segunda-feira, 7 de setembro de 2020

 

Domenico Losurdo, pensador que fez Caetano abandonar o liberalismo, contrapõe o Marxismo Oriental ao Marxismo Ocidental.

Sob o título "Domenico Losurdo, um crítico da hipocrisia liberal", a revista Jacobin publica artigo do historiador David Broder, conhecedor do movimento comunista na França e Itália, com tradução de Marianna Braghini

6 de setembro de 2020


Falecido em junho de 2018, Domenico Losurdo foi um marxista-leninista italiano que criticou acidamente o pensamento liberal-burguês e o revisionismo no próprio movimento socialista e comunista. 

O cantor e compositor Caetano Veloso disse em entrevista ao programa Conversa com Bial, na TV Globo, na noite desta sexta-feira (4), que tem menos raiva do socialismo hoje em dia e se considera “menos liberalóide” do que há dois anos. Ele disse ter tido contato com leituras críticas ao liberalismo através de "um moço de Pernambuco, Jones Manoel".

Jones Manoel conduz o programa Trincheira Vermelha na TV 247, em que discute temas da história e da geopolítica, desde uma perspectiva marxista. 



TEXTO DA REVISTA JACOBIN

"Pode parecer estranho começar o obituário de alguém de 77 anos de idade dizendo que ele foi levado de nós em seu apogeu. Antes de Domenico Losurdo ser atingido por um tumor cerebral, o marxista italiano estava no auge de sua capacidade. Somente ano passado ele publicou uma polêmica contra as pretensões do marxismo ocidental, seguindo um trabalho de 2016, no qual ele lançou um olhar crítico aos projetos de paz através da história", escreve David Broder.

"Como professor emérito na Universidade de Urbino e presidente da Associazione Marx XXI, Losurdo, mesmo em idade avançada, manteve suas atividades ao redor do mundo em conferências e apresentações de livros. Sempre entusiasmado em promover seu pensamento no âmbito internacional, até mesmo logo antes de sua morte, ele estava trabalhando em um novo capítulo para a versão em inglês de seu livro “Antonio Gramsci: From Liberalism to Critical Communism.”

Esta é apenas uma das três obras de Losurdo em inglês previstas para serem publicados, continuando o esforço em tornar seu trabalho conhecido para camadas de leitores ainda mais amplas. Ele já estava entre os mais reconhecidos marxistas italianos em âmbito internacional, enquanto um robusto militante e historiador de filosofia, sempre atento em expor as realidades materiais, as condições históricas e sociais, que estiveram por trás de todos os ideais e sistemas filosóficos.

Particularmente, isso tomou a forma de um ataque perfurante à hipocrisia liberal, mais notadamente expresso em um trabalho inicialmente publicado em italiano, em 2005, depois traduzido para o inglês pela Verso em 2011, como “Liberalism: A Counter History” [“Contra-História do Liberalismo“]. Losurdo expôs a violência colonial e a posse de escravos que passaram de mão em mão com a ascensão do projeto liberal no século XVIII, apontando acidamente seus limites, a exclusão e a hipocrisia no coração do alegado universalismo do liberalismo.

Isso, inclusive, auxiliou os esforços de Losurdo, na defesa das experiências soviética e chinesa de construção do socialismo. Ele não explicou meramente seus crimes e erros (os quais ele admitia livremente) como uma resposta ao clima de guerra sob as quais emergiram. Além disso, ele expôs as falsas assimetrias que levaram os liberais a comparar a violência comunista e nazista, como se o colonialismo ocidental pudesse de alguma forma ser separado.

Revisionismo e anti-revisionismo

Domenico Losurdo foi, de fato, um escritor marcadamente político. Nascido no ano em que a Itália fascista se uniu à Alemanha nazista em sua guerra contra a URSS, ele foi parte de uma geração radicalizada nos anos 1960, na qual o “anti-revisionismo” maoísta exerceu uma forte influência em figuras da extrema esquerda. A partir deste contexto marxista-leninista, nos anos 1980 ele se juntou ao Partido Comunista Italiano (PCI) e posteriormente, após sua dissolução em 1991, ao esforço de refundação do partido, o Rifondazione Comunista (PRC).

Professor de filosofia da história na Universidade Urbino e um reconhecido estudioso de Hegel, em décadas mais recentes, o trabalho de Losurdo adotou um particular caráter proferidamente “militante”. Deparado com o colapso da União Soviética e com a corrida do triunfalismo liberal, Losurdo construiu críticas devastadoras àqueles que pintaram esta última ideologia como o prenúncio de um abrangente progresso humano.

Isso estava mais expresso, particularmente, em seu livro “Contra-História do Liberalismo”. Contrário à sua própria auto-hagiografia, Losurdo explorou o lado obscuro do afloramento do liberalismo em potências industriais como Inglaterra, Holanda e os Estados Unidos. Não somente estas sociedades construíram um legado de escravidão e expansão dos circuitos comerciais de escravos, bem como radicalizaram e formalizaram suas premissas na supremacia branca.

Para esta Contra-História, como também para seu estudo de “Democracia ou bonapartismo”, Losurdo revelou a dependência essencial do liberalismo com a segregação, criando barreiras de propriedade e raça. O liberalismo não só herdou as hierarquias do mundo pré-capitalista, como também criou outras novas; ele não apenas subverteu a monarquia e a regra hereditária, bem como impôs novas formas de divisão e exclusão nas massas coloniais e metropolitanas.

Aqui, Losurdo obteve maior sucesso ao expor as sombrias origens do liberalismo e os crimes nele engendrados, do que ao apresentar sua necessidade fundamental e permanente de formas particulares de exclusão (como a escravidão). Suas acusações à hipocrisia liberal frequentemente aparecem como se fossem uma demanda para o fim das falsas assimetrias e pontos cegos; o que significa dizer, a completa realização de um proclamado universalismo, mais do que sua simples destruição.

Esta determinação em historicizar o pensamento político é também chave para a defesa de Losurdo do socialismo ao estilo soviético. Contra aqueles que diriam que comunismo funciona em teoria, mas não na prática, seu trabalho coloca a questão de que o mesmo também poderia ser dito do liberalismo. A Contra-História pergunta, “assim como com qualquer outro grande movimento histórico,” não apenas o que o liberalismo pretende em sua “pureza abstrata,” mas em suas relações sociais reais.

Assim que a polêmica pesquisa de Losurdo sobre liberalismo estabeleceu os valores que reivindica, sob a áspera luz de sua realidade histórica, seus escritos sobre as críticas à URSS buscaram destacar o contexto histórico que os liberais preferem ignorar. Particularmente, Losurdo era incisivamente crítico à escola “totalitária” representada por Hannah Arendt e uma manada de historiadores anticomunistas, que por sua vez reduziram Stalin e Hitler à “irmãos gêmeos.”

