segunda-feira, 6 de novembro de 2023

MÍDIA NÃO DIVULGA O BOLSA ATLETA

 

JOGOS PANAMERICANOS E O “DESCONHECIMENTO” DO BOLSA ATLETA PELA  MÍDIA  

Interessante notar que a mídia brasileira não divulga nada sobre o programa Bolsa Atleta, que é considerado o maior programa de patrocínio individual de esportistas do planeta. Parece que os atletas estão ganhando suas medalhas graças exclusivamente ao seu esforço individual e ninguém de fora da família ajuda. Mas o impacto do programa é evidente nos resultados dos jogos internacionais. Se não fosse esse programa, o Brasil provavelmente não ganharia mais da metade das medalhas que já ganhou. Nos jogos do PAN 2023 em Santiago do Chile, segundo o próprio presidente Lula cerca de 91% do pódio foram conquistados por atletas que receberam recursos do programa. Vejam mais detalhes.

SOBRE O BOLSA ATLETA....Um dos maiores programas de incentivo direto ao atleta no mundo. O Governo Federal mantém, desde 2005, um dos maiores programas de patrocínio individual de atletas no mundo. Criado pela Lei nº 10.891, de 9 de julho de 2004, e regulamentado pelo Decreto nº 5.342, de 14 de janeiro de 2005, o Bolsa-Atleta é o maior programa de patrocínio individual de esportistas do planeta.

 

O PROGRAMA AMERICANO.....SÓ O PROGRAMA AMERICANO É MAIOR, MAS É DIFERENTE DO BRASILEIRO – ELE TEM VÍNCULOS ESTREITOS COM AS UNIVERSIDADES  : todos os anos, mais de 600 mil estudantes-atletas recebem mais de 4 bilhões de dólares em bolsas esportivas - NCAA, NAIA e NJCAA – e as bolsas variam de US$1000,00 a US$70.000 ao ano..... 9 entre os 10 maiores estádios estão localizados dentro de uma universidade americana.  Estudantes-Atletas tem acesso contínuo a infraestruturas que superam organizações de clubes e equipes profissionais do mundo todo.

 

GOVERNOS TEMER E BOLSONARO.....DURANTE FINAL DO GOVERNO TEMER E TODO O GOVERNO BOLSONARO HOUVE UMA QUEDA DE 47% NO Nº DE BENEFICIÁRIOS DO PROGRAMA E DE 32% NO VALOR DOS BENEFÍCIOS... Em comparação ao ano anterior, a queda será de 47,55% no número de atletas beneficiados. Neste ano, 5.830 receberam o Bolsa Atleta. O programa Bolsa Atleta prevê para 2019, pelo edital publicado nesta manhã (penúltimo dia útil da gestão Temer) beneficiar 3.058 esportistas,  com investimento de R$ 53,6 milhões.No orçamento, o valor anterior era de R$ 79,3 milhões, uma redução de 32,41% numa comparação com as cifras anunciadas nesta sexta. Para efeito de comparação, o programa já alcançou 6.667 esportistas na temporada 2014... Em 2022 o orçamento previsto para 2023, o governo Bolsonaro previu um corte de 36% nos gastos com os programas de Bolsas Atletas.

 

MAS O GOVERNO LULA ATUAL RECUPEROU O PROGRAMA.... O edital 1/2023 prevê orçamento de R$82 milhões, mas a soma dos editais para o programa Bolsa Atleta, somando o orçamento específico para o programa Bolsa Pódio supera R$120 milhões. O edital de 2023 é o maior da história do Bolsa Atleta. Um total de 8.057 esportistas recebem o benefício atualmente no país, entre praticantes de modalidades presentes nos programas olímpico e paralímpico. São 7.652 divididos entre as categorias de base, estudantil, nacional, internacional e olímpica / paralímpica e outros 405 na categoria de elite: a Bolsa Pódio é voltada para os que se destacam entre os 20 melhores do mundo em suas modalidades. O público beneficiário são atletas de alto rendimento que obtêm bons resultados em competições nacionais e internacionais de sua modalidade.

