terça-feira, 3 de março de 2020


BALANÇO 2019 : Setor financeiro cresce 31,58%. Setor produtivo: 0,89%

Economia e sistema de proteção social entram em colapso no governo de Jair Bolsonaro

Economista Denise Gentil alerta que a chegada de Bolsonaro ao poder aprofundou a crise econômica e gerou colapso do sistema de proteção social do país, colocando os mais pobres na miséria
Por  Jornal GGN  - 02/03/2020
Rosely Rocha (CUT) entrevista a prof.ª de economia da UFRJ, Denise Gentil.
Não há nenhum interesse pelo crescimento econômico. O que precisa ter lucro é o capital da esfera financeira e isto pode ser alcançado independentemente da indústria, do comércio e serviços. Este capital não tem nenhum interesse na fome do brasileiro nem na morte de jovens na periferia.” Denise Gentil.

Após o primeiro ano de governo de Jair Bolsonaro (sem partido), o país vive um momento de enorme gravidade econômica e social, com uma implacável destruição do Estado Democrático de Direito e de ruptura do pacto civilizatório, antes amparado pela Constituição Federal de 1988. Esta situação gerou uma enorme violência para a grande maioria dos trabalhadores e das trabalhadoras que vive sem nenhuma perspectiva de uma vida mais digna.
A constatação é da professora de economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (URFJ), Denise Gentil, após analisar os números da economia do país.
Para ela, há um emaranhado de fatores nocivos como a reforma da Previdência, a queda brutal do investimento público, a desindustrialização do país, a devastação do meio ambiente (tanto por desastres provocados por empresas quanto por eventos climáticos extremos), a desregulamentação do mercado de trabalho, o desmantelamento da educação e da saúde pública e a privatização de recursos naturais e dos serviços públicos essenciais à população que levaram inevitavelmente à atual crise social e econômica de grandes proporções.
Confira os resultados negativos da economia, após as medidas tomadas pelo governo Bolsonaro:
0,89% de crescimento econômico (previsão do PIB feita pelo Boletim Focus do Banco Central). O  mercado financeiro projetou 2,53% de crescimento no início do ano no primeiro relatório Focus.
queda de 1,1 % da produção industrial em relação ao ano anterior. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgados em 4 de fevereiro deste ano, a indústria brasileira operou 18% abaixo do ponto mais alto registrado em maio de 2011. Em seis anos (2014/2019) a indústria brasileira perdeu 14,8%.
11,9% é a taxa de desemprego médio de 2019, atingindo 12,6 milhões de pessoas, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD) Continua do IBGE;
a taxa de informalidade é de 41,1%. São 38,4 milhões de pessoas trabalhando de forma muito precária, um recorde dos últimos quatro anos;
a renda domiciliar dos 20% mais pobres caiu 11,5%, enquanto a dos 20% mais ricos registrou um aumento real de 6% ainda segundo a PNAD Contínua do IBGE.
Há 63,4 milhões de inadimplentes no país (dados de agosto/2019 da Serasa Experian).  Cerca de 40% da população adulta deixaram de honrar seus compromissos financeiros.
O investimento público em 2017 foi o menor em 50 anos, impactando severamente na falta de dinamismo da economia brasileira. No entanto, em 2019, o investimento do Governo Central foi de apenas 0,8% do PIB, segundo dados do Tesouro Nacional.
Elite apoia as medidas
Para a professora Denise Gentil, as medidas tomadas pelo governo tiveram um amplo apoio da elite econômica do país, que se interessa apenas em resguardar os ganhos financeiros na Bolsa de Valores, nos títulos públicos e nos vários ativos financeiros.
É uma espécie de domínio econômico e político que não apenas alterou completamente o funcionamento das regras democráticas, mas que também não se importa com a falta de crescimento econômico, com o alto índice de desemprego e miséria, com o aumento dos sem-teto, com a morte por violência na periferia e com as perdas dos direitos sociais que desprotege os mais vulneráveis”, critica.
Ela ressalta ainda que, segundo a Síntese de Indicadores Sociais do IBGE, entre 2015 e 2018, em média, 1 milhão de brasileiros desceram para um patamar abaixo da linha de pobreza ao ano. De acordo com o Banco Mundial está abaixo da linha de pobreza quem tem rendimento de US$ 1,90 diário.
O último dado do IBGE é de 2018 e mostra que 13,5 milhões de pessoas (6,5%) têm renda inferior a US$ 1,90 ao dia. Esse contingente é maior que a população de países como Portugal, Bélgica e Grécia”.
Ricos investem no mercado financeiro
A professora de economia vê na hipertrofia da especulação financeira, a chamada financeirização e no aprofundamento da dinâmica neoliberal, os principais motivos para os baixos índices da economia brasileira.