Enquadrando o liberalismo nos termos da exclusão, Losurdo buscou reformular nossa visão do século XX, ao centralizá-la no colonialismo. A guerra nazista por “espaço habitável no Oriente” foi uma guerra colonial de agressão contra a URSS: ela pegou as ferramentas que a Grã-Bretanha, Bélgica e França utilizaram na África e Ásia, modernizando-as e reclinando-as para o continente europeu. Mesmo tal empreendimento assassino poderia assegurar a fidelidade de um pensador como Martin Heidegger, pois, sua cultura não era, de fato, tão inovadora assim. 

Neste sentido, Losurdo argumenta que o rótulo do “totalitarismos” difamou deliberadamente a URSS, enquanto reduzia à um plano secundário a violência massiva que já vinha sendo perpetrada por poderes coloniais nas décadas recentes. Por que nós ouvimos muito mais sobre o Massacre de Katyn e Holodomor do que sobre a carnificina dos Mau Mau ou da Fome em Bengala? Na visão de Losurdo, comparar Stalin a Hitler era como colocar Toussaint Louverture, líder da rebelião dos escravos haitianos, na mesma base moral que os proprietários de escravos franceses, simplesmente porque ambos os lados tinham lideranças “autoritárias”.

Foi sem dúvida uma reformulação provocativa. Losurdo estava tranquilo em pisar nos dedos dos pés, mas algumas vezes era tonalizado como alguém que queria contrariar. Embora ele reconhecesse os aspectos exorbitantes e paranoicos da liderança de Stalin, seus esforços para relativizá-lo eram frequentemente governados por um zelo polêmico injustificado pelas evidências reunidas. Isso tornou sua reformulação do stalinismo mais “interessante” do que necessariamente persuasiva.


Construindo o socialismo

Losurdo há muito tempo desafia a esquerda que, em sua visão, criticava abstratamente esforços reais de construção do socialismo sem sentir a necessidade de sujar suas mãos com escolhas pragmáticas. Isso foi resumido pelo seu recente estudo sobre o marxismo ocidental. Insistindo que, longe da URSS estar “degenerando-se” por conta de seu isolamento, a esquerda da Europa Ocidental que atrofiou-se em uma gama de debates por conta de seu isolamento dos processos reais de mudança social.

Nesta veneração da URSS e, verdade, da China (a qual ele continuava a ver como um país no caminho rumo ao socialismo, por meio de um tipo moderno de Nova Economia Política), Losurdo rejeitou agudamente qualquer inutilidade da história do século XX. Ele era mordaz com teóricos modelados na esquerda ocidental, de Theodor Adorno a Michel Foucault, e buscou expor os pontos cegos e mesmo o racismo alicerçado na rejeição dos esforços orientais de “construção do socialismo”.

O engajamento político de Losurdo foi uma ponte na divisão entre a história do século XX e o presente. O pequeno Partido Comunista no qual ele era envolvido nos anos recentes, autodenominado em homenagem ao PCI de Antonio Gramsci e Palmiro Togliatti, buscou reviver o partido que se dissolveu após a queda do Muro de Berlim. Entretanto, o trabalho de Losurdo tendia a evitar qualquer exame dos processos específicos que levaram o histórico PCI à destruição. 

Atualmente, a esquerda italiana ainda precisa se recuperar da morte do PCI, ou talvez, de sua vida. Suas estruturas zumbis ainda permanecem conosco, como no neoliberal Partido Democrata; sua residual influência cultural incorpora a nostalgia de uma grande esquerda de outrora que é incapaz de dar vida à qualquer coisa nova. A extrema-direita está na ofensiva e parece faltar esperança; talvez seja mais fácil agarrar-se à velhas certezas do que iniciar um projeto comunista do zero.

Os esforços de Losurdo em recuperar esta herança eram frequentemente questionáveis, mas sempre estimulantes. E seu pensamento ainda está conosco. O ano de 2019 viu edições de seu livro “Democracia ou bonapartismo” (Unesp), sua vasta biografia de Nietzsche e seu estudo de Antonio Gramsci (ambos com Brill). Outras traduções previstas incluem estudos de Hegel e de Kant. Por meio destes títulos e da descoberta de seus trabalhos por novos leitores, o pensamento penetrante de Losurdo irá sobreviver ao tumor que o matou". 


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Fontes: Saiba quem é Domenico Losurdo, pensador que fez Caetano abandonar o liberalismo

https://www.brasil247.com/ideias/saiba-quem-e-domenico-losurdo-pensador-que-fez-caetano-abandonar-o-liberalismo

Domenico Losurdo, um crítico da hipocrisia liberal

https://jacobin.com.br/2019/11/domenico-losurdo-um-critico-da-hipocrisia-liberal/


sexta-feira, 29 de maio de 2020

MARXISMO OCIDENTAL X MARXISMO ORIENTAL



MARXISMO OCIDENTAL X MARXISMO ORIENTAL.
Notas e comentários sobre o livro “O Marxismo Ocidental “ de Domenico Losurdo.


O MARXISMO OCIDENTAL ATACA E CONDENA O MARXISMO ORIENTAL.
O livro do cientista político historiador e filósofo italiano Domenico Losurdo (O Marxismo Ocidental – como nasceu, como morreu, como pode renascer. Boi Tempo. 2018) discute uma interessante abordagem entre os dois tipos de marxismo que deveriam ser um só. Ele critica os marxistas ocidentais por analisarem o mundo num tipo de abordagem eurocêntrica, centrada apenas na visão do desenvolvimento capitalista na Europa (feudalismo > capitalismo > socialismo > comunismo), diferente da abordagem do marxismo oriental, que sem esquecer a luta de classes centra sua abordagem na luta anti-colonial e anti-imperialista. O marxismo ocidental queria excomungar o marxismo oriental, mas acabou sendo excomungado. Ele mesmo se definha e praticamente morre absorvendo parte da doutrina burguesa liberal, se contradiz e acaba concordando com as críticas liberais burguesas ao analisarem as experiências orientais. Os marxistas ocidentais no pós-guerra fria abominaram as experiências soviéticas e chinesas e desta forma sucubem à sua própria interpretação, pois ficaram presos às suas críticas tipicamente liberais burguesas. Dentre estes intelectuais eurocêntricos, o autor cita Perry Anderson (trotskista contra a União Soviética), Hannah Arendt, Michel Foucault, Giorgio Agamben, Antonio Negri, Slavoj Zizek, Max Horkheimer, Althusser, Marcuse, Adorno, Bloch, etc. Perry Anderson foi o primeiro a separar os dois marxismos, ao publicar em 1976, o livro “Considerações sobre o marxismo ocidental” elogiando o ocidental e condenando o marxismo oriental, mas ao fazer isso estava premeditando o seu suicídio. Deve-se reconhecer ao filósofo francês Maurice Merleau Ponty o primeiro a estabelecer as diferenças principais entre os dois marxismos. No Oriente (e na prática em todos os países onde os comunistas conquistaram o poder) o problema prioritário para os dirigentes políticos não era promover a “desintegração do aparelho estatal”, mas outro bem diferente : como evitar o perigo da submissão colonial ou semicolonial e de que maneira superar o atraso em relação aos países industrialmente mais avançados.