O programa garante condições mínimas para que se dediquem, com exclusividade e tranquilidade, ao treinamento e a competições locais, sul-americanas, pan-americanas, mundiais, olímpicas e paralímpicas.

Desde 2012, com a Lei 12.395/11, é permitido que o candidato tenha outros patrocínios, o que propicia que atletas consagrados possam ter a bolsa e, assim, contar com mais uma fonte de recurso para suas atividades.

São seis categorias de bolsa oferecidas pelo Ministério do Esporte: Atleta de Base; Estudantil; Nacional; Internacional; Olímpico/Paralímpico e; Pódio. A partir da assinatura do termo de adesão, os contemplados recebem o equivalente a 12 parcelas do valor definido em cada categoria:

- Atleta de Base (R$ 370);

- Estudantil (R$ 370);

- Nacional (R$ 925);

- Internacional (R$ 1.850);

- Olímpico/Paralímpico (R$ 3.100) e;

- Pódio (R$ 5 mil a R$ 15 mil).

 

A categoria Pódio é a mais alta do Bolsa Atleta. Foi criada pela Lei 12.395/2011, contemplando atletas desde 2013, com o objetivo de patrocinar atletas com chances de medalhas e de disputar finais em Jogos Olímpicos e Paralímpicos. Desde o início foram beneficiados 578 atletas, com 1.781 bolsas, num investimento de aproximadamente R$ 240 milhões. Podem ser os atletas que estão entre os 20 primeiros do ranking mundial de sua modalidade ou prova específica

 

O PRESIDENTE LULA FALA SOBRE O BOLSA ATLETA EM SEU PROGRAMA SEMANAL “CONVERSA COM O PRESIDENTE”  . O desempenho Brasil nos Jogos Pan-Americanos de Santiago, no Chile, foi um dos temas do Conversa com o Presidente desta terça, 31 de outubro.  “Fico muito feliz de saber que grande parte dos atletas que estão participando são pessoas que estão recebendo o Bolsa Atleta”, afirmou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva no bate-papo com o jornalista Marcos Uchôa. Ele lembrou da essência que conduziu à criação do programa em seu primeiro mandato, em 2005.  “O Bolsa Atleta criamos para garantir que as pessoas pobres, que não tinham dinheiro para comprar um tênis, pudessem praticar esporte, porque a iniciativa privada faz publicidade com o cara que dá retorno financeiro, mas ninguém que está começando dá retorno. Tínhamos exemplo de pessoas que corriam na rua sem tênis. Queriam fazer ciclismo e não tinham bicicleta. As pessoas precisam de um incentivo. De quem? Do Estado”, resumiu o presidente.    Em Santiago, dos 635 atletas (352 homens e 283 mulheres), incluindo os reservas inscritos em 60, um total de 469 são contemplados pelo Bolsa Atleta, 73,8% da delegação. O investimento direto nesse grupo só no edital de 2023 é de R$ 20,69 milhões. Levando em conta os atletas que já receberam o benefício ao menos uma vez na carreira, o número sobe para 579 (91%).  “Precisamos aproveitar o jeito esportivo do povo brasileiro. A vontade que eles têm e dar condições para essa gente treinar. Eu quando vejo a Rebeca com a medalha de ouro fico feliz. Sei como ela começou, sei que para ela ser uma medalhista de ouro não teve moleza, balada, tempo para descansar. É treino, treino, treino e treino. Somente assim a pessoa vai conseguir a medalha de ouro”, comentou o presidente Lula.

 

IMPACTOS DO PROGRAMA EM EVENTOS INTERNACIONAIS.