Ela, que vem estudando há alguns anos o processo de financeirização da economia brasileira e mundial, diz que os recursos para investimentos produtivos passaram a ser alocados preferencialmente em ativos financeiros, não importando os impactos negativos, como o baixo crescimento, o aumento das crises financeiras, o desemprego, a concentração de renda e da riqueza e a deterioração das finanças públicas causada pela queda da arrecadação e pelo aumento da despesa financeira do setor público.
A política neoliberal resulta em grandes ganhos para o capital financeiro investido em títulos públicos e na Bolsa de Valores. O ganho no ano passado na Bolsa foi de 31,58%, o quarto ano consecutivo de ganhos do Ibovespa. O lucro acumulado pelos quatro maiores bancos, Itaú, Santander, Bradesco e Banco do Brasil, foi de R$ 59,7 bilhões, um aumento de 14,6% em relação a 2018, segundo dados da empresa Economatica. Enquanto isso, o PIB cresceu menos de 1%”, diz.
Segundo Denise, as forças conservadoras promoveram um novo padrão de riqueza no capitalismo, a ‘ financeirização’ que impõe uma política econômica que lhe é favorável. Austeridade fiscal, metas de inflação muito baixas, privatizações, desmonte dos bancos públicos, ausência de controle sobre entrada e saída de capital e desregulação do mercado de trabalho que resultam em violenta  segregação social, com níveis de investimentos e empregos baixos. Não existe espaço para a realização de políticas públicas.
Os direitos sociais são considerados empecilhos, ‘privilégios’, tidos como prejudiciais à economia”, afirma a economista.
O neoliberalismo econômico pós golpe de 2016
Para que Jair Bolsonaro e as forças conservadoras provocassem esse caos na economia, deve-se voltar um pouco no tempo e analisar os efeitos da Emenda Constitucional (EC) nº 95, do Teto dos Gastos Públicos, aprovada no governo golpista de Michel Temer, acredita a professora de Economia da URFJ.
Somente na área da saúde o corte de gasto causado pela EC 95, foi de R$ 9,5 bilhões, em 2019. Se a regra anterior ainda valesse, teriam sido aplicados  no ano passado, em saúde 14,5% da Receita Corrente Líquida (RCL), o equivalente ao valor de R$ 131,3 bilhões. Com o corte o setor ficou com apenas R$ 122,3 bilhões.
Segundo Denise Gentil, o avanço da financeirização impôs o Teto dos Gastos para limitar as políticas públicas e desconstruiu o estado de bem estar social. Isto atingiu, em 2019, só na saúde, o programa Farmácia Popular, a vacinação, e levou à queda de investimentos em pesquisas.
E não apenas isso. Houve redução no gasto federal com educação superior, seguro desemprego, saneamento básico e com o programa Minha Casa Minha Vida”, conta a professora da URFJ.
Futuro sombrio
Para Denise Gentil, há muitos motivos para a crise continuar produzindo estragos em 2020. Os dados muito fracos da atividade econômica no Brasil se juntam às fortes incertezas no mercado mundial causadas pela crise na Argentina e a desaceleração da China e Europa, provocada pelo coronavírus, o que impactará fortemente as exportações.
No ano de 2019, a Bolsa de Valores de São Paulo teve uma fuga de capital estrangeiro de US$ 44,5 bilhões e agora com a epidemia do coronavírus as empresas brasileiras, principalmente as do agronegócio que exportam carne bovina para a China, perderam R$ 398 bilhões em valor de mercado. Entre janeiro e 27 de fevereiro de 2020, a saída de capitais da bolsa foi de R$ 35 bilhões.
Combater o coronavírus não é apenas uma medida de saúde coletiva, mas é também a salvação da Bolsa de Valores”, avalia.
No entanto, para a economista, não é apenas a crise financeira mundial provocada pelo coronavírus o motivo da queda na Bolsa brasileira.
O insucesso do leilão do pré-sal pela Petrobras e a falta de confiança nos resultados da política econômica de Bolsonaro, também são fatores que produziram essa queda”, afirma.
Para piorar a crise econômica, a previsão de algumas instituições financeiras, segundo Denise, para o Produto Interno Bruto (PIB) é de um crescimento baixo, que já está em apenas 1,4% e não de 2% como pretende a equipe econômica do governo.
Ela afirma que o  ministro da Economia, Paulo Guedes, já enfrenta um desgaste muito grande porque a queda nos juros, o arrocho fiscal e a reforma da Previdência não estão alavancando a economia conforme foi prometido por ele.
O alto patamar de desemprego, o elevado endividamento das famílias e os investimentos públicos muito baixos geram expectativas de desmoronamento na demanda e produzem um clima de elevada incerteza nos investidores, paralisando os investimentos produtivos. Além disso, há fuga de capitais da bolsa, que neste governo já chegou a R$80 bilhões. Estamos perdendo reservas internacionais de forma acelerada e há perigo de crise externa no horizonte. Em síntese, a gestão de Guedes tem sido desastrosa”, afirma.
Declarações de Bolsonaro contra a democracia agravam crise econômica