O Ocidente ao ganhar a guerra fria, praticamente mata o marxismo ocidental. Existia a visão de que o Ocidente era livre e democrático e o Oriente dominado por ditaduras totalitárias e cruéis. Daí que os marxistas sumiram durante um bom tempo na Europa. E vários marxistas ocidentais assumiram esta visão condenando os regimes orientais. Só agora, os ocidentais estão percebendo as diferenças entre os dois e começando a entender que a luta deveria na verdade, ser uma só.


MARXISMO OCIDENTAL DEFENDE O IMPERIALISMO “DEMOCRÁTICO” QUE IMPÕE DITADURAS E ESCRAVIDÃO NO TERCEIRO MUNDO.
Acontece que os marxistas no Ocidente negaram em suas análises, que as potências capitalistas ocidentais na verdade colocavam em prática políticas discriminatórias imperialistas tão ou pior do que os regimes totalitários. Bastava analisar suas relações com o Terceiro Mundo, com as colônias e semi-colônias e até mesmo dentro de seus próprios países e continentes. Estes países praticavam a escravidão em suas colônias com a maior naturalidade e justificativas aceitáveis. E a escravidão durou séculos, até recentemente. A escravidão é uma prática dominadora repressiva extremamente cruel que discriminava os negros e até povos orientais como seres inferiores ou como animais sem alma ou dignidade. E fazia parte das engrenagens do capitalismo para desenvolver, arrancar mais-valia e lucros extraordinários que por sua vez proporcionava grande impulso à acumulação de capital. No centro do capitalismo, desenvolvimento econômico acelerado, inovações tecnológicas e melhoria das condições de vida da população com as “migalhas” que vinham do Terceiro Mundo; enquanto que na periferia deste a exploração era selvagem, ditatorial e sub-humana. Hitler não faria melhor.

Os próprios liberais burgueses denunciavam esta situação ao longo dos séculos e descobriram as situações mais cruéis e terroristas do mundo. Um deles dizia que o imperialismo britânico mandava para a linha de frente de suas batalhas e guerras, servos e escravos numa quantidade enorme, para servir de contenção das linhas inimigas. Cerca de 50 milhões de africanos e 250 milhões de indianos morreram nessas lutas imperialistas, segundo um historiador britânico conservador A.J.P. Taylor, citado por Losurdo (p.197). Na Bélgica liberal os colonizadores reduziram a população indígena do Congo, de 20-40 milhões em 1890 para 8 milhões em 1911. Porque tratavam as populações de suas colônias como sendo inferiores ou de raças inferiores, portanto sujeitas a qualquer tipo de exploração, com total decisão sobre suas vidas e mortes…. Quando um povo possui a decisão de controlar vida e morte de seus subjugados, é claro que é uma decisão extrema, de controle total….ou seja totalitário, onde se elimina qualquer tipo de liberdade. É O PODER DA ESCRAVIDÃO….

O genocídio americano é considerado o Holocausto mais longo da história da humanidade, também conhecido como “os quinhentos anos de guerra”, quando foram dizimados 95% dos 114 milhões de indígenas americanos do atual território dos EUA e do Canadá. Hitler é um filhote de cachorro em comparação com os "conquistadores da América”. Os americanos usaram de tudo para destruir os nativos americanos : destruição em massa, guerra biológica (disseminando varíola nas roupas dos índios), matando dezenas de milhões de búfalos (base alimentar dos índios), esterilizando as mulheres indígenas (esterilização cirúrgica forçada), proibição de realização de serviços religiosos, etc…. A “solução final” do problema dos índios da América do Norte se tornou modelo para os posteriores Holocausto judeu (Hitler) e o apartheid sul-africano. Hitler se propunha imitar a Grã-Bretanha e os Estados Unidos, pois pretendia estabelecer as “Índias alemãs” na Europa oriental e promover ali uma expansão colonial semelhante àquela do Faroeste da República norte-americana. Foi ao longo da opressão colonial e racial posta em prática justamente pelos EUA contra os nativos e negros que vieram à tona as palavras que depois se tornariam as palavras chaves da ideologia nazista : ultimate solution/endlosung, (solução final). O império colonial germânico devia ser construído graças ao trabalho forçado dos “indígenas”, dos eslavos praticamente reduzidos à condição de escravos, obrigados a trabalhar para manter o aparato produtivo necessário para a condução da guerra. Com o fim da Guerra de Secessão, os escravos negros foram substituídos pelos coolies, isto é, semi-escravos “amarelos”, provenientes da Índia e China. O expansionismo colonial, conduzido pelos países liberais, implicou a imposição de formas modernas de escravidão ou semiescravidão em detrimento dos povos dominados. Foi por isso que Lênin se referia ao conflito entre as grandes potências capitalistas e colonialistas da Primeira Guerra Mundial como guerra “entre proprietários de escravos para a consolidação e o fortalecimento da escravidão”. Se o que define a escravidão é o poder de vida e de morte exercido pelo patrão, a definição de Lênin mostra-se oportuna: as grandes potências coloniais se atribuíam o poder de vida e de morte sobre os povos que dominavam!

O horror do sistema colonialista decerto não termina com a derrota do Terceiro Reich e de seus aliados. Em vez de citar Argélia e o Vietnã, o autor cita duas tragédias menos conhecidas : Quênia (colônia britânica) e América Latina (quintal dos EUA). Na primeira ele se refere à Revolta dos Mau Mau, nos anos 50 no Quênia, onde o governo de Londres emprega métodos bárbaros para restabelecer a ordem na colônia , tipo campo de concentração de mulheres em Kamiti onde eram chicoteadas, interrogadas, reduzidas à inanição e trabalho forçado que incluia construção de valas comuns para enterrar cadáveres de outros campos de concentração. Na segunda, o autor se refere à América Latina, onde nesta época (anos 1950) se via os EUA instaurando ferozes ditaduras militares, mas também promovendo atos de genocídio, p.ex. como o citado pela Comissão da Verdade da Guatemala se referindo ao destino dos índios Maya, culpados por simpatizarem com opositores do regime apoiado por Washington.