 

JOGOS OLÍMPICOS DE TÓQUIO 2021...O impacto da Bolsa Atleta foi comprovado mais uma vez nos Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Tóquio, disputados em 2021. Na edição olímpica, 19 dos 21 pódios do país (90,45%) tiveram a presença do Bolsa Atleta.  Já nos Jogos Paralímpicos, na campanha mais vitoriosa do Brasil na história, a digital do Bolsa Atleta esteve em 68 das 72 medalhas obtidas pelos atletas nacionais, ou 94,4% do total.  Vinte dos 22 ouros foram conquistados por bolsistas, assim como 18 das 20 pratas e os 100% dos 30 bronzes. Entre as 20 medalhas de ouro obtidas por bolsistas, 18 vieram de integrantes da categoria Pódio, a principal do Bolsa Atleta.

 

 

NOS JOGOS PANAMERICANOS DE SANTIAGO EM 2023

Até o fim desta segunda-feira, 30/10, o país somava 123 pódios, com 37 ouros, 47 pratas e 39 ouros, atrás apenas dos Estados Unidos no quadro de medalhas da competição. Dessas 123 medalhas, 112 (91,05%) têm a digital, a presença de integrantes do Bolsa Atleta, o programa de patrocínio direto a esportistas de alto desempenho do Governo Federal. Levando em conta as modalidades individuais e coletivas, 193 brasileiros já subiram ao pódio, 147 deles integrantes do programa do Governo Federal: 76,16%. Um exemplo impactante é o Judô Brasileiro  o país acumula 15 medalhas nos tatames, com sete ouros, duas pratas e seis bronzes. Até então, a melhor campanha da história do país tinha sido no Pan de 2011, em Guadalajara, no México. Na ocasião, foram seis ouros, três pratas e quatro bronzes. Nesta terça, o país ainda disputa a competição por equipes mistas. Ao todo, o Brasil tem 19 convocados no judô, 18 deles integrantes do Bolsa Atleta. O investimento direto anual no grupo dos 18 atletas soma R$ 1,43 milhão via Ministério do Esporte.

 

 

REFERÊNCIAS: 

SOBRE O PROGRAMA AMERICANO DE BOLSAS ATLETAS.... https://www.2svsports.com/bolsas-esportivas

 

O BOLSA ATLETA NOS GOVERNOS DA DIREITA (TEMER E BOLSONARO).  Bolsa Atleta tem queda de 47%, governo define contemplados... https://exame.com/economia/com-queda-de-47-governo-define-contemplados-pelo-bolsa-atleta/

 

SOBRE O BOLSA ATLETA

https://www.gov.br/esporte/pt-br/acoes-e-programas/bolsa-atleta/sobre-o-bolsa-atleta

 

 LULA FALA SOBRE O BOLSA ATLETA

Lula exalta Brasil no Pan: vice-liderança e digital do Bolsa Atleta em 91% dos pódios até agora.  https://www.gov.br/planalto/pt-br/acompanhe-o-planalto/noticias/2023/10/lula-exalta-brasil-no-pan-vice-lideranca-e-digital-do-bolsa-atleta-em-91-dos-podios-ate-agora.

 

quarta-feira, 1 de novembro de 2023

HEGEMONIA DO DÓLAR TERMINARÁ EM UMA DÉCADA

 

HEGEMONIA DO DÓLAR TERMINARÁ EM UMA DÉCADA, 

DIZ JEFFREY SACHS

 

A participação do dólar americano nas reservas cambiais globais diminuiu lentamente durante décadas. No entanto, no contexto da sua utilização como "arma de coerção", a tendência de desdolarização ganha impulso, com as restrições dos EUA servindo para desencadear mais comércio em moedas locais entre Moscou e os principais países não ocidentais.

O dólar americano vai deixar de ser a moeda dominante no sistema financeiro global nos próximos dez anos, acredita Jeffrey Sachs, economista da Universidade de Columbia.

"A época do sistema financeiro internacional dominado pelo dólar está chegando ao fim e isso acontecerá na próxima década", enfatizou o economista durante reunião do Clube de Discussão Valdai.

