país vulnerável e tornou-se um competidor
global. E isso incomoda; contraria interesses. Não é por outra
razão que as contas do país e as ações do governo tornaram-se
objeto de avaliações cada vez mais rigorosas e, em certos casos,
claramente especulativas. Mas um país robusto não se intimida com
as críticas; aprende com elas.
A dívida pública
bruta, por exemplo, ganhou relevância nessas análises. Mas em
quantos países a dívida bruta se mantém estável em relação ao
PIB, com perfil adequado de vencimentos, como ocorre no Brasil? Desde
2008, o país fez superávit primário médio anual de 2,58%, o
melhor desempenho entre as grandes economias. E o governo da
presidenta Dilma Rousseff acaba de anunciar o esforço fiscal
necessário para manter a trajetória de redução da dívida em
2014.
Acumulamos US$ 376
bilhões em reservas: dez vezes mais do que em 2002 e dez vezes
maiores que a dívida de curto prazo. Que outro grande país, além
da China, tem reservas superiores a 18 meses de importações?
Diferentemente do passado, hoje o Brasil pode lidar com flutuações
externas, ajustando o câmbio sem artifícios e sem turbulência.
Esse ajuste, que é necessário, contribui para fortalecer nosso
setor produtivo e vai melhorar o desempenho das contas externas.
O Brasil tem um
sistema financeiro sólido e expandiu a oferta de crédito com
medidas prudenciais para ampliar a segurança dos empréstimos e o
universo de tomadores. Em 11 anos o crédito passou de R$ 380 bilhões
para R$ 2,7 trilhões; ou seja, de 24% para 56,5% do PIB. Quantos
países fizeram expansão dessa ordem reduzindo a inadimplência?
O investimento do
setor público passou de 2,6% do PIB para 4,4%. A taxa de
investimento no país cresceu em média 5,7% ao ano. Os depósitos em
poupança crescem há 22 meses. É preciso fazer mais: simplificar e
desburocratizar a estrutura fiscal, aumentar a competitividade da
economia, continuar reduzindo aportes aos bancos públicos,
aprofundar a inclusão social que está na base do crescimento. Mas
não se pode duvidar de um país que fez tanto em apenas 11 anos.
Que país duplicou a
safra e tornou-se uma das economias agrícolas mais modernas e
dinâmicas do mundo? Que país duplicou sua produção de veículos?
Que país reergueu do zero uma indústria naval que emprega 78 mil
pessoas e já é a terceira maior do mundo?
Que país ampliou a
capacidade instalada de eletricidade de 80 mil para 126 mil MW, e
constrói três das maiores hidrelétricas do mundo? Levou
eletricidade a 15 milhões de pessoas no campo? Contratou a
construção de 3 milhões de moradias populares e já entregou a
metade?
Qual o país no
mundo, segundo a OCDE, que mais aumentou o investimento em educação?
Que triplicou o orçamento federal do setor; ampliou e financiou o
acesso ao ensino superior, com o Prouni, o FIES e as cotas, e
duplicou para 7 milhões as matrículas nas universidades? Que levou
60 mil jovens a estudar nas melhores universidades do mundo? Abrimos
mais escolas técnicas em 11 anos do que se fez em todo o Século XX.
O Pronatec qualificou mais de 5 milhões de trabalhadores. Destinamos
75% dos royalties do petróleo para a educação.
E que país é
apontado pela ONU e outros organismos internacionais como exemplo de
combate à desigualdade?
O Brasil e outros
países poderiam ter alcançado mais, não fossem os impactos da
crise sobre o crédito, o câmbio e o comércio global, que se mantém
estagnado. A recuperação dos Estados Unidos é uma excelente
notícia, mas neste momento a economia mundial reflete a retirada dos
estímulos do Fed. E, mesmo nessa conjuntura adversa, o Brasil está
entre os oito países do G-20 que tiveram crescimento do PIB maior
que 2% em 2013.
O mais notável é
que, desde 2008, enquanto o mundo destruía 62 milhões de empregos,
segundo a Organização Internacional do Trabalho, o Brasil criava
10,5 milhões de empregos. O desemprego é o menor da nossa história.
Não vejo indicador mais robusto da saúde de uma economia.
Que país atravessou
a pior crise de todos os tempos promovendo o pleno emprego e
aumentando a renda da população?
Cometemos erros,
naturalmente, mas a boa notícia é que os reconhecemos e trabalhamos
para corrigi-los. O governo ouviu, por exemplo, as críticas ao
modelo de concessões e o tornou mais equilibrado. Resultado:
concedemos 4,2 mil quilômetros de rodovias com deságio muito acima
do esperado. Houve sucesso nos leilões de petróleo, de seis
aeroportos e de 2.100 quilômetros de linhas de transmissão de
energia.
O Brasil tem um
programa de logística de R$ 305 bilhões. A Petrobras investe US$
236 bilhões para dobrar a produção até 2020, o que vai nos
colocar entre os seis maiores produtores mundiais de petróleo.
Quantos países oferecem oportunidades como estas?
A classe média
brasileira, que consumiu R$ 1,17 trilhão em 2013, de acordo com a
Serasa/Data Popular, continuará crescendo. Quantos países têm
mercado consumidor em expansão tão vigorosa?