MARXISMO ORIENTAL COMEÇA A INFLUENCIAR POSITIVAMENTE MOVIMENTOS DENTRO DO CAMPO DO MARXISMO OCIDENTAL.
Esse mundo, feito de escravidão, semiescravidão, relações servis de trabalho, formas monstruosas de sujeição, discriminações gritantes e terríveis cláusulas de exclusão ratificadas ou toleradas também no plano legal, depois de ter sofrido os primeiros duros golpes por obra dos jacobinos de
Paris e, sobretudo dos jacobinos negros de São Domingos (onde os escravos tomaram o poder), foi posto em crise apenas pelo movimento comunista, graças à sua ação direta e à influência por ele exercida. É uma influência que se fez sentir no próprio coração da metrópole capitalista, como é o caso dos afro-americanos. Eles eram oprimidos por um regime de white supremacy terrorista no momento em que eclodia a Revolução de Outubro, difusora de um espírito novo entre os povos de origem colonial. Os negros decididos a se libertar do jugo colonial e racial foram se filiando ao Partido Comunista formando um componente essencial deste. Durante os anos da Grande Depressão, do desemprego e da miséria em massa, aumentava a luta contra o regime de white supremacy. A absurda perseguição e discriminação racial contra os negros na América, mobilizou nos anos 1950 um movimento para que a Corte Suprema acabasse com a discriminação. O ministro da Justiça do governo escreveu uma carta à Corte: “A discriminação racial leva água para o moinho da propaganda comunista e suscita dúvidas também entre as nações amigas quanto à intensidade da nossa devoção à fé democrática.” Foi movida por tais preocupações que a Corte Suprema declarou inconstitucional a segregação racial nas escolas públicas. CONCLUSÂO : não é possível compreender o desmantelamento nos EUA do regime de white supremacy (herança tenaz do sistema colonialista-escravista mundial) sem o desafio da Revolução de Outubro e do movimento comunista.

DIFERENÇAS BÁSICAS ENTRE OS DOIS MARXISMOS.
O autor, Domenico Losurdo, também distingue duas diferenças importantes entre os dois marxismos, mas não necessariamente contraditórias. O marxismo oriental tem o foco mais voltado para o futuro em curso ou futuro próximo, mais imediato, na transição pós-capitalista a curto prazo ; enquanto que o marxismo ocidental tem o foco mais importante voltado para o futuro mais remoto e utópico, portanto mais distante no futuro, na concepção mais final do comunismo a longo prazo. Marx e Engels já haviam previsto estes dois aspectos da transição pós-capitalista ou destas duas definições do “comunismo”, que na verdade, são duas fases. Uma fase de curto prazo , intermediária ou “socialista” e uma fase mais avançada ou fase final ou “comunista”. É como se fosse construída uma ponte entre futuro em curso e futuro remoto. Segundo o autor, o marxismo ocidental, se quiser renascer, deve saber construir esta ponte entre estas duas diferentes temporalidades.

Os países que adotaram o marxismo oriental, como a China p.ex., ainda não concluíram a etapa do futuro próximo, ou seja, basicamente a revolução anti-colonial e a destruição do sistema colonialista-escravista mundial. Países centrais desenvolvidos que na verdade são países imperialistas desencadeiam guerras em todos os cantos do mundo, reabilitando explicitamente o colonialismo e o imperialismo e invocando de antemão guerras desnecessárias para silenciar os que ousam desafiar a pax americana. Guerras encadeadas, recentemente contra : Iraque, Afeganistão, Iugoslávia, Síria, inclusive a Palestina, etc. Vários intelectuais do marxismo ocidental apoiavam estas guerras, ao mesmo tempo que proclamavam a realização da utopia de um mundo sem guerras ? Até Zizek faz desdém pela luta anti-imperialista.


O EXEMPLO DO COMBATE AO COVID-19. O combate ao Coronavírus, indica a nível mundial, a importância que cada país proporciona à saúde de sua população. Ficou claro que o Ocidente prefere privilegiar a economia em detrimento da saúde de seu povo – ou seja priorizam os empresários e não a população em geral. Os exemplos estão aí: Itália, EUA, países ocidentais em geral. Enquanto que no Oriente, especialmente os países comunistas como China, Vietnã, Coréia, incluindo Cuba, todos eles priorizaram a saúde da população em detrimento da economia. Também foram muito mais eficientes no combate à pandemia. Tomaram medidas super restritivas para controlar rapidamente a propagação do vírus. E quem dá aval à estas informações é a OMS, organismo da ONU que elogiou as medidas e os resultados dos países do Oriente. Não se pode dizer que eles foram parciais, porque usaram os mesmos critérios para analisar todos os países – China, EUA, França, Vietnã, etc.


OCIDENTE DEMOCRÁTICO E ORIENTE TOTALITÁRIO ?
Hoje seria um absurdo dizer que os países comunistas seriam totalmente autoritários e os países ocidentais seriam totalmente democráticos. Quem conhece a gestão dos países como China e Cuba, sabem que os governos possuem um grande feed back com a população, possuem comitês de bairros e comitês representativos dentro dos partidos...e a prova disso é que 80% da população aprovam as medidas populares de seus governos. Afinal quem tem os níveis mais elevados de educação são estes países e a prova são as avaliações internacionais (que são neutras), tipo PISA da OCDE (avaliam alunos de cursos básicos de 79 países) que colocam os alunos dos países orientais com as notas mais altas.Na última avaliação de 2019, a China está em primeiro lugar nos três níveis (leitura, matemática e ciência) com 555 pontos (leitura), 591 (matemática) e 590 (ciência); os EUA conseguiram 505 (leitura - 13º), 478 (matemática - 38º) e 502 (ciência -18º). A solidariedade entre as pessoas são mais elevadas nestes países e a pandemia do COVID provou isso – voluntários organizavam pessoas em cada conjunto de apartamentos para fazer compras e monitorar os doentes em isolamento. Enquanto que no Ocidente, o individualismo é preponderante. Países orientais ofereceram ajuda com médicos e equipamentos aos países ocidentais (China e Cuba enviaram ajuda à Itália; Vietnã enviou ajuda para a França - que colonizou o Vietnã), enquanto que os EUA confiscavam equipamentos médicos vindos da China que passavam em seu território.
E quem disse que os países ocidentais são totalmente democráticos ? Que democracia é essa em que os políticos são representantes de grandes corporações ? Em que as principais decisões dos governos atendem interesses destes grandes grupos corporativos ? O resultado disso está na distribuição de renda e poder destes países, altamente concentrada nas mãos de uma minoria que controla os governos e toda a economia. Nos países orientais a distribuição de renda é muito mais justa e igualitária e não existe discriminação quanto ao atendimento de serviços essenciais como educação e saúde que são socializados à população em geral, enquanto que nos países ocidentais boa parte da educação e saúde são privatizados e não atendem a maioria.
MAS AS PESSOAS SÃO LIVRES PARA COMPRAR O QUE QUISEREM E FAZER O QUE QUISEREM. SÃO MESMO ? São livres para comprar os produtos que grandes empresas interessadas em aumentar lucro oferecem para você num leque de opções manipuladas pelas grandes empresas de propaganda e publicidade, que também precisam vender. Empresas direcionam produtos com taxas maiores de lucro e boa parte destes produtos são supérfluos e/ou de luxo. As pessoas são estimuladas a consumir produtos que não precisam e não são as melhores opções para elas. Milhões de pessoas consomem produtos que prejudicam sua saúde, aumentam a obesidade e até provocam doenças crônicas. No Brasil a maioria dos alimentos que as pessoas consomem estão envenenados com agrotóxicos que provocam doenças e câncer. Então elas procuram os médicos que receitam remédios que não curam imediatamente mas que você tem que tomar o resto da vida. Farmacêuticas produzem remédios que dão lucro – determinados remédios os pacientes precisam tomar sempre, para manter o nível de vendas e de lucros das grandes farmacêuticas. Por que não produzem remédios que curam de uma vez ? Ou remédios para doenças crônicas que atingem minorias da população ? Por que não dão lucro. O sistema não está interessado em curar nem melhorar a saúde das pessoas – porque estas coisas não dão lucro. AS PESSOAS PODEM FAZER O QUE QUISEREM ? SIM, desde que não prejudiquem o lucro das empresas que dominam o mercado, elegem políticos e mandam no governo, protegidas por leis aprovadas por políticos que elas elegeram.