Segundo o economista norte-americano, o domínio dos EUA na economia global está em uma trajetória de declínio gradual. No final da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos eram responsáveis por 30% da produção mundial, enquanto este valor é agora de "apenas 15%", lembrou o economista.

"Esta percentagem diminuirá continuamente à medida que os países em desenvolvimento crescem mais rapidamente do que a economia dos EUA", observou.

Segundo o economista, "as moedas digitais do banco central se tornarão a base dos pagamentos". O especialista em finanças atribuiu a culpa pela tendência imparável às portas de Washington, acusando o governo dos EUA de ter abusado dos privilégios que a utilização do dólar como moeda preferida para o comércio global e para as reservas do banco central proporcionava.

"Um dos privilégios foi a possibilidade de contrair empréstimos a taxas de juros reduzidas. Isto também manteve um sistema bastante eficiente de pagamentos internacionais, mas os Estados Unidos abusaram deste sistema, especialmente nos últimos 15 anos", explicou Jeffrey Sachs.

Na verdade, os Estados Unidos "se tornaram dependentes da utilização do sistema financeiro para alcançar objetivos geopolíticos".

A 20ª reunião anual do Valdai International Discussion Club acontece de 2 a 5 de outubro em Sochi. O seu tema é "Multipolaridade justa: como garantir segurança e desenvolvimento para todos". A reunião atraiu mais de 140 especialistas, políticos e diplomatas de 42 países da Eurásia, África, bem como da América do Norte e do Sul.

Na verdade, a desdolarização parece ser uma tendência persistente que os Estados Unidos vão ter de enfrentar, gostem ou não. E é bastante óbvio que o próprio armamento intencional da sua moeda por parte de Washington, através do uso de sanções, é um dos principais impulsionadores desta tendência económica.

O lento declínio do dólar americano acelerou em 2022, quando Washington e os seus aliados procuraram "paralisar" a Rússia com sanções no meio da crise na Ucrânia. As restrições, juntamente com a decisão de congelar uma parte das reservas cambiais da Rússia, levaram os principais países não ocidentais, incluindo mesmo os aliados e parceiros tradicionais de longa data dos EUA, a avaliar os perigos potenciais de apostar tudo no dólar. Embora as sanções punitivas tenham "saído pela culatra" contra os mesmos países que recorreram a elas, Moscou e os seus parceiros reagiram aumentando o comércio em moedas locais. A participação do rublo nos pagamentos das exportações russas ultrapassou os 50% e representa mais de um terço do comércio externo total da Rússia, revelou o chefe interino do Serviço Federal de Alfândega, Ruslan Davydov, no início deste mês.

Recentemente, uma nova investigação europeia confirmou que, por exemplo, o aumento da utilização do yuan no comércio entre a Rússia e a China está minando o domínio do dólar americano.

"Ao longo de 2022, a parcela das importações da Rússia faturadas em yuan (CNY) aumentou 17 pontos percentuais", afirmou um documento do Banco Europeu de Reconstrução e Desenvolvimento (BERD). No final do ano passado, 20% das importações da Rússia foram faturadas em yuan. Além disso, o uso do yuan para liquidar importações de terceiros países também aumentou, atingindo 5%, acrescentou o artigo.

Além disso, no meio do crescente uso do dólar pelos EUA "como arma", na recente cúpula dos BRICS em Joanesburgo, os membros manifestaram a sua determinação em aumentar a utilização de moedas locais nas transacções comerciais e financeiras, tanto entre os membros dos BRICS como com os seus parceiros.

Com a adição de seis novas economias regionais poderosas da América Latina, África e Oriente Médio ao bloco original de cinco nações, o BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) que agrupa as principais economias do mundo não-ocidental agora contabiliza cerca de 37% do produto interno bruto (PIB) global, em comparação com cerca de 30% do G7.