Recentemente estive
com investidores globais no Conselho das Américas, em Nova Iorque,
para mostrar como o Brasil se prepara para dar saltos ainda maiores
na nova etapa da economia global. Voltei convencido de que eles têm
uma visão objetiva do país e do nosso potencial, diferente de
versões pessimistas. O povo brasileiro está construindo uma nova
era – uma era de oportunidades. Quem continuar acreditando e
investindo no Brasil vai ganhar ainda mais e vai crescer junto com o
nosso país.
Luiz Inácio Lula da
Silva é ex-presidente da República e presidente de honra do PT
ARTIGO DE LULA: POR QUE O BRASIL É O PAÍS DAS OPORTUNIDADES
Por Luiz Inácio Lula da Silva
Passados cinco anos do início da crise
global, o mundo ainda enfrenta suas consequências, mas já se prepara
para um novo ciclo de crescimento. As atenções estão voltadas para
mercados emergentes como o Brasil. Nosso modelo de desenvolvimento com
inclusão social atraiu e continua atraindo investidores de toda parte. É
hora de mostrar as grandes oportunidades que o país oferece, num quadro
de estabilidade que poucos podem apresentar.
Nos últimos 11 anos, o Brasil deu um
grande salto econômico e social. O PIB em dólares cresceu 4,4 vezes e
supera US$ 2,2 trilhões. O comércio externo passou de US$ 108 bilhões
para US$ 480 bilhões ao ano. O país tornou-se um dos cinco maiores
destinos de investimento externo direto. Hoje somos grandes produtores
de automóveis, máquinas agrícolas, celulose, alumínio, aviões; líderes
mundiais em carnes, soja, café, açúcar, laranja e etanol.
Reduzimos a inflação, de 12,5% em 2002
para 5,9%, e continuamos trabalhando para trazê-la ao centro da meta. Há
dez anos consecutivos a inflação está controlada nas margens
estabelecidas, num ambiente de crescimento da economia, do consumo e do
emprego. Reduzimos a dívida pública líquida praticamente à metade; de
60,4% do PIB para 33,8%. As despesas com pessoal, juros da dívida e
financiamento da previdência caíram em relação ao PIB.
Colocamos os mais pobres no centro das
políticas econômicas, dinamizando o mercado e reduzindo a desigualdade.
Criamos 21 milhões de empregos; 36 milhões de pessoas saíram da extrema
pobreza e 42 milhões alcançaram a classe média.
Quantos países conseguiram tanto, em tão pouco tempo, com democracia plena e instituições estáveis?
A novidade é que o Brasil deixou de ser
um país vulnerável e tornou-se um competidor global. E isso incomoda;
contraria interesses. Não é por outra razão que as contas do país e as
ações do governo tornaram-se objeto de avaliações cada vez mais
rigorosas e, em certos casos, claramente especulativas. Mas um país
robusto não se intimida com as críticas; aprende com elas.
A dívida pública bruta, por exemplo,
ganhou relevância nessas análises. Mas em quantos países a dívida bruta
se mantém estável em relação ao PIB, com perfil adequado de vencimentos,
como ocorre no Brasil? Desde 2008, o país fez superávit primário médio
anual de 2,58%, o melhor desempenho entre as grandes economias. E o
governo da presidenta Dilma Rousseff acaba de anunciar o esforço fiscal
necessário para manter a trajetória de redução da dívida em 2014.
Acumulamos US$ 376 bilhões em reservas:
dez vezes mais do que em 2002 e dez vezes maiores que a dívida de curto
prazo. Que outro grande país, além da China, tem reservas superiores a
18 meses de importações? Diferentemente do passado, hoje o Brasil pode
lidar com flutuações externas, ajustando o câmbio sem artifícios e sem
turbulência. Esse ajuste, que é necessário, contribui para fortalecer
nosso setor produtivo e vai melhorar o desempenho das contas externas.
O Brasil tem um sistema financeiro
sólido e expandiu a oferta de crédito com medidas prudenciais para
ampliar a segurança dos empréstimos e o universo de tomadores. Em 11
anos o crédito passou de R$ 380 bilhões para R$ 2,7 trilhões; ou seja,
de 24% para 56,5% do PIB. Quantos países fizeram expansão dessa ordem
reduzindo a inadimplência?
O investimento do setor público passou
de 2,6% do PIB para 4,4%. A taxa de investimento no país cresceu em
média 5,7% ao ano. Os depósitos em poupança crescem há 22 meses. É
preciso fazer mais: simplificar e desburocratizar a estrutura fiscal,
aumentar a competitividade da economia, continuar reduzindo aportes aos
bancos públicos, aprofundar a inclusão social que está na base do
crescimento. Mas não se pode duvidar de um país que fez tanto em apenas
11 anos.
Que país duplicou a safra e tornou-se
uma das economias agrícolas mais modernas e dinâmicas do mundo? Que país
duplicou sua produção de veículos? Que país reergueu do zero uma
indústria naval que emprega 78 mil pessoas e já é a terceira maior do
mundo?