O EXEMPLO DA CHINA, HOJE O MAIOR PIB DO MUNDO
O Partido comunista chinês, com Mao, promovia uma leitura de “significação” do marxismo, para dar impulso à luta anti-colonial e para um desenvolvimento das fôrças produtivas capaz de possibilitar a realização da independência também no plano econômico e tecnológico, para o rejuvenescimento de uma nação submetida ao colonialismo e ao imperialismo por séculos de humilhações desde as guerras do ópio. Longe de ser negada, a perspectiva socialista e comunista é orgulhosamente proclamada pelos dirigentes da República Popular da China. Sua realização está ligada a um processo histórico muito longo, no decorrer do qual a emancipação social não pode ser separada da emancipação nacional. O marxismo ocidental ainda fustiga o marxismo oriental, não reconhecendo a dependência do condicionamento material (desenvolvimento das fôrças produtivas). Mesma coisa o marxismo ocidental fez com o Vietnã e Cuba. Cuba que hoje faz concessões ao mercado e à propriedade privada, inspirando-se de modo bastante cauteloso no modelo chinês. Cuba luta pela independência econômica e tecnológica e mesmo assim recebe o desdém dos marxistas ocidentais. O marxismo oriental não pode abrir mão de concluir, em todos os níveis, a revolução anticolonial, mesmo apesar dos contratempos e erros eventuais surgidos durante o processo.

A China era um país pobre, com um Produto Interno Bruto (PIB) de US$ 150 bilhões e uma população de 800 milhões de pessoas, em 1978. Hoje, são 1,38 bilhão de habitantes e um PIB de US$ 12 trilhões, segundo dados da ONU. Segundo dados do FMI/BANCO MUNDIAL em 2018, a China tinha um PIB de US$13 trilhões e os EUA um PIB de US$20 trilhões. Mas em dólares PPC (paridade do poder de compra) que mede os reais valores das moedas locais (já que o dólar é uma medida cambial e altera os valores dos preços em cada país), a China teria um PIB de US$23 trilhões, o maior do mundo; e os EUA teria um PIB de US$19 trilhões. A partir de 1978, Deng Xiaoping, secretário do PCC inicia o processo de modernização econômica da China, abrindo o mercado para investimentos estrangeiros e permitindo a competição capitalista, aprendendo com as potências estrangeiras, abrindo para o exterior, fomentando novos métodos de gestão. A China desenvolveu aceleradamente suas fôrças produtivas, desde então, crescendo a taxas bem elevadas; no início 20% a.a., depois caindo para 15% e hoje continua crescendo a taxas de 6-8% a.a., ainda elevadas em termos ocidentais. Mas não devemos esquecer que o governo mantém o controle das regras do jogo econômico, possui grandes estatais, poder de polícia e promove investimentos importantes em educação, saúde, pesquisa e tecnologia, infra-estrutura, etc. No início das reformas, anos 1980, mais de 90% dos chineses viviam em condições de pobreza e miséria. Em 2017, apenas 2% dos chineses vivem nestas condições e o governo prometeu acabar com a pobreza neste ano de 2020. O desenvolvimento tecnológico também acelerou, hoje a China registra patentes em quantidade mais de duas vezes maior do que os EUA registram. Em 2014, a China havia alcançado o número extraordinário de 801 mil patentes, metade do total do planeta inteiro, contra apenas 285 mil dos americanos Possui mais pesquisadores PhD que os EUA. Em junho de 2020 a China lançará um foguete que colocará um rover em Marte, sendo o segundo país a fazer isso – os EUA já colocaram 4 rover neste planeta. Também colocou um satélite no lado oculto da lua, nenhum outro país tinham ousado fazer isso.

Obs: sobre a ascensão da China, era Colombiana, governos anti-coloniais e marxismo oriental, veja também o vídeo de Jones Manoel no Youtube:……e outros dele sobre o mesmo assunto.

Daniel Miranda Soares, economista pela UFMG, mestrado pela UFV, ex-professor universitário.

quarta-feira, 29 de abril de 2020

COMO A ESQUERDA PODE AJUDAR A ELEGER MORO EM 2022


Como a esquerda vai ajudar a eleger Moro em 2022

Liana Cirne Lins. Professora da Faculdade de Direito da UFPE, doutora em Direito Público e mestra em Instituições Jurídico-Políticas.