 

FONTE: 

https://sputniknewsbr.com.br/20231004/analista-hegemonia-do-dolar-terminara-em-uma-decada-apos-ser-usado-com-objetivos-geopoliticos-30656448.html

 

 

quarta-feira, 20 de setembro de 2023

ÍNTEGRA DO DISCURSO DE LULA NA 78ª ASSEMBLEIA GERAL DA ONU

 

ÍNTEGRA DO DISCURSO ANTOLÓGICO DE LULA NA ONU – BRASIL247 - 19 de setembro de 2023.

247 — O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), na 78ª Assembleia Geral da ONU, conclamou o órgão mundial a atuar pela paz e contra as desigualdades. Lula falou sobre a fome mundial, criticou o neoliberalismo e os países ricos pela falta de multilateralismo internacional e pela crise climática. Confira na íntegra.

Discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na abertura da 78ª Assembleia da ONU.

Meus cumprimentos ao Presidente da Assembleia Geral, Embaixador Dennis Francis, de Trinidad e Tobago.  É uma satisfação ser antecedido pelo Secretário-Geral das Nações Unidas, António Guterres. Saúdo cada um dos Chefes de Estado e de Governo e delegadas e delegados presentes.

Presto minha homenagem ao nosso compatriota Sérgio Vieira de Mello e 21 outros funcionários desta Organização, vítimas do brutal atentado em Bagdá, há 20 anos.

Desejo igualmente expressar minhas condolências às vítimas do terremoto no Marrocos e das tempestades que atingiram a Líbia.

A exemplo do que ocorreu recentemente no estado do Rio Grande do Sul no meu país, essas tragédias ceifam vidas e causam perdas irreparáveis.

Nossos pensamentos e orações estão com todas as vítimas e seus familiares.

Senhoras e Senhores

Há vinte anos, ocupei esta tribuna pela primeira vez.

E disse, naquele 23 de setembro de 2003:

"Que minhas primeiras palavras diante deste Parlamento Mundial sejam de confiança na capacidade humana de vencer desafios e evoluir para formas superiores de convivência”

Volto hoje para dizer que mantenho minha inabalável confiança na humanidade.

Naquela época, o mundo ainda não havia se dado conta da gravidade da crise climática.

Hoje, ela bate às nossas portas, destroi nossas casas, nossas cidades, nossos países, mata e impõe perdas e sofrimentos a nossos irmãos, sobretudo os mais pobres.

A fome, tema central da minha fala neste Parlamento Mundial 20 anos atrás, atinge hoje 735 milhões de seres humanos, que vão dormir esta noite sem saber se terão o que comer amanhã.

O mundo está cada vez mais desigual.

Os 10 maiores bilionários possuem mais riqueza que os 40% mais pobres da humanidade.

O destino de cada criança que nasce neste planeta parece traçado ainda no ventre de sua mãe.

A parte do mundo em que vivem seus pais e a classe social à qual pertence sua família irão determinar se essa criança terá ou não oportunidades ao longo da vida.

Se irá fazer todas as refeições ou se terá negado o direito de tomar café da manhã, almoçar e jantar diariamente.

Se terá acesso à saúde, ou se irá sucumbir a doenças que já poderiam ter sido erradicadas.

Se completará os estudos e conseguirá um emprego de qualidade, ou se fará parte da legião de desempregados, subempregados e desalentados que não para de crescer.

É preciso antes de tudo vencer a resignação, que nos faz aceitar tamanha injustiça como fenômeno natural.

Para vencer a desigualdade, falta vontade política daqueles que governam o mundo.

Senhores e senhoras

Se hoje retorno na honrosa condição de presidente do Brasil, é graças à vitória da democracia em meu país.

A democracia garantiu que superássemos o ódio, a desinformação e a opressão.

A esperança, mais uma vez, venceu o medo.

Nossa missão é unir o Brasil e reconstruir um país soberano, justo, sustentável, solidário, generoso e alegre.

O Brasil está se reencontrando consigo mesmo, com nossa região, com o mundo e com o multilateralismo.