Que país ampliou a capacidade instalada
de eletricidade de 80 mil para 126 mil MW, e constrói três das maiores
hidrelétricas do mundo? Levou eletricidade a 15 milhões de pessoas no
campo? Contratou a construção de 3 milhões de moradias populares e já
entregou a metade?
Qual o país no mundo, segundo a OCDE,
que mais aumentou o investimento em educação? Que triplicou o orçamento
federal do setor; ampliou e financiou o acesso ao ensino superior, com o
Prouni, o FIES e as cotas, e duplicou para 7 milhões as matrículas nas
universidades? Que levou 60 mil jovens a estudar nas melhores
universidades do mundo? Abrimos mais escolas técnicas em 11 anos do que
se fez em todo o Século XX. O Pronatec qualificou mais de 5 milhões de
trabalhadores. Destinamos 75% dos royalties do petróleo para a educação.
E que país é apontado pela ONU e outros organismos internacionais como exemplo de combate à desigualdade?
O Brasil e outros países poderiam ter
alcançado mais, não fossem os impactos da crise sobre o crédito, o
câmbio e o comércio global, que se mantém estagnado. A recuperação dos
Estados Unidos é uma excelente notícia, mas neste momento a economia
mundial reflete a retirada dos estímulos do Fed. E, mesmo nessa
conjuntura adversa, o Brasil está entre os oito países do G-20 que
tiveram crescimento do PIB maior que 2% em 2013.
O mais notável é que, desde 2008,
enquanto o mundo destruía 62 milhões de empregos, segundo a Organização
Internacional do Trabalho, o Brasil criava 10,5 milhões de empregos. O
desemprego é o menor da nossa história. Não vejo indicador mais robusto
da saúde de uma economia.
Que país atravessou a pior crise de todos os tempos promovendo o pleno emprego e aumentando a renda da população?
Cometemos erros, naturalmente, mas a boa
notícia é que os reconhecemos e trabalhamos para corrigi-los. O governo
ouviu, por exemplo, as críticas ao modelo de concessões e o tornou mais
equilibrado. Resultado: concedemos 4,2 mil quilômetros de rodovias com
deságio muito acima do esperado. Houve sucesso nos leilões de petróleo,
de seis aeroportos e de 2.100 quilômetros de linhas de transmissão de
energia.
O Brasil tem um programa de logística de
R$ 305 bilhões. A Petrobras investe US$ 236 bilhões para dobrar a
produção até 2020, o que vai nos colocar entre os seis maiores
produtores mundiais de petróleo. Quantos países oferecem oportunidades
como estas?
A classe média brasileira, que consumiu
R$ 1,17 trilhão em 2013, de acordo com a Serasa/Data Popular, continuará
crescendo. Quantos países têm mercado consumidor em expansão tão
vigorosa?
Recentemente estive com investidores
globais no Conselho das Américas, em Nova Iorque, para mostrar como o
Brasil se prepara para dar saltos ainda maiores na nova etapa da
economia global. Voltei convencido de que eles têm uma visão objetiva do
país e do nosso potencial, diferente de versões pessimistas. O povo
brasileiro está construindo uma nova era – uma era de oportunidades.
Quem continuar acreditando e investindo no Brasil vai ganhar ainda mais e
vai crescer junto com o nosso país.
Luiz Inácio Lula da Silva é ex-presidente da República e presidente de honra do PT
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Desenvolvimentismo X Neoliberalismo - dois modelos em confronto
DESENVOLVIMENTISMO X NEOLIBERALISMO –
dois modelos em confronto.
Enquanto o mundo desenvolvido neoliberal entra em crise a partir de
2008 e não consegue sair dela; na América Latina várias países
conseguiram adotar um modelo alternativo que iniciou o
desenvolvimento social e a melhoria do bem estar social de suas
populações. O modelo neoliberal entrou em crise devido à excessiva
liberdade oferecida ao mercado financeiro pelas autoridades
monetárias, a partir dos anos 80 nos EUA, abusando assim da
especulação e das maracutaias que enganavam os investidores. O
modelo, enxugou a máquina estatal de gastos sociais, reduziu
impostos dos ricos e diminuiu o poder de barganha dos sindicatos de
trabalhadores para aumentar as margens de lucros dos oligopólios.
Criaram também toda uma ideologia favorável à liberdade do
capital, ao “Deus mercado”, às “maravilhas do neoliberalismo”
absorvidas totalmente pela mídia, inclusive na América Latina, cuja
elite conservadora é submissa à matriz.
O modelo desenvolvimentista, dos socialistas
democráticos, foram reeleitos na Venezuela de Hugo Chávez, no
Equador de Rafael Correa, na Argentina de Kirchner e Cristina, na
Bolívia de Evo Morales e no Brasil de Lula e Dilma. Todos
foram reeleitos contra a vontade de uma elite conservadora (apoiada
pela mídia local e pela direita americana), que lutou ferozmente
contra eles nas eleições, usando de artifícios desonestos,
calúnias e difamações. Enquanto a Europa se afunda em políticas
de austeridade, partidos governistas são substituídos por outros de
qualquer orientação que aprovam mais cortes sociais, promovem mais
privatizações e aumentam a desigualdade; na América Latina os
governos resolutamente viraram as costas para esse modelo, reduziram
a pobreza e a desigualdade, reergueram indústrias, proveram mais
recursos de controle corporativo, expandiram maciçamente os serviços
públicos e a participação democrática. O modelo
desenvolvimentista desenvolvido pela esquerda latino-americana se
baseia na melhoria dos indicadores sociais (redução da pobreza,
elevação de renda dos mais pobres, redistribuição de renda, queda
do desemprego, etc.) mas que resultaram também no incremento da
atividade econômica (crescimento do PIB, da renda per capita, da
produção econômica em geral). Como veremos em seguida. Todos estes
governos vieram depois de fracassados governos neoliberais e de seus
problemas tais como desemprego, juros, dívida, privatizações,
fraco desempenho econômico, recessão, etc.....