"Moro é mestre na arte de fingir ser homem probo e correto. E essa narrativa seguramente vai estar em disputa daqui a dois anos, nas eleições presidenciais de 2022", escreve a professora de Direito da UFPE Liana Cirne Lins


Um meme de um comediante, satírico à demissão de Sergio Moro, foi motivo de polêmica no dia seguinte à demissão. O vídeo foi compartilhado por importantes páginas de esquerda nas redes sociais, e por alguns políticos de esquerda, também. 
O vídeo simulava uma briga entre duas participantes do BBB, mas os rostos tinham sido alterados para as faces de Moro e Bolsonaro. O personagem de Moro dizia para Bolsonaro: "Eu não sei ser fingido, não olho na sua cara por que eu não gosto de ser falso. Acho você incoerente, você está onde eu te convém. Acho você extremamente falso, extremamente sem educação e extremamente soberbo."
Apesar de ter sido compartilhado por inúmeras páginas de esquerda, na minha opinião, o vídeo era peça de propaganda que reforçava a imagem de Moro como bastião da moralidade, que denuncia as mentiras de Bolsonaro. 
Supõe-se que quem é de esquerda sabe que Moro deu aula de hipocrisia a Bolsonaro. Se manteve no governo enquanto lhe conveio, prevaricou, cometeu corrupção passiva e acusou o ex-chefe de fazer exatamente o que ele fez: usar a PF para perseguir adversários e proteger amigos (inclusive o próprio Bolsonaro, que teve o sigilo do inquérito contra Carlos garantido, nos tempos em os dois andavam às boas), sem falar na quebra do sigilo do processo do laranjal do PSL e muitas outras vezes em que Moro praticou crime de advocacia administrativa. 
Entretanto, Moro é mestre na arte de fingir ser homem probo e correto. E essa narrativa seguramente vai estar em disputa daqui a dois anos, nas eleições presidenciais de 2022, quando Moro vai surfar tanto na briga com Lula, para os antipetistas, quanto na briga com Bolsonaro, em que a imagem propagada no meme lhe favorece muito: o homem que joga a verdade na cara, custe o que custar. 
Como eu tenho 48 anos e há mais de 20 não assisto à TV, nunca acompanhei um Big Brother e a última novela que vi foi Rei do Gado, às vezes é difícil entender a forma como a militância virtual simpatizante da esquerda se organiza e pensa.
Mas é evidente que precisamos fazer um duplo movimento: de um lado, precisamos compreender que é impossível abandonar o campo da lacração nas redes sociais. Essa é uma forma de militância que tem disputado narrativa com força - como, aliás, aconteceu no último BBB - e é um erro das gerações mais velhas ignorá-la ou desprezá-la.
De outro, as esquerdas precisam investir mais em formação política. As direitas estão investindo, e muito. 
Basta olhar para a Fundação Lehmann, RAPS, Acredito, RenovaBR e por aí segue. Esses grupos escolhem jovens dentro das favelas, das escolas públicas, das universidades, das redes sociais. E FORMAM. Inclusive com BOLSAS, para assegurar dedicação à militância. 
Enquanto isso, onde estão os cursos e formações para simpatizantes de esquerda? Seria maravilhoso ver a Fundação Perseu Abramo ocupar esse papel, por exemplo. 
Nem mesmo tática e estratégia para redes sociais são ensinadas. Não admira que a gente compartilhe um meme que enaltece Moro, apenas porque Bolsonaro foi ridicularizado. 
A falta de estratégia da esquerda inclusive ajuda a direita a promover seus candidatos. Todo mundo sabe que simpatizantes de direita compartilham posts movidos pelo MEDO. E que simpatizantes da esquerda compartilham posts movidos pela INDIGNAÇÃO. 
A gente lembra do quanto nós fomos cruciais para promover Marco Feliciano em 2013, e Bolsonaro em 2016. Era muito mais comum ver um vídeo falando MAL de Bolsonaro do que um vídeo falando bem de Dilma. Promovemos e ajudamos o crápula a se eleger. 
Vamos repetir o erro? Tudo indica que sim. Não temos tática, não temos estratégia e não temos ninguém disputando institucionalmente a formação política da esquerda, que segue à deriva, abandonada a memes engraçadinhos.
Eu sei que vocês vão dizer: relaxa, é só um meme. 
É?


quinta-feira, 9 de abril de 2020

CHOMSKY E A VIABILIDADE DA ESPÉCIE HUMANA (mar/2020).

Acompanhe entrevista do filósofo e linguista norte-americano Noam Chomsky. Hoje com 92 anos e tendo vivido como testemunha muitos dos grandes fatos que marcaram o século XX e o início do XXI, ele analisa o cenário da crise do Coronavírus e traça um quadro nada animador para os próximos anos. No entanto, cita que o isolamento social destes tempos deve ser usado para fortalecer os laços sociais e desenvolver projetos de resistência. A entrevista foi concedida no fim de março de 2020, uma conversa com o filósofo e co-fundador do DiEM25, Srecko Horvat. Acompanhe:
Srecko Horvat: Você nasceu em 1928 e escreveu seu primeiro ensaio quando tinha 10 anos de idade sobre a Guerra Civil Espanhola, após a queda de Barcelona em 1938, o que parece bem distante. Sobreviveu à Segunda Guerra Mundial, testemunhou Hiroshima e muitos eventos históricos e políticos importantes, da Guerra do Vietnã, a crise do preço do petróleo, a queda do muro de Berlin, Chernobyl, testemunhou o momento histórico que levou ao 11 de setembro e o crash financeiro de 2007/2008. Com esse background e sendo um ator da maioria desses processos, como vê a atual crise do Coronavirus, algo sem precedente histórico. Surpreende você? Como observa isso tudo?

Noam Chomsky: Devo dizer que as memórias mais tenras que me assombram agora são dos anos 1930, o artigo que você mencionou sobre a queda de Barcelona foi sobre, aparentemente, a inexorável propagação da praga fascista sobre a Europa e como chegou ao fim. Descobri muito mais tarde, quando os documentos internos vieram à publico que os analistas do Governo americano, na época e nos anos seguintes esperavam que a guerra terminasse com  mundo dividido entre regiões dominadas pelos EUA e uma região dominada pela Alemanha.

Meus medos infantis não estavam completamente errados. E essas memórias voltam agora. Quando era criança, posso lembrar, ouvindo comício de Hitler em Nuremberg no rádio, podia não compreender as palavras, mas podia facilmente entender o clima daquilo tudo, e tenho que dizer que quando escuto os discursos de Trump hoje, soa algo parecido. Não que ele seja fascista, não tem muito de uma ideologia, é apenas um sociopata, um indivíduo preocupado consigo mesmo, mas o clima e o medo é similar e a ideia de que o destino do país e do mundo está nas mãos de um sociopata bufão é chocante.