Como não me canso de repetir, o Brasil está de volta.

Nosso país está de volta para dar sua devida contribuição ao enfrentamento dos principais desafios globais.

Resgatamos o universalismo da nossa política externa, marcada por diálogo respeitoso com todos.

A comunidade internacional está mergulhada em um turbilhão de crises múltiplas e simultâneas: a pandemia da Covid-19; a crise climática; e a insegurança alimentar e energética ampliadas por crescentes tensões geopolíticas.

O racismo, a intolerância e a xenofobia se alastraram, incentivadas por novas tecnologias criadas supostamente para nos aproximar.

Se tivéssemos que resumir em uma única palavra esses desafios, ela seria desigualdade.

A desigualdade está na raiz desses fenômenos ou atua para agravá-los.

A mais ampla e mais ambiciosa ação coletiva da ONU voltada para o desenvolvimento – a Agenda 2030 – pode se transformar no seu maior fracasso.

Estamos na metade do período de implementação e ainda distantes das metas definidas.

A maior parte dos objetivos de desenvolvimento sustentável caminha em ritmo lento.

O imperativo moral e político de erradicar a pobreza e acabar com a fome parece estar anestesiado.

Nesses sete anos que nos restam, a redução das desigualdades dentro dos países e entre eles deveria se tornar o objetivo-síntese da Agenda 2030.

Reduzir as desigualdades dentro dos países requer incluir os pobres nos orçamentos nacionais e fazer os ricos pagarem impostos proporcionais ao seu patrimônio.

No Brasil, estamos comprometidos a implementar todos os 17 objetivos de desenvolvimento sustentável, de maneira integrada e indivisível.

Queremos alcançar a igualdade racial na sociedade brasileira por meio de um décimo oitavo objetivo que adotaremos voluntariamente.

Lançamos o plano Brasil sem Fome, que vai reunir uma série de iniciativas para reduzir a pobreza e a insegurança alimentar.

Entre elas, está o Bolsa Família, que se tornou referência mundial em programas de transferência de renda para famílias que mantêm suas crianças vacinadas e na escola.

Inspirados na brasileira Bertha Lutz, pioneira na defesa da igualdade de gênero na Carta da ONU, aprovamos a lei que torna obrigatória a igualdade salarial entre mulheres e homens no exercício da mesma função.

Combateremos o feminicídio e todas as formas de violência contra as mulheres.

Seremos rigorosos na defesa dos direitos de grupos LGBTQI+ e pessoas com deficiência.

Resgatamos a participação social como ferramenta estratégica para a execução de políticas públicas.

Senhor presidente

Agir contra a mudança do clima implica pensar no amanhã e enfrentar desigualdades históricas.

Os países ricos cresceram baseados em um modelo com altas taxas de emissões de gases danosos ao clima.

A emergência climática torna urgente uma correção de rumos e a implementação do que já foi acordado.

Não é por outra razão que falamos em responsabilidades comuns, mas diferenciadas.

São as populações vulneráveis do Sul Global as mais afetadas pelas perdas e danos causados pela mudança do clima.

Os 10% mais ricos da população mundial são responsáveis por quase a metade de todo o carbono lançado na atmosfera.

Nós, países em desenvolvimento, não queremos repetir esse modelo.

No Brasil, já provamos uma vez e vamos provar de novo que um modelo socialmente justo e ambientalmente sustentável é possível.

Estamos na vanguarda da transição energética, e nossa matriz já é uma das mais limpas do mundo.

87% da nossa energia elétrica provem de fontes limpas e renováveis.

A geração de energia solar, eólica, biomassa, etanol e biodiesel cresce a cada ano.

É enorme o potencial de produção de hidrogênio verde.

Com o Plano de Transformação Ecológica, apostaremos na industrialização e infraestrutura sustentáveis.

Retomamos uma robusta e renovada agenda amazônica, com ações de fiscalização e combate a crimes ambientais.