O mercado financeiro internacional está temeroso em investir no país por causa do risco político que vem das frequentes declarações de Jair Bolsonaro. Seus recentes ataques ao Congresso Nacional impactam negativamente na economia porque as reformas que o mercado financeiro ainda quer aprovar, podem ser paralisadas e gerar incertezas.
Há um clima de enfrentamento entre os Poderes. O mercado financeiro e as forças conservadoras desejam a reforma dos fundos públicos, a reforma administrativa e a reforma tributária para reduzir ainda mais o espaço de políticas que não sejam aquelas que favorecem as finanças. Ocorre que a disputa política de Bolsonaro com os setores progressistas do Congresso pode paralisar tudo isso, principalmente em ano de eleição”.

Só a união e luta dos trabalhadores podem frear a crise financeira

A professora de economia defende que é a classe trabalhadora que precisa e que se interessa pelo crescimento econômico para ter empregos  e viver com dignidade.
Se não houver a resistência das forças progressistas e as urgentes alianças políticas contra o aprofundamento desse ultra financismo misturado com golpe de Estado, não haverá saída para os trabalhadores”, diz.
Denise Gentil defende ainda que precisamos encontrar o caminho que nos leve a escapar do labirinto da desmobilização e do comodismo. Segundo ela, é  uma tarefa dificílima, mas já conseguimos realizá-la no passado. A tarefa fundamental é criar um ambiente político que promova a reversão da reforma da previdência e da reforma trabalhista, que acabe definitivamente com a austeridade fiscal para recuperarmos os empregos, que promova o perdão da dívida dos estudantes universitários, que nos proporcione uma saúde pública de fato universal e digna, uma educação voltada para o progresso social, que promova a reestatização da Petrobrás, a retomada dos bancos públicos, o controle ambiental em favor dos povos e da vida.
São tarefas gigantescas, proporcionais às imensas perdas recentes, mas é na a luta que conseguiremos encontrar os caminhos e vencer a desesperança. Não é tarde para reescrevermos nossa história. Será preciso muita resistência, estratégia e inteligência política para frear este modelo econômico que traz perspectivas profundamente nefastas. Precisamos de lideranças que reúnam essa capacidade de reformular o país”, diz.
CUT e Centrais sindicais convocam trabalhadores em defesa de direitos
A união da classe trabalhadora em defesa dos seus direitos e pela democracia,   que prega a professora de economia da URFJ, Denise Gentil, começa a se tornar realidade com a decisão das centrais sindicais em promover no próximo dia 18 de março, o Dia Nacional de Luta em Defesa do Serviço Público, Estatais, Emprego e Salário, Soberania, Defesa da Amazônia e Agricultura Familiar”.
Convocado pela CUT e demais Centrais sindicais, o 18 de março será um dia de mobilizações nos locais de trabalho, paralisações e atos nas principais capitais e nas cidades do interior do país.


quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020


O NEOFASCISMO E A ELEIÇÃO DE UM MEME


O livro “Tudo O Que Você Precisou Desaprender Para Virar Um Idiota” editado pelos autores (Álvaro Borba e Ana Lesnovski) do blog Meteoro Brasil (São Paulo, Editora Planeta, 2019), na verdade foi escrito como réplica ao livro “O Mínimo que Você Precisa Saber para não Ser um Idiota ", do guru do ultraconservadorismo neofascista brasileiro Olavo de Carvalho (Rio, Record, 2013) e suas teses conspiratórias….. O grupo Meteoro Brasil desmascara as principais teses do grupo olavista, desvendando as 24 principais. Não vamos discutir aqui as teses conspiratórias muito bem destrinchadas no livro. Mas vamos resumir as principais ideias que estão nos prólogos, debatidas no livro para combater as fantasias e ficções criadas pela ultra-direita brasileira visando dominar o universo imaginário dos eleitores e da população brasileira e desta forma inverter valores usando as novas tecnologias do mundo das mídias eletrônicas e digitais….tentam transformar a VERDADE em MENTIRA e vice-versa, num processo contínuo de destruição da realidade e de morte à verdade.

Para os autores o idiota era um egoísta no passado e continua sendo. A diferença é que antes ele ficava fora da política. Hoje, ele é a política. Tudo é feito por ele, para ele, em nome dele. Por isso, a prioridade absoluta do idiota é combater qualquer filosofia ou doutrina que pregue valores coletivos. Se há um coletivo, o idiota se sente ameaçado em seu direito sagrado de ser idiota.. Esta foi a primeira lição que foi preciso desaprender para virar um idiota.



PRÁTICAS AUTORITÁRIAS E/OU NEOFASCISTAS DA “NOVA DIREITA” BRASILEIRA
Meteoro cita dois autores para ajudar a identificar as práticas autoritárias e neofascistas dos líderes da “nova direita” brasileira.

Meteoro cita o livro Como as democracias morrem de Steven Levitsky, cientista político da Universidade de Harvard. O autor do livro elabora um modelo bem simples para identificar potenciais tendências autoritárias de um líder. O teste precisa apenas de 4 etapas para entregar o resultado : primeiro observamos se o líder em questão rejeita as regras do jogo democrático (quando p.ex. Ele diz que não aceitará o resultado em caso de derrota nas eleições); em segundo lugar, precisamos ficar atentos a qualquer discurso ou comportamento que encoraje a violência (usando arminha ou estimulando criança a usar arma); em terceiro lugar o político nega a legitimidade da existência de seus adversários políticos (se ele diz, hipoteticamente que os adversários merecem ser metralhados); e por último, devemos reparar se o aspirante ao cargo, em algum momento sugere que usará seu poder para restringir as liberdades civis de seus opositores ou prejudicá-los de alguma forma (alguém que se diz disposto a acabar com todos os “ativismos do Brasil” ). O fenômeno é perigoso, no século XXI não é com tanques de guerra nas ruas e tiros de canhão que se mata uma democracia, mas elegendo alguém disposto a subverter as regras do jogo. Nesse empenho a comunicação é a ferramenta perfeita, pois é no âmbito dos significados que reside a maior disputa por poder na atualidade. A guerra é semântica e mesmo os adeptos das teorias conspiratórias mais alucinadas parecem reconhecê-la quando escolhem nominar seus esforços para exercer poder na arena discursiva como “guerra cultural”.