O coronavírus é algo sério o suficiente, mas vale lembrar que há algo muito mais terrível se aproximando, estamos correndo para o desastre, algo muito pior que qualquer coisa que já aconteceu na história da humanidade e Trump e seus lacaios estão à frente disso, na corrida para o abismo. De fato, há duas ameaças imensas que estamos encarando. Uma é a crescente ameaça de guerra nuclear, exarcebada pela tensão dos regimes militares e claro pelo aquecimento global. Ambas podem ser resolvidas, mas não há muito tempo e o Coronavirus é terrível e pode ter péssimas consequencias, mas será superado, enquanto as outras não serão. Se nós não resolvermos isso, estaremos acabados.
As memórias da infância continuam voltando para me assustar, mas em uma dimensão diferente. A ameaça de guerra nuclear não fazia sentido com o mundo onde está, mas olhando para o passado recente, em janeiro, o relógio do juízo final é ajustado a cada ano com os ponteiros dos minutos a uma certa distância da meia noite, que seria o fim.  Desde que Trump foi eleito, o ponteiro tem se movido para mais perto da meia noite. Ano passado estava a dois minutos da hora final. O mais próximo já alcançado. Esse ano os analistas retiraram os "minutos" e movem agora o ponteiro em segundos, 100 segundos para a meia noite, o mais próximo que já estivemos. Observando três questões: A ameaça da guerra nuclear, a ameaça do aquecimento global e a deterioração da democracia, essa última que não está tendo espaço aqui, mas é a única esperança que temos para a superação da crise. Para que as pessoas tenham controle sobre seu destino, se isso não acontecer, estamos condenados.

Se deixarmos nosso destino com sociopatas bufões, será o fim. E isso está próximo, Trump é o pior, por causa do poder dos EUA, que é esmagador. Estamos falando do declínio dos EUA, mas você olha para o mundo e não vê quando os EUA impõe sanções, assassinatos, sanções devastadoras, é o único país que pode fazer isso, mas todo mundo tem de segui-lo. A Europa pode não gostar das ações odiosas contra o Irã, mas tem que acompanhar, deve seguir o mestre, ou será chutada do sistema financeiro internacional. Não é uma lei da natureza, é uma decisão na Europa estar subordinada ao mestre em Washington, outros países não tem nem tem mesmo como escolher. Voltando ao Coronavírus, um dos mais chocantes e severos aspectos disso, é o uso de sanções para maximizar a dor, intencionalmente, o Irã está em uma zona com enormes problemas internos pelo estrangulamento do arrocho das sanções, que são intencionalmente desenhadas, para fazer sofrer mais e mais agora. Cuba vem sofrendo, desde o momento em que estabeleceu sua independência, mas é surpreendente que tenha sobrevivido, mas ficaram resilientes e um dos elementos mais irônicos desta crise do virus, é que Cuba está ajudando a Europa. Quero dizer, isso é tão chocante, que você não sabe como descrevê-lo. Que a Alemanha não pode ajudar a Grécia, mas Cuba pode ajudar a Europa. Se você parar pra pensar sobre o que significa isso, todas as palavras não servirão. Quando você vê milhares de pessoas morrendo no Mediterrâneo, fugindo de uma região que foi devastada por séculos, você não sabe que palavras usar. A crise civilizacional do ocidente neste ponto é devastadora, pensar nisso e trazer memórias de infância de ouvir Hitler no radio enrouquecer as multidões, faz você pensar se esta espécie é mesmo viável.