BRASIL E MÉXICO (neoliberal). A
mídia do pensamento único defende o modelo neoliberal, mesmo tendo
que mentir e esconder dados, como no caso do México, considerado um
“sucesso” do modelo liberal depois que se integrou ao bloco Nafta
(EUA, Canadá e México). No entanto, basta comparar alguns dados
econômicos-sociais para se perceber o fracasso deste modelo. No
período 2003-2012, usando dados do Banco Mundial e do Ministério do
Trabalho dos dois países vemos que o crescimento médio anual do PIB
brasileiro foi de 4,21%; o do México de 2,92%. O crescimento total
da economia brasileira foi de 42,17%; o do México de 29,29%. Por
outro lado, a renda per capita brasileira cresceu a uma taxa anual de
2,84% e a do México, 1,42%. O crescimento total da renda no Brasil
foi de 28,4%, e no México foi de 14,26%. E a participação dos
salários na renda chegou a 45% no Brasil, contra 29% no México.
Nesse mesmo período, o Brasil criou 16 milhões de novos empregos
formais, e o México 3,5 milhões; e a pobreza absoluta foi reduzida
a 15,9%, no Brasil, e aumentou para 51,3%, no México. Por fim,
(pasmem-se), entre 2002 e 2012, o “investimento direto estrangeiro”
cresceu, no Brasil, de US$ 16,59 bilhões, para US$ 76,11 bilhões de
dólares. No México, caiu de US$ 23,932 bilhões, em 2002, para U$
15,455 bilhões, em 2012! Só para encerrar a comparação, em 2013 a
economia brasileira cresceu 2,3%, (uma das maiores taxas entre as
grandes economias do mundo), enquanto a economia mexicana cresceu
1,1%. Como o México pode servir de exemplo para o Brasil ? Na cabeça
dos neoliberais, o México é melhor que o Brasil porque as margens
de lucro são maiores, paga-se menos impostos e os salários são
mais baixos.
BRASIL. Pode-se comprar também
os 8 anos de governo neoliberal de FHC (1995-2002) com os governos
desenvolvimentistas de Lula (2003-2010) e Dilma (2011-2014).: 1)
Taxa de Desemprego (IBGE): FHC (Dezembro de 2003) – 12,6%; Dilma
(Dezembro de 2013) – 4,3%; 2) Taxa
Selic (Banco Central): FHC (Dezembro de 2002) - 25% a.a.; Dilma
(Agosto de 2013) - 11% a.a.; 3) Salário
Mínimo (IBGE): FHC (Dezembro de 2002) - R$ 200 (US$ 56); Dilma
(Agosto de 2013) - R$ 724 (US$ 323); 4)
Empregos Formais (Caged-Ministério do Trabalho): FHC
(1995-2002) - 5 milhões; Lula-Dilma (2003-2013) - 20 milhões; 5)
Escolas Técnicas Federais (MEC): FHC – 11; Lula – 214, Dilma –
208; 6) Universidades Federais
(MEC):
FHC – 1; Lula – 14; Dilma – 4; 7)
Índice de Gini (FGV): FHC (2002) – 0,588; Dilma (2012) – 0,519.
8) PIB(Banco Central): FHC
(2002) - US$ 459 bilhões (2o. da América Latina e 15o. do Mundo);
Dilma (2013) - US$ 2,2 Trilhões (1o. da América Latina, 2o. das
Américas e 6o. do Mundo); 9) Reservas
Internacionais Líquidas (Banco Central): FHC (Dezembro de 2002) -
US$ 16 bilhões; Dilma (Abril de 2014) - US$ 377,8 bilhões; 10)
Dívida Pública Líquida (Banco Central): FHC (Dezembro de 2002) -
60,5% do PIB; Dilma (Fevereiro de 2014) - 33,8% do PIB.
EQUADOR. Correa foi originalmente
eleito na esteira de um colapso econômico tão devastador que um em
cada dez equatorianos deixaram o país. Desde então, a sua
"revolução cidadã" cortou a pobreza em quase um terço e
a extrema pobreza em 45%. O desemprego foi reduzido, enquanto a
segurança social, a saúde e a educação gratuitas foram
rapidamente expandidas - incluindo o ensino superior gratuito.
(Seumas Milne do The Guardian, escreveu “A América Latina é a
alternativa”). Em 2013, Correa foi reeleito para o seu terceiro
mandato. Rafael Correa terá mais quatro anos no poder. Não é
difícil entender os motivos. O desemprego caiu para 4,1% no final do
ano passado – a menor taxa nos últimos vinte e cinco anos. A
pobreza diminuiu 27% desde 2006. Os gastos em educação mais que
dobraram em termos reais.