Ao longo dos últimos oito meses, o desmatamento na Amazônia brasileira já foi reduzido em 48%.

O mundo inteiro sempre falou da Amazônia. Agora, a Amazônia está falando por si.

Sediamos, há um mês, a Cúpula de Belém, no coração da Amazônia, e lançamos nova agenda de colaboração entre os países que fazem parte daquele bioma.

Somos 50 milhões de sul-americanos amazônidas, cujo futuro depende da ação decisiva e coordenada dos países que detêm soberania sobre os territórios da região.

Também aprofundamos o diálogo com outros países detentores de florestas tropicais da África e da Ásia.

Queremos chegar à COP 28 em Dubai com uma visão conjunta que reflita, sem qualquer tutela, as prioridades de preservação das bacias Amazônica, do Congo e do Bornéu-Mekong a partir das nossas necessidades.

Sem a mobilização de recursos financeiros e tecnológicos não há como implementar o que decidimos no Acordo de Paris e no Marco Global da Biodiversidade.

A promessa de destinar 100 bilhões de dólares – anualmente – para os países em desenvolvimento permanece apenas isso, uma promessa.

Hoje esse valor seria insuficiente para uma demanda que já chega à casa dos trilhões de dólares.

Senhor presidente

O princípio sobre o qual se assenta o multilateralismo – o da igualdade soberana entre as nações – vem sendo corroído.

Nas principais instâncias da governança global, negociações em que todos os países têm voz e voto perderam fôlego.

Quando as instituições reproduzem as desigualdades, elas fazem parte do problema, e não da solução.

No ano passado, o FMI disponibilizou 160 bilhões de dólares em direitos especiais de saque para países europeus, e apenas 34 bilhões para países africanos.

A representação desigual e distorcida na direção do FMI e do Banco Mundial é inaceitável.

Não corrigimos os excessos da desregulação dos mercados e da apologia do Estado mínimo.

As bases de uma nova governança econômica não foram lançadas.

O BRICS surgiu na esteira desse imobilismo, e constitui uma plataforma estratégica para promover a cooperação entre países emergentes.

A ampliação recente do grupo na Cúpula de Joanesburgo fortalece a luta por uma ordem que acomode a pluralidade econômica, geográfica e política do século 21.

Somos uma força que trabalha em prol de um comércio global mais justo num contexto de grave crise do multilateralismo.

O protecionismo dos países ricos ganhou força e a Organização Mundial do Comércio permanece paralisada, em especial o seu sistema de solução de controvérsias.

Ninguém mais se recorda da Rodada do Desenvolvimento de Doha.

Nesse ínterim, o desemprego e a precarização do trabalho minaram a confiança das pessoas em tempos melhores, em especial os jovens.

Os governos precisam romper com a dissonância cada vez maior entre a “voz dos mercados” e a “voz das ruas”.

O neoliberalismo agravou a desigualdade econômica e política que hoje assola as democracias.

Seu legado é uma massa de deserdados e excluídos.

Em meio aos seus escombros surgem aventureiros de extrema direita que negam a política e vendem soluções tão fáceis quanto equivocadas.

Muitos sucumbiram à tentação de substituir um neoliberalismo falido por um nacionalismo primitivo, conservador e autoritário.

Repudiamos uma agenda que utiliza os imigrantes como bodes expiatórios, que corrói o Estado de bem-estar e que investe contra os direitos dos trabalhadores.

Precisamos resgatar as melhores tradições humanistas que inspiraram a criação da ONU.

Políticas ativas de inclusão nos planos cultural, educacional e digital são essenciais para a promoção dos valores democráticos e da defesa do Estado de Direito.

É fundamental preservar a liberdade de imprensa.

Um jornalista, como Julian Assange, não pode ser punido por informar a sociedade de maneira transparente e legítima.

Nossa luta é contra a desinformação e os crimes cibernéticos.