Meteoro cita outro livro Como funciona o fascismo de Jason Stanley que destaca 10 características fundamentais que se unem para formar o conceito escondido na palavra “fascismo”. O primeiro desses pilares consiste em despertar nas pessoas uma nostalgia que viabilizará as etapas seguintes. Na retórica fascista é a busca pelo “passado mítico”. No caso do Brasil, a nostalgia pelo período da ditadura militar. O segundo pilar do fascismo é a propaganda que se dedica a inverter as coisas : doutrinadores falam em luta contra a doutrinação e corruptos falam em luta contra a corrupção. A terceira característica fascista é o anti-intelectualismo : as universidades são hostilizadas por disseminar muita doutrinação e pouca educação, servindo como propagadoras de todo tipo de imoralidade. O quarto pilar é o esfacelamento da verdade, é a presença massiva de teorias conspiratórias no debate político. A destruição da realidade também é fundamental. Quando o consenso sobre a realidade é destruído e o medo de inimigos imaginários é disseminado por meio de teorias conspiratórias, tudo o que se pode fazer é confiar num líder e acreditar que seus discursos são verdadeiros. O fascismo transforma as palavras do líder no único referencial possível para a compreensão da realidade. Faz sentido, pois fascismo é sobre lealdade, nunca liberdade. Uma quinta característica do fascismo é a divisão da sociedade em “nós” e “eles”. Seus seguidores não hesitam em expressar sua pretensa superioridade. Ex: um deputado diz no Congresso à uma deputada de posição política oposta que ele não a estupra porque ela não merece. Uma sexta característica é a vitimização : o grupo dominante se diz vítimas das minorias. Justiça social e promoção da igualdade é encarada como uma violência cometida contra o grupo dominante. Ex: cotas de negros nas universidades. A sétima característica do fascismo é a criminalização de suas dissidências pelo princípio de “lei e ordem”. Se um presidente vence uma eleição e, ao comemorar sua vitória, diz que o concorrente logo estará na cadeia, ele ergue este pilar, não importa se é bravata. O oitavo pilar do fascismo é a disseminação da tensão sexual que apela para nossos medos mais íntimos. Os opositores do líder são considerados naturalmente imorais, dados a todo tipo de prática sexual para lá de contestável. Ex: mamadeira de piroca e kit gay foram os assuntos mais comentados na corrida presidencial. Não é um bom sinal. No nono passo, o fascismo expande o que conquistou espalhando tensão sexual. Grupo dominante: pureza tradicional e ancestral. Opositores : imoralidade moderna e urbana. O grupo dominante precisa assumir a liderança moral e ensinar aos seus opositores, muito hipoteticamente, que menino veste azul e menina veste rosa. Por último, no décimo passo, o fascismo estabelece a noção de que qualquer um que resista a seu domínio é um preguiçoso. Stanley nos alerta para todos os horrores que se tornam justificáveis quando julgamos que contra nós há apenas monstros imorais e preguiçosos. A oposição só quer a queda do fascismo para continuar na mamata.