Um maior investimento em saúde ampliou o acesso da população aos
cuidados médicos. Outras despesas sociais também se ampliaram
substancialmente, incluído o subsídio do governo à aquisição da
casa própria.
Isso pode parecer insustentável, mas não é. O pagamento dos juros
da dívida externa do Equador é menos de 1% do PIB, o que é muito
pouco; e a dívida pública do país é 25% do PIB, o que também é
bem pouco.
O governo também reformou e regulou o sistema financeiro. E aqui nós
chegamos ao que é, provavelmente, a mais competente reforma
financeira de qualquer país no século XXI. O governo tomou o
controle do banco central e o forçou a trazer de volta cerca de dois
bilhões de reservas que estavam no exterior. O dinheiro foi usado
pelos bancos públicos para fazer empréstimos que beneficiaram a
infraestrutura, o setor de construção e a agricultura. O dinheiro
que estava deixando o país foi taxado e os bancos foram obrigados a
manter 60% do seu patrimônio líquido no país. Isso levou as taxas
de juros para baixo. O objetivo de todas as alteração foi dar ao
sistema financeiro um caráter de interesse público, ao contrário
do que acontece em países como os Estados Unidos. Para que isso
acontecesse, o governo também separou o setor financeiro da mídia –
os bancos eram proprietários da maior parte das empresas
jornalísticas antes da eleição de Correa – e criou leis contra
monopólios. O Equador também deixou de pagar um terço de sua
dívida externa depois que uma comissão internacional concluiu que
aquela porção tinha origem ilegal. Mas Correa, um economista com
Ph.D., soube escolher o momento certo para ignorar a maior parte de
seus colegas.
Correa sofre críticas da mídia por ir contra a sabedoria
convencional e – provavelmente o maior pecado aos olhos da imprensa
da negócios – ter sucesso. A maior agressão da mídia veio
quando o Equador ofereceu asilo ao jornalista Julian Assange, do
Wikileaks.
Mas aqui, como na política econômica e na reforma financeira,
Correa estava certo. (Guardian traduzido para o Diário do Centro
do Mundo : “Por que o Equador ama Rafael Correa”).
A VENEZUELA de Hugo Chávez, sem
dúvida é o modelo socialista (anti-neoliberal, bolivariano e/ou
anti-imperialista, como dizia Chávez) que mais avançou na América
Latina e talvez por isso o mais perseguido pelos EUA (que inclusive
apoiou um golpe de Estado contra Chávez em 2002) e em consequência
pela direita latino-americana, que repete os mantras da direita
americana. Chávez ganhou eleições livres de 1999 até 2012 (15 das
16 eleições) durante os 14 anos no poder e, mesmo assim a mídia
conservadora o chama de “ditador”, porque a mídia americana
assim o classifica. A União Européia, a OEA, a UNASUR e até o
Centro Carter (do ex-presidente americano Jimmy Carter) reconheceram
a transparência das eleições venezuelanas.
Alguns resultados do seu modelo: 1)
Em 2005, a Unesco declara a Venezuela livre do
analfabetismo, graças ao programa de alfabetização denominado
Missão Robinson I.; 2) O número
de crianças na escola passou de 6 milhões em 1998 para 13 milhões
em 2011, e a taxa de escolarização agora é de 93,2%.; 3)
A Missão Robinson II foi lançada para levar a população a
alcançar o nível secundário. Assim, a taxa de escolarização no
ensino secundário passou de 53,6% em 2000 para 73,3% em 2011.; 4)
As Missões Ribas e Sucre permitiram que dezenas de
milhares de jovens adultos chegassem ao Ensino Superior. Assim, o
número de estudantes passou de 895.000 em 2000 para 2,3 milhões em
2011, com a criação de novas universidades.;
5) Em relação à saúde, foi
criado o Sistema Nacional Público para garantir o acesso gratuito à
atenção médica para todos os venezuelanos. Entre 2005 e 2012,
foram criados 7.873 centros médicos na Venezuela. O número de
médicos passou de 20 por 100 mil habitantes, em 1999, para 80 em
2010, ou seja, um aumento de 400%. Cerca de 17 milhões de pessoas
puderam ser atendidas, enquanto que, em 1998, menos de 3 milhões de
pessoas tinham acesso regular à saúde. Foram salvas 1,7 milhão de
vidas entre 2003 e 2011. ; 6) A
taxa de mortalidade infantil passou de 19,1 a cada mil, em 1999, para
10 a cada mil em 2012, ou seja, uma redução de 49%.; 7)
De 1999 a 2011, a taxa de pobreza passou de 42,8% para
26,5%, e a taxa de extrema pobreza passou de 16,6% em 1999 para 7% em
2011.; 8) IDH: a Venezuela
passou do posto 83 no ano 2000 (0,656) ao 73° lugar em 2011
(0,735).; 9) O coeficiente Gini,
que permite calcular a desigualdade em um país, passou de 0,46 em
1999 para 0,39 em 2011. ; 10) Segundo
o PNUD, a Venezuela ostenta o coeficiente Gini mais baixo da América
Latina, e é o país da região onde há menos desigualdade.; 11)
Durante a presidência de Chávez, os gastos sociais
aumentaram 60,6%. Antes de 1999, apenas 387 mil idosos recebiam
aposentadoria. Agora são 2,1 milhões.; 12)
Cinco milhões de crianças agora recebem alimentação gratuita por
meio do Programa de Alimentação Escolar. Em 1999, eram 250 mil.;
13) A taxa de desemprego passou
de 15,2% em 1998 para 6,4% em 2012, com a criação de mais de 4
milhões de postos de trabalho.; 14) A
dívida pública passou de 45% do PIB em 1998 a 20% em 2011. A
Venezuela se retirou do Fundo Monetário Internacional e do Banco
Mundial, pagando antecipadamente todas as suas dívidas.; 15)
A Venezuela oferece um apoio direto ao continente americano mais
alto que os Estados Unidos. Em 2007, Chávez ofereceu mais de 8,8
bilhões de dólares em doações, financiamentos e ajuda energética,
contra apenas 3 bilhões da administração Bush. (“50 verdades
sobre Hugo Chávez” - Opera Mundi). Ver também o documentário
“Ao Sul da Fronteira” de Oliver Stone.