Aplicativos e plataformas não devem abolir as leis trabalhistas pelas quais tanto lutamos.

Ao assumir a presidência do G20 em dezembro próximo, não mediremos esforços para colocar no centro da agenda internacional o combate às desigualdades em todas as suas dimensões.

Sob o lema "Construindo um Mundo Justo e um Planeta Sustentável", a presidência brasileira vai articular inclusão social e combate à fome; desenvolvimento sustentável e reforma das instituições de governança global.

Senhor presidente,

Não haverá sustentabilidade nem prosperidade sem paz.

Os conflitos armados são uma afronta à racionalidade humana.

Conhecemos os horrores e os sofrimentos produzidos por todas as guerras.

A promoção de uma cultura de paz é um dever de todos nós. Construí-la requer persistência e vigilância.

É perturbador ver que persistem antigas disputas não resolvidas e que surgem ou ganham vigor novas ameaças.

Bem o demonstra a dificuldade de garantir a criação de um Estado para o povo palestino.

A este caso se somam a persistência da crise humanitária no Haiti, o conflito no Iêmen, as ameaças à unidade nacional da Líbia e as rupturas institucionais em Burkina Faso, Gabão, Guiné-Conacri, Mali, Níger e Sudão.

Na Guatemala, há o risco de um golpe, que impediria a posse do vencedor de eleições democráticas.

A guerra da Ucrânia escancara nossa incapacidade coletiva de fazer prevalecer os propósitos e princípios da Carta da ONU.

Não subestimamos as dificuldades para alcançar a paz.

Mas nenhuma solução será duradoura se não for baseada no diálogo.

Tenho reiterado que é preciso trabalhar para criar espaço para negociações.

Investe-se muito em armamentos e pouco em desenvolvimento.

No ano passado os gastos militares somaram mais de 2 trilhões de dólares.

As despesas com armas nucleares chegaram a 83 bilhões de dólares, valor vinte vezes superior ao orçamento regular da ONU.

Estabilidade e segurança não serão alcançadas onde há exclusão social e desigualdade.

A ONU nasceu para ser a casa do entendimento e do diálogo.

A comunidade internacional precisa escolher:

De um lado, está a ampliação dos conflitos, o aprofundamento das desigualdades e a erosão do Estado de Direito.

De outro, a renovação das instituições multilaterais dedicadas à promoção da paz.

As sanções unilaterais causam grande prejuízos à população dos países afetados.

Além de não alcançarem seus alegados objetivos, dificultam os processos de mediação, prevenção e resolução pacífica de conflitos.

O Brasil seguirá denunciando medidas tomadas sem amparo na Carta da ONU, como o embargo econômico e financeiro imposto a Cuba e a tentativa de classificar esse país como Estado patrocinador de terrorismo.

Continuaremos críticos a toda tentativa de dividir o mundo em zonas de influência e de reeditar a Guerra Fria.

O Conselho de Segurança da ONU vem perdendo progressivamente sua credibilidade.

Essa fragilidade decorre em particular da ação de seus membros permanentes, que travam guerras não autorizadas em busca de expansão territorial ou de mudança de regime.

Sua paralisia é a prova mais eloquente da necessidade e urgência de reformá-lo, conferindo-lhe maior representatividade e eficácia.

Senhoras e senhores

A desigualdade precisa inspirar indignação.

Indignação com a fome, a pobreza, a guerra, o desrespeito ao ser humano.

Somente movidos pela força da indignação poderemos agir com vontade e determinação para vencer a desigualdade e transformar efetivamente o mundo a nosso redor.

A ONU precisa cumprir seu papel de construtora de um mundo mais justo, solidário e fraterno.

Mas só o fará se seus membros tiverem a coragem de proclamar sua indignação com a desigualdade e trabalhar incansavelmente para superá-la.

Muito obrigado.

FONTE:   https://www.brasil247.com/poder/leia-a-integra-do-discurso-antologico-de-lula-na-onu