É necessário ressaltar o papel central da destruição da realidade nisso tudo : é só porque os seguidores do grande líder perderam qualquer contato com a verdade que eles se rendem a seus piores ódios e temores. E pouco importa se esses ódios e temores são exatamente os mesmos do fascismo da primeira metade do século XX. Os métodos são os mesmos : o ataque deliberado contra a realidade faz parte da técnica. O receptor de rádio mais difundido na Alemanha nazista era o VE301 (30 de janeiro é aniversário da chegada de Hitler ao poder). O Estado obrigou os três fabricantes a produzirem o mesmíssimo aparelho a preço superbarato. O rádio era equipado para receber apenas as transmissões internas do regime. Em 1939 o aparelho estava em 12,5 milhões de residências alemãs que só ouviam os discursos nazistas.. O rádio permitia ao Fuhrer e aos ideais do regime uma presença massiva e simultânea nos lares alemães e o ministro Joseph Goebbels se encarregou pela comunicação nazista. Goebbels percebeu seu papel como agente de controle do fluxo de informação (monopólio da informação), atuando como ampliador dos canais que permitiriam a chegada da mensagem do partido a quem mais pudesse ser influenciado por ela. O investimento governamental do rádio permitiu que a versão do governo (em detrimento das outras versões) para as notícias mais quentes do dia estivesse servida diariamente na mesa de cada família alemã.

Da mesma forma, no século XXI, alguém capaz de mobilizar um aparato de disparo massivo de conteúdo estaria operando segundo os mesmos princípios --- seja por meio de um aplicativo de troca de mensagens, seja instruindo seus apoiadores a consumirem informação apenas de suas fontes selecionadas, retirando a credibilidade de todas as outras. Talvez a verdade tenha morrido porque o fascismo – fascismo como técnica mais do que como regime político – finalmente voltou a encontrar as ferramentas necessárias para cometer o ato. Se conseguiu muito do que queria só agora, foi porque a tecnologia lhe concedeu novas possibilidades.


A ELEIÇÃO DE UM MEME

Meteoro cita o livro de Paulo Sérgio Guerreiro A Eleição de um Meme (Rio, Multifoco, 2019) que considera que uma articulação possível entre tecnologia, comunicação, cultura e política ajuda a explicar o fenômeno atual da “nova direita” e/ou do novo tipo de fascismo atual. Guerreiro parece se referir ao “conglomerado ideológico” do fascismo que sobreviveu até nossos dias, tanto seu ideário quanto sua técnica. O autor tenta nos dar uma medida da gravidade da profusão de notícias falsas : as fake news não terão impactos “puramente eleitorais, mas também consequências científicas.”….É assustador que tamanha promessa de obscurantismo possa se concretizar apenas com a eleição de um personagem que é menos um político do que um meme; coisa que, ao menos como a internet a entende, nasceu como uma curiosidade sem maiores consequências.

Guerreiro se refere à compreensão pouco consensual que a internet tem do termo: “A duplicação e a proliferação são as principais características dos memes da internet; não há memes sem duplicação de um espaço para outro. Portanto, é a partir dessas características que se relacionam os conteúdos de internet e assim foram designados memes.” Na internet, os memes replicam, segundo Guerreiro, “ideias reduzidas a pequenos conteúdos”. Quanto mais síntese e quanto mais caricatura, maior a capacidade de reprodução: “a capacidade de um texto científico tornar-se viral é quase zero, e se acontece, não é um meme, pois ninguém consegue reproduzir com facilidade 40 páginas de um texto científico.”. …. a fim de manter o seu efeito viral, alguns tipos de mensagens parecem circular mais facilmente do que outras e daí as consequências para a formação da cultura ou para uma eleição. É a candidatura que tem mais chances de se replicar no ambiente das redes sociais digitais. Na medida em que as redes acumularam relevância dentro dos aparatos de propaganda, foram essas as candidaturas beneficiadas. Sua mensagem é feita sob medida para os métodos de propagação viral: informação direta, às vezes cômica e polêmica, mas sempre curta e grossa.