ARGENTINA. Os governos Cristina
Fernández Kirchner foram marcados pela redução da pobreza, pela
criação de 3,5 milhões de postos de trabalho, pela aprovação do
matrimônio igualitário e pelo crescimento do PIB. Puniu-se
militares que atuaram durante a Ditadura Militar Argentina, empresas
foram nacionalizadas e seguiu-se uma política externa independente.
No final de 2013, a dívida externa caiu para mínimo histórico de
17,9% do PIB. Entre 2003 e 2010, o CONICET (órgão de pesquisas
incorporado ao Ministério da Ciência e Tecnologia) contratou mais
de 8 mil pessoas, aumentando em 93,2% seu pessoal. A quantidade de
investigações em 2003 era de 3804, número que subiu para 6350 em
2010.
O Crescimento econômico da Argentina sob o governo de Néstor e
Cristina Kirchner foi um dos mais expressivos e acelerados da região.
A média de crescimento econômica da Argentina durante o governo de
Cristina Fernández foi de 7,9% anuais. Em 2011, o crescimento
econômico argentino foi o segundo maior da América Latina, perdendo
apenas para o Equador. Desde 2003, o país apresenta crescimento
econômico com taxas que oscilaram em torno dos 9%. O PIB per capita
de 2011, medido em paridade de poder aquisitivo do dólar americano,
é o mais alto da América Latina. Segundo dados do FMI para 2011, a
Argentina é a terceira maior economia da América Latina, superada
pelo Brasil e pelo México. Segundo um informe de 2010 da Comissão
Econômica para América Latina e o Caribe, a pobreza se encontrava
em 11,3%, o que significou uma redução de 34,1 pontos percentuais.
A taxa de pobreza da Argentina se tornou a segunda mais baixa da
América Latina, atrás somente do Uruguai (10,7%). De acordo com
relatórios do Banco Mundial, entre 2003 e 2009 Argentina dobrou sua
classe média passando de 9,3 milhões - 18,6 milhões de pessoas,
quase metade da população. O governo Cristina Fernández criou 3,5
milhões de postos de trabalho com carteira assinada. Entre 2003 e
2011, houve uma acentuada queda da taxa de desemprego. Em 2011, a
taxa caiu para 7,4%. Foi o quarto trimestre de 2012 a taxa de
desemprego diminuiu para 6,9%. Em agosto de 2013 anunciou um aumento
de 25% no salário mínimo tornou-se o maior da América Latina em
termos de compra, chegando a 3.600 pesos, também eliminou impostos
sobre os salários. Em 2009 foi implantado O programa AUH (com base
no Programa Bolsa Família brasileiro) de transferência direta de
renda com condicionalidades, que beneficia famílias em situação de
pobreza e de extrema pobreza. Em dois anos, o AUH reduziu a pobreza
em 13%. Após o plano quinquenal do governo Perón entre 1947 e 1951,
o período de 2003 a 2010 foi o de maior construção de escolas na
história da Argentina. Entre 1969 e 2003, os diferentes governos
nacionais financiaram a construção de um total de 427 escolas,
enquanto que entre 2003 e 2010 se construíram mais 1100 escolas que
beneficiaram a meio milhão de alunos, segundo dados oficiais. Foram
criadas mais de dez novas universidades....a redução da mortalidade
infantil entre 2003 e 2012 foi de 33%. ...Em novembro de 2009, foi
aprovada a Lei de Proteção da Liberdade de Expressão e a
descriminalização da calúnia e difamação. As leis foram apoiados
pelo Comitê para a Proteção dos Jornalistas, observando que: "É
um passo importante para o avanço da liberdade de expressão na
Argentina e na América Latina." Hoje a Argentina tem uma das
melhores “ley de medios” do mundo, acabando com o monopólio no
setor e democratizando os meios de comunicação – um exemplo para
os outros países da região.