Você mencionou a crise da democracia. Neste momento acho que devemos nos encontrar em um momento sem precedentes no sentido de que cerca de 2 bilhões de pessoas estão de uma forma ou de outra confinadas em casa, em isolamento, auto-isolamento ou quarentena. Ao mesmo tempo o que nós podemos observar é que a Europa, mas também outros países perto de suas fronteiras, internas ou externas, há um estado de exceção em todos os países em que possamos pensar, em regressão em lugares como França, Servia, Espanha, Itália e outros, exército nas ruas... e quero perguntar a você como linguista. A linguagem que circula nesse momento: Ouvindo não apenas Trump, se você ouvir Macron ou alguns outros políticos europeus, constantemente escutará que eles falam sobre Guerra. Mesmo na mídia se fala sobre "frontliners" e o vírus sendo tratado como inimigo. O que me lembra também Victor Klemperer em "Lingua Tertii Imperii", livro em que falou da linguagem do Terceiro Reich e como a linguagem e a ideologia foram impostas. Sob sua perspectiva , o que esse discurso sobre guerra representa, para legimitar um estado de exceção, ou algo mais profundo neste discurso?
Eu penso que não é exagero. O significado é se nós lidamos com a crise, estamos nos movendo para uma mobilização como as de tempos de guerra. Se você pensar, pegue um país rico, como os Estados Unidos que tem recursos para superar a questão econômica de imediato. A mobilização para a 2ª guerra Mundial deixou o país com uma grande dívida que está completamente saldada hoje e a mobilização foi bem sucedida, praticamente quadruplicou a indústria dos Estados Unidos, acabou com a depressão e deixou o país com mais capacidade para crescer. 
Isso é menos do que precisamos provavelmente, não naquela escala, isso não é uma guerra mundial, mas nós precisamos da mentalidade desse movimento, nessa crise que é severa nós também podemos lembrar da epidemia da gripe suína em 2009, originada nos Estados Unidos. Centenas de milhares de pessoas se recuperaram do pior, mas tem que lidar com isso em um país rico como os Estados Unidos.
Agora são dois bilhões de pessoas, a maioria está na Índia. O que acontece para os indianos, eles vivem "da mão para a boca", estão isolados e morrem de fome. O que irá acontecer? Em um mundo civilizado os países ricos dariam assistência àqueles que estivessem em necessidade ao invés de estrangulá-los, que é o que estamos fazendo particularmente na Índia e em muitos dos países no mundo.
Se a atual tendência persiste no sul da Ásia, se tornará inabitavel em poucas décadas. A temperatura alcançou 50 graus no Rajastão, neste verão está aumentando. A questão das águas agora pode piorar, há dois núcleos de poder que irão lutar por recursos reduzidos de água. Eu digo que que o Coronavirus é muito sério, nós não podemos subestima-lo, mas temos que lembrar que isso é uma pequena fração da crise que está vindo. Pode talvez não ameaçar a vida o que o coronavírus faz hoje mas, (tais fatos) irão perturbar a vida ao ponto de tornar a espécie inviável em um futuro não muito distante.
Então nós temos que lidar com muitos problemas, problemas imediatos, o coronavírus é sério, como muitos outros maiores, vastamente maiores, e que são eminentes. Agora há uma crise civilizacional, temos que ver o lado bom do coronavírus, o que pode fazer as pessoas pensarem sobre que tipo de mundo nós queremos? Nós queremos um mundo que nos leva a isso? Devemos pensar sobre a origem desta crise, por quê há uma crise do coronavírus? É uma falha colossal do mercado, leva direto à essência dos mercados exacerbados pelo neoliberalismo selvagem, a intensificação neoliberal, os problemas socioeconômicos. Isso era sabido há muito tempo, que a pandemia era muito provável, entendemos muito bem a probabilidade da pandemia do coronavírus, uma modificação da epidemia da SARS, que foi superado há 15 anos atrás, o vírus foi identificado, sequenciado, vacinas estavam disponíveis, laboratórios ao redor do mundo poderiam trabalhar diretamente em desenvolver uma proteção para uma potencial pandemia do coronavírus. 
Por que não fizeram isso?  As companhias farmacêuticas. Nós temos entregado nosso destino a tiranias privadas, corporações, que são inexplicadas para o público, nesse caso, o Big Farma. Para eles fazer novos cremes corporais é mais lucrativo do que encontrar uma vacina que proteja as pessoas da destruição total. É possível para o governo entrar nisso, voltar às mobilizações dos tempos de guerra, foi o que o que aconteceu com a pólio naquele tempo, eu posso me lembrar muito bem, a terrível ameaça que foi extinta pela descoberta da vacina Salk, por uma instituição do governo, apoiada pela administração Roosevelt. Sem patentes, disponível a todos. Que pode ser feito agora, mas a praga neoliberal bloqueia isso. Estamos vivendo sobre uma ideologia para qual os economistas tem uma boa parte de responsabilidade, que vem do setor corporativo. Uma ideologia que é tipificada por aquilo que Ronald Reagan colocou no script, pelo seu Mestres corporativos com seus sorrisos reluzentes, dizendo que governo é o problema. Vamos nos livrar do governo que quer dizer "vamos deixar as decisões nas mãos das tiranias privadas que não tem responsabilidade com o público". Do outro lado do Atlântico, Margaret Thatcher nos mostra que há uma sociedade, em que apenas indivíduos jogados dentro do mercado podem sobreviver de alguma forma e para além disso não há alternativa. O mundo tem sofrido sob o poder dos ricos por anos, e agora é o ponto onde as coisas podem estar acabadas. Com intervenção direta do governo no escopo da invenção da vacina salk, mas que é bloqueado por razões ideológicas da praga neoliberal e o ponto é que essa epidemia de coronavírus poderia ter sido prevenida.
A informação estava ali para ser lida era bem conhecida em outubro de 2019, logo antes do surto. Houve uma grande simulação em escala nos Estados Unidos para uma possível pandemia Mundial deste tipo. Nada foi feito, agora a crise ficou bem pior pela traição do sistema político. Nós não prestamos atenção a informação que estavam cientes em 31 de dezembro, a China informou à OMS sobre uma pneumonia com sintomas com etiologia desconhecida. Uma semana depois alguns cientistas chineses identificaram como um coronavírus, também sequenciaram e deram a informação ao mundo pelos seus virologistas, outros ficaram incomodados em ler o report da OMS. Os países naquela área, China, Coreia do Sul, Taiwan, Singapura começaram a fazer algo e contiveram o surgimento da crise. Na Europa o que aconteceu, Alemanha foi capaz de agir de maneira egoísta, não ajudando os outros. Outros países apenas ignoraram. Um dos piores deles o Reino Unido e o pior de todos, os Estados Unidos, que disseram um dia que não havia crise, diziam "ser apenas uma gripe", e no dia seguinte era uma terrível crise, que sabiam de tudo. No dia seguinte: "nós temos que tratar de negócios, porque tenho que vencer a eleição..."
A ideia de que o mundo está nessas mãos é chocante, mas, o ponto é que começou com uma, novamente, colossal falha do mercado ao ponto fundamental da ordem econômico-social deixada muito pior pela praga neoliberal e ela continua por causa do colapso nas estruturas institucionais que poderiam lidar com isso, se estivessem funcionando. 
Esses são os pontos que nós temos que pensar seriamente e pensando mais profundamente digo, em que tipo de mundo nós queremos viver? Se superarmos, de qualquer forma, haverá opções. O alcance das opções vão da instalação de  Estados altamente autoritários por todas as partes até a  reconstrução da sociedade em termos mais humanos, preocupados com as necessidades humanas ao invés do lucro privado. Isso é o que nós devemos ter em mente, que estados altamente autoritários e viciados são bastante compatíveis com o neoliberalismo, os teóricos do neoliberalismo como Hayek e o resto eram perfeitamente felizes com o estado massivo de violência apoiada pela economia. O neoliberalismo tem suas origens em 1920 em Viena, no estado protofascista austríaco que esmagou a união dos trabalhadores e a social-democracia austríaca, fez parte do governo proto fascista e louvou o fascismo e sua economia protecionista. Quando Pinochet instalou ditadura assassina brutal no Chile eles amaram, eles lutaram lá, auxiliando esse "milagre maravilhoso", que que trouxe "solidez da economia", grandes lucros, para uma pequena parte da população.
Não é equivocado pensar que sistema neoliberal selvagem pode ser reinstalado por auto-proclamados liberais por forte violência do Estado, um pesadelo que pode vir, mas é necessário a possibilidade de que as pessoas se organizem, se tornem engajadas para um mundo muito melhor, que também enfrentará os enormes problemas que estamos lidando... Problema da guerra nuclear que está mais próximo do que nunca esteve, o problema da catástrofe ambiental da qual pode não haver retorno uma vez que chegamos em tal estágio e não está em uma distância tão grande, a menos que nós nos organizemos decisivamente. Então, é um momento crítico da história humana não apenas por causa do coronavírus, mas deve nos trazer a consciência das profundas falhas, de forma mais profunda, as características disfuncionais de todo sistema sócio-econômico. Pode ser um sinal de alerta em uma lição para nos prevenir de uma explosão, mas pensando sobre isso e como vai nos levar a mais crises piores que essas e com um preço extra a se pagar.
Como se dará a resistência em tempos de distânciamento social e o que se esperar de um futuro pós-Coronavirus?
Primeiro de tudo nós devemos ter em mente que há, desde poucos anos atrás, uma forma de isolamento social que é muito danosa. Você vai ao McDonald's e vê adolescentes sentados ao redor da mesa comendo hambúrguer e o que você vê é uma conversa rasa de uns ou alguns outros mexendo no seu próprio celular com algum indivíduo remoto, isso tem atomizado e isolado as pessoas em uma extensão extraordinária. As redes sociais tem tornado as criaturas muito isoladas, especialmente os jovens. Atualmente, as universidades nos Estados Unidos onde os passeios tem placas dizendo "olhe para frente" porque cada jovem ali está grudado em si mesmo, essa é uma forma de isolamento social auto-induzido, o que é muito prejudicial.
Estamos agora em situação real de isolamento social. Que deve ser superada com recreação, laços sociais e tudo que puder ser feito.   Qualquer coisa que puder ajudar as pessoas em necessidades, desenvolvendo organizações, expandindo análises... Fazendo planos para o futuro trazendo as pessoas para perto... Procurando soluções para os problemas que encaram e trabalhar neles. Estender e aprofundar atividades, pode não ser fácil, mas os humanos tem encarado seus problemas. Soberania para todas as pessoas em português.
Originalmente no youtube