"A verdade morreu porque a internet, uma revolução recebida com tanto otimismo, uma tecnologia que deveria disseminar o conhecimento e elevar a humanidade ao próximo patamar, tem sido tudo menos isso. Todo o potencial do maior aparato de comunicação já criado esbarrou nas limitações de seus usuários e dos operadores dos algoritmos que definem como o conteúdo será distribuído. A matemática Cathy O'Neil bem avisou : "algoritmos são formas de automatizar o status quo". Também falhamos em nos dar conta disso. " …

."....poderíamos assumir que aquela incapacidade de reduzir textos científicos a memes tenha fortalecido a presença das teorias conspiratórias na esfera comunicacional..… grosseiras e imprecisas elas tem poder de síntese que a viabilizam como memes e portanto como peça comunicacional capaz de se reproduzir..… era mesmo de se esperar que toda e qualquer redução da realidade ganhasse prioridade na internet......"

Houve um tempo, não muito distante, em que a política tinha a comunicação como instrumento. Uma boa reunião entre o político e o magnata da mídia seria o suficiente para direcionar a cobertura. A lógica se inverteu : as redes sociais transformam todos nós, ainda que em escala moderada, em veículos de comunicação. Assim, é a política que se torna um instrumento nas mãos da comunicação; uma comunicação digital que, como vimos, é feita de síntese, caricatura e polarização. Não há como voltar atrás. Resta-nos apenas desenvolver estratégias para lidar com o novo paradigma. Até lá, a comunicação continuará privilegiando uma política feita à sua imagem e semelhança. Consta no atestado de óbito da verdade, portanto, não apenas a política, mas também a comunicação e a nossa já conhecida incapacidade de usar de maneira responsável as tecnologias que criamos…… Quando a verdade morre, pagamos com a democracia.

Daniel Miranda Soares é mestre pela UFV, economista pela UFMG e professor aposentado.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

NEOLIBERALISMO - resumo


NEOLIBERALISMO - resumo

Neoliberalismo é uma doutrina econômica/política que retoma os antigos ideais do liberalismo clássico do séc. XIX ao preconizar a mínima intervenção do Estado na economia, o laissez-faire, acreditando que o mercado resolveria tudo através da livre concorrência espontânea. Principais pensadores : Leopold Von Wiese, Friedrich Hayek, da Escola Austríaca, Ludwig Von Mises e Milton Friedman, anos 1950/60, da Escola de Chicago e também Monetarista.
Os neoliberais combatem, principalmente, a política do Estado de Bem-Estar Social, um dos preceitos básicos da social democracia, que aconteceu pela política keynesiana, hegemônica a partir da crise de 1929 até fins dos anos 1970….Foi neste período que a economia mais cresceu - o dobro da média neoliberal (1980-2019)…. Para os keynesianos a intervenção do Estado na economia, estimula o crescimento do mercado (via aumento da massa salarial) da renda e da produção e corrige as imperfeições naturais do mercado “livre”, amenizando bastante as crises econômicas. Neste período houve um fortalecimento das leis trabalhistas, com consequente aumento dos salários, melhoria da distribuição de renda e do bem estar social. Aliás a política keynesiana surgiu para resolver o problema das crises constantes provocadas pelas políticas liberais até 1930.
A partir da crise do Petróleo (anos 1970) os neoliberais conseguiram uma boa desculpa para pregar a volta do “mercado livre”. A crítica direcionada pelo neoliberalismo a esse sistema é a de que o “Estado forte” é oneroso e limita as ações comerciais, prejudicando aquilo que chamam de “liberdade econômica”. Além disso, a elevação dos salários e o consequente fortalecimento das organizações sindicais são vistos como ameaças à economia, aumentando os custos com mão de obra. Os neoliberais defendem a máxima desregulamentação da força de trabalho, com a diminuição da renda e a flexibilização do processo produtivo.