A vitória da democracia argentina, com a aprovação da Ley
dos Medios pela suprema corte, se reflete em todo o
continente, onde grupos privados de mídia, fortalecidos à sombra de
ditaduras e com apoio do imperialismo, tornaram-se a principal força
política de oposição aos governos progressistas da região.
“Quando a democracia renasce na América Latina, eles são os
únicos sobreviventes num ambiente devastado. Esses gigantes
poderosos, ainda apoiados por agências norte-americanas, abusaram de
sua força para influenciar o processo de redemocratização, impondo
leis e elegendo seus candidatos. Assim que a década negra do
neoliberalismo, quando a pobreza e a desigualdade de renda atingem
seus pontos culminantes, foram também a década de ouro da grande
mídia sul-americana, alinhada ao rentismo bilionário que sugava o
sangue dos trabalhadores do continente. Quando o jogo se inverte, e
os povos aprendem a usar o voto para derrubar governantes que não
exerciam políticas em seu benefício, esses grupos aderem à
oposição. Entretanto, repito, o problema não é seu oposicionismo,
e sim o ambiente de monopólio, sem leis, em que esses gigantes
operam. Uma passagem, citando o direito internacional sobre o tema,
atrapalhará a tentativa do Clarín (grupo que detinha o monopólio
da mídia na Argentina) de levar a decisão aos tribunais
internacionais. Diz o trecho, citando a Declaração
sobre Liberdade de Expressão da Comissão Interamericana de Direitos
Humanos: “os
meios de comunicação têm um poder inegável na formação
cultural, política, religiosa, de todos os habitantes. Se estes
meios são controlados por um reduzido número de indivíduos, ou por
um só, cria-se uma sociedade onde um reduzido número de pessoas
exercem o controle sobre a informação e, direta ou indiretamente, a
opinião que recebe o resto da população. Esta carência de
pluralidade na informação é um sério obstáculo ao fundamento da
democracia”. (Miguel do Rosário – O CAFEZINHO).
Crescimento econômico e programas sociais asseguraram a reeleição
da presidente argentina Cristina Fernández de Kirchner no domingo
(23 de outubro de 2011), com 54% dos votos contra 17% do segundo
colocado, o socialista Hermes Binner. Foi o resultado mais expressivo
nas urnas desde a redemocratização do país em 1983, quando Raúl
Alfonsin foi eleito com 51% dos votos. Cristina também se tornou a
primeira mulher reeleita na história da Argentina.
BOLÍVIA
Nas eleições presidenciais de Dezembro de 2005, Evo
Morales conseguiu sair como vencedor ao obter 53,74% dos
votos, frente a 28,59% de seu principal opositor, Jorge Quiroga. Pela
primeira vez na Bolívia um indígena sobe ao poder mediante o voto
popular por uma margem considerável sobre o segundo postulante.
Assumiu o poder em 22 de janeiro de 2006 como o primeiro mandatário
boliviano a ser eleito Presidente da República em primeiro turno em
mais de trinta anos, e sendo reeleito
em 6 de dezembro de 2009. Em 1° de maio de 2006, Evo Morales declara
a nacionalização dos hidrocarbonetos e das refinarias, postos e
distribuidores de petróleo, gás e derivados, além de tornar o
governo boliviano sócio majoritário dessas indústrias, detendo 50%
mais 1 das ações. A economia boliviana crescia à uma média de 3%
nos governos anteriores. Nos três anos do governo Morales, a taxa de
crescimento do PIB subiu de 4.8% (2006), 4,6% (2007) para 6,1% em
2008, com destaque para o setor de mineração (crescimento de mais
de 50%) depois da estatização do setor. O PIB per capita cresceu
consideravelmente, passando de uma média de 7,700 pesos em 2000,
para 10.800 pesos em 2006 para 12.700 pesos em 2008. Também houve
incremento de bolsas tipo Bolsa Família, atingindo 20% da população,
melhorando consideravelmente a renda das famílias mais pobres. Nos
governos anteriores (2000 a 2005) havia déficit fiscal, no governo
Morales (2006-2008) a situação se inverte para superavit fiscal.
Depois da nacionalização, o governo passa a ter muito mais recursos
próprios aumentando o nível de investimentos produtivos (70%
estatal) na economia, mas aumentando também o volume dos
investimentos estrangeiros de 270 para 512 milhões de dólares no
período. As reservas internacionais também dobraram no período,
passando de 3,2 para 7,7 bilhões de pesos bolivianos. O valor da
Dívida Pública Externa caiu pela metade nestes três anos. A
arrecadação de impostos dobrou.
Alfabetização: A Bolívia
tinha 823.000 analfabetos, alfabetizou 820.000 atingindo 97% da
população, livrando-a portanto do analfabetismo e passando a ser o
terceiro país da América Latina livre do
analfabetismo (depois de Venezuela e Cuba). Número de
escolas construídas : 187 (203-2005) aumentou para 426 (2006-2008).
O número de atendimentos de pessoas no setor de Saúde passou de 1,3
milhões (2005) para 17 milhões em 2008. Número de ambulâncias : 4
(2005), aumentando para 334 em 2008. Quase 7 milhões de pessoas
foram beneficiadas com o programa Renda Digna.