Em 1989, o Consenso de Washington definiu algumas particularidades do neoliberalismo, tais como:
  • diminuição da cobrança de impostos das grandes empresas, de modo que aumentem seus lucros (reforma fiscal);
  • abertura comercial para aumentar as importações e exportações, a partir da diminuição das tarifas alfandegárias;
  • privatização das empresas estatais, com o objetivo de diminuir a presença do Estado no mercado;
  • redução dos gastos do Estado, com corte de funcionários, terceirização de serviços;
  • diminuição de leis trabalhistas para diminuir custos dos empresários;
  • oposição à doutrina marxista;
  • crítica ao keynesianismo;
  • incentivo à competitividade de mercado;
  • repressão às organizações sindicais e movimentos populares;
  • controle dos ideais neoliberais por meio de instituições como o Fundo Monetário Internacional (FMI), a Organização Mundial do Comércio (OMC) e o Banco Mundial (BM).
Porém, muitas dessas mudanças passaram por cima das políticas sociais, causando o desemprego, a fome e a miséria de vários povos em países subdesenvolvidos e maior presença das multinacionais controlando ex-estatais e os recursos naturais destes países. O neoliberalismo fez o capital financeiro internacional crescer bastante. As indústrias se transferiram para os países com salários mais baixos e o mercado trabalhista desregulamentado. A média do crescimento econômico caiu muito no mundo ocidental, aumentando a concentração do capital e da renda. A ideologia deste modelo difundiu-se em universidades e instituições civis, servindo-se como pensamento único, sem contestações, camuflados com mentiras fajutas, tipo “o mercado livre resolve tudo”. Em vez de livre concorrência o que houve foi concentração do capital financeiro/produtivo nas mãos de grandes conglomerados.

E o pior desta história é que o Estado nunca deixou de intervir na economia, privilegiando as grandes corporações, aumentando o poder de grandes grupos monopolistas e oligopolistas, gastando muito dinheiro para socorrer bancos, financiar conglomerados do complexo industrial-militar e pesquisas tecnológicas; onde foram parar cerca de 20% do orçamento do governo americano. TUDO COM DINHEIRO DOS CONTRIBUINTES. As inovações tecnológicas nos ramos mais avançados da indústria (eletrônica, informática, naval, aeroespacial, química, nuclear, etc.) foram financiadas pelos governos dos EUA e Europa, assim como os altíssimos subsídios da política agrícola desses países, pagos pelos contribuintes…

ONDE ESTÁ O NEOLIBERALISMO NESTAS POLÍTICAS ?. Enquanto eles protegem seus investimentos e suas grandes empresas, o Terceiro Mundo continua sendo enganado com esta política fajuta neoliberal que nem eles acreditam, abrindo suas portas às grandes corporações estrangeiras, privatizando suas estatais, voltando a exportar matérias-primas com salários mais baixos e desemprego, aumentando a fome, a miséria com cortes substanciais nos programas sociais e reprimindo os movimentos sociais e sindicais, além das intervenções políticas promovendo direta e indiretamente golpes militares e golpes jurídicos e até derrubando governos democráticos. O NEOLIBERALISMO PREFERE DITADURAS E GOVERNOS AUTORITÁRIOS DO QUE A DEMOCRACIA. Por que a democracia controla seus excessos.

Resumindo: O neoliberalismo usa o discurso do livre mercado, do mercado espontâneo, do mercado acima do Estado, de que o mercado é mais eficiente, etc.etc.etc.….MAS NUNCA LEVOU ISSO A SÉRIO…. Na verdade o objetivo do NEOLIBERALISMO é reprimir os salários e apagar todos os direitos trabalhistas e sindicais para deixar a classe trabalhadora bem enfraquecida e vulnerável às suas políticas de maximização dos lucros dos grandes monopólios e oligopólios. MÁXIMA DELES: o lucro acima de tudo e de todos; quanto menos direitos sociais e sindicais melhor. Daí o controle da mídia para divulgar seus pseudos ideais de que o Estado é ineficiente e as empresas privadas são muito mais eficientes.

Daniel Miranda Soares – economista, mestre pela UFV e ex-professor universitário aposentado.