Evo Morales já não é “a mudança” como em 2005, nem o
“enterrador da oligarquia” de 2009. Sua meta agora é convencer
os eleitores dos benefícios da “estabilidade” – como se
percebe no aumento do consumo e em um longo período de crescimento.
Se conseguir, terá o recorde de ser o presidente boliviano que durou
mais tempo no poder, por cima de Andrés de Santa Cruz, o fundador da
pátria. Uma pesquisa publicada recentemente deu a Evo Morales mais
de 45% das intenções de voto e 32 pontos de diferença com seu
concorrente mais próximo para as eleições do final deste ano
(2014). Pode ser reeleito pela
terceira vez.
Os governos socialistas democráticos da América Latina atacaram a
desigualdade social e racial, desafiaram a dominação dos EUA e
começaram a criar uma verdadeira integração regional independente
pela primeira vez em 500 anos. E, dado que a maioria foi reeleita,
não é surpreendente que continuem recebendo votos para continuarem
no poder. Os meios de comunicação ocidentais retratam os governos
do Equador e da Venezuela como ditatoriais. Na realidade, a ameaça
antidemocrática real vem de aliados do próprio EUA, que lançaram
golpes abortados contra Chávez e Correa e golpes bem-sucedidos em
Honduras em 2009 e no Paraguai em 2012.
O
documentário South
of the Border (Ao Sul da Fronteira) é
um filme estadunidense de 2009, do gênero documentário político,
dirigido, escrito e produzido por Oliver
Stone. Para realizar o filme, Stone e sua equipe viajaram
do Caribe até o sul da Cordilheira dos Andes numa tentativa de
explicar o fenômeno que é o presidente venezuelano Hugo
Chávez na região e fazer um relato da recente guinada à
esquerda na América Latina. Também tentam compreender a chamada
Revolução Bolivariana de Chávez
e o desenvolvimento social da região no século XXI. Stone procurou
evidenciar o trabalho de vários outros
líderes latino-americanos de esquerda cujas políticas
geralmente recebem atenção limitada da mídia estadunidense e
europeia. São eles: Evo Morales da Bolívia,
Fernando Lugo do Paraguai, Luiz Inácio Lula da Silva do Brasil,
Néstor e Cristina Kirchner da Argentina, Rafael Correa do Equador e
Raúl Castro de Cuba. Os personagens são conhecidos da
opinião pública, mas poucas vezes tiveram chance de falar na mídia,
especialmente na norte-americana, com suas próprias vozes. O
roteirista, o historiador britânico de origem paquistanesa Tariq Ali
definiu o projeto como "um road movie político".
Entrevista de Stone ao UOL cinema:
“.....No Brasil, na Venezuela, na Argentina. Grandes cadeias,
grandes famílias, eles são como os oligarcas. Eles são donos dos
meios de comunicação, das emissoras de televisão. E eles os usam
para interesse próprio. E eles mentem. E o Departamento de Estado
americano concorda com eles porque querem controlar a região e o
fazem. Eles fazem isso há 150 anos. O Departamento de Estado fornece
o material e os meios de comunicação americanos, as emissoras e as
agências publicam as histórias sobre todas essas pessoas. Até
mesmo Lula, que era [visto como] a "boa esquerda"
sul-americana, agora é visto como a "má esquerda" por
causa de sua posição a respeito do Irã, o que mostra quão louca é
essa situação.....Não acredito mais nos meios de comunicação
americanos. Tive minhas próprias experiências com eles. E acho que
eles foram tão negativos em relação a Chávez que nem mencionaram
os outros países. ...” …....”O filme é destinado aos
80% de pessoas que não são representados nesse tipo de filme, os
80% que foram beneficiados pelas políticas desses novos
líderes.”......... "Ao Sul da Fronteira" é uma história
imensa, que os americanos não conhecem. Eles não sabem nada sobre
isso. Eles ouvem uma versão completamente falsa sobre [o presidente
venezuelano Hugo] Chávez nos meios de comunicação americanos. Eles
não sabem nada sobre a Argentina, não sabem sobre a disputa de
Nestor Kirchner contra o FMI na América do Sul - [os argentinos]
promoveram grandes mudanças no modo como fazem negócios. Não sabem
que a Bolívia quer seus próprios recursos, sobre o Equador. Não
sabem nada a respeito disso.”
Oliver Stone tem razão quando diz que os americanos não sabem nada
sobre a América Latina e acrescentamos que nós também não sabemos
nada sobre nossos irmãos latino-americanos e nem mesmo sobre nós
mesmos, porque a mídia esconde
dados sobre nossa realidade, omite informações sobre o que estes
governos realizam. Se dependermos da MÍDIA fazendo a nossa cabeça,
sempre acharemos que estes governos são perversos, corruptos
e mau
intencionados. Ela criminaliza os governos de esquerda porque estão
a serviço dos interesses das grandes corporações multinacionais.
Ainda bem que temos a internet com muito mais opções de
informações. Alguém já disse que “o Brasil é o único país do
mundo em que o governo federal é censurado pela imprensa.”
Acrescentamos: o Brasil e outros países latino-americanos cujos
governos são perseguidos pela imprensa neoliberal.
Daniel Miranda Soares é economista e mestre pela UFV, aposentado
em administração pública.
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